Insubmissos e a Longa Marcha

insoumise

Uma marcha do France Insubmissa pela Sexta República em Paris, França, 18 de Março, 2017. Geoffrey Froment | Flickr

[Nota do Minhocário: Mais uma vez em parceria com o prof. Victor Marques, em seu trabalho com o grupo de leitura da Revista Jacobin na UFABC, e como parte do seu trabalho sobre o que tem chamado de “populismo orientado ao futuro”, publicamos abaixo mais três pequenos textos da revista sobre experiências eleitorais recentes de recomposição da Esquerda em países capitalistas centrais em meio à persistente crise pós-2008, dessa vez sobre os EUA e a França, depois da série de textos sobre Corbyn, no Reino Unido. Em todos esses países candidatos abertamente socialistas (e não muito jovens) energizaram boa parte da juventude com suas campanhas, apontando para um futuro e para uma política para além da negação de ambos imposta pelo Neoliberalismo desde os anos 80, apesar das especificidades de cada um desses casos. Sanders e Mélenchon se inseriram nessa trajetória à partir de estratégias diferentes: Sanders tentando resgatar o Partido Democrata estadunidense de sua direção neoliberal, e Mélenchon compondo um novo movimento (a França Insubmissa) com o objetivo de dinamitar toda a ordem política francesa atual (incluindo o Partido Socialista, engolido pelo neoliberalismo) à partir da convocação de uma Assembleia Constituinte – inspirado nas experiências venezuelana, boliviana e equatoriana. Ambos foram derrotados, mas nos dois casos o impacto dessas viradas na política nacional está muito além daquelas eleições específicas: Sanders têm tido sucesso em mudar os sentidos dos debates entre os democratas e na sociedade estadunidense em geral, principalmente entre os jovens, popularizando o termo “socialismo”  e a defesa de bandeiras como um Sistema Público de Saúde. O primeiro texto abaixo, sobre a campanha de Sanders, trata justamente da importância dessa campanha para a Esquerda estadunidense em geral, como parte de um longo processo de composição de classe, como caracterizado pelos marxistas da tradição autonomista. O segundo texto, sobre a campanha de Mélenchon, trata de como na França a “História voltou”, depois do “fim da história” neoliberal, com a disputa se reorientando em torno de três eixos políticos, que devem, cada vez mais, representar os elementos em disputa em cada país: os neoliberais, ainda apoiados pela mídia e pelo stablishment financeiro e político (que acabaram elegendo seu representante na França, Macron, num segundo turno em que ele foi apresentado como a única alternativa possível ao horror de uma vitória de Le Pen), mas já sem a mesma força ideológica da certeza histórica, sendo sufocados pelos efeitos eleitorais de seus próprios sucessos; o fascismo, com toda a sua carga de ódio e xenofobia; e a Esquerda, retornando às disputas eleitorais após tantos anos desacreditada e surrada, carregando uma nova promessa de futuro. O terceiro texto, também sobre a campanha de Mélenchon, trata da visão de “populismo humanista” que embala seus partidários e da busca pela refundação e pela soberania através da Constituinte, além de outros elementos centrais nessa campanha, como o foco nos descontentes que não se vinculam a nenhum partido ou corrente política.

Como vivo comentando, talvez você não concorde necessariamente com tudo o que ler aqui no blog. Nem mesmo eu sei se concordo. O importante para mim é refletirmos criticamente juntos sobre os limites do sistema que temos e como poderíamos superá-lo por um sistema mais livre, mais equilibrado, mais justo, mais igualitário, mais sustentável, mais democrático, mais racional, mais humano. Entender nosso presente em sociedade e as possibilidades para o nosso futuro comum.]


A Longa Marcha

Bernie Sanders sofreu um revés na noite passada. Mas vitórias locais apontam para a ressurgência de movimentos populares.

por Peter Frase, na Revista Jacobin, Março de 2016

Bernie Sanders provavelmente perderá a indicação do Partido Democrata para Hillary Clinton, depois de sua impressionante, mas insuficiente, performance na terça passada. Ainda assim, a esquerda saiu ganhando essa noite.

A campanha de Sanders tem energizado e galvanizado um grande número de pessoas, especialmente jovens. E tornou rotineiro e socialmente aceitável falar sobre “socialismo”. Como alguém que está há 20 anos pregando no deserto sobre marxismo e socialismo, não tenho como não adorá-la por essas razões.

Inevitavelmente, entretanto, há uma camada de ativistas inexperientes que tem tanto investimento afetivo na campanha que perdem de vista o quadro maior. Fazem desse político em particular algo muito mais significativo do que ele é, ao passo que não compreendem corretamente seu real valor.

Não apenas porque o “socialismo” de Sanders não é mais do que, em muitos outros contextos, seria considerado uma forma tíbia de capitalismo de bem-estar europeu. Para que possamos realmente apreciar o significado de Sanders, é necessário ver sua candidatura como algo mais que apenas outra campanha eleitoral, algo que diz respeito a algo além da capacidade desse sujeito de Vermont conquistar um certo número de delegados e prevalecer na convenção.

Recentemente, Corey Robin escreveu sobre a campanha e encorajou os apoiadores de Sanders a continuarem na luta. Em vez de “ficarmos presos na questão da contagem de delegados”, ele aconselha, devemos “educar, agitar e organizar o corpo político”. E devemos fazer isso por meio da campanha de Sanders, especificamente, porque, embora “a esquerda ame movimentos sociais”, tais movimentos “não são imunes ao clima e ao meio da política eleitoral”, que ele retrata como uma maneira de concentrar e focar as energias da esquerda.

Eu colocaria de modo ligeiramente distinto. A campanha do Sanders é um “movimento social”, e seria um erro colocar ênfase excessiva no fato de que esse movimento particular está ocorrendo por meio da política eleitoral. No nível de infra-estrutura e de pessoal, a campanha de Sanders se alimenta dos resíduos organizacionais em torno de campanhas prévias como as de Howard Dean e Barack Obama.

Mas Bernie como um inesperado fenômeno social, e inspiração para memes clichês, está mais para um sucessor de movimentos não-eleitorais recentes como Occupy e Black Lives Matter.

