De Volta ao Debate Sobre o Planejamento Socialista II – Preços, Informação, Comunicação e Eficiência

[A análise dos aspectos econômicos da informação tem sido associada ao trabalho de Hayek, que enxerga o sistema de preços no mercado como um mecanismo de telecomunicação de informações e de adaptação a mudanças. As críticas de Hayek às possibilidades de um planejamento democrático da produção de bens e serviços, como apresentadas no artigo “O Uso do Conhecimento na Sociedade”, têm servido de base para enterrar qualquer forma de socialismo, mesmo para pessoas que resistem ao seu entusiasmo extremo por mercados irrestritos. Até que ponto as ideias de Hayek se sustentam, principalmente diante dos avanços posteriores na Teoria da Informação e na Ciência da Computação? Será que o sistema de mercado realmente é tão mais eficiente do que qualquer alternativa baseada no planejamento democrático socialista jamais poderia ser? Ou, pior, será que as ideias de Hayek realmente mostram que uma alternativa desse tipo não seria apenas menos eficiente, mas simplesmente impossível?]

Paul Cockshott e Allin Cottrell, 1994 (1997,2007, 2009)

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Montagem baseada em ilustração de C. Arrojo

[Nota do Minhocário: O texto abaixo é a tradução do artigo “Information and Economics: A Critique of Hayek”, (“Informação e Economia: Uma Crítica à Hayek”) de 1994. Os autores revisitaram o conteúdo em uma versão revisada do artigo em 1997 e num capítulo escrito em 2007 para o livro “Classical Econophysics” (“Econofísica Clássica”), publicado em 2009, com o nome “Against Hayek” (“Contra Hayek”) – este último com uma organização bem diferente, e incluindo novos argumentos baseados nos modelos econométricos explorados no livro e na teoria da complexidade computacional. Esse capítulo de 2007 também foi publicado em uma outra versão como um artigo fechado em si, com ligeiras diferenças no texto. O artigo traduzido abaixo segue a estrutura básica do trabalho de 1994, mas inclui os ajustes no texto e novos trechos das versões posteriores, e mantém aqueles que foram removidos nestas últimas.  Foi necessário fazer adaptações e mudanças de posição entre os trechos para encaixar ambas as visões (de 1994/1997 e de 2007/2009), mas busquei manter a essência de todos os argumentos apresentados em todas as versões.

Este artigo é uma resposta às ideias de Hayek. Para um artigo dos autores sobre as ideias de Mises e de Lange, ver De Volta ao Debate Sobre o Planejamento Socialista I – Cálculo, Complexidade e Planejamento. Originalmente esses artigos não foram publicados como uma série, mas resolvi publicá-los dessa maneira para enfatizar o quanto as ideias exploradas em ambos são complementares.

Alguns trechos abaixo envolvem conceitos de Economia, Matemática e de Computação, mas mesmo que não se domine esses conceitos por completo, vale a pena acompanhar os trechos, mesmo que seja de maneira superficial – embora, é claro, esse conhecimento possibilite uma melhor compreensão dos argumentos apresentados pelos autores. Tentei deixar pelo menos o link para o termo na Wikipédia na primeira ocorrência da maioria dessas situações. Talvez a seção mais difícil de se acompanhar seja a 7.2, mas vou deixar nela entre colchetes e marcados com outra cor meus comentários para tentar facilitar a compreensão de cada símbolo e equação apresentados, para facilitar que mais pessoas possam acompanhar a argumentação.]



1 introdução

Em uma série de publicações entre o final dos anos 80 e meados dos anos 90, procuramos reabrir um debate sobre a Economia do socialismo. Defendemos que nem os argumentos teóricos apresentados no Ocidente, e nem o marco histórico do colapso do sistema soviético deveriam levar necessariamente às conclusões de que todas as formas de economia socialista estariam condenadas à ineficiência, e de que o planejamento econômico socialista não passaria de uma noção insustentável, cujo tempo passou. Atualizando e estendendo uma linha de raciocínio encontrada em Lange (1967) e em Johansen (1977) [1], afirmamos que a tecnologia da informação moderna permite a construção de uma forma de economia planejada que seja eqüitativa e eficiente (no atendimento das necessidades humanas), capaz de superar o mercado em ambos os campos. [2] Não esperamos que nossas idéias encontrem sucesso político imediato, mas nos arriscamos a esperar que economistas de mente aberta considerem nossos argumentos econômicos nos seus próprios méritos. No entanto, mencionamos esses pontos para situar este artigo no seu contexto; não pretendemos reiterar aqui nossos argumentos gerais em favor do planejamento.

Nosso objetivo aqui é mais específico. A análise dos aspectos econômicos da informação tem sido associada à escola hayekiana de Economia. Friedrich August von Hayek (1899-1992) foi um economista e filósofo político austríaco [e um dos principais membros da linha de interpretação econômica conhecida como “Escola Austríaca”]. Hayek ficou conhecido por sua defesa da democracia liberal e do capitalismo de livre-mercado, contra o pensamento socialista e coletivista em meados do século XX [apesar da sua eventual celebração de ditaduras militares de direita (ou, como ele disse certa vez, “ditaduras liberais”) quando os resultados da democracia liberal iam contra a sua visão econômica, como no Chile do início dos anos 70]. As idéias de Hayek adquiriram uma relevância prática com a sua adoção política, primeiro pelos governos [da ditadura de Pinochet no Chile, e] de Thatcher na Grã-Bretanha nos anos 70-80 e depois por governos [sulamericanos e africanos endividados, pressionados por instituições como o FMI e o Banco Mundial a adotá-las como condição para receber empréstimos; e mais tarde pelos governos] pós-soviéticos na Rússia e no Leste Europeu. [3] Consideramos que ele cometeu erros fundamentais em sua análise da informação econômica – erros que, quando se tornaram a base de políticas práticas, tiveram efeitos catastróficos sobre a coordenação e o desempenho econômicos.

Buscamos refutar as objeções ao planejamento socialista apresentadas por Hayek em seu clássico artigo “O Uso do Conhecimento na Sociedade“, de 1945. A relevância de tal argumentação pode ser questionada: Hayek em geral não é considerado como parte da linha dominante entre os economistas profissionais [a escola neoclássica, ou ortodoxa], e muitos deles sempre consideraram a defesa do mercado feita por ele como sendo um tanto estridente e doutrinária demais. No entanto, vemos que a estrela de Hayek está em ascensão, [principalmente] no mundo pós-comunista, e que mesmo aqueles que resistem ao seu entusiasmo extremo por mercados irrestritos, freqüentemente estão bem dispostos a aceitar seus argumentos para enterrar qualquer forma de socialismo. [4]

Que fique bem claro: Estamos cientes de que os argumentos de Hayek não são os únicos que precisam ser enfrentados por qualquer pessoa que tente defender uma economia socialista; além disso, os argumentos em “O Uso do Conhecimento na Sociedade” não são os únicos argumentos relevantes apresentados pelo próprio Hayek. (Em outros trabalhos, ele enfatizou a questão dos incentivos – mas não temos muito a dizer sobre esse assunto neste artigo.) Dito isso, acreditamos que os argumentos de Hayek sobre conhecimento econômico ou informação econômica – cujo núcleo está no artigo que escolhemos discutir – têm sido muito influentes, e que uma resposta plausível a ele seria de alguma importância.

Como um indicador do papel dos argumentos de Hayek sobre informação e planejamento, considere o livro de Joseph Stiglitz, ‘Whither Socialism?’ [“Para Onde Vai, Socialismo?”, em tradução livre] (1994). Stiglitz é um crítico da Economia Socialista, mas sua crítica é quase inteiramente dirigida contra o socialismo de mercado. Quanto a uma economia centralmente planejada, ele diz apenas que “Hayek criticava com razão” o projeto marxiano, “argumentando que o planejador central jamais poderia ter as informações necessárias” (Stiglitz, 1994, p. 9). Essa nos parece ser uma resposta bem típica: mesmo economistas que não subscrevem totalmente às visões de Hayek sobre os méritos do livre-mercado – como Stiglitz -, não obstante, acreditam que a crítica de Hayek ao planejamento central poderia, seguramente, ser considerada como definitiva. Esperamos demonstrar que isso não deve ser tomado como certo.

***

Portanto, vamos ao trabalho. Oferecemos abaixo uma exposição e uma contestação, ponto-por-ponto, das idéias em Hayek (1945). Devemos deixar claro que algumas das nossas críticas a Hayek são anacrônicas (mas não todas, de maneira nenhuma) – ou seja, elas dependem de avanços na tecnologia da informação que ocorreram depois dos escritos de Hayek. Acreditamos que isso se justifica, por dois motivos: Primeiro, porque Hayek claramente considerava estar apresentando um argumento muito geral, que ele não esperava ver enfraquecido por mudanças tecnológicas; em segundo lugar, porque os seguidores de Hayek (por exemplo, Lavoie, 1985) continuam a defender seus argumentos de várias décadas atrás e a alegar que os desenvolvimentos na tecnologia da informação seriam em grande parte irrelevantes. [5]

Em nossa exposição das ideias de Hayek, tentamos equilibrar a concisão com a necessidade de produzir uma descrição suficientemente completa e justa, para evitar a suspeita de que poderíamos estar atacando um espantalho. Começamos com um breve resumo das visões filosóficas que dão forma aos argumentos em “Uso do Conhecimento na Sociedade“, descritas mais detalhadamente em “A Contra-Revolução da Ciência(Hayek, 1955).


2 Delineando os argumentos de Hayek

2.1 O pano-de-fundo filosófico

Em ‘A Contra-Revolução da Ciência’, Hayek se preocupa em estabelecer uma distinção radical entre as Ciências Naturais e as Ciências Sociais – na medida em que as suas relações com seus temas de estudo seriam fundamentalmente diferentes, segundo ele. Nas Ciências Naturais, os avanços envolvem o reconhecimento de que as coisas não são o que parecem ser – a Ciência dissolve as categorias imediatas da experiência subjetiva e as substitui pelas suas causas subjacentes, muitas vezes ocultas. O estudo da sociedade, por outro lado, teria de tomar como matéria-prima as idéias e as crenças das pessoas na sociedade. Os fatos estudados pelas Ciências Sociais

diferem dos fatos das ciências físicas por serem crenças ou opiniões mantidas por pessoas específicas; crenças que, como tais, são nossos dados, independentemente de serem verdadeiras ou falsas; e que, além disso, não podemos observar diretamente nas mentes das pessoas, mas que podemos reconhecer daquilo que elas dizem ou fazem simplesmente porque temos uma mente semelhante às delas. (Hayek, 1955, p. 28)

Ele argumenta que haveria um elemento subjetivo irredutível nos objetos de estudo das Ciências Sociais, que estaria ausente nas Ciências Físicas.

A maioria dos objetos da ação social ou da ação humana não são “fatos objetivos” no sentido restrito especial em que o termo é usado nas Ciências, no qual é contrastado com as “opiniões”; e não podem, de maneira nenhuma, ser definidos em termos físicos. No que diz respeito às ações humanas, as coisas são o que as pessoas que estão agindo pensam que elas são. (Hayek, 1955, pp. 27-27)

Seu paradigma para as Ciências Sociais (ou Ciências Morais) é que a sociedade deve ser compreendida em termos das ações refletidas e intencionais dos homens, assumindo-se que as pessoas estão constantemente escolhendo conscientemente entre diferentes possíveis cursos de ação. Qualquer fenômeno coletivo deve, portanto, ser concebido como o resultado não-intencional das decisões de atores conscientes individuais.

Isso impõe uma dicotomia fundamental entre o estudo da natureza e o estudo da sociedade: com os fenômenos naturais, poderia ser razoável supor que o cientista individual possa conhecer todas as informações relevantes, enquanto no contexto social essa condição não poderia ser satisfeita.

2.2 O problema básico da Economia

Partindo dessa base filosófica, Hayek (1945) coloca a questão: “Qual é o problema que queremos resolver quando tentamos construir uma ordem econômica racional?” Ele continua:

Sob certas suposições familiares, a resposta é bem simples. Se possuirmos todas as informações relevantes, se pudermos partir de um sistema determinado de preferências e se contarmos com o conhecimento completo dos meios disponíveis, o que permanece é puramente um problema de lógica. Ou seja, a resposta à questão de qual seria o melhor uso dos meios disponíveis está implícita em nossas suposições. As condições que a solução deste problema de otimização precisa satisfazer já foram completamente estabelecidas e podem ser melhor declaradas na forma matemática: para resumir, as taxas marginais de substituição entre quaisquer duas mercadorias ou fatores devem ser as mesmas em todos seus diferentes usos. (Hayek, 1945, p. 519)

Ele imediatamente deixa claro, no entanto, que as “suposições familiares” nas quais a abordagem acima se baseia são bem irreais.

Esse, porém, – e de maneira enfática – não é o problema econômico que a sociedade enfrenta… A razão para isso é que os dados a partir dos quais se inicia o cálculo econômico, para toda a sociedade, nunca estariam disponíveis a uma única mente que poderia resolver suas implicações, e nunca poderiam ser assim determinados. (ibid.)

Hayek explica então a sua própria perspectiva sobre a natureza do problema:

O caráter peculiar do problema de uma ordem econômica racional é determinado precisamente pelo fato de que o conhecimento das circunstâncias das quais devemos fazer uso nunca existe de forma concentrada ou integrada, mas apenas como os fragmentos dispersos de conhecimentos incompletos e freqüentemente contraditórios que todos os indivíduos separados possuem. (ibid.)

O verdadeiro problema seria, portanto, “como assegurar o melhor uso dos recursos conhecidos por qualquer membro da sociedade, para fins cuja importância relativa apenas esses indivíduos conhecem” (Hayek, 1945, p. 520, grifo nosso). Que isso não seja geralmente compreendido, afirma Hayek, é um efeito do naturalismo ou do cientificismo, que seria “a transferência errônea para os fenômenos sociais dos hábitos de pensamento que desenvolvemos para lidar com os fenômenos da natureza” (ibid.).

2.3 Contra a centralização

O ponto em questão entre Hayek e os proponentes do planejamento econômico socialista não é “se o planejamento deve ser feito ou não”; na verdade, é “se o planejamento deve ser feito centralmente, por uma única autoridade, para todo o sistema econômico; ou se ele deveria ser dividido entre muitos indivíduos” (Hayek, 1945, pp. 520-21). O segundo caso nada mais seria do que a concorrência de mercado, que “significa um planejamento descentralizado, realizado por muitas pessoas em separado” (Hayek, 1945, p. 521). E a eficiência relativa das duas alternativas dependeria de

se estaremos mais propensos a ter sucesso colocando à disposição de uma única autoridade central todo o conhecimento que deveria ser usado, mas que está inicialmente disperso… ou transmitindo aos indivíduos o conhecimento adicional de que eles precisam para adequar os seus planos com os dos outros. (ibid.)

O próximo passo na argumentação de Hayek envolve a distinção entre dois tipos diferentes de conhecimento: o conhecimento científico (entendido como o conhecimento de leis gerais), versus um “conhecimento desorganizado” ou “conhecimento das circunstâncias particulares de tempo e de lugar” [muitas vezes referido como “conhecimento tácito”]. O primeiro, diz ele, pode ser suscetível à centralização por meio de um “corpo de especialistas escolhidos de maneira adequada” (Hayek, 1945, p. 521), mas o segundo seria uma questão diferente.

