O Livre-Mercado Faz Países Pobres Ficarem Ricos?

 “Os supostos lares do livre comércio e do livre mercado ficaram ricos por meio da combinação do protecionismo, subsídios e outras políticas que hoje eles aconselham os países em desenvolvimento a não adotar. As políticas de livre mercado tornaram poucos países ricos até agora e poucos ficarão ricos por causa dela no futuro.”

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Estátua de Alexander Hamilton no Prédio do Tesouro, Washington. | Foto: Karen Kutini

O que eles dizem

“Depois de se tornarem independentes do domínio colonial, os países em desenvolvimento tentaram desenvolver a sua economia por meio da intervenção estatal, às vezes até mesmo adotando explicitamente o socialismo. Eles tentaram desenvolver artificialmente indústrias como a do aço e a do automóvel, que estavam além da sua capacidade, usando medidas como o protecionismo comercial, a proibição do investimento estrangeiro direto, subsídios industriais e até mesmo a propriedade estatal de bancos e empreendimentos industriais. Em um nível emocional, isso era compreensível, tendo em vista que os seus antigos senhores coloniais eram países capitalistas que adotavam políticas de livre mercado. No entanto, essa estratégia produziu, nos casos mais favoráveis, a estagnação, e, nos menos favoráveis, o desastre. O crescimento era anêmico (ou até mesmo negativo) e as indústrias protegidas deixaram de “crescer”. Felizmente, quase todos esses países recobraram o juízo a partir da década de 1980 e passaram a adotar uma política de livre mercado. Pensando bem, essa era a coisa certa a ser feita desde o início. Todos os países ricos da atualidade, com exceção do Japão (e possivelmente a Coreia, embora este seja um ponto controvertido), ficaram ricos por meio de políticas de livre mercado, especialmente do livre comércio com o resto do mundo. E os países em desenvolvimento que adotaram mais plenamente essas políticas se saíram melhor no período mais recente.”

O que eles não dizem

Ao contrário do que comumente se acredita, o desempenho dos países em desenvolvimento no período em que o estado dominou o desenvolvimento foi superior ao que eles alcançaram durante o período subsequente de reforma voltada para o mercado. Houve alguns fracassos grandiosos da intervenção estatal, mas quase todos esses países cresceram muito mais rápido, com uma distribuição de renda mais equitativa e com um número bem menor de crises financeiras, durante os “maus dias do passado” do que o fizeram no período das reformas voltadas para o mercado. Além disso, também não é verdade que quase todos os países ricos tenham ficado ricos por meio de políticas de livre mercado. A verdade é mais ou menos o oposto. Com apenas algumas exceções, todos os países ricos de hoje, entre eles a Grã-Bretanha e os Estados Unidos — os supostos lares do livre comércio e do livre mercado — ficaram ricos por meio da combinação do protecionismo, subsídios e outras políticas que hoje eles aconselham os países em desenvolvimento a não adotar. As políticas de livre mercado tornaram poucos países ricos até agora e poucos ficarão ricos por causa dela no futuro.

Dois casos perdidos

Eis o perfil de dois países em desenvolvimento. Você é um analista econômico que está tentando avaliar as perspectivas de desenvolvimento deles. O que você diria?

País A: Até uma década atrás, o país era altamente protecionista, com uma tarifa industrial típica bem acima de 30%. Apesar da recente redução da tarifa, permanecem importantes restrições ao comércio, visíveis e invisíveis. O país tem fortes restrições aos fluxos de capital transnacionais, bem como numerosas restrições à detenção estrangeira de ativos financeiros. As empresas estrangeiras que produzem no país se queixam de que sofrem discriminação por meio de taxas e regulamentações diferenciadas da parte dos governos locais. O país não tem eleições e é permeado pela corrupção. Os seus direitos de propriedade são obscuros e complicados. Em particular, a sua proteção dos direitos da propriedade intelectual é fraca, o que o torna a capital mundial da pirataria. O país tem um grande número de empreendimentos de propriedade do governo, muitos dos quais apresentam grandes perdas mas são sustentados por subsídios e direitos de monopólio concedidos pelo governo.

