Tecnologia e Ecologia Como Apocalipse e Utopia

Muito se tem falado sobre os impactos da Crise Climática e de novas tecnologias de Automação de postos de trabalho para o nosso futuro em comum. Como as relações de propriedade e produção capitalistas e a Política, especificamente a Luta de Classes, se encaixam neste quadro? Será que a possibilidade de automação quase generalizada seria o bastante para garantir que ela ocorrerá? Qual seria o impacto dela sobre as condições de vida das pessoas? Com base nesses elementos, que tipo de cenários podemos esperar à partir do fim do Capitalismo?

por Peter Frase, em Four Futures: Life After Capitalism [‘Quatro Futuros: Vida Após o Capitalismo’]

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[Nota do MinhocárioEste texto é a introdução do livro ‘Four Futures: Life After Capitalism’ (‘Quatro Futuros: Vida Após o Capitalismo’’), de Peter Frase, lançado em 2016. O livro é uma expansão das ideias contidas no artigo original, de 2011, ‘Quatro Futuros’. As ideias são basicamente as mesmas, mas o livro avança e se aprofunda em várias questões que o texto original apenas tocava ou nem mesmo isso. Vale a pena ler ambos. O capítulo do livro sobre ‘Comunismo, Igualdade e Abundância’ pode ser lido em ‘Comunismo Como Futuro Automatizado de Igualdade e Abundância‘]

Dois espectros assombram a Terra no século XXI: os espectros da catástrofe ecológica e da automação.

Em 2013, um observatório do governo dos EUA registrou que a concentração global de dióxido de carbono atmosférico tinha atingido 400 partes por milhão pela primeira vez no registro histórico. [1] Esse limiar, que a Terra não havia ultrapassado em 3 milhões de anos, prenuncia mudanças climáticas acelerando ao longo do século. O Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática [“Intergovernmental Panel on Climate Change”] prevê a diminuição do gelo oceânico, acidificação dos oceanos, uma frequência crescente em eventos de secas e tempestades extremas. [2]

Ao mesmo tempo, notícias de avanços tecnológicos no contexto de alto desemprego e salários estagnados têm produzido alarmes ansiosos sobre os efeitos da automação no futuro do trabalho. No começo de 2014, os professores do MIT Erik Brynjolfsson e Andrew McAfee publicaram ‘The Second Machine Age: Work, Progress, and Prosperity in a Time of Brilliant Technologies’ [algo como “A Segunda Era das Máquinas: Trabalho, Progresso e Prosperidade em um Tempo de Tecnologias Brilhantes”]. [3] Eles avaliaram um futuro em que tecnologias em computação e robótica substituem o trabalho humano não apenas em domínios tradicionais tais como agricultura e indústria, mas também em setores variando de medicina e direito até transporte. Na Universidade de Oxford, uma unidade de pesquisa lançou um relatório amplamente divulgado estimando que cerca de metade dos empregos nos Estados Unidos hoje estão vulneráveis à automatização. [4]

Estas ansiedades gêmeas são em muitos sentidos diametralmente opostas. O temor da mudança climática é um medo de ter muito pouco: Ele antecipa uma escassez de recursos naturais, a perda de terras agriculturáveis e de ambientes habitáveis – e por fim, a morte de uma Terra que possa sustentar vida humana. O pavor da automação é, perversamente, um medo de ter demais: uma economia completamente robotizada que produza tanto, com tão pouco trabalho humano, que não haja mais qualquer necessidade por trabalhadores. Podemos realmente estar encarando uma crise de escassez e uma crise de abundância ao mesmo tempo?

O argumento deste livro [5] é que nós estamos de fato encarando uma crise dupla tão contraditória. E é a interação destas duas dinâmicas que torna nosso momento histórico tão volátil e incerto, tão cheio de promessa quanto de perigo. Nos capítulos que seguem [ver nota 5], tentarei esboçar algumas das possíveis interações entre estas duas dinâmicas.

Primeiro, porém, preciso expor os contornos dos debates atuais sobre automação e mudança climática.

Ascensão dos Robôs

“Sejam Bem-Vindos, Mestres Robôs”, se lê na manchete de um artigo publicado em 2013 pela revista Mother Jones, “Por Favor, Não nos Demita?” [‘Welcome Robot Overlords, Please, Don’t Fire Us?’] [6] O texto, do comentarista liberal [7] Kevin Drum, exemplifica uma enxurrada de cobertura em anos recentes, analisando a rápida propagação de automação e de informatização em todas as partes da atividade econômica. Estas histórias tendem a vagar entre maravilhamento e horror quanto às possibilidades de todas estas novas engenhocas. Em textos como o de Drum, o rápido progresso na automação anuncia a possibilidade de um mundo com uma qualidade de vida melhor e mais tempo livre para todos; mas, alternativamente, anuncia desemprego em massa e o contínuo enriquecimento do 1%.

Esta não é, de forma nenhuma, uma nova tensão. O conto popular de John Henry e do martelo à vapor, que foi originado no século XIX, descreve um trabalhador ferroviário que tenta apostar corrida contra uma broca de aço alimentada à vapor e vence – apenas para cair morto pelo esforço. Mas diversos fatores têm se juntado para acentuar as preocupações sobre tecnologia e seus efeitos sobre o trabalho. O mercado de trabalho persistentemente fraco após a recessão tem produzido uma ansiedade de fundo generalizada sobre perda de emprego. Automação e informatização estão começando a alcançar indústrias profissionais e criativas que por muito tempo pareceram imunes, ameaçando os empregos dos próprios jornalistas que cobrem esses assuntos. E o ritmo de mudança ao menos parece, para muitos, estar mais rápido que nunca.

A “segunda era das máquinas” é um conceito impulsionado por Brynjolfsson e McAfee. Em seu livro de mesmo nome, eles defendem que assim como a primeira era das máquinas – a Revolução Industrial – substituiu músculos humanos com poder de máquina, a informatização está nos permitindo ampliar imensamente, ou mesmo substituir, “a capacidade de usar nossos cérebros para entender e dar forma aos nossos ambientes.” [8] Nesse livro e em seu predecessor, ‘Race Against the Machine’ [algo como “Corrida Contra a Máquina” e um trocadilho com o nome da banda Rage Against the Machine], Brynjolfsson e McAfee argumentam que computadores e robôs estão rapidamente penetrando em cada parte da economia, tomando o lugar de trabalho humano de funções de alta e baixa qualificação igualmente. É central para a sua visão o processamento de grande parte do mundo em informação digital, com tudo desde livros e música até redes de ruas agora disponíveis em uma forma que pode ser copiada e transmitida ao redor do mundo instantaneamente e quase de graça.

As aplicações que este tipo de dados nos permitem são enormemente variadas, especialmente em combinação com avanços em robótica e em sensores do mundo físico. Em um estudo amplamente citado usando uma análise detalhada sobre diferentes profissões produzido pelo Departamento do Trabalho dos EUA, os pesquisadores da Universidade de Oxford Carl Benedikt Frey e Michael A. Osborne especularam que 47% dos empregos atuais dos EUA são suscetíveis à substituição por automação graças a desenvolvimentos tecnológicos atuais. [9] Stuart Elliott, na OCDE usa a mesma fonte de dados mas uma abordagem diferente ao longo de uma janela de tempo maior e sugeriu que esses números podem chegar até mesmo a 80%. Estes números são o resultado tanto de decisões de classificação subjetivas e metodologias quantitativas complexas, então seria um erro colocar muita fé em qualquer número exato. Mesmo assim, deveria estar claro que a possibilidade de rápido aprofundamento da automação no futuro próximo é bem real.

Brynjolfsson e McAfee são talvez os mais conhecidos profetas da rápida automação, mas seu trabalho se encaixa em um gênero que está explodindo. O empreendedor de software Martin Ford, por exemplo, explora terreno similar em seu trabalho de 2015 ‘Rise of the Robots’ [“A Ascensão dos Robôs”]. [10] Ele se baseia em muito da mesma literatura e alcança muitas das mesmas conclusões sobre a marcha da automação. Suas conclusões são um tanto mais radicais – uma Renda Básica Universal garantida, que será discutida mais à frente neste livro, [ver nota 5] ocupa um lugar de destaque; grande parte de seus rivais literários, como contraste, oferecem pouco mais do que baboseiras sobre educação.

Que muita gente esteja escrevendo sobre uma automação rápida e socialmente desarranjadora não significa que isso seja uma realidade iminente. Como citei acima, ansiedade sobre tecnologias de economia de trabalho é na verdade uma constante através de toda a história do capitalismo. Mas nós podemos, de fato, ver muitas indicações de que agora temos a possibilidade – apesar de não necessariamente a realidade – de reduzir drasticamente a necessidade de trabalho humano. Alguns exemplos demonstrarão as diversas áreas em que trabalho humano está sendo reduzido ou inteiramente eliminado.