Em termos práticos, todo indivíduo tem alguma vantagem sobre os outros, no sentido de que possui uma informação única da qual se pode fazer uso benéfico, mas cujo uso só pode ser feito se as decisões das quais isso depende forem deixadas para ele ou feitas com sua cooperação ativa. (Hayek, 1945, pp. 521-222)

Hayek está pensando aqui em “conhecimento sobre pessoas, condições locais e circunstâncias especiais” (Hayek, 1945, p. 522), por exemplo, o fato de que uma certa máquina não está sendo empregada totalmente, ou de uma habilidade que poderia ser melhor utilizada. Ele também cita o tipo de conhecimento específico e localizado sobre os quais dependiam as transportadoras e as pessoas que operam no mercado financeiro para ganhar com arbitragem. [6] Ele afirma que esse tipo de conhecimento é muitas vezes seriamente subvalorizado por aqueles que consideram o conhecimento científico geral como paradigmático.

2.4 A importância da mudança

Intimamente relacionada, na mente de Hayek, à subvalorização do conhecimento de fatores locais e específicos, estaria a subestimação do papel da mudança na economia. Uma diferença fundamental entre defensores e críticos do planejamento diria respeito à

importância e a frequência das mudanças, que tornarão necessárias alterações substanciais nos planos de produção. É claro, se planos econômicos detalhados para períodos razoavelmente longos pudessem ser estabelecidos com antecedência e depois pudessem ser seguidos de perto, de modo que nenhuma outra decisão econômica de importância fosse necessária, a tarefa de elaborar um plano abrangente governando toda a atividade econômica pareceria muito menos formidável. (Hayek, 1945, p. 523)

Hayek atribui aos seus oponentes a ideia de que mudanças economicamente relevantes seriam algo que ocorre em intervalos discretos [7] e em uma escala de tempo relativamente longa – e que entre essas mudanças, o gerenciamento do sistema produtivo seria uma tarefa mais ou menos mecânica. Contra isso ele cita, por exemplo, o problema de se evitar que aumentem os custos em uma indústria competitiva, o que exige uma energia gerencial considerável no dia-à-dia; e enfatiza o fato de que as mesmas instalações técnicas podem ser operadas com níveis de custos muito diferentes por diferentes gestores. Um gerenciamento econômico efetivo exige que “novas disposições sejam tomadas todos os dias à luz de circunstâncias desconhecidas no dia anterior” (Hayek, 1945, p. 524). Ele conclui, portanto, que

o planejamento central baseado em informações estatísticas [agregadas], pela sua natureza, não é capaz de levar em conta diretamente estas circunstâncias de tempo e de lugar, e… o planejador central terá que encontrar uma ou outra maneira em que as decisões que dependem delas possam ser deixadas para o homem presente no local. (ibid.)

A rápida adaptação às mudanças de circunstâncias de tempo e de lugar exigiria a descentralização – não poderíamos esperar que algum conselho central emitisse ordens depois de integrar todo o conhecimento.

2.5 Preços e informação

Embora insista que um conhecimento localizado e muito específico seria essencial para a tomada de decisões econômicas, Hayek reconhece claramente que o “homem presente no local” precisa saber mais do que apenas suas circunstâncias imediatas antes de poder agir de maneira efetiva. Daí surge o problema de “comunicar a ele as informações adicionais de que ele precisa para encaixar as suas decisões no padrão de mudanças do sistema econômico por completo” (Hayek, 1945, p. 525). Quanto ele precisa saber? Por acaso, só aquilo que é transmitido pelos preços. Hayek constrói um exemplo para ilustrar seu ponto:

Suponha que em algum lugar ao redor do mundo tenha surgido uma nova oportunidade para o uso de alguma matéria-prima – digamos, o estanho – ou então que uma das fontes do suprimento de estanho tenha sido eliminada. Não importa, para o nosso propósito, – e é muito significativo que isso não importe – qual dessas duas causas tenha tornado o estanho mais escasso. Tudo o que os usuários do estanho precisam saber é que parte do estanho que costumavam consumir agora é empregado de maneira mais lucrativa em outros lugares, e que, em conseqüência, eles devem economizar o estanho. Não há necessidade sequer de que a grande maioria deles saiba onde surgiu a necessidade mais urgente, ou em favor de que outros usos eles deveriam economizar o seu suprimento [da matéria-prima]. (Hayek, 1945, p. 526)

Apesar da ausência dessa visão geral, os efeitos da perturbação no mercado do estanho se ramificarão por toda a economia, da mesma maneira:

O todo age como um único mercado, não porque qualquer um de seus membros tenha pesquisado todo o seu campo de atuação, mas porque seus limitados campos individuais de visão se sobrepõem de maneira suficiente para que, por meio de muitos intermediários, a informação relevante seja comunicada a todos. (ibid.)

Portanto, o que é mais significativo no sistema de preços é “a economia do conhecimento com a qual ele opera” (Hayek, 1945, pp. 526-7). Ele então completa seu argumento:

É mais do que uma metáfora a descrição do sistema de preços como um tipo de mecanismo para registrar mudanças, ou como um sistema de telecomunicações que permite aos produtores individuais observar apenas o movimento de alguns poucos indicadores – como um engenheiro pode observar os ponteiros de alguns mostradores – a fim de ajustar suas atividades à mudanças, sobre as quais eles podem jamais conhecer nada além daquilo que se reflete nos movimentos dos preços. (Hayek, 1945, p. 527)

Ele admite que os ajustes produzidos pelo sistema de preços não são perfeitos, no sentido da teoria do equilíbrio geral; mas eles seriam, não obstante, uma “maravilha” da coordenação econômica. (ibid.)

2.6 Uma ordem que evoluiu [espontaneamente]

Evidentemente o sistema de preços não surgiu como o produto de um projeto humano e, além disso, “as pessoas guiadas por ele geralmente não sabem por que são levadas a fazer o que fazem” (ibid.).

Essa observação leva Hayek a uma declaração muito característica do seu argumento geral contra o planejamento central.

Aqueles que clamam por uma “direção consciente” – e que não podem acreditar que qualquer coisa que tenha evoluído sem um projeto (e mesmo sem a nossa compreensão) seja capaz de resolver problemas que não poderíamos resolver conscientemente – devem lembrar-se disso: O problema é precisamente como estender o alcance de nossa utilização de recursos para além do alcance do controle de qualquer mente; e, portanto, como fornecer incentivos que farão os indivíduos fazerem as coisas desejáveis sem que ninguém tenha que lhes dizer o que fazer. (Hayek, 1945, p. 527)

Hayek generaliza este ponto ao fazer referência a outros “fenômenos verdadeiramente sociais”, como a linguagem (também um sistema não-projetado). Contra a ideia de que sistemas projetados conscientemente teriam algum tipo de superioridade inerente sobre aqueles que simplesmente evoluíram, ele cita A. N. Whitehead no sentido de que o progresso da civilização é medido pela extensão do “número de operações importantes que podemos realizar sem pensar sobre elas” (Hayek, 1945, p. 528). Ele continua:

O sistema de preços é apenas uma daquelas formações que o homem aprendeu a usar… depois de ter tropeçado nelas, sem as compreender. Por meio dele, tornou-se possível não apenas uma divisão de trabalho, mas também uma utilização coordenada de recursos, baseada em um conhecimento igualmente dividido… Ninguém ainda obteve sucesso em projetar um sistema alternativo em que certas características do [sistema] existente possam ser preservadas, que são estimadas até por aqueles que o atacam mais violentamente – como, particularmente, a extensão em que o indivíduo pode escolher suas atividades e, conseqüentemente, usar livremente seu próprio conhecimento e habilidades. (ibid.)

***

Acreditamos que os contornos da argumentação de Hayek estão, agora, claramente à vista. Estamos prontos para prosseguir com nossas críticas, que estão estruturadas da seguinte maneira: Primeiro, desafiamos a filosofia subjetivista que sustenta a concepção de informação de Hayek. Em seguida, oferecemos uma perspectiva alternativa sobre a natureza do problema enfrentado por um sistema econômico planejado e disputamos as afirmações de Hayek sobre os benefícios da descentralização, principalmente sob a luz de estudos recentes na área da complexidade computacional. Isso leva então a uma crítica à idéia de que o mercado constituiria um sistema de telecomunicações eficiente. Nossa crítica é desenvolvida por meio de um modelo formal das trocas de informações exigidas sob o mercado e sob um sistema planejado. A penúltima seção do artigo trata da ideia de que a mudança é importante; e a seção final aborda a questão do mercado como um sistema que “evoluiu espontaneamente”.


3 Uma crítica ao subjetivismo de Hayek

A visão radicalmente subjetivista de Hayek sobre as ciências sociais está aberta à objeção de que a sua categoria constitutiva – o sujeito racional [8] – não está, de maneira nenhuma, determinado de maneira óbvia. Como Lawson (1992) argumentou, uma profusão de pesquisas nos campos da Psicologia e da Sociologia têm revelado que o comportamento humano é altamente baseado em rotinas e coordenado principalmente por funções cerebrais inconscientes. De fato, como relata Dennett (1991), experimentos em Neuro-Psicologia indicam que as pessoas agem primeiro e apenas mais tarde se tornam conscientes de sua intenção de agir.

Para o domínio mais limitado da Economia, há o problema de que os “sujeitos” em questão têm maior probabilidade de serem sujeitos jurídicos do que pessoas físicas – em geral, os atores econômicos na produção industrial são empresas, não indivíduos humanos. Também não é possível reduzir as ações de uma empresa à vida subjetiva interna de seu diretor administrativo. Em qualquer empresa grande, as ações tomadas resultam de um complexo conjunto de práticas, revisões e procedimentos de tomada de decisão envolvendo muitas pessoas. Os procedimentos podem ser tão importantes quanto quem preenche qual cargo específico.

Nós diríamos inclusive que o sujeito econômico que Hayek toma como ponto de partida simplesmente não é dado empiricamente, sendo antes uma reificação [ou mistificação] da teoria econômica. O sujeito econômico racional faz sentido apenas em termos de procedimentos de cálculo formalizado – que, se formos observar na prática, têm mais probabilidade de se materializar nas práticas contábeis e administrativas das firmas do que nos cérebros dos indivíduos. A teoria econômica então projeta de volta essas práticas – racionais para a empresa como sujeito jurídico – sobre um sujeito humano supostamente constitutivo.

As condições históricas para essa projeção estão suficientemente claras. Nos estágios iniciais do capitalismo, a distinção entre pessoas físicas e sujeitos jurídicos ainda estava mal definida – o agente da prática econômica, portanto, parecia ser a pessoa do capitalista ou do empreendedor, e não a empresa. Porém, do ponto de vista do estado atual do desenvolvimento econômico, pode-se ver que o sujeito do cálculo racional é o sujeito jurídico que busca maximizar a propriedade. Se alguns dos sujeitos jurídicos de um sistema de propriedade forem animais humanos individuais, o sujeito reificado da teoria econômica fornece uma explicação sobre o que seria uma ação racional da sua parte. Mas a afirmação de que esses animais de fato se envolveriam em tal ação racional é mais um ato de fé do que um resultado empírico da Ciência. Ao partir desse ato de fé, Hayek pretendia marcar a Economia essencialmente como um ramo da filosofia moral, ao invés de Ciência.

No entanto, uma vez que tenhamos reconhecido a categoria de sujeito pelo que ela de fato é – não uma propriedade existente empiricamente no animal humano, mas algo atribuído a ele tanto pelas estruturas da linguagem quanto do discurso jurídico (Althusser, 1971) – então essa exclusão da Ciência do estudo da sociedade torna-se insustentável. Essa exclusão torna-se apenas outro apelo especial da moralidade para manter longe de si as intrusões da ciência [naquilo que ela pretende manter como seu espaço exclusivo].

Acreditamos firmemente na aplicabilidade dos métodos das ciências naturais para o estudo dos fenômenos sociais e que a objeção de Hayek está fundamentalmente equivocada. Até mesmo Laplace – notoriamente citado como um defensor do determinismo – argumentava que, embora o universo em princípio fosse previsível até o mais ínfimo detalhe, essa previsão na prática seria impossível por causa da limitação do conhecimento; e que, portanto, a Ciência deveria recorrer à Teoria da Probabilidade. Certamente, desde Boltzmann, já se compreendeu como fenômenos coletivos surgem como resultados “não intencionais” ou emergentes, à partir de uma massa de processos descoordenados. O trabalho de Wright (2003) mostra como mesmo a lei do valor se revela de maneira semelhante – e ele não precisou modelar a consciência por parte dos atores econômicos para obter esse resultado [, muito menos a consciência consistentemente racional em suas escolhas].

***

O ponto de vista filosófico subjetivista de Hayek possui um peso importante em seus argumentos contra o planejamento socialista, uma vez que esses argumentos se baseiam na noção de informação subjetiva. Apesar do fato de “A Contra-Revolução da Ciência” ter sido publicado após o estabelecimento de uma teoria científica da informação por Shannon e Weaver (1949), a noção de informação de Hayek permanece decididamente pré-científica. Evidentemente, leva tempo até o conhecimento construído em uma disciplina fluir para as outras. Em meados da década de 1950, a ideia da objetividade da informação ainda não se espalhara para muito além dos estudos sobre telecomunicações. Entretanto, agora que ela já revolucionou a biologia; tornou-se a base de nossas principais indústrias; e começou a transformar nossa compreensão das ideologias sociais (Dawkins, 1982), sua ausência impõe um vício sobre todo o argumento de Hayek.

Para Hayek, a informação é essencialmente subjetiva; é conhecimento nas mentes das pessoas. Assim, temos o problema de como as informações dispersas nas mentes de muitos podem, através das operações do mercado, ser combinadas em prol do bem comum. Ao se adotar esse ponto de vista subjetivista, a atenção acaba sendo desviada da questão muito prática e muito importante dos suportes técnicos para a informação. Torna-se impossível enxergar a própria produção e manipulação da informação como tecnologias e processos de trabalho, cujos desenvolvimentos atuam como restrições às possibilidades das relações econômicas.

Em qualquer economia que não esteja entre as mais primitivas, as relações econômicas dependem do desenvolvimento de técnicas para objetivar a informação. Considere por exemplo a relação entre proprietário e arrendatário e, portanto, o aluguel/renda da terra. Essa relação só pode se estabilizar uma vez que a sociedade tenha desenvolvido um meio de registrar os contratos de propriedade e de arrendamento, seja como documentos escritos ou como as pedras de marcação de hipotecas tão odiadas pelos camponeses da Ática. [9]

O desenvolvimento do preço depende das tecnologias da contabilidade e do cálculo – que numa sociedade comercial nunca poderiam ser operações puramente mentais. O cálculo exige um suporte material, seja ele as calculi – as pequenas pedras usadas pelos primeiros romanos -, ou as moedas e tabelas de cálculo de fins da Antiguidade e da Idade Média. A racionalidade econômica é um processo algorítmico auxiliado por um maquinário para computação e armazenamento de informações. O fato de que até recentemente esse maquinário era simples e operado manualmente – o ábaco, a caixa de moedas ou o livro-razão – permitia que ele fosse ignorado pela teoria econômica. No entanto, os meios de racionalidade são tão essenciais para as relações econômicas quanto os meios de produção. O comércio sem uma tecnologia de cálculo e de registro é tão impraticável quanto a agricultura sem instrumentos para arar o solo. Uma vez que esses aspectos da teoria da informação e da tecnologia da informação sejam considerados, é possível dar respostas bem diferentes ao problema da informação econômica de Hayek.