É no fluxo e refluxo desses movimentos interligados que podemos ver os componentes em evolução de uma esquerda ressurgente, um desafio emergente ao capitalismo que assume várias formas, algumas eleitorais e outras não.

Partidários de candidatos políticos, em especial de candidatos presidenciais, têm uma tendência a exagerar o significado de cada eleição, tornando-a um ponto de viragem crucial do qual toda a política depende. Mas é provavelmente melhor ver coisas como a campanha de Sanders como parte do que a tradição “autonomista” do marxismo chama de um processo de “composição de classe”.

Composição de classe, como o historiador Steve Wright coloca, lida com “a relação entre a estrutura material da classe trabalhadora, e seu comportamento como sujeito, autônomo aos ditames tanto do capital quanto do movimento sindical”.

Os militantes que desenvolveram o conceito, como Raniero Panzieri e Mario Tronti, estavam se debatendo com um velho problema marxista: transformar uma classe trabalhadora “em si”, em classe “para si”. Isto é: como indivíduos atomizados, explorados pelo capitalismo, podem passar a fazer parte de um movimento coletivo auto-consciente, com uma identidade comum ligada à transformação social?

Para os autonomistas originais, composição de classe estava intimamente ligada à experiência dos operários industriais na fábrica. Mas autores que fazem um uso mais recente do conceito, incluindo Antonio Negri, começaram a generalizá-lo.

Esses autores insistem que a experiência de classe se estendeu para a cidade, e para o lar, de modo que o processo de composição de classe deve levar em conta toda a vida do trabalhador e não apenas sua experiência com o trabalho assalariado. O que significa que as forças de composição de classe podem incluir não apenas o salário mínimo que você recebe no McDonald´s, mas a violência policial que você sofre depois que acaba o turno de trabalho.

Para levar isso tudo de volta ao concreto, e à votação dessa semana, é mais esclarecedor olhar não para a primária presidencial em si, mas para outra coisa que aconteceu em Illinois e Ohio. A procuradora do estado Anita Alvarez perdeu a primária por grande margem em Illinois, enquanto, ao mesmo tempo Tim McGinty perdia a corrida para procurador-geral do distrito de Cuyahoga, Ohio, que inclui Cleveland. Assim como o fenômeno Sanders, nenhum desses resultados era o que se esperava até bem recentemente.

O que liga Alvarez e McGinty são suas conexões com recentes assassinatos notórios por parte da polícia: Alvarez esperou quatrocentos dias para apresentar acusações contra o policial que matou o adolescente de dezessete anos de idade, Lacquan McDonald, e McGinty não indiciou os policiais envolvidos na morte de Tamir Rice, um menino de doze anos. Ambas as derrotas estão sendo vistas, corretamente, como vitórias do Black Lives Matter e movimentos relacionados que agitaram e organizaram contra a violência de estados às comunidades negras.

Chicago, em particular, é instrutivo, e precisa de uma estudo de caso detalhado que vai bem além do que posso oferecer aqui. Para usar termos autonomistas, a composição de classe em Chicago está muito mais avançada do que em qualquer outro lugar do país.

De longe, é difícil até desembaraçar todas as correntes. Mas elas variam de coletivos feministas como “As filhas de Assata” (que foram centrais para a campanha anti-Alvarez) ao sindicato dos professores de Chicago, cuja greve bem sucedida de 2012 o tornou uma força institucional poderosa para a esquerda, de modo mais amplo, em Chicago.

Mesmo em Chicago, a esquerda ainda não ganhou seu maior prêmio, a saída do prefeito Rahm Emanuel. Mas isso pode estar por vir, na medida em que a classe trabalhadora ganhar poder e coerência por lá. E isso deve ser uma fonte de reafirmação para os apoiadores de Sanders também, dando confiança de que essa campanha não é o fim, mas apenas um passo em um processo muito mais longo.

Tradução: Victor Marques

Revisão: Everton Lourenço e Lenna Nascimento


O Retorno da Esquerda

A campanha eleitoral de Mélenchon eletrizou a esquerda fazendo o que Hamon não podia fazer – uma ruptura com o centro político.

por Cédric Durand & Razmig Keucheyan, na Revista Jacobin, Abril de 2017

A campanha do candidato socialista Benoît Hamon está agora em um impasse, porque ele não podia ver que a raposa neoliberal se recusaria a acomodar a galinha socialista. Essa é a estratégia oposta à de Jean-Luc Mélenchon, que assumiu a liderança da esquerda.

As eleições do passado foram longas e bastante chatas. Levado adiante por um vento liberal, havia uma troca contínua do escritório entre a direita segura de si e a esquerda leve – estes convertidos de todo coração à modernização do mercado – no eterno presente do capitalismo. [1] O capitalismo fora dominado por um espaço globalizado e por um tempo financiado. O desemprego endêmico, a exultação consumista e o horror terrorista ou criminoso compunham os três extremos dramáticos de um pequeno jogo que se movimentava, apimentado apenas pelas palhaçadas dos candidatos ou pelas cenas feitas por amigos traídos.

2017 não é daquela safra. Sob o lento fluxo de reviravoltas da competição eleitoral, um mapa político está tomando forma, com linhas divisórias claras. Na França, a história está de volta. Aqui como em outros lugares, a tectônica social da grande crise econômica de 2008 está fazendo seu trabalho. Os demarcações presidenciais rotineiras estão se recompondo à grande velocidade. Eles estão realinhando as forças políticas em torno das três opções aninhadas dentro do infra-mundo de nossa modernidade política. Estes são três colossos irredutíveis, destinados ao confronto.

Os monstros

Para o primeiro dos três, a palavra de ordem é a competição livre e irrestrita, estabilidade financeira, a fraternidade do cálculo egoísta. Ele já é hegemônico na maioria dos locais de poder e pretende permanecer assim com a ajuda de uma cobertura de mídia escandalosamente favorável e a frenética mobilização das últimas tecnologias de marketing eleitoral. Seu sentido é a auto-evidência do discurso dominante; sua força é sua repetição; E sua fraqueza é o seu fracasso.

As elites internacionais e financeiras baseiam sua legitimidade numa prosperidade econômica que derruba migalhas suficientes para acalmar a dureza de uma existência subordinada. Infelizmente, com a estagnação que agora está enraizando, as desigualdades indecentes estão se tornando cada vez mais insuportáveis. O cansaço se desenvolve, o rancor se acumula e, pouco a pouco, vai matando o extremo-centro – o herói político do nosso tempo neoliberal – sufocado.