País B: A política comercial do país tem sido literalmente a mais protecionista do mundo nas últimas décadas, com uma tarifa industrial média entre 40 e 55%. A maioria da população não pode votar, e a compra de votos e a fraude eleitoral são difundidas. A corrupção é desenfreada, com os partidos políticos vendendo empregos públicos para aqueles que os apoiam financeiramente. O país nunca recrutou um único funcionário público por intermédio de um processo aberto e competitivo. As suas finanças públicas são precárias, com registros de inadimplência de empréstimos do governo que preocupam os investidores estrangeiros. Apesar disso, o país discrimina intensamente os investidores estrangeiros. Especialmente no setor bancário, os estrangeiros são proibidos de se tornar diretores enquanto os acionistas estrangeiros nem mesmo podem exercer o seu direito de voto, a não ser que residam no país. Ele não tem uma lei de concorrência, permitindo que cartéis e outras formas de monopólio se espalhem incontrolados. A sua proteção da propriedade de direitos intelectuais é incoerente, particularmente desfigurada pela recusa do país em proteger os direitos autorais dos estrangeiros.

Esses dois países estão envolvidos até o pescoço com coisas que supostamente obstruem o desenvolvimento econômico, ou seja, o intenso protecionismo, a discriminação contra os investidores estrangeiros, a fraca proteção dos direitos de propriedade, monopólios, a ausência da democracia, a corrupção, a falta de meritocracia e assim por diante. A impressão que se tem é que ambos estão caminhando em direção a um desastre sob o aspecto do desenvolvimento. Mas reflita um pouco.

O País A é a China de hoje — alguns leitores talvez o tenham adivinhado. No entanto, poucos leitores devem ter adivinhado que o País B é os Estados Unidos — ou seja, por volta da década de 1880, quando era um tanto mais pobre do que a China de hoje.

Apesar de todas as políticas e instituições supostamente contrárias ao desenvolvimento, a China tem sido uma das economias mais dinâmicas e bem-sucedidas das três últimas décadas, enquanto os Estados Unidos na década de 1880 eram um dos países que mais cresciam no mundo e que estavam se tornando uma das nações mais ricas do planeta. Portanto, as grandes estrelas do final do século XIX (Estados Unidos) e dos nossos dias (China) seguiram receitas de políticas que contrariam quase que totalmente a ortodoxia do livre mercado neoliberal.

Como isso é possível? A doutrina do livre mercado [1] não foi destilada a partir de dois séculos de experiências de desenvolvimento bem-sucedidas pelos doze países mais ricos da atualidade? A fim de responder a essas perguntas, precisamos recuar na história.

Presidentes mortos não falam

Alguns americanos chamam as suas notas de dólares de “presidentes mortos”. Todos estão bem mortos, mas nem todos os políticos cujo retrato adorna as notas de dólares são ex-presidentes dos Estados Unidos.

Benjamin Franklin — que figura no papel-moeda mais famoso do mundo, a nota de 100 dólares — nunca foi presidente. No entanto, poderia ter sido. Ele era o mais velho dos Pais Fundadores e é bem possível que fosse o político mais respeitado no país recém-criado. Embora ele fosse velho demais e a envergadura política de George Washington fosse grande demais para que ele se candidatasse à presidência em 1789, Franklin era a única pessoa que talvez pudesse ter desafiado Washington.

A verdadeira surpresa no panteão de presidentes no papel-moeda americano é Alexander Hamilton, que figura na nota de 10 dólares. À semelhança de Franklin, Hamilton nunca foi presidente dos Estados Unidos. No entanto, à diferença de Franklin, cuja história tornou-se uma lenda americana, ele era, ou melhor, não era Franklin. Hamilton foi um mero Secretário do Tesouro, embora tenha sido o primeiro. O que ele está fazendo entre os presidentes?

Hamilton está lá porque, fato que muitos americanos de hoje desconhecem, ele é o mentor do moderno sistema econômico americano. Dois anos depois de se tornar Secretário do Tesouro em 1789 quando era incrivelmente jovem, com apenas 33 anos de idade, Hamilton submeteu à apreciação do congresso o Report on the Subject of Manufacture [Relatório sobre as Manufaturas], no qual expôs a estratégia de desenvolvimento econômico para o seu jovem país. No relatório, ele argumentou que “as indústrias que estavam na infância”, como as americanas, precisavam ser protegidas e cultivadas pelo governo antes que pudessem se erguer sozinhas. O relatório de Hamilton não era apenas sobre o protecionismo comercial — ele também defendia o investimento público na infraestrutura (como os canais), o desenvolvimento do sistema bancário, a promoção de um mercado de títulos do governo — mas o protecionismo estava na essência da sua estratégia. Considerando-se as suas opiniões, se Hamilton fosse hoje ministro da fazenda de um país em desenvolvimento, ele teria sido fortemente criticado pelo Departamento do Tesouro dos Estados Unidos em virtude da sua heresia. O seu país talvez tivesse até mesmo um pedido de empréstimo recusado pelo FMI e pelo Banco Mundial.