4 Centralizar ou não centralizar? [Eis a questão]

4.1 O problema do cálculo e sua deturpação

Já argumentamos, em outro lugar, que o clássico “debate sobre o cálculo socialista” que ocorreu durante a primeira metade do século XX teve lugar no terreno dos neoclássicos críticos ao socialismo, em vez do terreno ocupado pelos seus defensores marxistas. Isso teve um efeito sobre a definição da estrutura do problema. Na variante neoclássica, o problema começa com as preferências dos agentes individuais e suas possibilidades de produção. Essa formulação é vulnerável à crítica de Hayek, com base no fato de que as preferências dos indivíduos não estariam, em nenhum sentido, “dadas” para os planejadores. Mas os economistas marxistas não aceitariam que essas preferências individuais tivessem qualquer pré-existência significativa; [10] elas não fazem, portanto, parte do problema. [11]

O problema, na prática, é alinhar o potencial de produção a um padrão de necessidades sociais, revelado por uma combinação de decisões políticas democráticas (como, por exemplo, o nível apropriado de prestação de serviços de saúde pública) e agregados das compras pelos consumidores. Dado um sistema razoável de coleta de dados informando as taxas pelas quais os bens de consumo estão sendo vendidos e pressupondo um sistema de preços baseado nos valores-trabalho dos bens e serviços (Cockshott e Cottrell, 1993), derivar um vetor-alvo de produção líquida [12] não exige poderes telepáticos especiais por parte do sistema de planejamento. Talvez seja mais difícil reunir as informações sobre as possibilidades de produção. É nesse contexto prático que deve ser colocada a discussão de Hayek sobre sistemas de controle centralizados versus descentralizados.

4.2 “Uma única mente”

Os oponentes austríacos do socialismo falam como se o planejamento socialista tivesse que ser realizado por uma única pessoa. Mises (1949) a personificou como “o diretor”; Hayek continua com a metáfora, afirmando que os “dados a partir dos quais se inicia o cálculo econômico, para toda a sociedade, nunca estariam disponíveis a uma única mente”. Como então, pergunta ele, a mente de uma pessoa presumiria ser capaz de chegar a um resultado melhor do que o resultado combinado das cogitações de milhões (como alcançado através do mercado)? Certamente, apenas um megalomaníaco, ou pelo menos alguém cego pela arrogância científica, poderia propor tal coisa.

É claro que nenhum indivíduo possui a capacidade cerebral para compreender todas as interconexões de uma economia – mas quando foi que os socialistas chegaram a afirmar algo tão tolo? Nem mesmo os mais ávidos cultuadores de personalidade afirmariam que Stalin teria elaborado os planos de 5 anos sozinho. O que os socialistas propuseram é a substituição do processamento de informações econômicas através do mercado pelo processamento de informações econômicas através de uma organização de planejamento. No passado, devido a limitações tecnológicas, a organização de planejamento procedia por meio de uma divisão do trabalho mental entre um grande número de pessoas. No futuro, o processamento de informações provavelmente será feito principalmente por meio de máquinas de computação.

Em nenhum dos casos – e aqui entra em jogo nossa crítica ao subjetivismo de Hayek – a informação estaria concentrada em uma única mente. No primeiro caso, obviamente ela não está na mente de um único trabalhador, mas nem sequer está nas mentes de um conjunto de trabalhadores. Em vez disso, a informação está principalmente nos seus registros escritos, formulários, livros-caixa, [planilhas de computador, bancos de dados relacionais,] etc. Estes registros constituem os meios indispensáveis para a administração. Desde as primeiras civilizações a construir templos na Suméria e no entorno do Rio Nilo, o desenvolvimento da administração econômica tem se baseado no desenvolvimento de meios de cálculo e registro. A mente humana entra como um registrador inicial de informações, e depois como um manipulador de informações registradas. Nos procedimentos de cálculo, cadeias de símbolos são lidas, transformadas e escritas. Os símbolos – sejam eles algarismos arábicos, entalhes em talis ou nós em um quipu – representam quantidades físicas de bens; suas transformações modelam os movimentos reais ou potenciais desses bens.

Ao colocar a questão nos termos da concentração de informações em uma única mente, Hayek remete a uma condição pré-civilizada, abstraindo-se dos processos reais que tornam possível qualquer forma de administração. Se, ao invés disso, sua objeção for sobre como nenhum sistema de administração poderia ter a capacidade de processamento de informações necessária para a tarefa, aí ele está sujeito ao ataque pelo fato da tecnologia da informação ter revolucionado a quantidade de informações que podem ser efetivamente administradas.

4.3 Formas de conhecimento

A dicotomia que Hayek opera entre as Ciências naturais e o domínio social também deixa sua marca na sua categorização das formas de conhecimento. Em sua visão existiriam apenas duas dessas formas: o conhecimento de leis científicas gerais e o conhecimento (subjetivo) de “circunstâncias particulares de tempo e de lugar”. Porém, esse esquema deixa de fora toda uma camada de conhecimentos que são cruciais para a atividade econômica – ou seja, conhecimento de tecnologias específicas, conhecimento capturado em projetos e esquemas, conhecimento capturado em software [13]. Esses conhecimentos não são redutíveis a leis científicas gerais (geralmente a transição à partir de uma teoria científica relevante para uma inovação industrial funcional não é um problema trivial), mas também não são tão específicos em relação a tempo ou lugar que se tornem de fato incomunicáveis. (Arrow, 1994) O licenciamento e a transferência de tecnologias num contexto capitalista mostram isso claramente. Esse esquema também deixa de fora a tendência da sociedade capitalista de capturar cada vez mais conhecimentos humanos em formas objetivas:

uma vez que o conhecimento de um trabalhador seja capturado como capital estrutural, você pode se livrar do trabalhador. No capitalismo industrial, o excedente da força de trabalho do trabalhador era expropriado, mas você tinha que reter o trabalhador por todo o tempo em que você quisesse fazer uso do trabalho dele. O trabalhador ainda possuía a sua força de trabalho e a vendia em troca de seus salários. Mas na nova economia, o conhecimento é tanto trabalho quanto meios de produção, ambos expropriados e transformados em capital estrutural para uso exclusivo da corporação. Assim, o capital intelectual pode ser totalmente alienado do trabalhador. Não apenas o valor do seu trabalho é roubado, mas o trabalho em si. Harris (1996)

Um registro central de tecnologias disponíveis formaria um componente essencial de um sistema de planejamento eficiente. Como essas informações seriam reunidas? Mais uma vez, a noção de conhecimento de Hayek como algo que existiria apenas “na mente” é um obstáculo à compreensão. De fato, hoje é uma prática quase universal que as empresas mantenham registros de suas entradas e saídas na forma de algum tipo de planilha de computador. Esses arquivos de computador formam uma imagem das características de insumos-produtos da empresa, uma imagem que é facilmente transferível. [14]

Um componente de um sistema de controle cibernético precisa ser distribuído. Claramente são as fábricas da Airbus quem possui as informações sobre quais peças são usadas para fabricar um A340; são as fábricas de carros [da Ford] quem possui as informações sobre quais peças são usadas para fabricar um Mondeo. Essas informações se aproximam do que Hayek chama de “conhecimento contextual” ou “tácito” – mas, é claro, esse conhecimento já não é mais conhecimento humano [no sentido de estar “na mente” de alguém].

Literalmente ninguém sabe quais peças entram na produção de um A340. Essas informações, vastas demais para um ser humano manipular, estão armazenadas em um banco de dados relacional. Em um estágio anterior do desenvolvimento industrial, elas teriam sido tratadas através de um complexo sistema de registros no papel. Novamente, o conhecimento seria objetivo – residindo em objetos e não em cérebros humanos. A própria possibilidade de uma atividade industrial coordenada em larga escala se baseia na existência de tal informação objetivada.

As informações para se expandir toda a lista de peças [diretas e indiretas] e para construí-las são geradas por um processo de projeto computadorizado dentro das fábricas em colaboração que compõem a Airbus Industrie. Em uma economia socialista controlada ciberneticamente, os dados da expansão completa da lista de peças para o A340, juntamente com os dados da expansão da lista de peças para os outros produtos, teriam de ser combinados computacionalmente para se chegar a um plano de produção equilibrado.

Além disso, até mesmo o tipo de conhecimento “específico” que Hayek pensava ser localizado demais para ser suscetível à centralização, hoje é centralizado de maneira rotineira. Tome o exemplo dele sobre as informações possuídas por transportadoras. Na década de 1970, a American Airlines alcançou a posição de maior companhia aérea do mundo, em grande parte graças à força que obtiveram com o desenvolvimento do seu sistema SABER de reservas de voo informatizadas. Gibbs (1994). Desde então, nos acostumamos com a possibilidade de acessar a Internet para determinar onde e quando haverá voos disponíveis, indo de praticamente qualquer ponto A para qualquer ponto B ao redor do mundo. [Isso para nem entrar em tantas outras informações desse tipo que hoje estão centralizadas em sistemas como os do Amazon, Uber, Google, LinkedIn, Facebook, etc etc] O apelo de Hayek ao conhecimento localizado neste tipo de contexto pode ter sido apropriado naquela época, mas agora está claramente desatualizado.

Não vamos, entretanto, contestar que algum conhecimento localizado, importante para a eficiência fina do sistema, pode muito bem ser específico demais para qualquer centralização significativa. Nossa objeção neste ponto é que Hayek parece ignorar a possibilidade de que esse tipo de conhecimento possa simplesmente ser usado de maneira local, sem prejuízo para o funcionamento de um plano central. A questão aqui diz respeito ao grau de recursividade do planejamento, isto é, a extensão em que os planos possam ser formulados em termos gerais pelas agências de planejamento superior, e especificados em detalhes cada vez mais completos por instâncias sucessivamente mais baixas ou mais localizadas. Nove (1977, 1983) argumentou de maneira persuasiva sobre como, no que diz respeito à composição da produção, o grau de recursividade de planejamento tende a ser pequeno. Se uma agência central definir metas de produção em termos agregados e deixar para as instâncias menores a especificação dos detalhes, o resultado será inevitavelmente incoerente. Na ausência do tipo de ligações horizontais entre as empresas que caracteriza o sistema de mercado, as empresas simplesmente não podem saber que tipo específico de produção será necessário, a menos que isso seja dito a elas pelas autoridades de planejamento. Isso pode ser concedido. [15] Mas a baixa recursividade em relação às decisões sobre a composição da produção não implica que todas as decisões relativas à produção devam ser tomadas de maneira centralizada. Considere o conhecimento, no nível da empresa, de quais trabalhadores específicos são melhores em quais tarefas; quem é o trabalhador mais rápido; quem é o mais confiável; e assim por diante (e da mesma forma com as máquinas específicas operadas dentro da empresa). Por que esse conhecimento não poderia simplesmente ser usado de maneira local para elaborar os cronogramas detalhados da empresa para atender a um plano de produção estabelecido pelo “centro”? Não é exatamente isso o que acontece no nível de cada unidade de produção no contexto do planejamento por uma grande empresa capitalista que se espalhe por várias instalações?

4.4 Desvantagens da dispersão

Tendo argumentado sobre como a centralização da maior parte das informações econômicas é factível, vamos agora considerar se isso seria desejável. Quando o cálculo econômico é visto como um processo computacional, as vantagens em se realizar esse cálculo de maneira distribuída ou descentralizada estão longe de serem evidentes; a questão depende de como se inter-relacionam uma multiplicidade de fatos sobre as possibilidades de produção em diferentes ramos da economia. As inter-relações entre esses fatos formam, parcialmente, uma imagem no campo das informações das inter-relações reais dos vários ramos da economia. Os produtos de uma atividade atuam como insumos para outra: esta é a verdadeira interdependência entre elas. Além disso, existem as interações potenciais, onde ramos de produção diferentes poderiam funcionar como usuários alternativos para os mesmos insumos.

É importante distinguir entre esses dois tipos de interações. O primeiro representa fluxos reais de materiais e é uma propriedade estática de uma fotografia da economia. O segundo, a variação nos usos potenciais dos bens, não é uma propriedade da economia real, mas do espaço de estados de todas as economias possíveis. Este último faz parte do problema econômico apenas na medida em que consideremos o problema como sendo uma busca por pontos otimizados [16] dentro deste espaço de estados. De acordo com a teoria econômica neoclássica, em uma economia de mercado, a evolução da economia real – as verdadeiras interdependências entre os ramos da economia – fornece o procedimento de busca através do qual esses pontos otimizados são buscados. A economia descreve uma trajetória através de seu espaço de estados; essa trajetória é o produto das trajetórias de todos os agentes econômicos individuais, com esses agentes individuais decidindo sobre sua próxima posição com base nas informações que obtêm do sistema de preços.

Seguindo com a metáfora de Hayek do sistema de preços como um sistema de telecomunicações ou como um maquinário para registrar mudanças, a economia de mercado como um todo age como se fosse um único processador analógico. [18] Ela representa um processador único, porque em qualquer ponto no tempo ela pode ser caracterizada por um único vetor de estado, que define a sua posição atual no espaço de estados do problema econômico. Além disso, esse processador opera com um tempo de ciclo muito lento, já que a transmissão de informações está limitada pela taxa de mudança nos preços. Para se produzir uma alteração nos preços, precisa haver uma mudança nos movimentos reais dos bens (aqui estamos abstraindo do pequeno número de mercados de futuros, altamente especializados). Assim, a velocidade de transmissão das informações está amarrada à velocidade na qual os bens reais podem ser movidos ou na qual novas instalações de produção podem ser colocadas em operação. Em suma, uma economia de mercado realiza uma busca de thread única (ou “monothread”) através de seu espaço de estados, com um conjunto de ajustes relativamente lentos para a sua posição [nesse espaço], com a velocidade dos ajustes  sendo determinada pela rapidez com que a economia real pode se mover.

***

Agora compare isso com o que potencialmente pode ser feito se os fatos relevantes puderem ser concentrados, não em um lugar – isso seria impossível -, mas dentro de um pequeno volume de espaço. Se as informações forem reunidas em uma ou mais máquinas de computação, elas poderão pesquisar o espaço de estados possíveis sem qualquer alteração na economia real.

Aqui a questão sobre se iremos ou não concentrar as informações torna-se muito relevante. É uma propriedade básica do universo que nenhuma parte dele possa afetar outra em menos tempo do que a luz leva para se propagar entre elas. [18] Suponha que alguém tenha todas as informações relevantes espalhadas por uma rede de computadores por todo o país. Suponha que qualquer um desses computadores pode enviar uma mensagem para qualquer outro. Suponha que essa rede seja agora instruída a simular os estados possíveis da economia, a fim de buscar um estado otimizado. A evolução de um estado simulado para outro poderia prosseguir tão rapidamente quanto os computadores pudessem trocar informações sobre seu próprio estado atual. Dado que os sinais elétricos entre eles viajam na velocidade da luz, este sistema de computação será muito mais rápido do que a velocidade em que uma economia real pode evoluir.

4.5 Quando a centralização ajuda

Se o planejamento será implementado usando supercomputadores centrais, ou uma rede distribuída de máquinas locais, ou ainda alguma combinação de ambas as opções, isso é uma questão essencialmente pragmática relacionada à tecnologia disponível. Já vimos acima, nos exemplos sobre a construção de um Airbus A340, que um componente do sistema de controle precisa necessariamente ser distribuído. Contudo, existem algumas vantagens práticas na centralização de certas instalações de cálculo e de controle.

A velocidade com a qual um aparato complexo de tomada de decisões pode funcionar depende tanto da rapidez com que a informação pode se propagar através dele, quanto da rapidez com que seus componentes individuais podem responder a essa informação. Um dos argumentos contra o sistema de mercado é que os sinais de preços que ele transmite têm, exceto nos mercados financeiros, uma taxa de propagação relativamente lenta. Isso porque as mudanças nos preços geram mudanças na produção e sua freqüência está limitada pela taxa na qual a capacidade produtiva pode ser ajustada. Isto implica num ciclo temporal relativamente longo e muito dispendioso – normalmente medimos os ciclos de negócios como tendo uma duração entre 3 e 7 anos.