O segundo dos três é um monstro que se alimenta do desespero e isolamento causados pelo primeiro. Este é o partido da ordem e da pequena propriedade, o partido do ressentimento e perda do status de classe. Este é o campo dos perdedores do neoliberalismo, que sonham com uma mesquinha vingança contra aqueles mais fracos que eles mesmos. Nacionalista, autoritário, xenófobo, sua ancoragem popular torna-se mais forte a cada centímetro concedido quando se oferece os arranjos necessários aos poderosos. Divisão, opressão e confinamento são costurados em seu manto cinzento, abominado por todos os amigos da democracia.

O terceiro é chamado de Esquerda, a esquerda real. Audaz e forte das batalhas que luta, seu olhar é de longo alcance e abrange tanto o sofrimento imediato quanto o destino da raça humana. Nas últimas décadas, restrito a importunar o eleitorado e recuar sobre as lutas sociais e ambientais, hoje é novamente um candidato ao poder. Do sul da Europa aos países anglófonos, está forçando o recuo – internamente, ou de fora – dos antigos aparelhos social-democratas que passaram às mãos inimigas, enquanto retoma a bandeira da emancipação.

Amigo ou inimigo

A vitória de Enoît Hamon na Primária Socialista e a deserção do ex-primeiro-ministro socialista Manuel Valls [apoiando Emmanuel Macron] acelerou esta ampla recomposição política. Certamente, a deslealdade do ex-primeiro-ministro é extremamente descortês. Mas fundamentalmente, Manuel Valls tem razão ao colocar as idéias antes do processo: a esquerda não pode ser reconciliada com aqueles que têm a responsabilidade pelos calamitosos últimos cinco anos, que pensam que seu pecado foi uma falta de neoliberalismo e não seu excesso.

Como Maquiavel escreveu, é sempre preferível declarar-se abertamente um amigo ou inimigo. Jean-Luc Mélenchon assumiu a liderança da esquerda porque reconheceu a necessidade dessa estratégia. Por outro lado, a campanha de Benoît Hamon está em um impasse precisamente porque não conseguiu ver que a raposa neoliberal se recusaria a acomodar a galinha socialista.

Ninguém pode subestimar a importância, nestes tempos difíceis, da chegada ao poder – em um grande país como a França – de uma esquerda que não gira mais em torno do neoliberalismo. É exatamente isso que está em jogo na possibilidade de Benoît Hamon se unir à campanha de Jean-Luc Mélenchon. [2] Existem diferenças entre seus programas, mas não são intransponíveis.

Em particular, na questão europeia, a articulação de Mélenchon de um Plano A e Plano B deixa uma grande margem de manobra para encontrar o justo equilíbrio entre a tentativa de refundar a Europa e a determinação de levar a cabo políticas de justiça social e ecológica. A aproximação entre os dois parece inevitável: a única questão é saber se acontecerá antes ou depois da eleição presidencial.

No extremo-centro, a aliança de Macron, François Bayrou e Manuel Valls ocupa seu lugar em continuidade com o mandato de François Hollande e a ortodoxia europeia; mais forte do que nunca, a extrema direita está hoje em ordem de batalha. Carregada pelo vento doente que sopra através de nossos tempos, tem razão de acreditar que tem uma chance. Neste momento crítico, a esquerda só tem uma candidatura capaz de trazer o futuro para nós: a votação por Mélenchon. Se esta votação se torna um ponto de encontro, então a vitória está ao alcance.

Tradução: Victor Marques

Revisão: Everton Lourenço e Lenna Nascimento


A França Se Rebela

Jean-Luc Mélechon não está buscando liderar um esquerda marginalizada. Seu objetivo é transformar toda a política francesa.

Uma entrevista com Raquel Garrido, por Cole Stangler, na Revista Jacobin, Abril de 2016

Você pode contar um pouco sobre o que distingue esta campanha daquela que Mélenchon fez em 2012?

O tema principal desta campanha é mudar nossa constituição e permitir que o povo francês o faça por meio de um processo chamado assembléia constituinte, que é uma referência direta à Revolução Francesa. A idéia é abolir o atual regime, que chamamos de “monarquia presidencial”. Consideramos que o atual regime é uma oligarquia e queremos ter uma república: para o povo, pelo povo.

É por isso que temos chamado tanta atenção. Uma das razões pelas quais o regime atual está perdendo o consenso na sociedade francesa é porque o processo para eleger representantes permite que eles se comportem de forma inconsistente com suas promessas de campanha. A principal característica cultural da classe política atual é a impunidade. Eles fazem o que eles querem, não respondem a ninguém.

Essa cultura de impunidade começa com o próprio presidente. Nós somos o único país auto-intitulado democrático onde há uma única pessoa que concentra tanto poder – eleições de centenas e centenas de pessoas em diferentes instituições, até a decisão do que o parlamento vai falar, a agenda parlamentar. O presidente age sem prestar contas à cidadania e esse tipo de comportamento se espalha como uma cascata por toda a classe política.

A maioria dos representantes eleitos na França hoje não têm legitimidade, são eleitos com baixo comparecimento. Há uma profunda sensação de repulsa entre os cidadãos com esta classe política. Isso cria caos e instabilidade. Quando a Magna Carta [constituição] – as regras básicas que você não deveria estar discutindo – as regras que supostamente regulam a discussão política e o conflito político na sociedade democrática, quando essas regras básicas perdem a confiança da maioria das pessoas, então a sua sociedade torna-se instável.

Em 2012, porque estávamos falando sobre derrubar o antigo regime e começar um novo, fomos vistos como uma fonte de ansiedade e instabilidade. Hoje, a sociedade francesa mudou. O medo está aí, o caos está aí. Violência entre comunidades, violência entre polícia e juventude, terrorismo, ataques terroristas cometidos por franceses contra outros franceses. Penso que o momento está maduro para o que estamos dizendo – que precisamos de uma solução pacífica para estas tensões.