Em 2011, a IBM protagonizou manchetes com seu supercomputador Watson, que competiu e venceu adversários humanos no jogo e espetáculo Jeopardy. Embora este feito tenha sido uma jogada publicitária um tanto fútil, também demonstrou a adequação do Watson para outras tarefas mais valiosas. A tecnologia já está sendo testada para auxiliar médicos no processamento de volumes enormes de literatura médica para diagnosticar melhor os pacientes, o que de fato era o propósito original do sistema. Mas ela está sendo lançada também como “Assessor de Ocupações Watson” [no original, ‘Watson Engagement Advisor’], que se destina ao serviço de atendimento de clientes e aplicações de suporte técnico. Ao responder a questões dos clientes em linguagem natural de forma livre [no original, ‘free-form natural language queries’], este aplicativo teria o potencial de substituir os trabalhadores de call centers (muitos em lugares como Índia) que atualmente executam esse trabalho. A revisão de documentos legais, um processo que consome um tempo extremamente grande e que tradicionalmente é realizado por legiões de advogados iniciantes, é outra aplicação promissora da tecnologia.

Outra área de rápido avanço é a Robótica, a interação do maquinário com o mundo físico. Ao longo do século XX, grandes avanços foram feitos no desenvolvimento de robôs industriais de grande escala, do tipo que poderia operar uma linha de montagem de carros. Mas apenas recentemente eles começaram a desafiar as áreas em que os humanos se sobressaem: habilidades motoras finas e navegação de terrenos físicos complexos. O Departamento de Defesa dos EUA está agora desenvolvendo máquinas de costura controladas por computador para evitar a manutenção da China como sua fonte de uniformes. [11] Até pouquíssimos anos atrás, carros autônomos eram tidos como muito além do escopo de nossa capacidade técnica. Agora a combinação de tecnologia de sensores e bancos de dados de mapas bem completos está tornando isso realidade em projetos como a frota autônoma da Google. Enquanto isso, uma companhia chamada Locus Robótica lançou um robô que pode processar pedidos em armazéns gigantes, potencialmente substituindo os trabalhadores que a Amazon e outras companhias que atualmente labutam em condições muitas vezes brutais. [12]

A automação continua seguindo em frente mesmo na agricultura, que antigamente consumia a maior parcela de trabalho humano mas agora compõe uma pequena fração do emprego, especialmente nos Estados Unidos e em outros países ricos. Na California, mudanças nas condições econômicas mexicanas e a repressão na fronteira levaram à escassez de mão de obra. Isso tem estimulado fazendeiros a investir em novos maquinários que possam levar a cabo mesmo tarefas delicadas como a colheita de frutas, que precisavam até agora da precisão da mão humana. [13] Este desenvolvimento ilustra uma dinâmica capitalista recorrente: conforme os trabalhadores se tornam mais poderosos e mais bem pagos, a pressão sobre os capitalistas para que automatizem atividades aumenta. Quando há uma imensa reserva de mão-de-obra agrícola migrante de salário baixo, uma colheitadeira de frutas de $100.000 parece uma indulgência extravagante, um desperdício. Mas quando trabalhadores são escassos e podem exigir salários melhores, o incentivo para substituí-los com maquinário é intensificado.

A tendência para a automação atravessa toda a história do capitalismo. Em anos recentes ela esteve silenciada e um tanto disfarçada, por causa da enorme injeção de força de trabalho barata que o capitalismo global recebeu após o colapso da União Soviética e a guinada rumo ao capitalismo na China. Mas agora até mesmo companhias chinesas estão encarando escassez de força de trabalho e procurando por novas formas de automatizar e robotizar.

Mais exemplos inumeráveis podem ser produzidos. Anestesistas robóticos para substituir médicos. Uma máquina de montagem de sanduíches de hamburguer que pode substituir os funcionários do McDonald’s. Impressoras 3D de grande escala que podem fabricar casas inteiras dentro de um dia. Cada semana traz novas coisas curiosas.

A automação está sujeita a avançar até mesmo além disso, rumo à forma mais velha e mais fundamental de trabalho das mulheres. Nos anos 70, a teórica feminista radical Shulamith Firestone falava sobre nutrir bebês em úteros artificiais, como uma forma de libertar as mulheres de sua posição dominada nas relações de reprodução. [14] Fantásticas na época, tais tecnologias estão se tornando uma realidade. Cientistas japoneses tiveram sucesso na gestação de cabras à partir de úteros artificiais e na de embriões humanos por até 10 dias. Outros trabalhos na aplicação desta tecnologia para bebês humanos estão agora tão restritos pela lei quanto pela ciência; o Japão proíbe a gestação de embriões humanos artificialmente por um tempo maior do que catorze dias. [15] Muitas mulheres acham uma tal perspectiva desconcertante, e dão as boas-vindas à experiência de carregar um filho. Mas certamente muitas outras prefeririam serem liberadas da obrigação.

A maior parte deste livro [ver nota 5] tomará como certa a premissa dos otimistas da automação, de que dentro de apenas algumas décadas nós poderíamos viver em um mundo no estilo Star Trek onde, como Kevim Drum coloca na revista Mother Jones, “robôs podem fazer tudo o que humanos podem, e o fazem sem reclamar, 24 horas por dia,” e “escassez de bens de consumo comuns é uma coisa do passado.” [16] Tais afirmações são suscetíveis de serem hipérbole, o que para os propósitos deste livro está bem: minha abordagem é deliberadamente hiperbólica, rascunhando tipos ideais simplificados para ilustrar princípios fundamentais. Não importa se absolutamente tudo será feito por robôs, somente que uma quantia grande do trabalho atualmente executado por humanos está no processo de ser automatizado.

Mas ainda permanece muita controvérsia sobre o quão rápido a automação pode seguir em frente e quais processos estarão sujeitos a ela. Então, antes de mergulhar nas possíveis consequências sociais desse processo, esboçarei alguns dos rápidos desenvolvimentos recentes na assim chamada “segunda era das máquinas” em que vivemos. Esta é uma sequência – ou, como alguns a vêem, meramente uma extensão – da primeira era das máquinas da automação industrial em larga escala.

Medo de um Planeta Mecânico [17]

Objeções às profecias e temores sobre uma automação ampla caem em três categorias largas. Alguns dizem que relatos sobre novas tecnologias são exagerados e pretenciosos, e que nós estamos ainda muito longe de sermos capazes de substituir trabalho humano na maioria dos campos. Outros, seguindo um argumento tradicional do pensamento econômico dominante, afirmam que episódios anteriores de rápido crescimento de produtividade simplesmente abriram novos tipos de trabalho e novos empregos, não levaram a um desemprego massivo, e que desta vez não será diferente. Finalmente, alguns na Esquerda veem um foco obsessivo em cenários futurísticos de automação como uma distração contra tarefas políticas mais urgentes tais como investimento e estímulo governamental, melhores condições nos ambientes de trabalho e salários.

Relatos da Morte do Trabalho Humano: Um Grande Exagero?

Aqueles que acreditam que se dá um significado exagerado para a tecnologia normalmente apontam para as estatísticas publicadas sobre crescimento de produtividade. Uma adoção em larga-escala de robôs e maquinário deveriam aparecer como um aumento rápido nas estatísticas que medem a produtividade da mão de obra – ou seja, a quantidade do produto que pode ser gerado por trabalhador. Mas de fato, a taxa de crescimento da produtividade em anos recentes tem sido relativamente baixa. Nos Estados Unidos, a Agência de Estatísticas de Trabalho [‘Bureau of Labor Statistics’] relata que de 2007 até 2014 a taxa anual de mudança foi de apenas 1.4%. Esse é um ritmo mais lento do que qualquer momento desde os anos e metade do que era visto durante o boom de crescimento nos anos do pós-guerra.

Isso leva alguns a afirmar que as descrições anedóticas de grandes conquistas na Robótica e na Computação são enganosas, porque elas não estão na verdade sendo traduzidas em resultados econômicos. Os economistas Tyler Cowen e Robert Gordon estão associados mais proximamente com esta visão. [18] Doug Henwood, do Observatório de Esquerda de Negócios [‘Left Business Observer’], defende uma hipótese semelhante, pela Esquerda. [19]

Para economistas mais conservadores como Cowen e Gordon, o problema é na maior parte técnico. As novas tecnologias não seriam tão incríveis assim, pelo menos de uma perspectiva econômica, comparadas a descobertas como a eletricidade ou o motor de combustão interna. Nos termos de Cowen,nós colhemos “as frutas dos galhos mais baixos”, e a menos que nós possamos encontrar mais, estamos fadados a um crescimento lento por todo o futuro visível.

Críticos de esquerda, como Henwood e Dean Baker do Centro de Pesquisa Econômica e Política [‘Center for Economic and Policy Research’], localizam nossos problemas não na tecnologia, mas em decisões políticas. Para eles, botar a culpa pela fraca recuperação econômica após a recessão de 2008 na automação é uma distração em relação à questão verdadeira, que seria que as políticas governamentais não têm sido focadas o suficiente em estímulo fiscal e criação de empregos, evitando assim que a economia pudesse atingir o pleno emprego. Preocupações sobre robôs são, deste ponto de vista, tanto contrafactuais (porque o crescimento da produtividade está baixo) quanto politicamente reacionárias.