Em contraste, um sistema de planejamento cibernético poderia resolver as implicações em bens intermediários e em bens de capital de uma mudança na demanda dos consumidores em questão de horas ou dias. O quão rápido ele funcionaria dependeria se o cálculo usasse técnicas de computação distribuídas ou centralizadas. No primeiro caso, ela ocorreria através do intercâmbio de mensagens entre computadores locais; no segundo, os dados da expansão das listagens de componentes para os diferentes produtos seriam transmitidos para um único centro de processamento para serem manipulados por supercomputadores com alto grau de paralelismo. [considerando os data farms de Googles e Facebooks, não haveria nada de novo nisso em nossa época – ver a nota  19]

Se usarmos processadores paralelos distribuídos de maneira ampla, a velocidade da computação tende a ser notavelmente mais lenta do que quando usamos máquinas paralelas bem acopladas. Se a computação exige uma inter-comunicação extensiva de informações – como é o caso para o cálculo de equilíbrio econômico – então ela passa a ser limitada pela velocidade de transmissão das mensagens de uma parte do sistema computacional para outra. Um sistema de computação firmemente acoplado com n processadores tenderá a realizar seus cálculos mais rápido do que um sistema distribuído por uma rede de telecomunicações, com n processadores equivalentes. Isso ocorre porque os canais de comunicação entre os processadores são mais curtos no sistema fortemente acoplado – e, consequentemente, as mensagens (que viajam à velocidade da luz) percorrem o caminho entre os processadores em menos tempo.

Um sistema cibernético de controle econômico usando tecnologia computadorizada será mais rápido do que um sistema de mercado, uma vez que a transmissão eletrônica de mensagens entre centros de computação é muitas ordens de magnitude mais rápida do que um processo de ajuste de preços baseado na superestimação e na subestimação da demanda; porém, devido ao limite da velocidade da luz sobre as mensagens eletrônicas, há vantagens na centralização de parte do processo computacional no sistema cibernético. Em geral, se alguém deseja resolver um problema rapidamente, as informações necessárias devem ser colocadas no menor volume de espaço possível.


5 A coordenação econômica é tratável [computacionalmente]?

Pode-se levantar a objeção de que a própria escala do problema econômico seria tão grande que, embora fossem concebíveis em princípio, esses cálculos seriam irrealizáveis ​​na prática ((Hayek, 1955); ver também Nove (1983)). [20]

Dada a Tecnologia da Informação moderna, isso está longe de ser o caso, como demonstramos abaixo. No entanto, nossa argumentação se apoia em um conceito de equilíbrio muito diferente daquele utilizado por Hayek e pelos demais oponentes do socialismo nos anos 1930 – tanto os economistas neoclássicos quanto os da escola austríaca

O conceito de equilíbrio com o qual Hayek e seus oponentes – como Lange e Dickenson – estavam familiarizados era o conceito clássico de Equilíbrio Mecânico [na forma da Teoria do Equilíbrio Geral], uma posição única no espaço de estados no qual todas as forças que atuam sobre a economia entrariam em equilíbrio [com as demandas e as ofertas de todos os bens e serviços em perfeita correspondência]. Evidentemente, Hayek e a Escola Austríaca não acreditavam que esse equilíbrio jamais pudesse ser atingido; no entanto, a menos que [para eles] exista algum conceito de preço de equilíbrio, pelo menos por detrás dos panos, é difícil enxergar como se poderia supor que os preços nos dizem algo de útil. Se os preços de hoje não nos dissessem nada sobre os preços de amanhã, então eles não seriam fontes úteis  de conhecimento econômico.

Um conceito alternativo e mais moderno de equilíbrio é o do Equilíbrio Estatístico, como descrito por Farjoun e Machover (1983). Ele envolve a existência de distribuições estatísticas estáveis: por exemplo, uma dispersão estável de preços de mercado em torno dos valores-trabalho. O equilíbrio mecânico estatístico não é um ponto no espaço de estados, mas uma região definida por certas variáveis ​​macroscópicas, de modo que há um grande conjunto de condições microscópicas que são compatíveis com ele.

Segundo a visão neoclássica, Arrow e Debreu (1954) supostamente teriam estabelecido a existência de um equilíbrio do primeiro tipo para economias competitivas, mas como Velupillai (2003) demonstrou, sua prova se baseava em teoremas que só são válidos em matemática não-construtiva.

Por que importa se Arrow usou matemática construtiva ou não-construtiva?

Porque somente a matemática construtiva possui uma implementação algorítmica e a garantia de ser efetivamente computável.

E por que a computabilidade efetiva é importante?

Porque qualquer processo econômico pelo qual os preços sejam ajustados pela interação entre agentes que operam através da troca de informações precisa ser uma forma de cálculo efetivo, uma vez que estamos realizando o cálculo através de números representando preços e quantidades de bens. A não ser que o equilíbrio seja efetivamente calculável, no sentido de Church-Turing, não temos razão para supor que uma conjunto distribuído de agentes seria capaz de um dia chegar até ele.

Mas mesmo que

  1. possa se provar a existência de um equilíbrio mecânico para a Economia,
  2. possa ser demonstrado que existe um procedimento efetivo pelo qual esse equilíbrio possa ser determinado: ou seja, mesmo que o equilíbrio mecânico fosse, em princípio, computável,

Ainda há a questão de sua tratabilidade computacional. Qual seria a ordem de complexidade governando o processo computacional que chegaria à solução?

Pode ser que exista um equilíbrio, mas que todos os algoritmos para buscá-lo sejam NP-difíceis [21], isto é, os algoritmos podem ter um tempo de execução exponencial sobre o tamanho do problema. Deng e Huang (2006) demonstraram que esse é justamente o caso para o problema do equilíbrio econômico neoclássico. Os resultados deles poderiam, a princípio, parecer dar suporte à afirmação de Hayek (contra Lange) de que o problema do planejamento econômico racional seria computacionalmente intratável. No tempo de Hayek, a noção de complexidade NP ainda não havia sido desenvolvida, mas ele pareceria ter sido justificado retrospectivamente. Problemas com um custo computacional que cresce como Oen logo se tornam astronomicamente difíceis de se resolver.

Estamos falando em “astronômico” no sentido literal. É possível especificar rapidamente um problema NP-difícil que envolva uma busca entre mais possibilidades do que o número de átomos no universo antes de se chegar a uma resposta definitiva. Esses problemas, embora em princípio sejam finitos, estão além de qualquer solução prática. [22]

Mas essa faca corta dos dois lados: Por um lado, isso demonstra que nenhum computador de planejamento poderia resolver o problema neoclássico do equilíbrio econômico. Por outro lado, também demonstra que nenhum conjunto de milhões de indivíduos interagindo através do mercado poderia resolvê-lo, tampouco. Para a teoria econômica neoclássica, o número de restrições sobre o equilíbrio será proporcional, entre outras coisas, ao número de atores econômicos n. O recurso computacional constituído pelos atores será proporcional a n, mas se o problema é NP-difícil, então o custo computacional crescerá como en – os recursos computacionais crescem de maneira linear, os custos computacionais crescem de maneira exponencial. Isso significa que uma economia de mercado [considerada como um grande e único computador para realizar o cálculo econômico] nunca poderia ter recursos computacionais suficientes para encontrar seu próprio equilíbrio mecânico.

Disso segue-se que o problema de encontrar o equilíbrio neoclássico é uma miragem. Nenhum sistema de planejamento seria capaz de descobri-lo, mas o mercado também não o seria. O problema neoclássico do equilíbrio geral representa de maneira deturpada o que as economias capitalistas realmente fazem e também estabelece um objetivo impossível para o planejamento socialista.

Se deixamos de lado a noção de equilíbrio mecânico e a substituímos pelo conceito de equilíbrio mecânico estatístico, chegamos a um problema que é muito mais tratável. As simulações descritas por Wright (2003, 2005) mostram como uma economia de mercado pode convergir rapidamente para um equilíbrio mecânico estatístico. No entanto, isso ocorre porque a regulação pela lei do valor é computacionalmente tratável [como podemos ver mais abaixo, na seção 6.2]. Esta mesma tratabilidade pode ser explorada por um sistema de planejamento socialista. O planejamento econômico não precisa resolver o problema impossível do equilíbrio geral neoclássico; ele precisa apenas aplicar a lei do valor de maneira mais eficiente do que o sistema de mercado [pois, como podemos ver na seção 6.2, ela possibilita a coordenação de ambos os sistemas].

5.1 Milhões de equações de planejamento podem ser resolvidas?

Se assumirmos que a economia mantenha alguma forma de mercado para os bens de consumo, como proposto por Lange, para fornecer informações sobre as demandas finais dos consumidores, então o processo para derivar um plano equilibrado é tratável.

Tomemos um exemplo muito simples, uma economia formada por apenas 4 tipos de bens, que chamaremos de pão, milho, carvão e ferro. Para se extrair o carvão, tanto o ferro como o carvão são utilizados como insumos; para se fazer pão precisamos de milho para a farinha e do carvão para assá-lo no forno; para cultivar o milho, precisamos de ferramentas de ferro e de sementes de milho; a fabricação do próprio ferro exige carvão e outros implementos de ferro. Podemos descrever essa economia como um conjunto de quatro processos:

1 tonelada de ferro ← 0,05 tonelada de ferro + 2 toneladas de carvão + 20 dias de trabalho

1 tonelada de carvão ← 0,2 tonelada de carvão + 0,1 tonelada de ferro + 3 dias de trabalho

1 tonelada de milho ← 0,1 tonelada de milho + 0,02 tonelada de ferro + 10 dias de trabalho

1 tonelada de pão ← 1,5 tonelada de milho + 0,5 tonelada de carvão + 1 dias de trabalho

Vamos assumir, seguindo Lange (1938), que a agência de planejamento tenha uma estimativa atual da demanda dos consumidores pelos produtos finais. Os planejadores começam com a produção líquida necessária para atendê-la. Essa estimativa é mostrada na primeira linha da Tabela 5.1.1. Assumimos que 20.000 toneladas de carvão e 1.000 toneladas de pão são os bens de consumo requeridos.

Eles então estimam quanto ferro, milho, carvão e mão-de-obra serão consumidos diretamente na produção do produto final: 2.000 toneladas de ferro, 1.500 toneladas de milho e 4.500 toneladas adicionais de carvão.

Eles adicionam os insumos intermediários ao produto líquido para obter uma primeira estimativa do uso bruto de bens. Uma vez que essa estimativa envolve a produção de mais ferro, carvão e milho do que havia sido estimado inicialmente, eles repetem o cálculo para obter uma segunda estimativa do uso bruto de bens.

Cada vez que eles repetem o processo, obtêm uma exigência total diferente de ferro, milho, carvão e de mão-de-obra, como mostrado na Tabela 5.1.1.

Tabela 5.1.1: Convergência da produção bruta até a exigida para o produto líquido final

Ferro Carvão Milho Pão Horas  de Trabalho Passo
0 20000 0 1000 0 produto líquido esperado
2000 24500 1500 1000 61000 adicionando primeira estimativa de uso bruto
2580 29400 1650 1000 129500
3102 31540 1665 1000 157300
3342 33012 1666 1000 174310

.. .. .. .. .. passos omitidos

3708 34895 1667 1000 196510
3708 34895 1667 1000 196515
3708 34896 1667 1000 196517 convergência completa na 20ª estimativa de uso bruto

Isso confirma as afirmações de Hayek de que as equações necessárias para o planejamento socialista seriam insolucionáveis?

Não, pelo contrário. As respostas diferem a cada etapa, mas as diferenças entre as sucessivas respostas são cada vez menores. Eventualmente, após 20 tentativas neste exemplo, os planejadores obtêm um resultado consistente: se a população pretende consumir 20.000 toneladas de carvão e 1.000 toneladas de pão, então a produção bruta de ferro deve ser de 3.708 toneladas, a de carvão deve ser 34.896 toneladas e a de milho, 1.667 toneladas.

É possível escalar esse processo até o número de bens produzidos em uma economia real?

Embora os cálculos seriam incrivelmente tediosos para se fazer à mão, eles seriam facilmente automatizáveis. A Tabela 5.1.1. foi produzida executando o algoritmo computacional apresentado no Apêndice A. Para que o planejamento detalhado seja viável, precisamos saber:

  1. Quantos tipos de bens uma economia produz.
  2. Quantos tipos de insumos são usados para se produzir cada produto.
  3. Quão rápido seria um programa de computador executando o algoritmo para a escala de dados fornecidos em (1) e (2).

A Tabela 5.1.2 ilustra o efeito da execução do algoritmo de planejamento em um computador pessoal barato, modelo de 2004. Determinamos o tempo de cálculo para economias cujo número de indústrias variou de mil a um milhão. Duas suposições diferentes foram testadas quanto à forma como o número médio de insumos utilizados para se produzir um bem se relaciona com a complexidade da economia.

Está claro que o número de insumos utilizados diretamente para se fabricar cada produto é apenas uma pequena fração da gama de bens produzidos em uma economia. Também é plausível que à medida que a complexidade industrial se desenvolve, o número médio de insumos usados para se produzir cada produto também crescerá, mas mais lentamente. Na primeira parte da Tabela 5.1.2 assume-se que o número médio de insumos (M) cresce como a raiz quadrada do número de produtos finais (N). Na segunda parte da tabela, supõe-se que o crescimento de M siga uma lei logarítmica em relação a N.

Table 5.1.2: Tempos para aplicação do algoritmo de planejamento no Apêndice A para modelar economias de diferentes tamanhos. Os tempos foram medidos em um Intel Zeon de 3 Ghz rodando Linux, com 2 GB de memória.

Indústrias Média de Insumos Tempo de CPU Requisito de Memória
N M segundos bytes

Lei M = √N

1,000 30 0.1 150KB
10,000 100 3.8 5MB
40,000 200 33.8 64MB
160,000 400 77.1 512MB
320,000 600 166.0 1.5G

Lei M = log N

1,000 30 0.1 150KB
10,000 40 1.6 2.4MB
100,000 50 5.8 40MB
1,000,000 60 68.2 480MB

Pode-se ver que os tempos de cálculo são modestos, mesmo para modelos econômicos muito grandes. O oponente aparentemente intimidador que são as equações para 1 milhão de bens, se rende graciosamente ao modesto computador doméstico. O fator limitador nos experimentos foi a memória do computador. O maior modelo testado exigiu 1,5 Gigabytes de memória. Uma vez que o espaço de dados utilizável por um processador Pentium 4 é no máximo 2 Gigabytes, modelos maiores teriam exigido um computador mais avançado, de 64 bits.

O experimento foi até 1 milhão de produtos. O número de produtos industriais na economia soviética foi estimado por Nove (1983) em cerca de 10 milhões. Nove acreditava que esse número era tão enorme que de fato descartaria qualquer possibilidade de se construir um plano equilibrado e desagregado. Isso pode muito bem ter sido verdade com a tecnologia informática disponível na década de 1970, mas a situação é agora muito diferente. Um único PC de mesa de 2004 poderia calcular um plano de produção desagregado para uma pequena economia como a Suécia em alguns minutos.

Suponha que queiramos planejar uma economia de escala continental. Uma economia como essa pode muito bem chegar a 10 milhões de produtos. Vamos supor que o número médio de insumos utilizados para se produzir cada produto é bem grande – digamos, 2000. Com base na tabela 5.1.2, isso exigiria um computador com 80 Gigabytes de memória: 6000 euros a preços de 2006. Usando um único processador de 64 bits, modelo de 2006, a computação levaria em torno de uma hora.