E é por isso que a mesma pessoa, Mélenchon, que em 2012 as pessoas talvez pensaram, “Uau, isso é muito radical, muito subversivo”, agora parece sábio. Porque já vinha criticando tudo isso, tem experiência e uma metodologia transparente para unir todos nós como um só povo. A idéia da Assembléia Constituinte é refundar a própria nação.

O que é um povo, o que é a nação, le peuple? É uma comunidade de pessoas que exercem o poder juntas. Se você não está exercendo o poder coletivamente, trata-se apenas de uma multidão de indivíduos que competem por sobras do que o sistema capitalista te deixa, lutando por um emprego, lutando por assistência e ajuda.

Há outros grandes temas da campanha – redistribuição da riqueza e justiça social – que são propostas clássicas em uma situação de grande desigualdade. E há a questão da mudança climática e de como proteger o único ecossistema que permite a vida para seres humanos. Mas para darmos conta dessas questões, precisamos antes ganhar o poder, para realmente ter um impacto. Isso é a assembleia constituinte.

Em 2012, Mélenchon foi candidato da Frente de Esquerda, uma aliança de partidos de esquerda. Desta vez ele se apresenta como o candidato da França Insoumise (França Insubmissa). Você pode explicar do que se trata?

É um movimento cidadão de base, nossa ideologia é o populismo humanista. Em muitos aspectos, adotamos a estratégia populista de Chantal Mouffe e Ernesto Laclau.

Agora a pergunta: o que é populismo? Não é um regime, é um programa. É uma estratégia de demarcação entre um “eles” e um “nós”. Isso pode significar um “nós” etnicamente puro contra os estrangeiros – esse é o populismo de extrema-direita. Mas também pode ser o “nós” do povo contra o “eles” da oligarquia. Essa é a nossa estratégia e o nosso movimento, que procura construir algo para além dos partidos. Essa estratégia foi construída por planejamento – deliberadamente, de fato – como algo diferente do agrupamento de partidos que tivemos em 2012.

Na verdade, a França Insoumise é o instrumento que permite maior agregação e maior eficácia em estabelecer os termos do debate como “o povo contra a oligarquia”, em lugar de “esquerda contra direita”, que não significa muita coisa para a maioria dos cidadãos franceses de hoje.

Qual foi a inspiração para este projeto?

Em primeiro lugar, a América Latina a partir do final da década de 1990, o retorno da figura constituinte como abordagem para alcançar a soberania. Isso teve um grande impacto sobre nós no final dos anos 90 e no início dos anos 2000. Nós conhecíamos a assembléia constituinte como uma invenção francesa. No entanto, durante anos, ninguém na França falava em uma assembléia assim. Nossa compreensão é de que o processo constituinte aboliu um ancien régime (antigo regime), tanto em termos de economia como de organizações políticas.

Com o desaparecimento do ancien régime [“antigo regime”] – que, por exemplo, no Equador chamaram de partidocracia – há novamente esta mesma divisão: uma oligarquia contra o povo. O objetivo é fazer com que os instrumentos políticos do ancien régime desapareçam com esse sistema. Através do processo constituinte, novos instrumentos políticos tomam forma.

Nós acompanhamos tudo muito de perto, e na França levou um tempo para aprendermos. Nós ainda estávamos hesitantes, criamos a Frente de Esquerda. . . Mas agora penso que essas [experiências latino-americanas] são nossos pontos de referência mais imediatos, porque os instrumentos políticos para chegar ao poder – seja na Venezuela, no Equador ou na Bolívia, por exemplo – são novos. Não os velhos partidos comunistas ou os velhos partidos social-democratas ou os movimentos sindicais. Não se trata de recompor ou reorganizar partidos em crise.

Assistimos quando a assembléia constituinte cruzou o Atlântico e veio para a Islândia com a crise financeira. Depois, houve a Primavera Árabe e a Assembléia Constituinte na Tunísia. E a do Egito, que foi tragicamente massacrada. E, finalmente, ficamos felizes de ver o processo constitutivo do Podemos, porque temos as mesmas raízes históricas que o Podemos. Isto é, um ponto de referência no populismo, um populismo humanista. Esse é o caso mesmo se agora sua situação é mais complicada, uma vez que o Podemos finalmente retornou às discussões com a Esquerda Unida.

De qualquer forma, estamos confiantes de que o que estamos fazendo na França é realmente uma nova experiência. O que quer dizer que no momento estamos em uma fase de criação. Temos pontos comuns de referência, mas não há nenhum lugar para onde possamos apontar e dizer “estamos fazendo exatamente o que eles estão fazendo”. Assumimos essa responsabilidade de ser pioneiros, de construir o novo.

Como o França Insubmissa se relaciona com a esquerda?

O France Insoumise é um instrumento político projetado para construir a Sexta República. A razão pela qual queremos a Sexta República é que a sua construção é um projeto social e econômico. No antigo regime, as pessoas erradas estão tomando as decisões erradas, destruindo o planeta e empobrecendo milhões. Assim, a [Sexta República] não é neutra, no sentido político do termo. Não é uma página em branco. E estamos dizendo o que queremos.

Por exemplo, quando uma empresa for abandonar o país, queremos que os trabalhadores tenham o direito sobre seus recursos de trabalho, na forma de uma cooperativa. Esse é um exemplo de uma medida anticapitalista. Ou, mais uma vez, quando queremos priorizar a proteção do ecossistema, inclusive restringindo a onipotência dos direitos de propriedade, por exemplo. No nosso programa existem referências marcadamente de esquerda, mas a palavra “esquerda” não aparece.

Não apelamos ao patriotismo identitário daqueles que pensam que temos de “salvar a esquerda” ou “ser de esquerda”. Essa é uma posição minoritária demais, e nós queremos ganhar. Eu acho que somos semelhantes a Bernie Sanders nesse ponto, que raramente falava sobre “a esquerda” [3], mas sim sobre as pessoas comuns contra a classe de 1% , a classe dos bilionários. Todos sabem quem Jean-Luc Mélenchon é, de onde ele vem, de que posição fala. Mas não exigimos das pessoas que elas se proclamem de esquerda para que só então possam se preocupar com a democracia.