O interessante, contudo, é que Hamilton não estava sozinho nesse caso. Todos os outros “presidentes mortos” teriam enfrentado hoje a mesma desaprovação do Tesouro Americano, do FMI, do Banco Mundial e de outros defensores do livre mercado.

George Washington, o primeiro presidente, figura na nota de 1 dólar. Na cerimônia da sua posse, ele insistiu em usar roupas americanas, especialmente tecidas em Connecticut para a ocasião, em vez de trajes ingleses de melhor qualidade. Hoje em dia, isso teria sido uma violação da regra proposta pela OMC sobre a transparência das aquisições do governo. E não devemos nos esquecer de que foi Washington que indicou Hamilton para o cargo de Secretário do Tesouro, com pleno conhecimento de quais eram as suas opiniões a respeito da política econômica — Hamilton foi ajudante-de-campo de Washington durante a Guerra da Independência americana e, depois disso, o seu mais próximo aliado político.

Na nota de 5 dólares, figura Abraham Lincoln, famoso protecionista, que durante a Guerra Civil elevou as tarifas para os níveis mais elevados até então.[2] Na nota de 50 dólares, temos Ulysses Grant, o herói da Guerra Civil que veio a ser presidente. Resistindo à pressão inglesa para que os Estados Unidos adotassem o livre comércio, ele fez certa vez o seguinte comentário: “daqui a duzentos anos, depois que a América tiver extraído da proteção tudo o que esta pode oferecer, ela também adotará o livre comércio.”

Benjamin Franklin não era partidário da doutrina de Hamilton a respeito das indústrias na infância, mas insistia em uma alta proteção tarifária por outro motivo. Na época, a existência de terras praticamente gratuitas nos Estados Unidos obrigava os produtores americanos a oferecer salários mais ou menos quatro vezes superiores à média europeia, caso contrário os trabalhadores teriam optado por se dedicar à atividade agrícola (não se tratava de uma ameaça inútil, considerando-se que muitos deles tinham sido anteriormente agricultores). Por conseguinte, argumentava Franklin, os produtores americanos só poderiam sobreviver se fossem protegidos contra a concorrência dos baixos salários — ou o que é conhecido como “dumping social” — da Europa. Essa é exatamente a lógica que Ross Perot, o bilionário que virou político, usou para se opor ao NAFTA (Tratado Norte-Americano de Livre Comércio) na campanha da eleição presidencial de 1992 — uma lógica que 18,9% dos eleitores americanos se sentiram satisfeitos em endossar.

No entanto, poderá você dizer, Thomas Jefferson (que figura na nota raramente vista de 2 dólares) e Andrew Jackson (na nota de 20 dólares), os santos padroeiros do capitalismo do livre mercado, certamente passariam no “Teste do Departamento do Tesouro Americano”, não é mesmo?

Thomas Jefferson talvez se opusesse ao protecionismo de Hamilton mas, ao contrário deste último, que apoiava o sistema de patentes, Jefferson se opunha fortemente a elas. Ele acreditava que as ideias são “como o ar” e, portanto, não deveriam pertencer a ninguém. Tendo em vista a ênfase que quase todos os economistas atuais que defendem o livre mercado colocam na proteção de patentes e outros direitos da propriedade intelectual, as opiniões de Jefferson seriam muito mal recebidas por eles.

Resta ainda Andrew Jackson, o protetor do “homem comum” e defensor do conservadorismo fiscal (ele pagou todas as dívidas do governo federal pela primeira vez na história dos Estados Unidos) não é mesmo? Infelizmente para os seus fãs, nem mesmo ele passaria no teste. Durante o governo de Jackson, as tarifas industriais médias se situavam em torno de 35 a 40%. Ele também era notoriamente contra o investimento estrangeiro. Quando cancelou em 1836 a licença do (segundo) banco dos Estados Unidos (o governo federal americano era dono de 20% dele), uma das principais desculpas foi que os investidores estrangeiros (principalmente os britânicos) eram proprietários de uma parte “grande demais” do banco. E quanto foi considerado grande demais? Apenas 30%. Se o presidente de um país em desenvolvimento cancelasse hoje a licença de um banco porque os americanos eram proprietários de 30% dele, essa medida faria com que o Departamento do Tesouro dos Estados Unidos tivesse um “chilique”.