O algoritmo que apresentamos foi pensado para usar um único processador, mas o problema se presta muito bem à paralelização. Um cluster de PCs Beowulf  – custando em torno de 40.000 euros em 2006 – poderia provavelmente reduzir o tempo de computação para menos de 10 minutos. Algoritmos mais sofisticados, capazes de alocar estoques de capital fixo, possuem uma complexidade e tempo de execução comparáveis. [23]

O tempo necessário para o cálculo é suficientemente curto para que uma agência de planejamento possa, se assim o desejar, ser capaz de realizar a operação numa base diária. Ao realizar esse cálculo, os planejadores chegariam às várias escalas de produção em que a economia de mercado deveria operar, se fosse capaz de alcançar um equilíbrio. Diante de uma mudança exógena, os planejadores poderiam calcular a nova posição de equilíbrio e emitir diretivas para as unidades de produção para que mudassem sua operação diretamente para ela. Esta mudança direta envolverá a movimentação física de bens, a construção de instalações, a adaptação de edifícios, etc, e, portanto, levará um tempo considerável.

Temos agora dois tempos, o tempo de cálculo e o tempo de ajuste físico. Se assumirmos que o cálculo será realizado por meio de um algoritmo iterativo [24], descobrimos que, na prática, ele convergirá aceitavelmente dentro de algumas dezenas de iterações. Uma vez que cada uma dessas iterações levaria alguns minutos em um supercomputador, o tempo total provavelmente seria inferior a uma hora. Numa economia de mercado, mesmo adotando as suposições mais favoráveis sobre sua capacidade de se ajustar de forma estável de volta ao equilíbrio, as próprias iterações individuais levarão um tempo proporcional ao tempo de ajuste físico. O período de relaxamento geral [ou seja, o período até o equilíbrio ser atingido novamente, depois de uma mudança exógena] seria cerca de algumas dezenas de vezes maior que o período de relaxamento para o sistema planejado (assumindo algumas dezenas de passos até a convergência).

[Ao contrário da visão de Hayek, que ainda é mantida pela maioria dos seus seguidores (onde num sistema socialista as decisões econômicas se dariam em intervalos discretos e com um longo período entre elas, em contraste com a energia gerencial necessária no dia-à-dia da administração empresarial em um sistema de mercado), com a possibilidade de operação diária desse cálculo, em busca dos ajustes necessários para responder às mudanças na realidade econômica, o modelo da operação do planejamento democrático socialista se aproximaria daquele observado em sistemas atuais como o controle de tráfego aéreo, ou a operação diária do setor de TI no ambiente de produção dos processos eletrônicos de uma empresa capitalista, com o acompanhamento constante dos mais diversos indicadores sobre a produção e sobre o consumo dos bens. Até certo ponto, essa visão já estava presente, por exemplo, no incipiente projeto Synco/Cybersyn, que buscava estabelecer, com a tecnologia disponível no Chile do início dos anos 70, as condições para uma operação de gestão socialista e democrática da produção (apesar da impossibilidade de cálculos num sentido semelhante ao discutido neste artigo). É claro, com o golpe militar de Pinochet (ironicamente, apoiado por Hayek) e com o massacre subsequente, o projeto foi imediatamente abandonado, antes que pudesse dar resultados significativos. ]


6 Preços como um Sistema de Telecomunicações

Os preços, segundo Hayek, fornecem o sistema de telecomunicações da economia, um meio pelo qual o conhecimento é difundido e disseminado. Mas quão adequado é esse sistema de telecomunicações e quanta informação ele pode realmente transmitir?

O exemplo de Hayek sobre o mercado de estanho exige um exame mais cuidadoso. Antes disso, dois pontos preliminares devem ser estabelecidos.

Em primeiro lugar, o sistema de mercado de fato consegue atingir um certo grau de coordenação das atividades econômicas. A “anarquia do mercado” (como diz Marx) está longe de ser um caos completo. No final, através da flutuação dos preços, a lei do valor atua. As flutuações dos preços em relação aos seus valores funcionam para regular a alocação de mão-de-obra entre os ramos de produção.

Em segundo lugar, mesmo em uma economia planejada, sempre vai haver espaço para o desapontamento das expectativas, pois projetos que pareciam promissores nas previsões podem acabar se revelando fracassos e assim por diante. Falhas de coordenação não se limitam aos sistemas de mercado.

Dito isso, no entanto, está claro que Hayek exagera enormemente o seu argumento. Para que alguém possa tomar decisões racionais em relação às mudança no uso do estanho, é preciso saber se o aumento no preço tende a ser permanente ou se seria uma questão passageira – e isso exige que se saiba por que o preço subiu. O sinal do preço atual por si só nunca é o bastante. Será que o estanho ficou mais caro temporariamente, devido, digamos, a uma greve dos mineiros de estanho? Ou será que estamos nos aproximando do esgotamento das reservas disponíveis de imediato? Ações que seriam racionais em um caso serão muito inapropriadas no outro.

Os preços em si fornecem o conhecimento adequado para o cálculo racional apenas se estiverem nos seus níveis de equilíbrio de longo prazo – mas é claro, para Hayek, eles nunca estão nesse nível. Neste ponto, vale a pena fazer referência à teoria sobre o ciclo comercial do próprio Hayek [25], em que a “desinformação” transmitida pelos preços em desequilíbrio pode causar distorções macroeconômicas muito substanciais. Na teoria do ciclo comercial de Hayek, o preço em desequilíbrio que pode causar esse dano é a taxa de juros, mas claramente o mesmo tipo de argumento também se aplica ao nível micro: na busca descentralizada pela maximização dos lucros, respostas a preços insustentáveis para o estanho ou para placas de memória RAM são igualmente capazes de gerar investimentos inadequados e, consequentemente, caos.

No mínimo, é possível dizer que os preços carregam informações sobre os termos nos quais várias mercadorias podem ser trocadas atualmente, por meio da mediação do dinheiro (contanto que os mercados “fiquem limpos” [ou seja, que se chegue a preços em que todos os produtos sejam vendidos], o que nem sempre é o caso). Porém, disso não se segue que o conhecimento dessas relações de troca seria o bastante para que os agentes pudessem calcular sua lucratividade, quem dirá para calcular a utilidade social de se produzir várias mercadorias. Uma mercadoria pode ser produzida com lucro se o seu preço exceder a soma dos preços dos insumos necessários para produzi-la, usando o método de produção que produza a menor soma possível [para o produtor] – mas o uso dos preços correntes nesse cálculo seria legítimo apenas em um contexto: ou os preços seriam imutáveis ​​ou a produção e a venda levariam tempo zero. Hayek, é claro, enfatiza a mudança constante como regra, de modo que dificilmente ele estaria em posição para aceitar esse tipo de suposição. Se a produção da mercadoria x de fato será lucrativa – ou não -, isso depende não só dos preços atuais, mas também dos preços futuros; e se a produção de x parece lucrativa atualmente, isso depende das expectativas atuais sobre os preços futuros.

Se partirmos do pressuposto de que os preços quase certamente não permanecerão inalterados no futuro, como se espera que os agentes formem as suas expectativas?

Uma possibilidade é que eles sejam capazes de reunir informações relevantes suficientes para fazer uma previsão definitiva sobre as mudanças que devem ocorrer. Essa opção claramente exige que os agentes conheçam muito mais do que apenas os preços atuais: eles precisam conhecer o processo pelo qual os preços são formados e estabelecer previsões sobre a evolução dos vários fatores (no mínimo dos mais importante deles) que influenciam a determinação do preço. Nesse caso, portanto, o minimalismo informacional de Hayek é violado de maneira substancial.

Uma segunda possibilidade é aquela descrita por Keynes (1936, especialmente no capítulo 12): os agentes estão tão “no escuro” sobre o futuro que, embora tenham certeza de que algumas mudanças (não especificadas) irão ocorrer, eles recorrem à convenção de assumir que os preços de amanhã serão iguais aos de hoje. Isso permite que eles formem uma avaliação convencional da lucratividade da produção de várias mercadorias, usando apenas as informações dos preços atuais; porém, o custo desta abordagem (do ponto de vista de um defensor da eficiência do mercado) é o reconhecimento de que essas avaliações antecipadas frequentemente – e talvez substancialmente – estarão erradas.

***

Os preços de fato transmitem informações objetivas sobre os custos sociais da produção: por entre os ruídos das flutuações nos preços, brilha o sinal do valor. Por causa disso, eles realmente podem funcionar como um regulador da produção – as divergências dos preços acima ou abaixo dos seus valores [no equilíbrio de longo-prazo] podem servir para atrair ou para repelir recursos de mão-de-obra para dentro ou para fora dos vários ramos da produção. Agora, uma coisa é reconhecer que isso é possível, outra é avaliar a sua importância na regulação da economia. Os preços estabelecidos não são o único sistema de telecomunicações que a economia possui; os pedidos reais de mercadorias são um outro: As empresas definem preços e então recebem pedidos, que são especificados em quantidades. Se um gerente administrativo prestasse atenção apenas nos preços em que as coisas são vendidas e ignorasse as quantidades encomendadas, a empresa não sobreviveria por muito tempo. À princípio, não é possível afirmar que o sistema de preços ou o sistema de quantidades é mais significativo na regulação da economia.

Para isso, seria preciso saber o quão flexíveis as empresas realmente são para ajustar seus preços em resposta às vendas e, em seguida, comparar isso com a frequência com que elas ajustam suas ações em resposta a mudanças nos pedidos. Considere um supermercado, por exemplo: quantos ajustes de preço ele realiza em um dia, em comparação com o número de novos pedidos quantitativos que ele apresenta para o seu depósito?

Ou então considere uma fábrica de televisores: com que frequência a fábrica responde aos pedidos com uma alteração no preço, em comparação com a frequência com que reage ajustando o nível atual da produção?

Considere um engenheiro projetista que precisa decidir quais componentes usar em um novo receptor para TVs digitais. Será que o engenheiro deve basear a sua escolha apenas nos preços dos componentes, ou deveria levar em conta informações como disponibilidade, quais são os estoques mantidos pelos fornecedores, a existência de fontes alternativas?

A importância relativa do canal dos preços e do canal das quantidades na comunicação interempresarial é uma questão em aberto, que poderia ser respondida ou através de estudos empíricos das práticas empresariais, ou por meio de simulações multi-agentes, semelhantes às descritas em Cockshott et. al (2009) [26], mas que fossem estendidas para incorporar tabelas de insumos/produtos codificando os fluxos entre as indústrias. Diante de tal modelo, seria possível variar as regras usadas pelas empresas para responder aos pedidos entre variantes nas quais as empresas respondessem principalmente aos sinais de quantidade e outras em que as empresas respondessem principalmente aos sinais de preço. Investigações iniciais de um dos autores do livro parecem indicar que as empresas que se apoiam mais na sinalização dos preços podem estar sujeitas a instabilidades catastróficas. Flutuações nas entregas podem levar ao colapso das principais indústrias e ao travamento de toda a economia.

[Não podemos ignorar que o canal dos preços e o canal das quantidades também não são (e cada vez passam mais longe de o ser) os únicos mecanismos para comunicação, coordenação e para gerar “incentivos que farão os indivíduos fazerem as coisas desejáveis sem que ninguém tenha que lhes dizer o que fazer”. Como apontam Phillips e Rozworzki (2019),

Mesmo ignorando que o sistema de preços está inevitavelmente ligado à produção de desigualdades e à exploração, a tese de Hayek de que apenas os preços poderiam facilitar a “ação à distância” é cada vez menos plausível hoje em dia. Redes de cabos, torres e ondas de rádio cruzam a Terra com o único propósito de possibilitar fluxos de informação cada vez mais abundantes. Há trilhões e trilhões de dados – sobre tudo, desde sobre como usamos as coisas, até o que pensamos sobre elas e quais recursos foram usados para produzi-las – que poderiam formar os fundamentos de informações para decisões que não sejam baseadas no mercado sobre usos futuros dos recursos. ]

6.1 Perda de Informação

Hayek certamente tem razão ao dizer que os preços envolvem uma economia de informação, já que o processo pelo qual um preço é formado é redutor de entropia. [27] Se considerarmos uma tabela de insumos/produtos, vemos que ela é uma matriz quadrada. [ver a nota 12] Para uma economia com n produtos, uma tabela de insumos/produtos completa conteria n2 números. No entanto, os preços desses produtos podem ser codificados em um vetor de apenas n números distintos. Vamos supor que a entropia das interconexões [entre os ramos] de uma economia HI esteja codificada em relação à tabela de insumos/produtos; assim, a entropia do vetor de preços HP cresce de acordo com a lei

HP ≈ √ HI

Veremos mais adiante que esse tratamento superestima um pouco a entropia das interconexões, mas está claro que há uma substancial redução de informações acontecendo aqui [pois a maior parte das informações das interconexões entre os ramos da economia, que se manifestam na entropia das interconexões, se perde na passagem para a entropia do vetor de preços].

6.2 Por que os preços funcionam?

Portanto, como uma estrutura de informação tão reduzida pode funcionar para regular a economia? Como ela pode funcionar se permite que “produtores individuais observem apenas o movimento de alguns ponteiros”?

Vamos agora deixar de lado a importância relativa dos canais de preço e de quantidade sobre os fluxos de informação econômica, e nos concentrar em como um único vetor de preços pode atuar como regulador para uma complexa matriz de fluxos intersetoriais. Parece haver duas razões básicas pelas quais isso pode funcionar:

1. A universalidade do trabalho humano significa que é possível associar a cada mercadoria um único número escalar – o preço -, que indiretamente representa a quantidade de trabalho que foi usada para produzi-la. Os desvios dos preços relativos à partir dos valores relativos podem, portanto, permitir que a mão-de-obra se mova de onde ela é menos socialmente necessária para onde ela é mais socialmente necessária. Mas isso só é possível porque toda atividade econômica se reduz, no fim das contas, a atividades humanas. Se esse não fosse o caso, um único indicador não seria suficiente para regular o consumo de insumos, que fundamentalmente seriam de dimensões diferentes. É apenas porque em última análise a dimensão de todos os insumos é o trabalho – direto ou indireto – que os preços podem regular as atividades.

2. Outra resposta está na tratabilidade computacional de sistemas de equações lineares.

Considere o método que oferecemos em Cottrell e Cockshott (1993) para calcular os valores de mão-de-obra das mercadorias a partir de uma tabela de insumos/produtos. Nesse método, fazemos uma estimativa inicial do valor de cada mercadoria e então usamos a tabela de insumos/produtos para fazer estimativas sucessivamente mais precisas. O que temos aqui é um sistema de funções iterativas onde aplicamos repetidamente uma função ao vetor de valores para chegar a um novo vetor de valores. Como esse processo de mapeamento [de um vetor de valores anterior para um novo vetor de valores] se trata de um exemplo de uma transformação contrativa afim [28] (ou transformação contrativa linear), o sistema funcional possui um atractor para o qual ele converge (para uma discussão sobre sistemas desse tipo, ver Barnsley (1988), em particular o Capítulo 3). Esse atractor é o sistema de valores-trabalho. O sistema precisa constituir uma transformação contrativa afim porque qualquer economia viável precisa ter um produto excedente líquido no seu setor básico; assim, um erro inicial na estimativa do valor de um insumo é distribuído por uma quantidade maior de mercadorias no produto final – e, portanto, após uma iteração, o erro percentual deve diminuir.

O processo que descrevemos na forma de algoritmo em Cottrell e Cockshott (1993) é o que acontece de maneira distribuída em uma economia real, à medida em que os preços estão sendo formados. As empresas somam seus custos salariais, os custos dos outros insumos, adicionam uma margem de lucro e, assim, definem seus preços. Esse algoritmo distribuído, que hoje é executado por uma combinação de pessoas e de computadores nas empresas, é estruturalmente semelhante àquele que descrevemos: Ele também constitui uma transformação contrativa afim que converge para um vetor de preços [29]. O seu atractor exato não é relevante neste ponto; o que é relevante é que o sistema funcional iterativo possui um atractor estável.