Mas outros, incluindo Brynjolfsson e McAfee, afirmam que mesmo que nenhuma grande descoberta fundamental esteja no horizonte, há muito a se ganhar ao refinar e recombinar as descobertas que nós já assistimos. Este é um padrão histórico comum; muitas novas técnicas que descobrimos durante a Grande Depressão, por exemplo, não foram exploradas economicamente por completo até o boom do pós-guerra. Além disso, mesmo aquelas transformações que não se refletem numericamente no Produto Interno Bruto (PIB) podem ainda contribuir com nossa riqueza social – como o gigantesco volume de informações disponível livremente e rapidamente na internet, que aumentou imensamente minha eficiência em escrever este livro.

Aos críticos esquerdistas da narrativa da automação, podemos oferecer uma resposta mais complexa: sua análise está estritamente correta, mas não olha longe o bastante em frente. Isso porque as tendências recentes em produtividade podem também serem lidas como reflexos de uma tensão curiosa entre o equilíbrio de curto prazo da economia e seu potencial de longo prazo.

As duas primeiras recessões do século XXI levaram a recuperações fracas, caracterizadas por salários estagnados e alto desemprego. Nesse contexto, a existência de uma imensa reserva de desempregados e trabalhadores de salário baixo opera como um desincentivo para que os empregadores automatizem seus processos. Afinal de contas, por que substituir um trabalhador por um robô, se o trabalhador é mais barato? Mas um corolário deste princípio é que, se os salários começarem a subir e o mercado de trabalho se comprimir, os patrões começarão a se voltar para novas tecnologias que estão atualmente sendo desenvolvidas, ao invés de pagar o custo da mão de obra adicional. Como defendo nas sessões seguintes, os verdadeiros impedimentos para mercados de trabalho mais firmes atualmente são políticos, não tecnológicos.

O Eterno Retorno da Automação

Por gerações os economistas dominantes têm feito a mesma argumentação sobre o suposto perigo que a automação representa para a mão de obra. Se alguns empregos forem automatizados, eles afirmam, a força de trabalho fica livre para outros novos e talvez melhores tipos de trabalho. Eles apontam para a agricultura, que uma vez ocupou a maior parte da força de trabalho mas agora ocupa apenas algo em torno de 2% dela em um país como os Estados Unidos. O declínio do emprego na agricultura libertou trabalhadores que iriam para as fábricas compor a grande economia manufatureira industrial da metade do século XX. E a automação subsequente e a deslocalização da indústria, por sua vez, levou a uma explosão no setor de serviços.

Por quê, então, hoje seria diferente? Se um robô tomar o seu emprego, outra coisa com certeza estará no horizonte. Apoiadores desta posição podem apontar para ondas anteriores de ansiedade com a automação, tais como aquela dos anos 90 que produziu trabalhos como ‘The End of Work’ [‘O Fim do Emprego’], de Jeremy Rifkin, e ‘The Jobless Future’ [‘O Futuro Sem Empregos’], de Stanley Aronowitz e Bill DeFazio. [20] Mesmo tão cedo quanto em 1948, o matemático e ciberneticista Norbert Weiner alertava em seu livro ‘Cybernetics’ [‘Cibernética’] que na “segunda revolução industrial, desta vez cibernética,” nós estávamos nos aproximando de uma sociedade em que “o ser humano médio de realizações medíocres ou menos não terá nada para vender que valha o dinheiro de qualquer pessoa.” [21] Embora muitos empregos tenham de fato sido perdidos para a automação, e taxas de desemprego tenham subido e descido com os ciclos de negócios, a crise social de extremo desemprego em massa que muitos destes autores antecipavam não chegou.

É claro, este é o tipo de argumento que só pode ser feito das alturas acadêmicas, enquanto se ignora a dor e as rupturas causadas aos trabalhadores reais que são deslocados, independente deles serem capazes de encontrar um novo trabalho, eventualmente. E mesmo alguns no mainstream suspeitam que, talvez, dessa vez será realmente diferente. O colunista do New York Times e vencedor do Prêmio Nobel Paul Krugman talvez seja a pessoa mais proeminente a dar voz a estas dúvidas. [22] Mas o problema mais profundo com a análise tradicional é que ela apresenta o processo como uma inevitabilidade científica quando na verdade estamos falando de uma escolha social e política.

Hoje, a maioria das lutas trabalhistas se voltam para aumentos nos salários e benefícios ou melhorias nas condições de trabalho. Mas até a época da Grande Depressão nos anos 1930, movimentos socialistas e trabalhistas também lutavam por, e conquistavam, reduções progressivas na duração do dia de trabalho. No século XIX, o movimento pelas dez horas abriu caminho para o movimento pelas oito horas de trabalho. Mesmo nos anos 30, a Federação Estadunidense de Trabalho [‘American Federation of Labor’] defendia uma lei que reduzisse a semana de trabalho para 30 horas. Mas após a Segunda Guerra Mundial, por uma variedade de razões, a redução do trabalho gradualmente desapareceu da agenda trabalhista. A semana de 40 (ou 40 e tantas) horas foi dada como certa, e a questão passou a ser meramente quão bem ela seria recompensada.

Isso teria surpreendido o economista John Maynard Keynes, que nos anos 30 especulava que as pessoas em nosso tempo trabalhariam tão pouco quanto 15 horas por semana. [23] Isso significaria trabalhar menos do que um terço da semana de 40 horas de trabalho que ainda é amplamente considerada o padrão. E ainda assim, a produtividade desde a época de Keynes mais do que triplicou, então teria sido possível aproveitar esse crescimento na forma de tempo livre para as massas. Isso não aconteceu, não porque seja tecnicamente impossível, mas por causa dos resultados das escolhas políticas e das lutas sociais do século XX.

Alguns argumentarão que manter nossas altas horas de trabalho valeu a pena, porque tornou possível todo o aparato de nosso mundo moderno que Keynes nunca poderia sequer ter imaginado, como smartphones,  tvs de tela plana, e a internet. Porque quando a maioria das pessoas pensa em trabalhar menos horas, elas pensam que terão de sacrificar o aparato de nossa sociedade capitalista avançada, coisas que eles apreciam, como seus smartphones e suas televisões.

Isso pode ser verdade até certo ponto, dependendo do grau de redução de trabalho de que estamos falando. Mas reduzir o tempo de trabalho pode também reduzir o custo de vida, porque isso nos dá tempo para fazer coisas que, de outra maneira, precisaríamos pagar alguém para fazer, e reduz custos como deslocamento que temos de pagar apenas para trabalhar. E além disso, nossa sociedade atual está cheia de trabalhos que não adicionam nada ao florescimento humano e que existem apenas para enriquecer as contas de outra pessoa – coisas como a coleção de empréstimos de estudo (que não existiram se a educação fosse livre) e muitas posições em grandes bancos que facilitam a especulação, perigosa e desestabilizadora.

Em todo caso, se nós decidíssemos tornar a redução de trabalho uma prioridade social, poderíamos gradualmente reduzir horas de acordo com aumentos em produtividade, para que as pessoas pudessem gradualmente trabalhar menos e menos, enquanto que mantendo o mesmo padrão de vida. E embora alguns possam preferir continuar trabalhando mais para acumular cada vez mais coisas, provavelmente muitos não irão. Mesmo que nós nunca possamos atingir a utopia pura do pós-trabalho, com certeza poderemos nos mover para mais perto dela. [ver nota 23] Diminuir a semana de trabalho de 40 para 30 horas nos moveria nessa direção. O mesmo o faria algo como uma Renda Básica Universal, [24] que garantisse um pagamento mínimo para cada cidadão, independente de trabalho ou de quaisquer outras obrigações vinculadas aos planos de bem-estar tradicionais.

Tecnofilia Como Uma Técnica de Distração

Mesmo supondo que, no longo prazo, as questões e possibilidades políticas levantadas pela automação sejam reais, um bom argumento pode ser feito sobre como nós encaramos desafios mais significativos no curto-prazo. Como observado acima, o crescimento de produtividade, que dá a indicação do número de trabalhadores realmente necessários para tocar a economia, tem de fato sido bem fraco em anos recentes. Além disso, a falta de crescimento em empregos depois de recessões econômicas recentes pode ser atribuída plausivelmente não a robôs, mas a falhas de política governamental.

Isso porque, no curto-prazo, a falta de empregos pode ser atribuída não à automação, mas à falta do que é conhecido, no jargão dos economistas, como ‘demanda agregada’. Em outras palavras, a razão para que os patrões não contratem mais trabalhadores é porque não há pessoas o bastante comprando seus produtos, e a razão para que as pessoas não estejam comprando seus produtos é porque elas não têm dinheiro o bastante – ou porque elas não têm empregos, ou porque seus salários estão muito baixos.

A solução para esta situação, de acordo com as teorias econômicas Keynesianas tradicionais, é que o governo aumente a demanda por uma combinação de política monetária (baixando taxas de juros), política fiscal (investimento governamental na criação de empregos, por exemplo, através da construção de infra-estrutura), e regulação (tal como um salário mínimo mais alto). E embora os governos tenham baixado taxas de juros após a Grande Recessão de 2008, eles não o fizeram em combinação com um investimento suficiente na criação de empregos, levando a uma “recuperação sem empregos” cujo produto – ou seja, a quantidade de bens e serviços produzidos – lentamente começou a crescer novamente, mas o emprego não retornou aos seus níveis pré-recessão.