Isso também tem impactos em nossas políticas. Uma medida no programa de 2017 que não estava no programa de 2012 é o direito de fazer recall dos representantes entre eleições. Esta é a nossa maneira de colocar a ética na política, de levar responsabilidade ao comportamento político. Essa medida não existia em 2012 porque os partidos que compunham a Frente de Esquerda não concordariam com isso. Eles disseram: “Bem, as autoridades eleitas em geral não concordam com essa medida”. Os partidos têm a tendência de se tornarem sindicatos de políticos profissionais, em vez de estruturas pelas quais os cidadãos possam se organizar com base na afinidade política.

Haverá, então, partidos na Sexta República? Sim, haverá formas de organização baseadas na afinidade política, uma vez que é preciso que haja o confronto de idéias. Se não há conflito, não há democracia. Mas não serão os partidos da Quinta República, que já estão em declínio. Eles morrerão junto com a Quinta República. Nenhum partido hoje tem um programa constitucional, não foram feitos para isso, estão organizados para manter o poder no interior da Quinta República. Haverá, portanto, um novo terreno político. A ideia não é recompor ou reparar os partidos danificados da Quinta República, mas permitir que novos instrumentos se organizem.

Como você vê o futuro da França Insubmissa, como um movimento?

O movimento tem uma vocação histórica: realizar a Sexta Republica. Assim, quando temos 130.000 pessoas marchando da Praça da Bastilha para a Praça da República com bandeiras francesas, com gorras da liberdade [um símbolo da revolução francesa], com todas as demandas que estão ligadas aos direitos fundamentais, do aborto ao suicídio assistido, incluindo a internet e a neutralidade da rede, coisas que correspondem ao nosso tempo, sinto que as pessoas estão lutando por uma refundação. Elas não retornarão a uma forma tradicional de fazer política. Então, esta é uma luta até a vitória. A parte mais difícil do nosso trabalho, que seria desacreditar a Quinta República, já está feita.

Quando você é jovem, dizem: você pode ser de direita, esquerda, centrista, o que quiser, mas não toque na Constituição, porque essa é a base. [4] Forme opiniões políticas, mas não questione a legitimidade das regras constitucionais. Mas uma vez que os principais setores da sociedade começam a falar sobre a legitimidade de tal ou qual artigo da Constituição, isso significa que a própria constituição cai ao nível da deliberação conflituosa. Por isso, perde a sua força constitucional. A definição de uma constituição no sentido sociológico é a de uma norma superior que goza de um consentimento que vai além da maioria. Não é apenas majoritária. É extra-majoritária. É um consenso. Mas na França temos o inverso. [5]

Há um consenso de que nosso sistema é uma monarquia presidencial. Ninguém contesta isso. Por exemplo, quando temos os debates ninguém questiona a idéia de que estamos em uma monarquia presidencial. Hoje, o debate é se podemos rever e mudar esta Constituição um pouco por dentro, usando os deputados atuais, ou se temos que começar de novo. O que resta para ser construído é o desejo pela assembléia constituinte.

Esse é um desejo patriótico, o de reunir um povo, e isso é muito mais difícil em uma sociedade como a nossa, ferida pela pobreza, pela violência, pelo ódio e pelo racismo. É difícil, mas vamos chegar lá. Ou então os fascistas irão. Basicamente, o futuro é entre nós e eles, ou somos nós ou são os fascistas.

Como podemos explicar a ascensão da Frente Nacional (FN) e Marine Le Pen?

Hoje há uma base de eleitores na França, uma votação muito coerente, que explica os problemas da sociedade dizendo que há muitos imigrantes. A sua análise é bastante simples: se os imigrantes não estivessem aqui, haveria mais trabalho para mim, meus filhos, etc.

Há outros temas apresentados por Marine Le Pen como a crítica da União Europeia, a concorrência dos países orientais, a questão do euro. Mas a crítica da União Europeia existe também entre outros candidatos, incluindo nós mesmos. Em última análise, o que compõe o voto de Le Pen é a questão da xenofobia, uma certa concepção da nação como uma questão étnica e não cívica. Esta idéia de que não podemos compor um povo junto com muçulmanos, ou qualquer pessoa não descendente do que um francês foi “através dos tempos.” Estes são conceitos mitificados – afinal, não há etnicidade francesa.

Eles são realmente populistas a esse respeito, no sentido de que Laclau e Mouffe dão a essa palavra. Eles constroem um “eles” e um “nós”, e é muito claro o que é isso. Os “eles” são os refugiados que chegam fugindo da guerra, os imigrantes econômicos, os muçulmanos com suas demandas para poderem exercer sua adoração, etc.

Há pessoas na França que concordam com isso. Eu não diria que é 20 por cento dos eleitores. Quando obtêm altas pontuações percentuais, por exemplo nas eleições europeias, isso corresponde a níveis desastrosos de abstenção. Nas eleições europeias, conseguiram 25 por cento. Essa é uma pontuação muito forte. Mas havia quatro milhões de eleitores da FN de dezesseis milhões. Eu realmente acho que o desafio é a participação. Eles prosperam na apatia cívica.

Portanto, é do seu interesse que não haja campanha. Que aqueles que estão indignados com a política permaneçam descontentes. O contexto parecia bom para eles: havia uma situação na direita onde o candidato estava atolado em escândalos; e o Partido Socialista (PS) foi um espetáculo totalmente desgastante, com suas traições e suas promessas não cumpridas. Então eles pensaram que eleitores de ambos, também, se absteriam. As pessoas estavam observando tudo isso à distância e pensando, “que espetáculo horrível, vou ficar em casa”. Essa foi a campanha da FN. Não vai ao povo para fazer campanha, não estimula o debate, não tem nenhum evento para reunir as pessoas. Tem uma estratégia para fazer sentir o seu significado, para dar à sua própria base sólida mais importância relativa. E essa base é ideologicamente sólida.

Sempre houve uma extrema-direita na França. E sim, ela é forte agora. Mas nossa tarefa é abafar essas pessoas com os votos não-fascistas. E é isso que estamos procurando fazer. Como não falamos à esquerda, mas a todos aqueles que estão descontentes, quando abrimos a campanha, construímos uma estratégia antifascista eficaz.