Esse atractor estável existe porque o processo de produção econômica pode ser bem aproximado por uma transformação contrativa linear aplicada por partes, no espaço dos preços ou dos valores. Se fosse o caso de que os processos de produção fossem sistemas plenamente não-lineares, de modo que a produção de alguma mercadoria – digamos, o milho – fosse uma função polinomial [ao invés de uma função linear/afim], o sistema funcional iterativo seria altamente instável, e a evolução de todo o sistema de preços seria completamente caótica e imprevisível. Nesse caso, os preços seriam inúteis como um guia para a atividade econômica. Sobre a instabilidade de tais sistemas, ver Becker e Dorfler (1989) ou Baker e Gollub (1990).

Nenhum dos dois fatores acima é específico a uma economia de mercado. O trabalho [humano] é o principal recurso universal em qualquer sociedade, antes da robotização total. [30] Pela versão completa da tese de Church-Turing [31], se um problema puder ser resolvido por um conjunto distribuído de computadores humanos, então ele poderia ser resolvido por um Computador Universal – se o problema for tratável por uma coleção distribuída de seres humanos, também é tratável por algoritmos, quando o cálculo for realizado pelos computadores de uma agência de planejamento socialista. Os próprios fatores que tornam o sistema de preços relativamente estável e útil são os fatores que tornam o cálculo econômico socialista um problema tratável. A computação do valor da mão-de-obra de cada produto é um problema tratável [32]; portanto, os valores-trabalho poderiam ser usados como base para a precificação em uma economia planejada – transmitindo basicamente as mesmas informações transmitidas pelos preços.

[Tendo demonstrado que os fatores que possibilitam a regulação da economia pelos preços no mercado são justamente os mesmos que garantem que a regulação da economia diretamente pelos valores-trabalho das mercadorias seja um problema tratável, é possível retornar, com mais propriedade, às questões já discutidas nas seções 4.4 (Desvantagens da dispersão), 4.5 (quando a centralização ajuda) e 5 (a coordenação econômica é tratável computacionalmente?). Na versão de 2007/2009 do artigo, aquelas seções estavam localizadas neste ponto, mas preferi manter a organização mais próxima do artigo original e colocá-las como continuação da discussão sobre os argumentos de Hayek contra a centralização do processamento das informações.]


7 Fluxos de informação em economias de mercado e em economias planejadas

7.1 Preços, eficiência e métodos de produção

Uma das características progressistas do capitalismo é como o processo da concorrência força um certo grau de convergência para métodos de produção de menor custo (mesmo que o custo em questão seja o custo monetário da produção, que reflete o custo social de maneira parcial e distorcida). Hayek nos lembra, e com razão, que essa convergência pode de fato passar longe de ser completa: empresas produzindo a mesma mercadoria (e talvez até mesmo usando as mesmas tecnologias básicas) podem coexistir por longos períodos, apesar de terem custos de produção bastante divergentes. Se a lei do único preço se aplicar aos produtos em questão, os produtores menos eficientes terão lucros menores e/ou pagarão salários mais baixos. Essa situação pode persistir, dado que a mobilidade de capital e da força de trabalho estão longe de serem perfeitas.

Surge a questão de saber se a convergência para as melhores práticas poderia ser forçada de maneira mais efetiva num sistema planejado. Talvez seja o caso: se todos os trabalhadores forem pagos a uma taxa uniforme pelo trabalho realizado, será impossível para os produtores ineficientes mascarar sua ineficiência pagando salários baixos. De fato, com o tipo de sistema de contabilidade de tempo de trabalho que defendemos em outros lugares (Cottrell e Cockshott (1989), (1993)), os diferenciais na eficiência produtiva ficarão aparentes de imediato. Não só isso, mas deve haver uma gama mais ampla de mecanismos para eliminar os diferenciais, uma vez que eles sejam notados. Uma empresa privada pode perceber que um concorrente está produzindo a um custo menor, mas a não ser que estejamos falando de espionagem industrial, ela pode não ter como descobrir como sua concorrente tem alcançado essa capacidade; a convergência de eficiência, se é que ela será alcançada, pode ter de esperar até que o produtor menos eficiente seja expulso do mercado e sua participação no mercado seja usurpada por seus rivais mais eficientes. No contexto de um sistema planejado, por outro lado, alguns dos gerentes ou especialistas técnicos de empreendimentos mais eficientes poderiam, por exemplo, ser destacados como consultores para empreendimentos menos eficientes. Também podemos imaginar – na ausência do sigilo comercial – uma Wikipédia abrangendo toda a economia, na qual as pessoas preocupadas com a operação de tecnologias específicas, ou com a produção de produtos específicos, poderiam compartilham suas dicas e truques para a maximização de eficiência. A atual popularidade desse tipo de atividade entre usuários de computadores [na própria Wikipédia; em projetos de código aberto; em fóruns de assuntos diversos; em tutoriais escritos, em áudio ou em vídeo; etc] sugere que isso poderia facilmente ser generalizado.

7.2 Quantas informações são necessárias?

Um dos argumentos mais fundamentais de Hayek é sobre como o funcionamento eficiente de uma economia envolve o uso de uma grande quantidade de informações distribuídas, e que a tarefa de centralizar essas informações seria impossível, na prática.

Nesta seção, tentamos aplicar um teste quantitativo sobre esse argumento: Nós comparamos os custos implícitos para a transmissão das informações em um sistema de mercado e em um sistema planejado; e examinamos como os respectivos custos crescem em função da escala da economia. O custo de comunicação é uma medida do trabalho realizado para centralizar ou para disseminar as informações econômicas: usaremos aqui o aparato conceitual da teoria algorítmica da informação (Chaitin, 1999) para medir esse custo.

Nossa estratégia é, primeiro, considerar o problema dinâmico sobre quão rápido uma economia pode se estabilizar, e com qual sobrecarga de comunicação. Demonstraremos que isso pode ser realizado de maneira rápida e com menores custos de comunicação pelo sistema planejado. Consideramos, inicialmente, a dinâmica de convergência para uma meta fixa, já que o sistema de controle com o impulso mais rápido rumo à resposta também será o mais rápido para seguir o encalço de um alvo em movimento.

***

[No trecho abaixo os autores usam a teoria algorítmica da informação para chegar a uma fórmula que estabeleça o mínimo de informações que precisariam ser transmitidas para que uma economia pudesse, à partir de uma configuração arbitrária, convergir até um ponto de equilíbrio, no sentido da solução de um sistema de equações Sraffianas. Como já vimos na seção 5, a ideia de “equilíbrio”, no caso, é atingir algum estado dentro de uma região de equilíbrio estatístico mais próxima da configuração atual no espaço de estados da economia – e não um ponto de equilíbrio mecânico de todas as variáveis, como na teoria do equilíbrio geral neoclássico. Nesta seção, os autores não estão preocupados em demonstrar que tal equilíbrio existe para ambos os sistemas – estão assumindo que sim.]

Considere uma economia E = [A, c, r, w] com n produtores, cada um produzindo produtos distintos usando a matriz de tecnologias A [ou seja, uma matriz indicando todas as tecnologias e técnicas utilizadas para se produzir cada produto – neste contexto, basicamente, a tabela de insumos/produtos]; com um vetor bem definido de gasto de consumo final c [ou seja, o vetor final com o consumo de todos os bens produzidos], que é independente dos preços dos n produtos, com uma taxa de salários w dada de maneira exógena, e uma taxa de lucros compatível, r. Então, existe uma possível solução Sraffiana e = [U, p] onde U é a matriz de fluxos de mercadorias [ou seja, todas as ligações entre as indústrias, com as relações dos produtos de um processo de produção que servem como insumos para outros processos de produção, com as quantidades correspondentes, na situação de equilíbrio Sraffiano] e um vetor de preços p [com os preços de todos os produtos na situação de equilíbrio Sraffiano]. Vamos assumir, como é o caso na aritmética comercial, que todas as quantidades são expressas com alguma precisão finita, em vez de serem números reais. Quantas informações são necessárias para se especificar esta solução?

Os argumentos que se seguem são relativamente insensíveis ao modo exato pelo qual especificamos as condições iniciais a partir das quais uma solução deve ser buscada – isso porque consideramos que existe a convergência no espaço das informações. É importante observar que em outro lugar já expressamos nosso ceticismo sobre a existência de uma taxa de lucro dada, como supõe a teoria Sraffiana. Não estamos preocupados em mostrar que uma economia capitalista de fato convergeria a uma solução; isso pode ser deixado para os economistas neoclássicos e neo-ricardianos. Independente se essa tendência à convergência realmente existe ou não, vamos considerar que isso acontece, para seguir com o argumento atual.

Assumindo que temos algum método eficiente de codificação binária, e que I(s) é uma medida em bits do conteúdo de informação da estrutura de dados s, codificada usando esse método; então, a solução pode ser especificada como I(e) – ou, como a solução em certo sentido está dada pelas condições iniciais, ela pode ser especificada por I(E) + I(ps) onde ps é um programa para resolver um sistema arbitrário de equações Sraffianas. Em geral, temos I(e) ≤ I(E) + I(ps) [Ou seja, a medida (em bits) das informações codificando a solução vai ser menor, ou no máximo igual à medida das informações codificando as condições iniciais arbitrárias da economia, somada à medida das informações codificando o programa para solucionar um sistema arbitrário de equações Sraffianas, para se chegar àquela solução]. A seguir, vamos assumir que [a medida de informações da solução] I(e) seria especificada por I(E) + I(ps) [Ou seja, estamos assumindo a situação máxima para a relação que vimos acima].

Seja I(x|y) a informação condicional ou relativa de x, dado y (ver Chaitin (1987)).  A informação condicional associada a qualquer configuração arbitrária da Economia, k = [Uk, pk], pode então ser expressa em relação à solução e, como I(k|e). [Ou seja, a informação condicional da diferença entre a configuração arbitrária k e a configuração da solução e] Se k estiver na vizinhança de e devemos esperar que I(k|e) ≤ I(k). [Ou seja, podemos esperar que a medida em bits para codificar as informações condicionais da diferença entre a configuração arbitrária k e a configuração da solução e vai ser menor – ou no máximo igual – a medida em bits das informações necessárias para codificar a configuração arbitrária k por completo] Por exemplo, suponha que possamos derivar [para uma configuração arbitrária k, a matriz de fluxos de mercadorias (com todas as ligações entre as indústrias)] Uk à partir de A [a matriz de tecnologias com a tabela de insumos/produtos da economia] e de um vetor de intensidades uk especificando a taxa na qual cada indústria opera; então:

I(k|e) ≤ I(uk) +I(pk) +(pu)

onde pu é um programa para se computar [a matriz de fluxos de mercadorias] Uk à partir de um certo A [especificando a matriz de tecnologias] e de um certo [vetor de intensidades] uk [Ou seja, a medida em bits das informações condicionais da diferença entre a configuração arbitrária k e a configuração da solução e vai ser menor – ou no máximo igual – à soma entre as medidas em bits das informações necessárias para se codificar 1) o vetor de intensidades  uk (especificando a taxa na qual cada indústria opera) an configuração arbitrária k da economia; 2) o vetor de preços pk da configuração arbitrária k da economia; e 3) um programa pu para montar a matriz de fluxos de mercadorias Uk para a configuração arbitrária à partir da matriz de tecnologias A com a tabela de insumos/produtos da economia e do vetor de intensidades uk especificando a taxa na qual cada indústria opera na configuração arbitrária k]. Como Uk é uma matriz e uk é um vetor, ambos na escala de n [o número de produtores de produtos diferentes], podemos assumir que I(Uk) > I(uk) [Ou seja, como Uk é uma matriz de n colunas e muitas linhas; e uk é um vetor – ou seja, o mesmo que uma matriz de n colunas, mas apenas 1 linhas; então, fica claro que podemos assumir que a medida em bits das informações codificando a matriz Uk com os fluxos de mercadorias sempre será maior do que a medida em bits das informações codificando o vetor uk especificando as intensidades do funcionamento das indústrias para uma configuração arbitrária k da economia].

Conforme o sistema fosse convergindo rumo à uma solução, a informação condicional exigida para especificar [a diferença entre o estado atual e a solução] iria diminuindo, já que [o vetor de intensidades de funcionamento das indústrias para o estado atual] uk começaria a se aproximar de ue [, o vetor de intensidades de funcionamento das indústrias no estado de solução]. [33] Intuitivamente, precisaríamos fornecer apenas o vetor de diferença entre os dois – e isso exigiria a codificação de cada vez menos informações, quanto menor a distância entre uk e ue. Um argumento semelhante se aplica aos dois vetores de preços pk [a relação dos preços na configuração atual] e pe [a relação dos preços na situação da solução]. Se assumirmos que o sistema segue uma lei dinâmica que o leva à convergência rumo a uma solução, então devemos ter a relação

I(kt + 1 | e) < I(kt | e)

[ou seja, se o sistema tende à convergência para uma solução, então para qualquer momento arbitrário t, a medida em bits das informações necessárias para codificar a informação condicional entre a configuração atual k e a solução e sempre será maior do que a medida em bits das informações necessárias para codificar a informação condicional entre a configuração da economia em qualquer momento posterior (por exemplo, t + 1) e a solução e].

***

Vamos agora construir um modelo da quantidade de informações que precisam ser transmitidas entre os produtores em uma economia de mercado, para direcioná-la rumo a uma solução. Para simplificar o modelo, vamos adotar as premissas de que todo o processo de produção leva uma etapa de tempo para ocorrer, e que todo o processo evolui de maneira síncrona. Vamos supor que o processo começa logo após a produção ter terminado, com a economia em algum estado aleatório de não-equilíbrio. Além disso, vamos supor que cada empresa começa com um determinado preço de venda de seu produto. Cada empresa i realiza o seguinte procedimento:

  1. Escreve para todos os seus fornecedores, perguntando pelos seus preços atuais;
  2. Responde a todas as solicitações de preços que recebe, enviando seu preço atual pi;
  3. Abre e lê todos os preços recebidos de seus fornecedores.
  4. Estima seu custo atual de produção por unidade.
  5. Calcula a lucratividade esperada com a produção.
  6. Se a lucratividade estiver acima da [taxa de lucros média] r, a empresa aumenta sua meta para a taxa de produção ui por alguma fração; se a rentabilidade estiver abaixo de r, é realizada uma redução proporcional.
  7. Agora ela calcula quanto de cada insumo j será necessário para sustentar essa produção.
  8. Envia para cada um dos seus fornecedores j, um pedido com a quantidade Uij de seu produto.
  9. Abre todos os pedidos que recebeu e

    (a) os totaliza.

    (b) Se o total for maior do que os produtos disponíveis, ela reduz proporcionalmente cada pedido para garantir que aquilo que a empresa de fato pode fornecer seja distribuído de forma justa entre seus clientes.

    (c) despacha os pedidos satisfeitos (mesmo que parcialmente) para seus clientes.

    (d) Se não tiver estoques remanescentes, a empresa aumenta o preço de venda de seu produto por alguma função crescente em relação ao nível de pedidos em excesso; enquanto que, se houver sobras no estoque, a empresa reduz o seu preço por alguma função crescente em relação ao estoque remanescente.

  10. Recebe todas as entregas de insumos e determina em que escala pode prosseguir com a produção nesse momento.
  11. Inicia a produção para o próximo período.