Eu não discordo que os remédios keynesianos tradicionais permanecem importantes e necessários, até onde eles chegam. E compartilho da preocupação de que, em alguns casos, o espectro do futuro robô seja usado pelo Centro político e pela Direita para distrair a atenção dos problemas de curto-prazo dos desempregados, para fazer parecer como se desemprego e sub-emprego em massa fossem simplesmente inevitáveis.

Mas ainda acho que vale a pena falar sobre o que um futuro mais altamente automatizado poderia significar para todos nós. Em parte porque, ao contrário dos céticos, acredito mesmo que a possibilidade de tecnologias adicionais em economia de trabalho está sendo desenvolvida rapidamente, mesmo se ainda não está encontrando seu caminho para dentro da economia em uma forma que se reflita nas estatísticas de produtividade. E também porque mesmo se os obstáculos de curto-prazo das políticas econômicas de austeridade e do estímulo governamental insuficiente forem superados, ainda encararemos a questão política que temos encarado desde a revolução industrial: será que novas tecnologias de produção levarão a um maior tempo livre para todos, ou permaneceremos trancados em um ciclo em que ganhos de produtividade apenas beneficiam poucos, enquanto o resto de nós trabalham mais do que nunca?

O Espectro da Mudança Climática

Até aqui, tenho discutido apenas um dos desafios que citei no início, a ameaça representada pela tecnologia que substitui trabalhadores. Mas a segunda, a crise ecológica, é no mínimo tão significativa para o futuro da capitalismo e da espécie humana. O consenso científico sobre a mudança climática é claro. As emissões carbônicas humanas estão aquecendo a atmosfera, levando a temperaturas mais altas, clima extremo, e a crises de falta de água e de outros recursos essenciais. Diferenças de opinião são principalmente sobre quão sérios serão os efeitos, quão disruptivos para a civilização humana, e sobre como (ou até mesmo ‘se’) será possível nos ajustarmos a essas rupturas.

Muitos leitores sem dúvida estarão pensando que isto não esgota os limites do debate, pois existem aqueles que negam por completo a existência de mudança climática causada por humanos. Estas pessoas certamente existem, são apoiadas por interesses corporativos com bolsos enormes e têm defensores proeminentes dentro de grandes partidos políticos. Mas seria um erro tomar essas pessoas como proponentes de um debate científico sério. A pequena franja de comentaristas e cientistas que promovem teorias negacionistas pode ou não ser sincera em suas afirmações de que perseguem a verdade, mas seus financiadores devem ser considerados cínicos, cujas ações promovem uma agenda diferente.

Como veremos em um capítulo mais à frente, [ver nota 5] a questão-chave acerca da mudança climática não é se ela está ocorrendo, mas ao invés disso, quem sobreviverá à mudança. Mesmo nos piores cenários, os cientistas não estão afirmando que a Terra se tornará completamente inabitável. O que acontecerá – e está acontecendo – é que lutas sobre espaço e recursos se intensificarão conforme os habitats se degradam. Neste contexto – e especialmente em conjunto com as tendências tecnológicas discutidas acima – pode ser possível à uma pequena elite continuar poluindo o planeta, protegendo seu próprio conforto, enquanto condena a maior parte da população do mundo à miséria. [25] É essa agenda, e não qualquer engajamento sério com a ciência climática, que dirige titãs corporativas na direção do negacionismo.

Nem todos os capitalistas estão comprometidos com o negacionismo, porém. Alguns que reconhecem a magnitude da mudança climática, não obstante, insistem que podemos confiar no funcionamento do livre-mercado para gerar soluções. Mas embora isso de fato não seja totalmente absurdo, é bem enganoso – já que os ecocapitalistas iluminados terminam não sendo realmente tão diferentes dos trogloditas negacionistas.

Os empreendedores, nos garantem, encontrarão novas tecnologias verdes que nos moverão para longe da dependência de combustíveis fósseis sem a intervenção governamental. Mas em muitos casos, estas inovações envolvem soluções verdes de alta tecnologia que são acessíveis apenas para os ricos. Ao mesmo tempo, soluções realmente globais são rejeitadas, mesmo quando, como no caso da taxação de carbono, são soluções ostensivamente “de mercado”. As iniciativas que excitam os ecocapitalistas são, ao invés, projetos fantásticos de “geoengenharia” que tentam manipular o clima, apesar da eficiência incerta e dos efeitos colaterais desconhecidos de tais procedimentos. Como com os irmão Koch e sua corja negacionista, os ecocapitalistas estão principalmente preocupados com a preservação das suas prerrogativas e estilos de vida de elite, mesmo se se passam um verniz mais ambientalista sobre essa agenda. Retornaremos a isso tudo no capítulo 4. [ver nota 5]

Me volto agora ao propósito específico deste livro.

Política no Comando

Por que, o leitor pode perguntar, seria necessário escrever outro livro sobre automação e o futuro pós-trabalho? O tópico se tornou todo um subgênero em anos recentes; Brynjolfsson e McAfee são só um exemplo. Outros incluem ‘Rise of the Robots’ [“Ascensão dos Robôs”] de Ford e artigos de Derek Thompson na Atlantic, Farhad Manjoo na Slate, e Kevim Drum na Mother Jones. [26] Cada um insiste que a tecnologia está rapidamente tornando o trabalho obsoleto, mas eles acenam vagamente para uma resposta ao problema de garantir que a tecnologia leve à prosperidade compartilhada ao invés de uma desigualdade crescente. No máximo, como Brynjolfsson e McAfee, caem de volta em papinhos liberais familiares: empreendedorismo e educação permitirão a todos prosperarmos, mesmo se todos os nossos empregos atuais forem automatizados.

O que está faltando em todas essas narrativas, aquilo que quero injetar neste debate, é a política, e especificamente a luta de classes. Como Mike Konczal do Instituto Roosevelt apontou, estas projeções de um futuro pós-trabalho tendem na direção de um utopismo tecnocrático nebuloso [não deixa de ser também o pensamento de Keynes], uma “projeção adiante do fordismo-keynesiano do passado,” em que “a prosperidade leva à redistribuição que leva ao tempo livre e bens públicos.” [27] Portanto, embora a transição possa ser difícil em alguns pontos, nós devemos no fim das contas ficar contentes com desenvolvimentos tecnológicos em aceleração e reafirmar a nós mesmos que tudo será pelo melhor, no melhor dos mundos possíveis.

Este panorama ignora as características centrais que definem a sociedade em que vivemos atualmente: relações de classe e de propriedade capitalistas. Quem se beneficia da automação, e quem perde com ela, é, em última análise, uma consequência não dos próprios robôs, mas de a quem eles pertencem. Consequentemente, é impossível entender o desenrolar da crise ecológica e os desenvolvimentos na automação sem compreender uma terceira crise através da qual ambas são mediadas, a crise da economia capitalista – nem a mudança climática e nem a automação podem ser compreendidas como problemas (ou soluções) por si mesmos. O que é tão perigoso, ao invés, é o jeito com que elas se manifestam em uma economia dedicada à maximização de lucros e crescimento, e em que dinheiro e poder são mantidos nas mãos de uma pequena elite.

A desigualdade crescente de riqueza e de renda no mundo tem se tornado um foco crescente de atenção de ativistas, políticos, e comentaristas na mídia. O Ocuppy Wall Street ressoou fundo com o slogan “nós somos os 99%,” chamando atenção para o fato de que quase todos os ganhos do crescimento econômico em décadas recentes têm sido acumulados por 1% ou menos da população. O economista Thomas Piketty conseguiu um best seller improvável com ‘O Capital no Século XXI’, um tratado massivo sobre a história da riqueza e o prospecto de um mundo cada vez mais desigual. [28]

As duas crises que descrevi são fundamentalmente sobre desigualdade também. Elas são sobre a distribuição de escassez e abundância, sobre quem pagará o preço do dano ecológico e quem quem desfrutará os benefícios de uma economia automatizada altamente produtiva. Existem maneiras de lidar com o impacto humano sobre o clima da Terra, e existem maneiras para garantir que a automação traga prosperidade material para todos, ao invés de empobrecimento e desespero para a maioria. Mas esses futuros possíveis vão exigir um tipo de sistema econômico bem diferente daquele que se tornou globalmente dominante no final do século XX.

Quatro Futuros

Em sua meditação de três horas sobre a representação de Los Angeles em filmes, ‘Los Angeles Plays Itself’ [“Los Angeles Interpreta a Si Mesma”], o erudito do cinema Thom Andersen sugere que “se podemos apreciar documentários pelas suas qualidades dramáticas, talvez também possamos apreciar filmes de ficção por suas revelações documentais.” [29] Este livro tenta incorporar essa sacada.