Então, aí está. Diariamente, dezenas de milhões de americanos passam o dia pagando o táxi e comprando sanduíches com um Hamilton ou um Lincoln, recebendo o troco em Washingtons, sem se dar conta de que esses venerados políticos são detestáveis protecionistas que os meios de comunicação do seu país, tanto conservadores quanto liberais, adoram recriminar. Os banqueiros de Nova York e os professores universitários de Chicago emitem sons de desaprovação enquanto leem artigos que criticam a palhaçada contra os investimentos estrangeiros de Hugo Chávez, o Presidente venezuelano, em exemplares do Wall Street Journal comprado com um Andrew Jackson, sem se dar conta de que ele condenava ainda mais o investimento estrangeiro do que Chávez.

Presidentes mortos não falam. Mas se falassem, diriam aos americanos e ao resto do mundo que as políticas que os seus sucessores promovem hoje são totalmente opostas às que eles usaram para transformar uma economia agrária de segunda qualidade, dependente do trabalho escravo, na maior potência industrial do mundo.

Faça o que eu digo, não o que eu fiz

Quando são lembrados do passado protecionista dos Estados Unidos, os economistas que defendem o livre mercado geralmente retrucam que o país prosperou apesar do protecionismo, e não por causa dele. Eles afirmam que, de qualquer modo, o país estava destinado a crescer rápido, por ter sido excepcionalmente bem provido de recursos naturais e por ter recebido muitos imigrantes esforçados e altamente motivados. Eles também comentam que o grande mercado interno da nação de algum modo mitigou os efeitos negativos do protecionismo, permitindo um certo grau de concorrência entre empresas do país.

Mas o problema que essa resposta encerra é que, por mais dramático que isso possa ser, os Estados Unidos não são o único país que prosperou com políticas que contrariam a doutrina do livre mercado. Na realidade, como detalharei mais adiante, quase todos os países ricos de hoje prosperaram com essas políticas.[3]  E, uma vez que são países com condições muito diferentes, não é possível afirmar que todos compartilhavam algumas condições especiais que neutralizaram os impactos negativos do protecionismo e outras políticas “erradas”. Os Estados Unidos podem ter sido favorecidos por um grande mercado interno, mas o que dizer da minúscula Finlândia ou da Dinamarca? Se você acha que os Estados Unidos foram beneficiados com a abundância de recursos naturais, como você explica o sucesso de países como a Coreia e a Suíça que praticamente não tinham recursos naturais? Se a imigração foi um fator positivo para os Estados Unidos, o que dizer de todos esses outros países — entre eles a Alemanha e Taiwan — que perderam alguns dos seus melhores cidadãos para os Estados Unidos e outros países do Novo Mundo? O argumento das “condições especiais” simplesmente não funciona.

A Grã-Bretanha, o país que muitas pessoas acreditam ter inventado o livre comércio, construiu a sua prosperidade baseada em políticas semelhantes às promovidas por Hamilton. Isso não foi uma coincidência. Embora Hamilton tenha sido a primeira pessoa a teorizar o argumento da “indústria na infância”, muitas das suas políticas foram copiadas de Robert Walpole, considerado o primeiro Primeiro-Ministro britânico,[4] que governou o país entre 1721 e 1742.

Em meados do século XVIII, a Grã-Bretanha entrou na indústria manufatureira da lã, a indústria de tecnologia avançada da época e que fora dominada pelos Países Baixos (que são hoje a Bélgica e a Holanda), com a ajuda da proteção tarifária, de subsídios e outros respaldos que Walpole e os seus sucessores proporcionaram aos fabricantes de lã do país. A indústria logo passou a fornecer a principal fonte de receita de exportação da Grã-Bretanha, o que permitiu que o país importasse os alimentos e a matéria-prima de que necessitava para iniciar a Revolução Industrial no final do século XVIII e no início do século XIX. A Grã-Bretanha só veio a adotar o livre comércio na década de 1860, quando a sua dominância industrial era absoluta. Da mesma maneira pela qual os Estados Unidos eram o país mais protecionista do mundo durante a maior parte da sua fase de ascendência (da década de 1830 até a década de 1940), a Grã-Bretanha foi um dos países mais protecionistas do mundo durante grande parte da sua ascensão econômica (da década de 1720 à década de 1850).