A experiência com modelos computacionais desse tipo de sistema indica que, se a disposição dos produtores para alterar os preços for grande demais, o sistema poderá ser extremamente instável. Vamos assumir que as mudanças de preços são suficientemente pequenas para garantir que ocorram apenas oscilações amortecidas. Assim, a condição para o movimento em direção à solução é que, em um conjunto suficientemente grande de pontos k no espaço de estados, o efeito médio de uma iteração do procedimento acima seja a diminuição do erro médio para cada variável econômica por algum fator 0 ≤ g <1. Sob tais circunstâncias, embora o tempo de convergência no espaço vetorial claramente siga uma lei logarítmica – convergir por um fator de D no espaço vetorial levará uma ordem de tempo de log 1/g (D) – no espaço da informação o tempo de convergência será linear, por causa da natureza logarítmica das medidas de informação. [no limite, uma função logarítmica pode ser aproximada por uma função linear] Portanto, se no tempo t a distância em relação ao equilíbrio é I(kt | e), a convergência para dentro de uma distância ε levará uma ordem de tempo de

I(kt | e) − ε   

_____________________

δ log ( 1 / g )

onde δ é uma constante relacionada com o número de variáveis econômicas que se alteram por um fator médio de g a cada etapa. O tempo de convergência para um ε pequeno, no espaço da informação, se aproximará portanto a uma função linear em relação a I(k | e), que podemos escrever como ∆ I(k | e). [pois como estamos falando de uma função que envolve a divisão por uma constante multiplicada por um logaritmo do fator médio de ajustes a cada iteração; e como o logaritmo, no limite, pode ser aproximado por uma função linear, então podemos pensar que todo o processo até a convergência também pode ser aproximado por uma função linear em relação à medida em bits da codificação da informação condicional de qualquer ponto arbitrário k até a solução e]

***

Estamos agora em posição para expressar os custos de comunicação para a redução da entropia condicional da economia por algum nível ε. Ocorre comunicação nas etapas 1, 2, 8 e 9c do procedimento. Quantas mensagens cada fornecedor deve enviar e quantas informações elas precisam conter?

Cartas enviadas pelo correio contêm muitas informações redundantes, por formalidade e por causa da forma das cartas: vamos supor que essa redundância seja eliminada, e que as mensagens sejam reduzidas apenas ao essencial. Toda a questão da forma da mensagem será tratada por meio de um único símbolo em um alfabeto limitado de tipos de mensagens: Uma solicitação de cotação de preço seria, portanto, o par [R, H], em que R é um símbolo indicando que a mensagem é uma solicitação de preço e H o endereço do solicitante; uma cotação de preço seria o par [Q, P] com Q indicando que a mensagem é uma cotação e P sendo o preço; de maneira semelhante, um pedido seria representado por [O, Uij], e junto de cada entrega de produtos haveria uma nota de despacho [N, Uij] indicando a quantidade real entregue, onde UijUij.

Se assumirmos que cada uma das n empresas tem, em média, m fornecedores, o número de mensagens de cada tipo, em cada iteração do procedimento, será nm. Como temos um alfabeto de tipos de mensagens (R, Q, O, N) com cardinalidade 4, esses símbolos podem ser codificados em 2 bits cada. Além disso, vamos assumir ainda que (H, P, Uij, Uij) podem ser codificadas em números binários de b bits. Assim, obtemos uma expressão para o custo de comunicações de uma iteração como sendo de 4nm (b + 2) [Pois a cada iteração do procedimento, 4 mensagens (nas etapas 1, 2, 8 e 9c) precisam ser enviadas por n produtores para seus m fornecedores, e cada mensagem possui 2 bits de identificação de tipo de mensagem e b bits de conteúdo da mensagem]. Levando em consideração o número de iterações [que  já vimos que se aproxima de uma função linear ∆I(k | e) em relação à medida em bits das informações condicionais da diferença entre a configuração k e a solução e], então o custo para a economia de mercado se aproximar da solução seria de

4nm (b + 2) ∆I(k | e)

***

Vamos agora comparar isso com o que seria necessário em uma economia planejada. Aqui o procedimento completo envolve dois procedimentos distintos, realizados pela empresa (socializada) e pela agência de planejamento. O modelo de economia socialista que estamos descrevendo aqui, grosso modo, é dado em Lange (1938) ou em Cottrell e Cockshott (1993).

As empresas fazem o seguinte:

  1. No primeiro período de tempo:

    (a) Enviam para a agência de planejamento uma mensagem listando seu endereço, seus coeficientes técnicos sobre seus insumos [que serão reunidos pela agência de planejamento para compor a matriz de coeficientes técnicos/tabela de insumos-produtos] e os estoques atuais de seus produtos.

    (b) Recebem instruções dos planejadores sobre quanto de cada um de seus produtos deve ser enviado para cada um de seus usuários.

    (c) Enviam os bens produzidos para seus usuários, junto de notas de despacho apropriadas.

    (d) Recebem os bens correspondentes como seus insumos, lêem as notas de despacho que os acompanham e calculam seu novo nível de produção.

    (e) Começam a produção.

  2. Elas então executam repetidamente a mesma seqüência, substituindo a etapa 1a por:

    (a) Enviam à agência de planejamento uma mensagem informando os estoques atuais de seus produtos.

A agência de planejamento realiza o procedimento complementar:

  1. No primeiro período:

    (a) Lê os detalhes dos estoques e os coeficientes técnicos de todos os seus produtores.

    (b) Calcula o ponto de equilíbrio e à partir dos coeficientes técnicos e da demanda final.

    (c) Calcula um caminho expresso (“turnpike path”, como descrito em Dorfman, Samuelson e Solow, 1958) à partir da estrutura de produtos atual para a estrutura de produtos no equilíbrio.

    (d) Envia para as empresas as diretrizes para que realizem entregas consistentes com a movimentação ao longo desse caminho.

  2. No segundo período e nos períodos subseqüentes:

    (a) Lê as mensagens informando em que medida as metas de produção foram atingidas.

    (b) Calcula um caminho expresso (“turnpike path”) à partir da estrutura de produtos atual para a estrutura de produtos no equilíbrio.

    (c) Envia para as empresas as diretrizes para que realizem entregas consistentes com a movimentação ao longo desse caminho.

Assumimos que com a tecnologia informática atual, os passos b e c podem ser realizados em um tempo pequeno em relação ao período de produção (ver seção 5.1).

Comparando os respectivos fluxos de informação, fica claro que o número de pedidos e de notas de despacho enviadas a cada iteração não varia entre os dois modos de organização da produção. A única diferença é que, no caso planejado, os pedidos vêm do centro, enquanto no caso do mercado eles vêm dos clientes. Essas mensagens serão novamente responsáveis por uma carga de comunicações de 2nm (b + 2).

A diferença é que no sistema planejado não há troca de informações de preço. Em vez disso, na primeira iteração, há uma transmissão de informações sobre estoques e coeficientes técnicos. Como qualquer coeficiente leva dois números para ser especificado, a carga de comunicações por empresa será: (1 + 2m) b. Para n empresas isso se aproxima do nm (b + 2) que era necessário para comunicar os dados dos preços.

A diferença está nas iterações subseqüentes, onde, se assumirmos que não há nenhuma alteração técnica [até que o sistema chegue numa solução], não há necessidade de atualizar os registros da matriz tecnológica da agência de planejamento. Durante as i -1 iterações subseqüentes, portanto, o sistema de planejamento precisa trocar apenas cerca da metade das informações trocadas pelo sistema de mercado. Além disso, já que a economia planejada segue em direção ao equilíbrio através de um caminho expresso (“turnpike path”), seu tempo de convergência será menor do que o da economia de mercado. Consequentemente, o custo de comunicação será de

2nm (b + 2) (2 + (i − 1))

quando i < ∆ I(k | e).

[Ou seja, a carga de comunicações de 2nm (b + 2) é multiplicada por (2 + (i – 1)) por que na primeira iteração ela é multiplicada por 2 (por que nesse caso temos a transmissão dos pedidos, notas de entrega juntamente dos coeficientes técnicos) mas, nas próximas i -1 iterações apenas o próprio custo de 2nm (b + 2) da transmissão de pedidos e notas de entrega serão incluídos.

Na prática, o custo informacional do sistema de mercado, de

4nm (b + 2) ∆I(k | e)

é praticamente o dobro do custo informacional do sistema planejado, de

2nm (b + 2) (2 + (i − 1))

]

***

A consequência é que, ao contrário das alegações de Hayek, a quantidade de informações que teriam de ser transmitidas em um sistema planejado é substancialmente menor do que para um sistema de mercado. A coleta de informações para a sua centralização é menos onerosa do que a correspondência comercial exigida pelo mercado. O erro de Hayek vem do foco exclusivo no canal de preços, excluindo o canal de quantidades. Além disso, o tempo de convergência do sistema de mercado é mais lento. As implicações de uma convergência mais rápida para a adaptação à condições de produção e de consumo em constante mudança, ao invés de condições estáveis, são óbvias.

Além do mais, é preciso observar que em nosso modelo para o mercado ignoramos qualquer informação que tenha de ser enviada através do sistema para fazer pagamentos. Na prática, com o envio de faturas, cheques, recibos, compensação de cheques, [crédito, débito, vouchers, comprovantes, cobranças,] etc., o fluxo de informações no sistema de mercado deve ser várias vezes maior do que as nossas estimativas. As maiores sobrecargas de comunicação das economias de mercado se refletem no número de funcionários de escritório que elas empregam – o que, por sua vez, deixa sua marca na arquitetura das cidades – do que eram testemunhas as diferenças entre os horizontes de Moscou e de Nova York na década de 1980.

7.3 O argumento sobre a dinâmica

Há algum sentido na concentração de Hayek sobre o aspecto dinâmico dos preços, sendo eles um meio para transmitir informações dinamicamente?

De certa forma, sim. Já demonstramos, em outro lugar, que o conteúdo de informações de um preço no Reino Unido é inferior a 14 bits. Considere o preço de uma xícara de café. Na teoria, esse preço pode ser escrito em poucos dígitos – digamos, 0.80 libras – o que implicaria que, em termos da teoria da informação, o preço transmitiria cerca de 7 bits de informação. Mas olhando mais de perto, é quase certo que isso ainda se trata de uma sobre-estimativa. Não apenas é provável que o preço seja arredondado para os 5 pence mais próximos – o que implica num conteúdo informativo de cerca de 5 bits – mas também o preço de ontem provavelmente foi o mesmo. Se o preço mudar apenas uma vez por ano, então, por 364 dias, a única informação que ele vai transmitir é o fato de que o preço não mudou. O conteúdo de informação nesse caso – log2 (364 / 365) – é de cerca de 0,0039 de um bit. Então, quando o preço muda, o seu conteúdo de informação é de log2 (1/365) + b onde b é o número de bits para codificar o aumento de preço. Para um aumento de valor razoável – digamos, de 10 pence – o total equivale a cerca de 12 bits. Assim, no dia em que o preço muda, ele transmite cerca de 3000 vezes mais informações do que em todos os outros dias do ano.

***

Portanto, é quase certo que a maior parte das informações em uma série de preços está codificada nas mudanças de preço. Do ponto de vista de alguém observando e reagindo aos preços, as mudanças são o que há de mais importante. Mas esse é um ponto de vista interno à dinâmica do sistema de mercado. É preciso se perguntar se a informação assim transmitida possui alguma importância mais geral. As mudanças de preço experimentadas por uma empresa em uma economia de mercado podem surgir de muitas causas diferentes, mas temos que considerar quais dessas causas representam informações que são independentes da forma social de produção.

Podemos dividir as mudanças entre aquelas que são resultados diretos de eventos externos ao sistema de preços e aquelas que são internas a ele. A descoberta de novas reservas de petróleo ou um aumento na taxa de natalidade afetariam diretamente os preços do petróleo ou das roupas de bebê – elas representam mudanças nas necessidades ou nas capacidades de produção da sociedade, e qualquer sistema de regulação econômica deve ter meios de responder a elas. Por outro lado, devemos levar em conta uma queda no preço das matérias-primas acrílicas e uma queda no preço das blusas de acrílico, entre as mudanças de de segunda e de terceira ordem geradas internamente, em conseqüência da queda dos preços do petróleo. Na mesma categoria entraria o aumento dos preços de moradia decorrentes de uma expansão do crédito, e de qualquer flutuação nos preços das ações ou a queda generalizada dos preços que marca o início de uma recessão. Todas essas são mudanças geradas pela dinâmica interna de um sistema de mercado e, portanto, são irrelevantes para a consideração de economias que não sejam baseadas no mercado.

É claro, Hayek está certo sobre como o problema do planejamento seria muito simplificado se não houvesse mudanças, mas disso não decorre que todas as mudanças de uma economia de mercado seriam problemas potenciais para uma economia planejada.

Demonstramos em outro lugar [e na seção 5] que o problema de computar as intensidades apropriadas de operação para todos os processos de produção – dada uma matriz de insumos-produtos totalmente desagregada e um vetor alvo com a demanda de produtos finais – está bem dentro da capacidade da tecnologia computacional atual. O tempo necessário para o cálculo é suficientemente curto para que uma agência de planejamento possa, se assim o desejar, ser capaz de realizar a operação numa base diária. [34] Ao realizar esse cálculo, os planejadores chegariam às várias escalas de produção em que a economia de mercado deveria operar, se fosse capaz de alcançar um equilíbrio. Diante de uma mudança exógena, os planejadores poderiam calcular a nova posição de equilíbrio e emitir diretivas para as unidades de produção para que mudassem sua operação diretamente na direção dela. Esta mudança direta envolverá a movimentação física de bens, a construção de instalações, a adaptação de edifícios, etc, e, portanto, levará um tempo considerável.

Temos agora dois tempos, o tempo de cálculo e o tempo de ajuste físico. Se assumirmos que o cálculo será realizado por meio de um algoritmo iterativo, descobrimos que, na prática, ele convergirá aceitavelmente dentro de algumas dezenas de iterações. Uma vez que cada uma dessas iterações levaria alguns minutos em um supercomputador, o tempo total provavelmente seria inferior a uma hora. Numa economia de mercado, mesmo adotando as suposições mais favoráveis sobre sua capacidade de se ajustar de forma estável de volta ao equilíbrio, as próprias iterações individuais levarão um tempo proporcional ao tempo de ajuste físico. O período de relaxamento geral [ou seja, o período até o equilíbrio ser atingido novamente, depois de uma mudança exógena] seria cerca de algumas dezenas de vezes maior que o período de relaxamento para o sistema planejado (assumindo algumas dezenas de passos até a convergência).

***

Mas é claro que essas premissas são favoráveis demais ao sistema de mercado, de maneira irrealista: Muito antes do equilíbrio ser atingido, novos choques externos já teriam ocorrido. Mesmo a premissa de que esse sistema busca o equilíbrio é questionável – há motivos demais para acreditarmos que, longe de ter uma dinâmica de estabilização, o sistema de mercado é passível de sofrer comportamentos oscilatórios ou caóticos.

Hayek deve ser elogiado por sua capacidade de tirar o melhor proveito de um argumento ruim, de transformar necessidades em virtudes. As instabilidades inevitáveis do mercado são disfarçadas como bênçãos; a própria crueza dos preços como um mecanismo de informação passa a ser vista como se protegesse as pessoas, de maneira providencial, contra a sobrecarga de informações.

[Parte dos parágrafos abaixo reproduziram trechos da seção 5.1 para completar o raciocínio. Achei melhor repetir, ao manter os trechos de versões diferentes do artigo, do que simplesmente remover os trechos de qualquer uma das seções e atrapalhar a compreensão dos argumentos apresentados em cada uma delas – que não deixam de ser complementares.]


8 Evolução e História

Hayek compara a “evolução espontânea” do sistema de preços com a artificialidade das tentativas conscientes de controlar o processo econômico, num contraste que ele acredita ser desvantajoso para os últimos. Naquilo que tem de melhor, essa comparação não é mais do que a máxima [inglesa] sobre como seria melhor “agarrar-se com força à enfermeira por medo de encarar coisa pior” [ou o provérbio português de que “mais vale o mal conhecido do que o bem por conhecer”]. No que tem de pior, essa ideia degenera em uma complacência panglossiana sobre a ordem existente. A resposta de Voltaire sobre terremotos – eles também são espontâneos – é bem apropriada. Mas embora não possamos esperar fazer mais do que prever os terremotos, não precisamos suportar seu equivalente econômico com o mesmo estoicismo.