Este não é bem um trabalho normal de não-ficção, mas também não é ficção, e nem eu me colocaria no gênero de “futurismo”. Ao invés, é uma tentativa de usar as ferramentas das Ciências Sociais em combinação com aquelas da ficção especulativa para explorar o espaço de possibilidades em que nossos futuros conflitos políticos vão se desenrolar. Pode chamar de um tipo de “ficção científica social.” [no original, “social science fiction”]

Um jeito de diferenciar ciência social de ficção científica é que a primeira é sobre descrever o mundo que existe, enquanto que a segunda especula sobre um mundo que pode vir a existir. Mas na verdade, ambas são uma mistura de imaginação e investigação empírica, juntadas de maneiras diferentes. Ambas tentam compreender fatos empíricos e experiências vividas como algo que é formado por forças estruturais abstratas – e não diretamente perceptíveis.

Certos tipos de ficção especulativa são mais sintonizados do que outros às particularidades da estrutura social e economia política. Em Star Wars, você não se importa de verdade com os detalhes da economia política galática. E quando o autor tenta dar corpo a eles, como George Lucas fez na tão ridicularizada trilogia prequel de Star Wars, isso apenas atrapalha a história. Em um mundo como Star Trek, por outro lado, estes detalhes realmente importam. Muito embora Star Wars e Star Trek possam superficialmente parecer fábulas similares de viagem espacial e heroísmo, são tipos fundamentalmente diferentes de ficção. A primeira existe apenas pelos seus personagens e sua narrativa mítica, enquanto que a segunda pretende enraizar seus personagens em um mundo social ricamente e logicamente estruturado.

Isso está relacionado a (mas transcende) uma distinção que costuma ser feita entre fãs de ficção científica entre ficção científica “hard” [‘dura’] e “soft” [‘branda’, ‘macia’, ‘suave’]. A primeira supostamente seria mais plausível através de seu embasamento nas ciências atuais. Mas esta distinção reflete o viés da base de fãs tradicionais e sua fetichização das ciências naturais. A distinção mais importante, como mencionei a pouco, é entre histórias que levam a sério a construção de seu mundo, e aquelas que não o fazem. O que é chamado de ficção científica ‘branda’ às vezes se trata de histórias de aventura no estilo Star Wars, mas às vezes faz um uso bem mais rico das ciências sociais. Ao mesmo tempo, muito do que supostamente seriam suas contra-partes mais “duras” detalham exegeses de Física com compreensões ingênuas ou totalmente convencionais de relações sociais e comportamento humano. A série de romances ‘Fall Revolution’ [“Revolução do Outono”], de Ken MacLeod, que conta uma história de convulsões políticas e colonização espacial, estão baseadas em sua compreensão de economia política marxista e seus antecedentes pessoais no movimento socialista escocês dos anos 70. É essa base, ao invés de qualquer sacada específica sobre a Física de viagens espaciais ou da terraformação marciana, o que dá aos romances a sua “dureza”.

Ficção especulativa como uma ferramenta de análise e crítica social vem desde pelo menos “A Máquina do Tempo”, de H. G. Wells – se não até “Frankenstein”, de Mary Shelley – mas o campo têm se enriquecido especialmente nos últimos tempos. Na cultura popular, isso pode ser visto mesmo no sucesso enorme de ficções distópicas juvenis como Jogos Vorazes e Divergente. Mas enquanto tais histórias são alegorias relativamente transparentes da sociedade de classes em que vivemos, não é difícil encontrar outras que têm forçado ainda mais os limites do gênero, especulando sobre as implicações de longo-prazo das tendências atuais. A interação entre o real e o potencial se manifesta de forma mais potente nas ficções de futuro-próximo daqueles autores que colocam suas histórias apenas alguns passos à frente do presente, como William Gibson em sua série de romances do início do século XXI (‘Pattern Recognition’ [“Reconhecimento de Padrões”], ‘Spook Country’ [algo como “País Espectro”], ‘Zero History’ [algo como“História Zero” ou “Nenhuma História”]) ou Cory Doctorow em ‘Homeland’ [“Pátria”] (e no ainda não publicado ‘Walkaway’ [algo como “Ir Embora”]). O significado da tecnologia da informação, automação, vigilância, destruição ecológica – temas que ecoarão por todo este livro – são recorrentes nestes romances.

As implicações políticas de diferentes mundos imaginados também começaram a vir à tona. Charles Stross é tanto um autor de ficção científica social e um blogueiro frequente em um modo mais social-científico. Ele tem criticado especialmente o subgênero popular do “steampunk”. Ele descreve que esse subgênero apresenta um tipo de século XIX idealizado cheio de zepelins e engenhocas-à-vapor mas encobre as principais relações sociais daquela era: a miséria dickensiana da classe trabalhadora e os horrores do colonialismo. Mas Stross, e outros como Ken MacLeod e China Miéville, têm usado ficções sobre futuro, passado, e mundos alternativos para pintar um quadro mais completo sobre conflitos sociais e de classe.

Futuros ficcionais são, na minha visão, preferíveis àqueles trabalhos de “futurismo” que tentam predizer diretamente o futuro, obscurecendo a sua incerteza e contingência inerentes e, desse modo, fazendo o leitor de idiota. Dentro das áreas discutidas neste livro, um futurista paradigmático seria alguém como Ray Kurzweil, que prediz de forma confiante que em 2049 os computadores terão atingido inteligência semelhante à humana, com todo tipo de transformações globais consequentes. [30] Tais prognósticos geralmente terminam não convincentes como profecias e insatisfatórias como ficção. A ficção científica está para o futurismo como a teoria social está para a teoria da conspiração: um empreendimento inteiramente mais rico, mais honesto e mais humilde. Ou, para colocar de outra forma, é sempre mais interessante ler uma explicação que deriva do geral para o particular (teoria social) ou do particular para o geral (ficção científica), ao invés de tentar ir do geral para o geral (futurismo) ou do particular para o particular (conspiracionismo).

Rosa Luxemburgo, a grande teórica e organizadora socialista do início do século XX popularizou um slogan: “A sociedade burguesa se encontra em uma encruzilhada, ou entra em transição para o Socialismo ou regride para a barbárie.” [31] Isso é mais verdadeiro hoje do que jamais foi. Neste livro, vou sugerir não apenas dois, mas quatro possíveis resultados – dois socialismos e dois barbarismos, se preferir. Os quatro capítulos que seguem podem ser pensados como o que o sociólogo Max Weber chamava de “tipos ideais”: modelos puros e simplificados de como a sociedade pode ser organizada, desenhados para iluminar algumas questões-chave que nos confrontam hoje e que nos confrontarão no futuro – parte ciência social, parte ficção científica. A vida real, é claro, é sempre muito mais complicada, mas o ponto de um tipo ideal é focar em questões específicas, colocando outras de lado.

O alvo é desenvolver uma compreensão de nosso momento presente e mapear os possíveis futuros à frente de forma estilizada. A suposição básica é que a tendência rumo a uma automação crescente continuará em todos os domínios da economia. Além disso, não farei a suposição que foi feita pela maioria dos economistas do século XX: de que mesmo enquanto alguns empregos são eliminados pela mecanização, o mercado automaticamente gerará mais do que o suficiente de novos empregos para compensar as perdas.

No espírito de trabalhar com tipo ideais, farei a suposição mais forte possível: toda a necessidade de trabalho humano no processo de produção pode ser eliminada, e é possível viver uma vida de puro tempo livre enquanto as máquinas fazem todo o trabalho. De fato, isso não é logicamente possível, se estamos imaginando um mundo onde as máquinas nos servem, ao invés de nos controlar, como aquelas no filme Matrix. Teremos de fazer pelo menos um pouco de trabalho para administrar e manter as máquinas.

Mas eu deixo de fora todo o trabalho humano para evitar me emaranhar no debate que tem sempre atormentado a Esquerda desde a Revolução Industrial: como uma sociedade pós-capitalista administraria o trabalho e a produção, na ausência de chefes capitalistas com controle sobre os meios de produção. Este é um debate importante (e ainda em curso), mas as questões que me preocupam ficarão mais claras se eu puder deixá-lo de lado. Assim, a constante na minha equação é que a mudança tecnológica tende para a automação perfeita.

Se automação é a constante, a crise ecológica e o poder de classe são as variáveis. A questão ecológica é, mais ou menos, simplesmente quão ruins terminarão sendo os efeitos da mudança climática e o esgotamento de recursos. No melhor cenário, a mudança para energia renovável se combinará com novos métodos de melhorar e reverter a mudança climática, e de fato será possível usar toda a nossa tecnologia robótica para fornecer um alto padrão de vida para todos. O espectro, em outras palavras, vai da escassez até abundância.

A questão do poder de classe se resume a como terminaremos lidando com as massivas desigualdades de riqueza, de renda, e de poder político no mundo de hoje. Na medida em que os ricos forem capazes de manter seu poder, viveremos em um mundo onde eles desfrutam dos benefícios da produção automatizada, enquanto o resto de nós paga o preço da destruição ecológica – se pudermos sobreviver. Na medida em que pudermos nos mover na direção de um mundo de maior igualdade, então o futuro será caracterizado por alguma combinação de sacrifício e prosperidade compartilhados, dependendo de onde estivermos na outra dimensão, ecológica.