Como uma campanha, nos orientamos para os independentes, os “enojados”, temos de falar com eles. Por exemplo, Jean-Luc Mélenchon é o único candidato que fala tanto sobre o trabalho. Realmente, sobre o fato tão simples de que, enquanto vivemos nossas vidas, há coisas que são feitas por seres humanos – trabalhadores. Isso é trabalho. Deste ponto de vista, Jean-Luc Mélenchon tem um discurso muito ligado à classe trabalhadora. Mas não lhes falamos como a Esquerda, lhes falamos como a classe operária. Falar sobre a esquerda não é o mesmo que falar sobre o trabalho. A palavra “esquerda” não está presente no discurso de Jean-Luc Mélenchon. Mas ele fala muito sobre a condição da classe trabalhadora.

Isso influenciou o seu pensamento sobre uma candidatura conjunta com Benoît Hamon?

Sim, porque penso que a nossa estratégia de falar aos descontentes, que pode levar-nos à vitória, seria comprometida se levássemos à bordo parte das pessoas que os estão repugnando. E o Partido Socialista [PS] está morrendo junto com a Quinta República. Isso não é culpa de Benoît Hamon, que é uma boa pessoa. Não é culpa dele, é o fim de um ciclo. Por isso temos de escolher entre a Quinta e a Sexta República. Estaríamos comprometendo nossas chances de vitória se nos dirigíssemos para salvar o soldado do PS.

Então, talvez nós ganharíamos um ou dois pontos entre a centro-esquerda, mas perderíamos qualquer chance de falar com aqueles que não estão associados com os partidos. E é entre eles que estão nossas chances de vitória. E nosso objetivo é ganhar, não recompor a esquerda ou assumir a liderança da esquerda. Se nosso objetivo fosse assumir a liderança da esquerda, poderíamos fazer isso. Mas não é. Nosso objetivo é vencer a eleição presidencial. Portanto, precisamos falar com os descontentes. E se nós vamos conversar com eles dizendo: Olha, agora eu sou amigo de Valls, de Hamon, de todos os outros, então estará consumado, eles não estarão mais conosco.

Na verdade, a questão nem sequer está sendo colocada. O PS nunca, nunca pensou em desistir em nosso favor. Se o fizessem, então a questão seria colocada de uma maneira diferente, naturalmente. Mas nunca o fizeram assim: sempre pensaram que teríamos que desistir para apoiá-los. Mesmo hoje – e eles acreditam nas pesquisas, e que estão em 8% e estamos em 19% – eles continuam acreditando que precisamos de unidade por trás deles.

Nas eleições parlamentares é ainda pior. Todos esses deputados socialistas que apoiaram as políticas do governo [neoliberal, apesar de liderado pelo “socialista” Hollande] perderam hoje toda a legitimidade aos olhos do povo. Assim, nossos candidatos são candidatos que apoiarão a Sexta República. Esta não é uma luta “fratricida” entre a esquerda verdadeira e a esquerda falsa, ou entre traidores e puristas. Isso seria gauchiste [“esquerdista”]; essa seria uma campanha de esquerda radical. E nós somos qualquer coisa menos isso. O núcleo duro do pessoal com Mélenchon veio do Partido Socialista, e nosso objetivo sempre foi governar. E estamos preparando esta campanha presidencial desde 2004.

Na campanha vocês propuseram uma estratégia crítica para a União Européia – um Plano A para reformá-lo de dentro, mas um Plano B para sair se isso não funcionar.

Jean-Luc Mélenchon foi o primeiro a trazer uma resposta real sobre o que aconteceu com Tsipras na Grécia. Ninguém havia realmente formalizado a idéia de que, para que haja negociação, você tem que estar psicologicamente preparado para quebrá-la. Caso contrário, você não está realmente negociando. Esta é a origem do Plano B.

É uma proposta bastante básica. Se você procura um emprego, ou exige um aumento de salário, e diz: “Eu não vou trabalhar a menos que você me pague cinco mil dólares por mês”, mas na verdade está disposto a trabalhar por mil, isto não é uma negociação. Se, inversamente, você disser a si mesmo que realmente não vai aceitar menos de três mil dólares, que você iria procurar outro emprego, então você realmente está negociando, porque o cara que você enfrenta entende que ele vai te perder. Isso é concebível ao nível das relações humanas cotidianas, mas ninguém na esquerda europeia tinha pensado seriamente em como aplicá-lo ao nível das negociações europeias. Todas as grandes forças pensaram, “Vamos negociar mas vamos ficar, não importa o que aconteça”.

Executar uma campanha com base em ter um Plano B é um começo e é importante. O Plano A já fala de harmonização fiscal e social, o que significa ter um quadro que não está colocando os trabalhadores em uma competição generalizada, mas, ao contrário, permite uma melhor qualidade de vida para todos. E se isso não for possível, então faremos o mesmo – um quadro harmonizado – com aqueles que estão dispostos. E isso significa, principalmente, visar os países do sul europeu. Colocar a política monetária, econômica e o investimento público de volta à discussão aberta. Enfrentamos desafios, como a questão ecológica, de importância planetária. Portanto, devemos ter uma ação supranacional.

Mas a experiência recente da União Europeia é a prova de que, antes de tudo, temos de resolver os problemas com a nossa própria oligarquia nacional. Em vez de dividir a vida política entre aqueles que são a favor de deixar a União Europeia e aqueles que são a favor da Europa progressista – e essa é a linha divisória que a extrema-direita tem criado – nós traçamos uma linha divisória entre o povo francês e a oligarquia. A extrema-direita simplesmente quer destruir a União Europeia; nós queremos que as pessoas vejam o que está errado com ela.

Uma crítica feita a esta campanha é que ela é mais nacionalista do que antes. Há algumas semanas, na marcha da França Insubmissa, da Praça da Bastilha à Praça da República, muitos comentaram sobre como havia muitas bandeiras francesas. Você poderia comentar sobre essas mudanças?

Somos patriotas, não nacionalistas. O patriotismo é amor pelo próprio, enquanto o nacionalismo envolve o ódio pelos outros. Na verdade, de acordo com as definições literárias e políticas, essa é a diferença. A extrema-direita é nacionalista. Nós somos patriotas. E o patriotismo é uma empatia, um afeto para os compatriotas. Nós realmente pensamos que, na medida em que nossa nação tem sido uma nação cívica desde a Revolução Francesa, ela não é definida por qualquer religião ou cor de pele ou mesmo linguagem, é universal. Nossa pátria [patrie] é republicana.