Praticamente todos os países ricos da atualidade usaram o protecionismo e subsídios para promover as suas indústrias na infância. Muitos deles (especialmente o Japão, a Finlândia e a Coreia) também restringiram fortemente o investimento estrangeiro. Entre as décadas de 1930 e 1980, a Finlândia costumava classificar todas as empresas com mais de 20% de propriedade estrangeira como “empreendimentos perigosos”. Vários deles (especialmente a França, a Áustria, a Finlândia, Cingapura e Taiwan) usavam empresas estatais para promover indústrias essenciais. Cingapura, que é famosa pelas suas políticas de livre comércio e atitudes receptivas para com os investidores estrangeiros, gera mais de 20% da sua produção por meio de empresas estatais quando a média internacional está situada em torno de 10%. Tampouco os países ricos de hoje protegeram muito bem os direitos de propriedade intelectual dos estrangeiros, às vezes até deixando de fazê-lo completamente; em muitos deles, era legal patentear a invenção de outra pessoa, desde que essa pessoa fosse um estrangeiro.

É claro que houve exceções. A Holanda, a Suíça (até a Primeira Guerra Mundial) e Hong Kong usaram pouco protecionismo, mas nem mesmo esses países seguiam as doutrinas ortodoxas atuais. Argumentando que as patentes são monopólios artificiais que contrariam o princípio do livre comércio (um ponto que estranhamente perdeu terreno com a maioria dos economistas que hoje defendem o livro comércio), a Holanda e a Suíça se recusaram a proteger patentes até o início do século XX. Embora não fizesse o mesmo baseado nesses mesmos princípios, Hong Kong era até recentemente ainda mais notório pela violação de direitos de propriedade intelectual do que os países que acabo de citar. Aposto como você conhece alguém — ou pelo menos tem um amigo que conhece alguém — que comprou software pirata, a imitação de um Rolex ou uma camiseta “não oficial” de Calvin & Hobbes [Calvin e Haroldo] de Hong Kong.

A maioria dos leitores poderá considerar o meu relato histórico ilógico. Depois de ter ouvido repetidamente que as políticas de livre mercado são as melhores para o desenvolvimento econômico, eles talvez achem misterioso o fato de quase todos os países de hoje poderem ter usado todas essas políticas supostamente nocivas — como o protecionismo, os subsídios, a regulamentação e a propriedade estatal da indústria — e mesmo assim terem ficado ricos.

A resposta reside no fato de que essas más políticas eram na verdade boas políticas, considerando-se o estágio de desenvolvimento econômico no qual esses países se encontravam na época, por várias razões. Primeiro temos o argumento de Hamilton da indústria na infância, que explico mais detalhadamente no meu livro anterior ‘Maus Samaritanos’. Pelo mesmo motivo que enviamos os nossos filhos para a escola em vez de obrigá-los a competir com os adultos no mercado de trabalho, os países em desenvolvimento precisam proteger e cultivar os seus produtores antes que eles adquiram a capacidade de competir sem ajuda no mercado mundial. Segundo, nos primeiros estágios de desenvolvimento, os mercados não funcionam muito bem por várias razões — transporte ineficiente, fluxo de informações insatisfatório, o pequeno tamanho do mercado que faz com que os grandes participantes tenham mais facilidade em manipular as coisas e assim por diante. Isso significa que o governo precisa regulamentar mais ativamente o mercado e, às vezes, deliberadamente criar alguns mercados. Terceiro, nesses estágios, o governo precisa fazer ele mesmo muitas coisas por intermédio de empresas estatais, porque simplesmente não há um número suficiente de empresas no setor privado capazes de assumir projetos de alto risco em grande escala.

Apesar da sua história, os países ricos obrigam os países em desenvolvimento a abrir as fronteiras e expor a sua economia à plena força da concorrência internacional, usando as condições agregadas à sua ajuda econômica bilateral e aos empréstimos das instituições financeiras internacionais que eles controlam (como o FMI e o Banco Mundial) bem como a influência ideológica que eles exercem por meio da dominância intelectual. Ao promover políticas que não usaram quando eram países em desenvolvimento, eles estão dizendo aos países em desenvolvimento de hoje: “Façam o que eu digo, e não o que fiz.