Portanto o modelo postula que podemos terminar em um mundo de ou escassez ou abundância, junto de ou hierarquia ou igualdade. Isso gera quatro possíveis combinações, que podem ser montadas como uma tabela de 2×2:

Abundância Escassez
Igualdade Comunismo Socialismo
Hierarquia Rentismo Exterminismo


Exercícios como este não são sem precedentes. Uma tipologia semelhante pode ser encontrada em um artigo de 1999 de Robert Costanza em
The Futurist. [32] Há quatro cenários: Star Trek, Grande Governo, Ecotopia, e Mad Max. Para Costanza, porém, os dois eixos são “visão de mundo e política” e “verdadeiro estado do mundo.” Deste modo, as quatro caixas são preenchidas de acordo com o quanto as preferências ideológicas humanas correspondem à realidade: no cenário do “Grande Governo”, por exemplo, o progresso seria restrito por padrões de segurança porque os “céticos tecnológicos” negariam a realidade de recursos ilimitados.

Minha contribuição à este debate é enfatizar o significado do capitalismo e da política. Tanto a possibilidade de limites ecológicos e as restrições políticas de uma sociedade classe são, nesta visão, restrições “materiais”. E a interação entre elas é o que determinará nosso caminho adiante.

A existência do capitalismo como um sistema de poder de classe, com uma elite governante que tentará preservar a si mesma em qualquer futuro possível, é portanto um tema central estruturante deste livro, um tema que acredito estar ausente de quase todas as outras tentativas de entender a trajetória de uma economia pós-industrial altamente automatizada. Desenvolvimentos tecnológicos dão um contexto para transformações sociais, mas eles nunca as determinam diretamente; a mudança é sempre mediada por lutas pelo poder entre massas de pessoas organizadas. A questão é quem vence e quem perde, e não, como autores tecnocratas como Costanza colocariam, quem tem a visão “correta” da natureza objetiva do mundo.

Então, para mim, esboçar múltiplos futuros é uma tentativa de deixar um lugar para o que é político e contingente. Minha intenção não é afirmar que um futuro aparecerá automaticamente através do funcionamento mágico de fatores técnicos e ecológicos que surgem de fora. Ao invés disso, é insistir que onde acabarmos chegando será um resultado de luta política. A interseção de ficção científica e política nestes dias está muitas vezes associada à Direita “libertária” e suas fantasias tecno-utópicas determinísticas; espero reclamar a longa tradição de Esquerda de misturar especulação imaginativa com economia política.

O ponto de partido de toda a análise é que o capitalismo vai acabar [33], e que, como disse Luxemburgo, ou “entra em transição para o socialismo, ou regride para a barbárie.” [34] Então este experimento mental é uma tentativa de avaliar os socialismos que podemos alcançar se uma Esquerda ressurgente tiver sucesso, e os barbarismo aos quais podemos estar condenados se falharmos.

Isso não significa se engajar na escatologia secular que estabelece uma data segura para o fim do capitalismo – socialistas e pregadores apocalípticos demais têm cometido esse erro. É simplista demais pensar em finais distintos em qualquer caso; rótulos para sistemas sociais como “capitalismo” e “socialismo” são abstrações, e nunca existe um momento singular quando podemos dizer definitivamente que um se torna o outro. Minha visão está mais próxima da do sociólogo Wolfgang Streeck:

A imagem que tenho do fim do capitalismo – um fim que acredito já estar à caminho – é de um sistema social em desmantelo crônico, por razões que lhe são próprias, independentemente de uma alternativa viável. Embora não possamos saber exatamente quando e como o capitalismo vai desaparecer e o que virá em seguida, o que importa é que não há nenhuma força disponível que pudesse reverter as três tendências destrutivas – queda de crescimento, desigualdade social e instabilidade financeira – e impedi-las de um reforço mútuo. [35]

Cada um dos quatro capítulos que se seguem é dedicado a um dos quatro futuros: comunismo, rentismo, socialismo e exterminismo. Além de esboçar um futuro plausível, cada um desses quatro capítulos enfatiza um tema-chave que é relevante para o mundo em que vivemos agora, que assumiria uma importância especial naquele futuro específico. O capítulo sobre comunismo se alonga sobre a maneira com que construímos sentido quando a vida não está centrada em torno do trabalho assalariado e nos tipos de hierarquias e conflitos que surgem em um mundo não mais estruturado pela narrativa mestra do capitalismo. A descrição do rentismo é largamente uma reflexão sobre propriedade intelectual e o que acontece quando a forma propriedade privada é aplicada a cada vez mais padrões imateriais e conceitos que guiam nossa cultura e economia. A narrativa do socialismo é uma sobre crise climática e nossa necessidade de adaptação a ela, mas também sobre como a maneira com que alguns velhos esquerdistas se agarram a noções sobre a natureza e o mercado [36] nos impede de ver que nem a fetichização do mundo natural e nem o ódio ao mercado [36] são necessariamente suficientes, ou mesmo relevantes, para se tentar construir um mundo ecologicamente estável para além do capitalismo. Finalmente, o conto do exterminismo é a história da militarização do mundo, um fenômeno que encompassa tudo desde a guerra sem fim no Oriente Médio até adolescentes negros sendo baleados pela polícia nas ruas de cidades estadunidenses.

Nós já estamos nos movendo rápido para longe do capitalismo industrial como nós o entendíamos no século XX, e há pouca chance de que possamos nos mover de volta naquela direção. Nós estamos seguindo rumo a um futuro incerto. Espero fornecer um contexto amplo para o futuro, mas não quero criar nenhum senso de certeza. Sigo David Brin, que tanto escreveu ficção científica quanto recebeu o rótulo “futurista”, quando diz que está “muito mais interessado em explorar possibilidades do que probabilidades, porque muito mais coisas podem acontecer do que realmente acontecem.” [37]

A importância de avaliar possibilidade ao invés de probabilidade é que isso coloca a nossa ação coletiva no centro, enquanto que fazer previsões confiantes apenas encoraja passividade. No mesmo ensaio, Brin cita o livro 1984, de George Orwell, como uma “profecia de auto-prevenção” [no original “self-preventing prophecy”] que ajudou a prevenir que o cenário que descrevia se realizasse. Sob a luz da Guerra ao Terror e das revelações do ex-analista da NSA (National Security Agency [“Agência de Segurança Nacional”]) Edward Snowden [38] sobre a vigilância da agência, alguém pode questionar o quão auto-preventiva foi aquela profecia especificamente, mas o ponto em geral se mantém.

Se este livro contribuir de alguma forma pequena para tornar auto-preventivos os futuros opressivos descritos, e suas alternativas igualitárias auto-realizáveis, então terá servido ao seu propósito. ■

Tradução: Everton Lourenço


Leituras Relacionadas

  • Quatro Futuros – “Uma coisa de que podemos ter certeza é que o Capitalismo vai acabar; a questão, então, é o que virá depois.
  • Comunismo Como Futuro Automatizado de Igualdade e Abundância“Um mundo em que a tecnologia tenha superado ou reduzido a um mínimo (e de forma sustentável) a necessidade de trabalho humano; em que esse potencial seja compartilhado com todos, eliminando a exploração e a alienação das relações de trabalho assalariado; onde as hierarquias derivadas do Capital tenham sido suplantadas por um modelo mais igualitário, agora capaz não só de sanar as necessidades de todos, mas de permitir o livre desenvolvimento de cada um, parece para muitos como um sonho de utopia inalcançável e ingênuo, onde não existiriam quaisquer conflitos ou hierarquias. Será mesmo?”