Nosso patriotismo é universalista. É um patriotismo do Iluminismo. Pensamos que justamente o que o nosso patriotismo permite é a afirmação do direito dos cidadãos a governarem-se. Isso é o que nossa soberania nacional é, em primeiro lugar, significando uma soberania popular. Antes de mais nada é a questão do poder político do povo. E felizmente para nós, em nossa história nacional, essas duas coisas estão ligadas. É por isso que pensamos que a extrema-direita não é verdadeiramente pela soberania, porque apoia apenas a soberania nacional, e não popular. É para Marine Le Pen ter poder, não o francês.

E quanto ao canto apenas da “Marselhesa” no final dos comícios, em vez dela com “A Internacional” como antes?

Na Praça da República Jean-Luc acabou cantando “A Internacional”. Não estava nos alto-falantes. Mas finalmente ele começou a cantar e depois se espalhou e as pessoas cantaram um pouco.

Não estamos tratando de limpar um pedaço da história. Mas é verdade que reconhecemos alguns problemas. Em 2012 a nossa campanha foi vermelho brilhante e “Frente de Esquerda” estava escrito em letras grandes. Agora estamos em tons pastel de cinza e azul, o logotipo é a [letra grega] phi, que representa a filosofia, o amor ao conhecimento. Temos um código diferente, porque achamos que é urgentemente necessário.

Tradução: Victor Marques

Revisão: Everton Lourenço e Lenna Nascimento


Notas

[1] Para quem não tem muita clareza sobre o que significa “neoliberalismo”, vale muito a pena ler a introdução de George Monbiot sobre o tema para o jornal The Guardian: ‘Neoliberalismo, a Ideologia na Raiz de Nossos Problemas’. [N.M.]

[2] Infelizmente, não chegaram a um entendimento antes da eleição. [N.M.]

[3] Mas Bernie Sanders falava muito em “Socialismo”, apesar de sua definição para a palavra ter mais a ver com os modelos social-democratas escandinavos – inclusive isso tornou a palavra “socialismo” algo aceitável e comum no debate novamente nos EUA, depois de décadas. Mas se ela estava falando sobre quem ambos os candidatos estavam buscando com seus discursos, aí faz todo sentido. [N.M.]

[4] Não num lugar como o Brasil, claro. Aqui tudo sempre está em disputa, como o desmonte acelerado do último ano mostra claramente. [N.M.]

[5] Podemos dizer que no Brasil jamais tivemos um consenso como esse. [N.M.]


Leituras Relacionadas

Este artigo faz parte da série de leituras ‘Sobre Capitalismo‘. Os textos da série buscam apresentar:

  1. Os aspectos principais que definem o Capitalismo e suas tendências;
  2. Os problemas, contradições, antagonismos e limites do sistema social/político/econômico/ideológico/moral em que vivemos, que nos impedem de termos vidas plenas e satisfatórias, e que podem inclusive levar ao fim da vida humana como conhecemos.
  3. Como muitas das tendências problemáticas do sistema são tão centrais que dificilmente poderemos ter uma solução sustentável apenas “domando” o capitalismo, esperando a benevolência de bilionários ou a visão inovadora de empreendedores geniais – muitos desses problemas só poderão ser realmente resolvidos com a superação do próprio sistema por uma alternativa mais democrática, mais racional, mais equilibrada, mais justa, mais sustentável e mais humana.
  • Dossiê Corbyn [Bhaskar Sunkara, Sarah Leonard, Victor Marques, David Graeber, James Butler, Juliet Jacques, Sam Kriss] – “A campanha do Partido Trabalhista, em pouco tempo, foi capaz de transformar radicalmente a paisagem política do Reino Unido. A importância histórica desse evento não deve ser minimizada: ao que me consta, é a primeira vez que um partido de massas, esclerosado e envelhecido, é trazido de volta à vida por meio da mobilização multitudinária de base, tornando-se novamente um instrumento útil ao movimento social de contestação e reativando a imaginação utópica pós-capitalista.”
  • Democratizar Isso [Michal Rozworski] – “Os planos do Partido Trabalhista inglês para buscar modelos democráticos de propriedade são o aspecto mais radical do programa de Corbyn, e um dos mais radicais que temos visto na política dominante em muito tempo.”
  • Como Matar Um Zumbi: Elaborando Estratégias Para o Fim do Neoliberalismo [Mark Fisher] – Uma ideologia que prometia nos libertar da burocracia estatal socialista tem, ao invés, imposto uma burocracia própria sua. Isso só parece um paradoxo se tomarmos o neoliberalismo em suas próprias palavras.
  • O Ponto de Ruptura da Social-Democracia [Peter Frase] – ‘Precisamos de uma Política que reconheça que o acordo de classes da Social-Democracia é insustentável.
  • Neoliberalismo, A Ideologia na Raiz de Nossos Problemas [George Monbiot] – “Crise financeira, desastre ambiental e mesmo a ascensão de Donald Trump – o Neoliberalismo,  a ideologia dominante no ‘Ocidente’ desde os anos 80, desempenhou seu papel em todos eles. Como surgiu e foi adotado pelas elites a ponto de tornar-se invisível e difuso? Por que a Esquerda fracassou até agora em enfrentá-lo?”
  • Realismo Capitalista e a Exclusão do Futuro [Mark Fisher] – “O fracasso do futuro assombra o capitalismo: depois de 1989, a vitória do capitalismo não consistiu na sua reivindicação confiante do futuro, mas em negar que o futuro seja possível. Tudo o que podemos esperar, temos sido levados a acreditar, é mais do mesmo – mas em telas de resolução mais alta com conexões mais rápidas. A ‘assombralogia’, penso, expressa insatisfação com esta exclusão do futuro. […] Parte da batalha agora será para garantir que o neoliberalismo seja percebido como morto. Acho que isso já está acontecendo. Há uma mudança nas atmosferas culturais, pequena no momento, mas vai crescer.”
  • Não Prestar Pra Nada [Mark Fisher] – “Para aqueles que foram ensinados desde o nascimento a se verem como inferiores, a aquisição de qualificações ou renda raramente será suficiente para apagar — em suas próprias mentes ou na mente dos outros — o sentido primordial de inutilidade que os marca tão cedo na vida”
  • Estranho, com Orgulho [George Monbiot] – “Você se sente perdido? Talvez isso seja por que você se recusa a sucumbir à competição, inveja e medo que o neoliberalismo desperta.
  • Não Há Alternativa? [István Mészáros] – “Para muita gente, a presente situação parece fundamentalmente inalterável. Esta impressão parece ser reforçada por um dos slogans políticos mais frequentemente repetidos pelos que tomam as decisões por nós: ‘não há outra alternativa.’ Contudo, a dedicação de nossos líderes políticos ao avanço dos imperativos do sistema do capital não elimina suas deficiências estruturais e seus antagonismos potencialmente explosivos. Descobrir uma saída do labirinto das contradições do sistema do capital global por meio de uma transição sustentável para uma ordem social muito diferente é, portanto, mais imperativo hoje do que jamais o foi, diante da instabilidade cada vez mais ameaçadora.”
  • O Ano em Que o Capitalismo Real Mostrou a Que Veio [Perry Anderson] – “Tudo que nós um dia deveríamos temer sobre o socialismo — desde repressão estatal e vigilância em massa até padrões de vida em queda — aconteceu diante de nossos olhos
  • Como Vai Acabar o Capitalismo? [Wolfgang Streeck] – “O epílogo de um sistema em desmantêlo crônico: A legitimidade da ‘democracia’ capitalista se baseava na premissa de que os Estados eram capazes de intervir nos mercados e corrigir seus resultados, em favor dos cidadãos; hoje, as dúvidas sobre a compatibilidade entre uma economia capitalista e um sistema democrático voltaram com força total.”
  • Quatro Futuros [Peter Frase] – Uma coisa de que podemos ter certeza é que o Capitalismo vai acabar; a questão, então, é o que virá depois.
  • Por Que Socialismo? [Albert Einstein] – Albert Einstein explica, de maneira clara e objetiva, os problemas fundamentais que enxerga na sociedade capitalista e porque uma sociedade socialista poderia ser o caminho para superá-los.
  • O Projeto Socialista e a Classe Trabalhadora [David Zachariah] – “As pessoas na Esquerda estão unidas em seu objetivo de uma sociedade em que cada indivíduo encontre meios aproximadamente iguais para o pleno desenvolvimento de suas capacidades diversas. O que distingue os socialistas é o reconhecimento de que a forma específica como a sociedade está organizada para reproduzir a si mesma também reproduz grandes desigualdades sociais nos padrões de vida, emprego, condições de trabalho, saúde, educação, habitação, acesso à cultura, meios de desenvolvimento e frutos do trabalho social, etc.
  • ABCs do Socialismo – [Especial da revista Jacobin sobre questões básicas relacionadas com o Socialismo]
  • O Marxismo Está Ultrapassado? Ele Só Tinha Algo a Dizer Sobre a Inglaterra do Século XIX, e Olhe Lá?
  • As Perspectivas da Liberdade [David Harvey] – “A idéia de liberdade degenera assim em mera defesa do livre empreendimento, que significa a plenitude da liberdade para aqueles que não precisam de melhoria em sua renda, seu tempo livre e sua segurança, e um mero verniz de liberdade para o povo, que pode tentar em vão usar seus direitos democráticos para proteger-se do poder dos que detêm a propriedade.”
  • Sua Majestade, a Teoria Econômica [David Harvey] – “Aqui temos a crise econômica e financeira mais espetacular em décadas e o grupo que passa a maior parte de suas horas ativas analisando a economia basicamente não a enxergou.”
  • O Que Acontece Quando Você Acredita em Ayn Rand e na Teoria Econômica Moderna [Denise D. Cummins] – “E se as pessoas se comportassem de acordo com a filosofia do “objetivismo” de Rand? E se nós de fato nos permitíssemos ser cegos a tudo, menos nosso próprio interesse?”
  • Uma Filosofia para o Proprietariado [Rob Hunter] – O “Libertarianismo” não oferece solução alguma para a política plutocrática de hoje em dia – não passa de uma rejeição reacionária à luta política.
  • Existe mesmo algo como um “livre-mercado”? [[Ha-Joon Chang]] – Todo mercado tem algumas regras e limites que restringem a liberdade de escolha. O mercado só parece livre porque estamos tão condicionados a aceitar as suas restrições subjacentes que deixamos de percebê-las.”
  • O Mercado é Mesmo Bom? [Luis Felipe Miguel] – “Há um elemento comum, nas manifestações recentes da direita: o discurso de que o Estado deve recuar e o mercado deve regular uma porção maior das interações humanas. Se a lógica do mercado opera, dizem eles, no final das contas todos ganham. Será que é mesmo assim?”
  • O Livre-Mercado Faz Países Pobres Ficarem Ricos? [Ha-Joon Chang] –  “Os supostos lares do livre comércio e do livre mercado ficaram ricos por meio da combinação do protecionismo, subsídios e outras políticas que hoje eles aconselham os países em desenvolvimento a não adotar. As políticas de livre mercado tornaram poucos países ricos até agora e poucos ficarão ricos por causa dela no futuro.”
  • Nem Sempre Foi Assim [Frederico Mazzucchelli] – “O caótico período que vai do início do século 20, passando pelas duas Guerras Mundiais e a crise de 29, certamente foram tempos muito piores do que o que vivemos hoje, tempos de crise, desemprego e violência em massa. Entretanto, daqueles tempos emergiu também, após a Segunda Guerra Mundial, a necessidade de regular o sistema econômico de modo a atenuar as mazelas gestadas pelo mercado autorregulado. As respostas keynesianas à incerteza e à catástrofe promoveram um longo período de crescimento com ganhos salariais e redução das desigualdades, algo também sem paralelo na história do capitalismo.”
  • Nossa Obsoleta Mentalidade de Mercado [Karl Polanyi] – “O capitalismo liberal foi com efeito a resposta inicial do homem ao desafio da Revolução Industrial. De modo a gerarmos o escopo necessário para o uso de máquinas poderosas e elaboradas, transformamos a economia humana em um sistema auto-regulado de mercados, e direcionamos nosso pensamentos e valores para os moldes dessa única inovação. Hoje, começamos a duvidar da verdade de alguns desses pensamentos e da validade de alguns desses valores.”
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