Uma doutrina a favor do crescimento que reduz o crescimento

Quando a hipocrisia histórica dos países ricos é enfatizada, alguns defensores do livre mercado retrucam dizendo o seguinte: “Bem, o protecionismo e outras políticas intervencionistas podem ter funcionado na América do século XIX ou no Japão de meados do século XX, mas os países em desenvolvimento não se deram mal quando tentaram essas políticas nas décadas de 1960 e 1970?” O que talvez tenha funcionado no passado, dizem eles, não dará necessariamente certo hoje.

A verdade é que os países em desenvolvimento não tiveram um mau desempenho nos “velhos dias perniciosos” do protecionismo e da intervenção estatal dos anos 1960 e 1970. Na realidade, o seu crescimento econômico nesse período foi bem superior ao que eles alcançaram a partir de 1980 na presença de uma maior abertura e desregulamentação.

Desde os anos 1980, além da crescente desigualdade (o que era de se esperar devido à natureza das reformas, que favorece os ricos —, a maioria dos países em desenvolvimento experimentou uma significativa desaceleração do crescimento econômico. O crescimento da renda per capita no mundo em desenvolvimento caiu de 3% ao ano nas décadas de 1960 e 1970 para 1,7% no período de 1980 a 2000, quando teve lugar o maior número de reformas de livre mercado [5]. Durante a década de 2000, houve uma recuperação no crescimento do mundo em desenvolvimento, o que elevou a taxa de crescimento para 2,6% no período de 1980 a 2009, mas esse aumento foi causado em grande medida pelo rápido crescimento da China e da Índia — dois gigantes que, embora tenham tomado medidas liberalizantes, não adotaram políticas neoliberais.

O desempenho do crescimento em regiões que seguiram religiosamente a receita neoliberal, ou seja, a América Latina e a África subsaariana, foi muito inferior ao que fora nos “velhos dias perniciosos”. Nos anos de 1960 e 1970, o crescimento per capita da América Latina foi de 3,1%. Entre 1980 e 2009, esse crescimento foi apenas levemente superior a um terço desse percentual: 1,1%. E mesmo assim, essa taxa deveu-se, em parte, ao rápido crescimento de países da região que haviam explicitamente rejeitado as políticas neoliberais em algum momento da década de 2000, a saber, a Argentina, o Equador, o Uruguai e a Venezuela. O crescimento per capita da África subsaariana foi de 1,6% durante os “velhos dias perniciosos”, mas a sua taxa de crescimento entre 1980 e 2009 foi de apenas 0,2%.

Resumindo, o livre comércio, as políticas de livre mercado são políticas que raramente funcionaram, se é que um dia deram certo. A maioria dos países ricos não utilizou essas políticas quando eram países em desenvolvimento, enquanto essas políticas desaceleraram o crescimento e aumentaram a desigualdade da renda nos países em desenvolvimento nas últimas três décadas. Poucos países ficaram ricos por meio do livre comércio e de políticas de livre mercado, e poucos jamais ficarão.

“23 Coisas que nãos nos contaram sobre o Capitalismo”, Capítulo 7

Ha-Joon Chang, 2010 – tradução de Claudia Gerpe Duarte – Editora Pensamento-Cultrix


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Notas:

[1] https://ominhocario.wordpress.com/2016/10/07/existe-mesmo-algo-como-um-livre-mercado/ [N.M.]

[2] Para mais detalhes sobre as opiniões protecionistas de Lincoln, consulte o meu livro anterior Kicking Away the Ladder (Anthem Press, Londres, 2002) [‘Chutando a Escada’], pp. 27-8 e as referências dele.

[3] Essa história é narrada com mais detalhes nos meus livros anteriores: Kicking Away the Ladder [‘Chutando a Escada’] é uma monografia acadêmica com muitas referências e anotações, porém de modo nenhum de difícil leitura, concentrada particularmente na política comercial; Bad Samaritans (Random House, Londres, 2007, e Bloomsbury EUA, Nova York, 2008) [‘Maus Samaritanos’] aborda um leque mais amplo de políticas em diversas áreas e está escrito em uma linguagem mais coloquial.

[4] Na época, ele não tinha esse título, e ele mesmo não se descreveria como tal. Somente em 1905 o título foi oficialmente reconhecido. (N. da trad.)

[5] https://ominhocario.wordpress.com/2016/11/20/neoliberalismo-a-ideologia-na-raiz-de-nossos-problemas/ [N.M.]

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