  • Lingirie Egípcia e o Futuro Robô – O pânico sobre automação erra o alvo – o verdadeiro problema é que os próprios trabalhadores são tratados feito máquinas.”
  • Precisamos Dominá-la – “Nosso desafio é ver na tecnologia tanto os atuais instrumentos de controle dos empregadores quanto as precondições para uma sociedade pós-escassez.
  • Tecnologia e Estratégia Socialista – Com poderosos movimentos de classe em sua retaguarda, a tecnologia pode prometer a emancipação do trabalho, ao invés de mais miséria.
  • Robôs e Inteligência Artificial: Utopia ou Distopia?“Diz muito sobre o momento atual que enquanto encaramos um futuro que pode se assemelhar ou com uma distopia hiper-capitalista ou com um paraíso socialista, a segunda opção não seja nem mencionada.”
  • Todo Poder aos “Espaços de Fazedores” – “A impressão 3-D em sua forma atual pode ser um retorno às obrigações enfadonhas do movimento “pequeno é belo”, mas tem o potencial para fazer muito mais.
  • Inovação Vermelha – “Longe de sufocar a inovação, uma sociedade Socialista colocaria o progresso tecnológico a serviço das pessoas comuns.”
  • Robôs, Crescimento e Desigualdade Mesmo uma instituição como o FMIvem notando as tendências que a automação de empregos devem gerar nas próximas décadas, incluindo um crescimento vertiginoso da desigualdade social, e a necessidade de compartilhar a abundância prometida por essas inovações.
  • A Gente Trabalha Demais, Mas Não Precisa Ser Assim – “Entre os séculos XIX e XX os trabalhadores conquistaram o dia de trabalho de 10 horas e então o de 8 horas, mas depois da Grande Depressão a tendência parou. Do que precisaríamos para recuperar nosso tempo livre?”
  • Políticas Para Se ‘Arranjar Uma Vida’ – “O trabalho em uma sociedade capitalista é um fenômeno conflituoso e contraditório. Uma política para a classe trabalhadora tem de ser contra o trabalho, apelando para o prazer e o desejo, ao invés de sacrifício e auto-negação.
  • Rumo a um Socialismo Ciborgue “A Esquerda precisa de mais vozes e de críticas mais afiadas que coloquem nossa análise do poder e de justiça no centro das discussões ambientais, onde elas devem estar.”
  • Vivo Sob o Sol“Não há caminho rumo a um futuro sustentável sem lidar com as velhas pedras no caminho do ambientalismo: consumo e empregos. E a maneira de fazer isso é através de uma Renda Básica Universal. “
  • O Mito do Antropoceno – Culpar toda a Humanidade pela mudança climática deixa o Capitalismo sair ileso.
  • Um Mundo Socialista Não Significaria Só Uma Crise Ambiental Maior Ainda? – “Sob o Socialismo, nós tomaríamos decisões sobre o uso de recursos democraticamente, levando em consideração necessidades e valores humanos, ao invés da maximização dos lucros.
  • Obsolescência Planejada: Armadilha Silenciosa na Sociedade de ConsumoO crescimento pelo crescimento é irracional. Precisamos descolonizar nossos pensamentos construídos com base nessa irracionalidade para abrirmos a mente e sairmos do torpor que nos impede de agir
  • Bill Gates, Socialista?“Bill Gates está certo: o setor privado está sufocando a inovação em energias limpas. Mas esse não é o único lugar em que o Capitalismo está nos limitando.
  • O Socialismo Vai Ser Chato? – “O Socialismo não é sobre induzir uma branda mediocridade. É sobre libertar o potencial criativo de todos.
  • Socialismo, Mercado, Planejamento e Democracia – “O socialismo promete a emancipação humana, com o alargamento da democracia e da racionalidade para a produção e distribuição de bens e serviços e o uso da tecnologia acumulada pela humanidade para a redução a um mínimo do trabalho necessário por cada pessoa, liberando seu tempo para o seu livre desenvolvimento. Como organizar uma economia socialista para realizar essas promessas?”
  • Votando Sob o Socialismo Vai ser mais significativo – mas esperamos que não envolva assembleias sem-fim.
  • Como Vai Acabar o Capitalismo?“O epílogo de um sistema em desmantêlo crônico: A legitimidade da ‘democracia’ capitalista se baseava na premissa de que os Estados eram capazes de intervir nos mercados e corrigir seus resultados, em favor dos cidadãos; hoje, as dúvidas sobre a compatibilidade entre uma economia capitalista e um sistema democrático voltaram com força total.”
  • Neoliberalismo, A Ideologia na Raiz de Nossos Problemas“Crise financeira, desastre ambiental e mesmo a ascensão de Donald Trump – o Neoliberalismo,  a ideologia dominante no ‘Ocidente’ desde os anos 80, desempenhou seu papel em todos eles. Como surgiu e foi adotado pelas elites a ponto de tornar-se invisível e difuso? Por que a Esquerda fracassou até agora em enfrentá-lo?”
  • O Mercado é Mesmo Bom?“Há um elemento comum, nas manifestações recentes da direita: o discurso de que o Estado deve recuar e o mercado deve regular uma porção maior das interações humanas. Se a lógica do mercado opera, dizem eles, no final das contas todos ganham. Será que é mesmo assim?”
  • Socialismo, Transformando “Miséria Histérica” em “Tristeza Qualquer”“A Esquerda quer dar às pessoas a chance de fazer algo mais com suas vidas, lhes dando tempo e espaço longe do mercado.”
  • O País Já Não é Meio Socialista? – Não, Socialismo não é só sobre mais governo – é sobre propriedade e controle democráticos.
  • Pelo Menos o Capitalismo é Livre e Democrático, Né? – Pode parecer que é assim, mas Liberdade e Democracia genuínas não são compatíveis com o Capitalismo.
  • Os Ricos Não Merecem Ficar Com a Maior Parte do Seu Dinheiro?“A riqueza é criada socialmente – a redistribuição apenas permite que mais pessoas aproveitem os frutos do seu trabalho.”
  • O Comunismo Não Passa de Um Sonho de Utopia? Só Funcionaria Com Pessoas Perfeitas?“O Comunismo é apenas um sonho de ingenuidade, utopia e perfeição? Ele ign0ra a maldade e o egoísmo que estariam na essência da natureza humana? Um tal sistema precisaria que todos pensassem e agissem de uma única maneira, só poderia funcionar com pessoas perfeitas e harmoniosas como peças de relógio, nunca com os seres humanos diversos e falhos que realmente existem?”
  • O Socialismo Soa Bem na Teoria, Mas a Natureza Humana Não o Torna Impossível de Se Realizar? – “Nossa natureza compartilhada na verdade nos ajuda a construir e definir os valores de uma sociedade mais justa.”
  • Os Socialistas Querem Tornar Todos Iguais? Querem Acabar Com a Nossa Individualidade?
  • O Marxismo Está Ultrapassado? Ele Só Tinha Algo a Dizer Sobre a Inglaterra do Século XIX, e Olhe Lá?
  • O Socialismo Não Termina Sempre em Ditadura? – O Socialismo é muitas vezes misturado com autoritarismo. Mas historicamente, Socialistas tem estado entre os defensores mais convictos da Democracia.
  • O Marxismo é Uma Ideologia Assassina, Que Só Pode Gerar Miséria? – “O Marxismo é uma ideologia sanguinária e assassina, que só pode gerar miséria compartilhada? Socialismo significa falta de liberdade e uma economia falida?”
  • As Perspectivas da Liberdade“A idéia de liberdade degenera assim em mera defesa do livre empreendimento, que significa a plenitude da liberdade para aqueles que não precisam de melhoria em sua renda, seu tempo livre e sua segurança, e um mero verniz de liberdade para o povo, que pode tentar em vão usar seus direitos democráticos para proteger-se do poder dos que detêm a propriedade.”
  • Uma Filosofia para o Proprietariado – “O ‘Libertarianismo’ não oferece solução alguma para a política plutocrática de hoje em dia – não passa de uma rejeição reacionária à luta política.”
  • Estranho, com Orgulho – “Você se sente perdido? Talvez isso seja por que você se recusa a sucumbir à competição, inveja e medo que o neoliberalismo desperta.
  • Existe Mesmo Algo Como Um “Livre-Mercado”? – Todo mercado tem algumas regras e limites que restringem a liberdade de escolha. O mercado só parece livre porque estamos tão condicionados a aceitar as suas restrições subjacentes que deixamos de percebê-las.”
  • O Livre-Mercado Faz Países Pobres Ficarem Ricos? –  “Os supostos lares do livre comércio e do livre mercado ficaram ricos por meio da combinação do protecionismo, subsídios e outras políticas que hoje eles aconselham os países em desenvolvimento a não adotar. As políticas de livre mercado tornaram poucos países ricos até agora e poucos ficarão ricos por causa dela no futuro.”
  • Uma Criança que Morre de Fome Hoje é Assassinada“Relator da ONU para o direito à alimentação entre 2000 e 2008, Jean Ziegler procura explicar por que ainda existe fome se a produção agrícola mundial é suficiente para alimentar toda a população e faz contundentes críticas à especulação nas bolsas de commodities e às multinacionais”
  • Sua Majestade, a Teoria Econômica “Aqui temos a crise econômica e financeira mais espetacular em décadas e o grupo que passa a maior parte de suas horas ativas analisando a economia basicamente não a enxergou.”
  • A Logística e a Fábrica Sem Muros.

Notas

[1] National Oceanic and Atmospheric Administration [‘Administração Oceânica e Atmosférica Nacional’], “Trends in Atmospheric Carbon Dioxide,” [‘Tendências sobre Dióxido de Carbono Atmosférico’] ESRL.NOAA.gov, 2014.

[2] Thomas F. Stocker et al., “Climate Change 2013: The Physical Science Basis,” [algo como ‘Mudança Climática 2013: A Base Científica Física’’] Intergovernmental Panel on Climate Change [‘Painel Intergovernamental Sobre Mudança Climática’], Working Group I Contribution to the Fifth Assessment Report of the Intergovernmental Panel on Climate Change [‘Contribuição do Grupo de Trabalho I para o Quinto Relatório de Análise do Painel Intergovernamental Sobre Mudança Climática’], New York: Cambridge University Press, 2013.

[3] Erik Brynjolfsson e Andrew McAfee, The Second Machine Age: Work, Progress, and Prosperity in a Time of Brilliant Technologies [‘A Segunda Era das Máquians: Trabalho, Progresso e Prosperidade em um Tempo de Tecnologias Brilhantes’], New York: W. W. Norton, 2014.

[4] Carl Benedikt Frey e Michael A. Osborne, “The Future of Employment: How Susceptible Are Jobs to Computerisation?,” [algo como ‘O Futuro do Emprego: O Quão Suscetíveis à Automatização Estão os Empregos’’] OxfordMartin.ox.ac.uk, 2013.

[5] Este texto é a introdução do livro ‘Four Futures: Life After Capitalism’ [‘Quatro Futuros: Vida Após o Capitalismo’’], de Peter Frase, lançado em 2016. O livro é uma expansão das ideias contidas no artigo original, de 2011, ‘Quatro Futuros’. As ideias são basicamente as mesmas, mas o livro avança e se aprofunda em várias questões que o texto original apenas tocava ou nem mesmo isso. Vale a pena ler ambos. Sendo a introdução do livro, várias vezes aparecem referências a capítulos posteriores no texto. Enquanto não existem traduções para os outros capítulos, vale a pena ler as sessões sobre os mesmos temas no artigo original. [N.M.]

[6] Kevin Drum, “Welcome, Robot Overlords. Please Don’t Fire Us?,” [‘Sejam Bem-Vindos, Mestres Robôs, Por Favor, Não nos Demita?’] Mother Jones, Maio/Junho de 2013.

[7] Nos EUA, como se sabe, em geral o termo “liberal” está mais relacionado com a ideia de “progressistas” (principalmente nos discursos conservadores/reacionários), mas na revista Jacobin em geral o termo é mais usado para se referir à elite “progressista” na mídia, em universidades e no Partido Democrata, formada em geral por defensores da ordem Capitalista (e muitas vezes até mesmo de sua versão neoliberal e de outras posições reacionárias, como no caso de gente como Obama ou os Clinton) mas ainda se mantendo, em geral, pelo menos relativamente, mais à Esquerda (ou sendo mais “progressista”) do que o Partido Republicano, pelo menos nos costumes, na defesa de minorias, etc. [N.M.]

[8] Brynjolfsson e McAfee, The Second Machine Age, pp. 7–8.

[9] Frey e Osborne, “The Future of Employment.”

[10] Martin Ford, Rise of the Robots: Technology and the Threat of a Jobless Future [‘A Ascensão dos Robôs: Tecnologia e a Ameaça de um Futuro Sem Empregos’], New York: Basic Books, 2015.

[11] Katie Drummond, “Clothes Will Sew Themselves in Darpa’s Sweat-Free Sweatshops,” [algo como ‘As Roupas Vão Se Costurar Sozinhas nos Galpões Sem Suor da DARPA’] Wired.com, 6 de Junho, 2012.

[12] Leanna Garfield, “These Warehouse Robots Can Boost Productivity by 800%,” [‘Estes Robôs de Depósito Podem Impulsionar a Produtividade em 800%’] TechInsider.io, 26 de Fevereiro, 2016.

[13] Ilan Brat, “Robots Step into New Planting, Harvesting Roles,” [‘Robôs Assumem Novos Papéis no Plantio e Colheita’] Wall Street Journal, 23 de Abril, 2015.

[14] Shulamith Firestone, The Dialectic of Sex: The Case for Feminist Revolution [‘A Dialética do Sexo: O Argumento Pela Revolução Feminista’], New York: Farrar, Straus and Giroux, 1970.

[15] Soraya Chemaly, “What Do Artificial Wombs Mean for Women?” [‘O Que Úteros Artificiais Significam Para as Mulheres’] Rewire.news, 23 de Fevereiro, 2012.

[16] Drum, “Welcome Robot Overlords.

[17] Trocadilho com o nome do disco “Fear of a Black World” [‘Medo de Um Mundo Negro’], do Public Enemy. No original, ‘Fear of a Mechanical World’. [N.M.]

[18] Tyler Cowen, The Great Stagnation: How America Ate All the Low-Hanging Fruit of Modern History, Got Sick, and Will (Eventually) Feel Better, [‘A Grande Estagnação: Como os Estados Unidos Devoraram Todas as Frutas dos Galhos Mais Baixos da História Moderna, Ficaram Doentes, e Irão (Eventualmente) Se Sentir Melhor’] New York: Penguin, 2011; Robert J. Gordon, “Is U.S. Economic Growth Over? Faltering Innovation Confronts the Six Headwinds,” [‘O Crescimento Econômico dos EUA Chegou ao Fim? Inovação Vacilante Enfrenta Seis Ventos Contrários’] National Bureau of Economic Research Working Paper Series [‘Série de Artigos de Trabalho do Escritório nacional de Pesquisa Econômica’], Cambridge, MA: National Bureau of Economic Research, Agosto de 2012.

[19] Doug Henwood, “Workers: No Longer Needed?” [‘Trabalhadores: Não Mais Necessários?’] Lbo-News.com, 2015.

[20] Jeremy Rifkin, The End of Work: The Decline of the Global Labor Force and the Dawn of the Post-Market Era, [‘O Fim do Trabalho: O Declínio da Força de Trabalho Global e a Aurora de uma Era Pós-Mercado’] New York: Putnam, 1995; Stanley Aronowitz e William DiFazio, The Jobless Future: Sci-Tech and the Dogma of Work [‘O Futuro Sem Empregos: Tecnologia Científica e o Dogma do Trabalho’], Minneapolis: University of Minnesota Press, 1994.

[21] Norbert Wiener, Cybernetics: Or Control and Communication in the Animal and the Machine [‘Cibernética: Ou Controle e Comunicação no Animal e na Máquina’], Cambridge, MA: MIT Press, 1948, p. 28.

[22] Paul Krugman, “Sympathy for the Luddites,” [‘Simpatia Pelos Luditas’] New York Times, 14 de Junho, 2013.

[23] Ver ‘A Gente Trabalha Demais, Mas Não Precisa Ser Assim’ e ‘Políticas Para Se Arranjar Uma Vida’, também de Peter Frase. [N.M.]

[24] Ver ‘Vivo Sob o Sol’, de Alyssa Battistoni. [N.M.]

[25] Ver a sessão sobre ‘Exterminismo’ em ‘Quatro Futuros’. [N.M.]

[26] Ford, Rise of the Robots; Derek Thompson, “A World Without Work,” [‘Um Mundo Sem Trabalho’] Atlantic, Julho/Agosto de 2015; Farhad Manjoo, “Will Robots Steal Your Job?,” [‘Os Robôs Vão Roubar Seu Emprego?’] Slate.com, 26 de Setembro, 2011; Drum, “Welcome Robot Overlords.

[27] Mike Konczal, “The Hard Work of Taking Apart Post-Work Fantasy,” [‘O Trabalho Difícil de Colocar de Lado a Fantasia Pós-Trabalho’] NextNewDeal.net, 2015.

[28] Thomas Piketty, Capital in the Twenty-First Century, [‘O Capital no Século XXI’] trans. Arthur Goldhammer, Cambridge, MA: Harvard University Press, 2014.

[29] Thom Andersen, Los Angeles Plays Itself, [‘Los Angeles Interpreta a Si Mesma’] Thom Andersen Productions, 2003.

[30] Ray Kurzweil, The Singularity Is Near: When Humans Transcend Biology, [‘A Singularidade Está Próxima: Quando Humanos Transcendem a Biologia’] New York: Penguin, 2005.

[31] Rosa Luxemburg, O Folheto Junius: A Crise na Social-Democracia Alemã, Marxists.org, 1915.

[32] Robert Costanza, “Will It Be Star Trek, Ecotopia, Big Government, or Mad Max?,” [‘Será Star Trek, Ecotopia, Grande Governo ou Mad Max?’] The Futurist 33: 2, 1999, p. 2.

[33] Ver Como Vai Acabar o Capitalismo?, de Wolfgang Streeck e o artigo original do ‘Quatro Futuros’. [N.M.]

[34] Luxemburg, O Folheto Junius

[35] Wolfgang Streeck,  Como Vai Acabar o Capitalismo? – “How Will Capitalism End?” New Left Review 2: 87, 2014, p. 47.

[36] Duas afirmações bem controversas com as quais ainda não sei se concordo. O autor trabalha com a mesma ideia em ‘Votando Sob o Socialismo’. Talvez em certo sentido, Peter Frase se aproxime de uma forma diferente da ideia de ‘Socialismo de Mercado’ defendida por gente como Seth Ackerman no debate do texto ‘Socialismo, Mercado, Planejamento e Democracia’. Ou talvez não seja possível colocar essa ideia dele nesse mesmo grupo por pensar um ‘mercado’ como uma tecnologia extremamente limitada a ser usada num mundo socialista para alocar recursos ainda escassos, usando como ‘moeda’ créditos relacionados com a escassez e o impacto ambiental gerado por determinados bens. De qualquer maneira, permanece uma questão controversa para mim.  [N.M.]

[37] David Brin, “The Self-Preventing Prophecy: Or How a Dose of Nightmare Can Help Tame Tomorrow’s Perils,” [‘A Profecia de Auto-Prevenção: Ou Como Uma Dose de Pesadelo Pode Ajudar a Domar os Perigos do Amanhã’] em Abbott Gleason, Jack Goldsmith, e Martha C. Nussbaum, eds., em Nineteen Eighty-Four: Orwell and Our Future [‘1984: Orwell e Nosso Futuro’], Princeton, NJ: Princeton University Press, 2010, p. 222.

[38] Ver o filme ‘Snowden’, de Oliver Stone. Ver também https://theintercept.com/2017/03/07/wikileaks-divulga-documentos-mostrando-que-a-cia-usa-smart-tvs-como-grampos/ [N.M.]

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