Ao falar sobre “evolução espontânea”, Hayek sub-repticiamente escorrega em conotações da biologia, com suas associações de adequação da forma à função. Mas a analogia de uma economia de mercado com uma ordem evoluída naturalmente é superficial – tanto em relação ao seu funcionamento, quanto à sua gênese. Se considerarmos o funcionamento de uma economia de mercado como um procedimento de busca por um estado ideal [35], está claro que, embora haja um grande paralelismo acontecendo – muitas pessoas tomando decisões ao mesmo tempo -, permanece o fato de que a busca como um todo é um processo de thread única (ou “monothread”) . O espaço de estados  de toda a economia é um produto cartesiano dos espaços de estados de seus componentes [36] – e, no interior desse espaço de estados total, o sistema está localizado em um ponto único em cada momento no tempo. Portanto, o sistema como um todo pode visitar apenas um pequeno sub-conjunto das soluções possíveis [em cada nova etapa]; e progredir em direção a qualquer coisa diferente de um ótimo local [37] pressupõe uma topologia muito específica – e muito simples – para esse espaço.

Nesse sentido, o movimento de uma economia de mercado difere acentuadamente do processo de evolução biológica. Uma espécie evolui rumo à adaptação crescente ao seu ambiente através de um processo altamente paralelo. O espaço de estados, neste caso, consiste no código genético; mas uma espécie não está em uma única posição neste espaço em um determinado momento: ela está em tantas posições quanto há membros individuais da espécie, cada um com uma combinação única de genes. Uma espécie representa uma vizinhança no espaço genético; ela aplica um procedimento de busca paralela: milhões de combinações alternativas são produzidas e comparadas a cada geração. Embora uma economia de mercado possa emular isso até certo ponto na área de desenvolvimento de produtos dentro de mercados competitivos individuais, a economia como um todo atua como um processador único.

É igualmente inválido tratar a gênese do sistema mundial capitalista como um resultado evolutivo: ela é um resultado histórico, mas História e evolução não são a mesma coisa. A adaptação evolutiva é impossível sem variação, competição e seleção; para aplicarmos conceitos evolucionários nessa questão, seria necessário supor uma população substancial de sistemas econômicos internacionais existindo simultaneamente – e, na verdade, há apenas um. Por um tempo houve dois, dos quais apenas um sobreviveu. Essa não é uma amostra estatisticamente válida. Para que alguém pudesse dizer que uma ordem econômica estaria melhor adaptada do que outra, num sentido evolucionário, seria necessário um conjunto suficientemente grande para cancelar os efeitos estocásticos – um conjunto que deveria incluir, por exemplo, casos em que o sistema de mercado estivesse restrito a uma economia pobre e atrasada, cercada por um mundo socialista industrializado. [38]

A lógica da analogia com a evolução, ao contrário do que pensava Hayek, seria “deixar uma centena de flores desabrocharem”.


9 Conclusão

Argumentamos sobre como Hayek e seus seguidores têm superestimado enormemente as dificuldades em se realizar um planejamento socialista racional. A isso eles têm associado uma idéia exagerada sobre a eficácia do livre-mercado como regulador econômico. Seus erros teóricos fundamentais são:

  1. Falar sobre “informação” de maneira generalizada e não-quantitativa. Isso os leva a superestimar a importância das informações sobre os preços, quando comparadas com outros fluxos de informação que regulam as quantidades e as qualidades dos bens.
  2. Falar de um jeito vago sobre a intratabilidade do cálculo socialista, sem tentar sistematizar quais seriam essas dificuldades alegadas. Uma vez que se especifique quais cálculos devem realmente ser feitos, pode-se ver que essas objeções generalistas não possuem substância.

A coerência de uma economia é mantida basicamente por meio de trocas de informações regulares sobre quantidades de unidades materiais, em vez de monetárias. Na URSS, esses fluxos de informações sobre as unidades materiais eram coordenados por meio do sistema de planejamento. Sendo antagônicos a qualquer coisa que lembre (mesmo que levemente) os cálculos em espécie de Neurath (2004), os hayekianos têm subestimado sistematicamente a importância dessas medidas quantitativas na regulação econômica.

Os economistas ocidentais que haviam criticado o sistema socialista como ineficiente haviam previsto que a inauguração de uma economia de mercado levaria a um crescimento econômico acelerado na URSS. Em vez disso, ela regrediu de uma superpotência para ruínas econômicas. O sistema foi dominado pelo gangsterismo [e mesmo após a Rússia voltar a crescer, sob Putin, essa seguiu sendo a estrutura básica do poder na região, com a diferença de que Putin conseguiu dar organicidade e processo para esse gangsterismo.] As indústrias da ex-URSS entraram em colapso e ela experimentou incontáveis milhões de mortes prematuras, reveladas nas estatísticas de uma queda chocante na expectativa de vida (Tabela 9.1).

[Na maioria das antigas repúblicas menores da URSS e nos países do Leste Europeu que faziam parte do bloco socialista, nem mesmo essa organicidade no gangsterismo e retomada de um certo crescimento considerável foram observados – o que temos, mesmo depois de décadas de assimilação na União Europeia e pacotes de “liberalismo econômico”, é estagnação, crise constante, falta de perspectivas econômicas, migração em massa dos jovens e preponderância política da demagogia de Extrema Direita]

Uma disciplina menos segura de si do que a Economia poderia questionar sua hipótese inicial, depois de um experimento ter dado errado de maneira tão drástica.

Dois dos principais hayekianos contemporâneos, ao invés disso, têm tentado usar a distinção Searleana entre sintaxe e semântica para explicar este sinal de fracasso das recomendações dos economistas (Boettke e Subrick, 2002). Eles alegam que a terapia de choque na URSS mudou a sintaxe da economia, mas não a sua semântica:

“Só porque a estrutura política colapsou, não há razão para assumir que o mesmo ocorreu com a estrutura social. Os arranjos sociais persistiram antes e depois da queda do comunismo. Os reformadores e os conselheiros ocidentais não reconheceram que os países recém-libertados não eram uma tabula rasa. Em vez disso, eram países cujos moradores tinham crenças sobre o mundo e a estrutura da sociedade ”.

Essas crenças e atitudes que persistiram do socialismo seriam, assim, culpadas pelo colapso econômico [39]. A tentativa de Boettke e Subrick de seguir na direção da distinção entre sintaxe/semântica aplicada a uma sociedade é algo muito semelhante à distinção de Marx entre base e superestrutura [40]. Marx estava preocupado desde o início com o processo histórico de transição entre formas de economia – ou modos de produção.

Tendo se tornado proponentes da engenharia social, os economistas austríacos começaram, mesmo que de marcha ré, a invadir um território de preocupações tradicionais da Economia Marxista: as transições entre modos de produção. No entanto, eles se aproximaram do tema com um arcabouço teórico hostil ao objeto em estudo. Diante do fracasso manifesto de suas políticas [41], elas se vêem reduzidos ao uso de metáforas emprestadas da lingüística para explicá-lo.

Eles (e toda a Escola Austríaca) não estão dispostos a contemplar a possibilidade de estarem fundamentalmente errados em sua fé na capacidade de organização e de comunicação do mercado.

Ano Mortalidade Total

(1000s)

Excesso de mortes em relação a 1986

(1000s)

1986 1,498.0 0.0
1987 1,531.6 33.6
1988 1,569.1 71.1
1989 1,583.8 85.8
1990 1,656.0 158.0
1991 1,690.7 192.7
1992 1,807.4 309.4
1993 2,129.3 631.3
1994 2,301.4 803.4
1995 2,203.8 705.8
1996 2,082.2 584.2
1997 2,015.8 517.8
1998 1,988.7 490.7
1999 2,144.3 646.3
2000 2,225.3 727.3
2001 2,251.8 753.8
Total de mortes em excesso 6,711,200.0

Tabela 9.1: Mortes em excesso após a aplicação de políticas Hayekianas na Rússia


Apêndice A

Um programa de planejamento simples.

[Este algoritmo (em pseudocódigo) executa os cálculos iterativos de planejamento/balanceamento de plano de produção apresentados na seção 5.1. Uma implementação funcional em Java está disponível neste link.

Apesar do algoritmo abaixo utilizar uma Economia de exemplo que produziria apenas 4 bens (Ferro, Carvão, Milho e Pão, como definido no TipoBem”), e especificar diretamente a tabela de insumos/produtos entre esses bens (através das constantes “uso” e “insumos”), o vetor com a demanda final de consumo (através da constante “demanda” ), e o número de iterações para aproximação (20), seria fácil escalá-lo para aplicá-lo para qualquer número arbitrário de bens e de iterações. Em breve, pretendemos disponibilizar uma versão em Java implementando esse mesmo algoritmo de balanceamento, mas recebendo como parâmetros o número de bens que a Economia produziria, o número médio de insumos e o número de iterações para a aproximação. Essa nova versão usará os dois primeiros parâmetros para gerar dinamicamente a relação dos bens, a tabela de insumos/produtos entre eles e o vetor final de demanda de consumo, para que possamos simular a aplicação desse algoritmo de planejamento sobre Economias de diferentes tamanhos, como fizeram Cockshott e Cottrell na seção 5.1]

Programa planejamento_simples;

Tipos

Bem =( ferro , carvão, milho, pão, mão_de_obra);

Consumo = conjunto [Bem] de Número_Real ;

Constantes

uso: conjunto [Bem ,1..3] de Número_Real =(

( 0.05,2.0,20.0 ),

( 0.2,0.1,3.0 ),

( 0.1,0.02,10.0 ),

( 1.5,0.5,1.0 ),

( 0,0,0)

);

insumos: conjunto [Bem ,1..3] de Bem =(

( ferro, carvão, mão_de_obra ),

( carvão, ferro, mão_de_obra ),

( milho, ferro, mão_de_obra ),

( milho, carvão, mão_de_obra ),

( milho, carvão, mão_de_obra )

);

demanda :Consumo =( 0,20000,0,1000,0);

Variáveis

seja usados, anterior ∈  Consumo;

seja l ∈ Número_Inteiro;

Função calcular_etapa; // (ver a seção A.1 abaixo)

Começo

usados ←  demanda;

anterior ←  0;

escreva( ferro, carvão, milho, pão, mão_de_obra);

escreva(arredondar(usados));

para l ← 1 até 20 faça

calcular_etapa;

Fim.

A.1 calcular_etapa

Função calcular_etapa;

Este procedimento executa uma etapa do equilíbrio do plano adicionando os insumos usados para produzir a etapa anterior da iteração

Variáveis

Seja i, k ∈ Bem;

Seja j ∈ Número_Inteiro;

Seja temp ∈ Consumo;

Começo

temp ← 0;

para i ← ferro até mão_de_obra faça

para j ← 1 até 3 faça

k ←  insumos [i,j];

temp [k] ← temp [k] + (usados [i] – anterior [i]) × uso [i,j];

fim_para;

fim_para;

anterior ← usados;

usados ← usados + temp;

escreva(arredondar(usados));

Fim.


Notas

[1] Ou pelo menos sugerida por ambos: em nenhum dos casos esse argumento foi estabelecido em qualquer nível de detalhes.

[2] Nossas idéias foram apresentadas pela primeira vez em Cottrell e Cockshott (1989), e foram estabelecidas mais detalhadamente em Cockshott e Cottrell (1993). Cottrell e Cockshott (1993a) reexamina o histórico debate sobre o cálculo socialista, com ênfase nos argumentos de Mises e de Lange. Em Cottrell e Cockshott (1993b), enfatizamos as diferenças entre nossas propostas e o sistema que existiu na União Soviética. Os detalhes técnicos do algoritmo que propomos para o planejamento de curto e de médio prazo estão descritos em Cockshott (1990).

[3] O processo histórico pelo qual ideias de Hayek foram adotadas, direta ou indiretamente, por governos no centro e na periferia capitalista pode ser conferido em vários artigos listados na seção “Neoliberalismo – Passado, Presente e Futuro” de nossa coletânea sobre Mercados, Liberalismo Econômico e Neoliberalismo. [N.M.]

[4] Esse parágrafo foi foi alterado ligeiramente em relação ao original, pois na primeira versão do artigo essas objeções eram apresentadas como porque os leitores da revista onde o artigo estava sendo publicado poderiam não achá-lo relevante. Como esse parágrafo foi eliminado já mesmo na versão de 1997, tentei manter as ideias principais do mesmo, mas retirando o que o tornava específico à edição de 1994. [N.M.]

[5] E quem tem participado desse tipo de debate com os seguidores de Hayek nas redes sociais sabe muito bem que não só em 1994, 1997 ou em 2007 esses argumentos seguiam sendo repetidos por eles, mas mesmo em 2019. [N.M.]

[6] Ironicamente, ambos exemplos que foram radicalmente transformados através da digitalização da tecnologia do conhecimento e com a sua centralização em sistemas computadorizados com os avanços da computação nas últimas décadas. [N.M.]

[7] No sentido de que ocorre de tempos em tempos, de maneira bem definida e ritmada, como usado na Matemática Discreta. [N.M.]

[8] Esse sujeito racional (ou, como Anwar Shaikh o chama, “hiperracional(Shaikh, 2016)) está no núcleo dos sistemas teóricos tanto da corrente dominante na Economia, a Escola Neoclássica (ou Ortodoxa), quanto da corrente da qual Hayek faz parte, a Escola Austríaca (essa tese não é a única que ambas compartilham). Além das críticas indicadas por Cottrell e Cockshott no prosseguimento do artigo, em breve pretendemos publicar um artigo com um trecho de um capítulo do livro de Shaikh, em que ele apresenta uma crítica embasada em muitos estudos que contradizem cada versão da tese de “hiperracionalidade” dos agentes econômicos. [N.M.]

[9] Ver, por exemplo, “Boundary and Mortgage Stones from Attica” [“Pedras de Fronteiras e Hipotecas da Ática”], de H. J. W. Tillyard. [N.M.]

[10] Tome o exemplo caseiro das compras de Natal: Muitos de nós achamos impossível elaborar um plano completo para essas compras antecipadamente. Temos que ir às lojas, olhar para as mercadorias e seus preços, e ver o que nos chama a atenção. Nossas “funções de demanda” são reveladas a nós mesmos no ato da escolha.

[11] Mas mesmo neste ponto é possível que as coisas estejam mudando. Se formos pensar em todo o aparato de mineração de Big Data, e nos algoritmos de identificação de perfis utilizados por Google, Facebook ou Amazon para o envio de publicidade direcionada, segundo os interesses de cada usuário, ou mesmo a análise das massas de dados (teoricamente anônimos) agregados por muitas empresas sobre seus clientes para identificar os padrões de demanda de seus usuários, então mesmo essa questão da previsibilidade de uma “função demanda” agregada deixa de ser uma questão para a “telepatia” ou a magia, e passa a ser um elemento concreto do nosso dia-à-dia. Novamente, ao contrário das condições tecnológicas da época de Hayek – e por mais que seus seguidores insistam nos mesmos argumentos, como se ainda estivéssemos na década de 1940 -, não estamos falando aqui sobre sonhos para um futuro distante, e sim de técnicas que já são amplamente utilizadas pelas grandes empresas de tecnologia – não fosse assim, o Amazon não seria capaz de antecipar as suas compras baseado no cálculo das demandas pelos seus diferentes perfis de clientes, e nem o Google ou o Facebook seriam capazes de nos indicar publicidade personalizada. Os trabalhos de Cockshott e Cottrell sobre o planejamento socialista não se baseiam nesse tipo de identificação para a construção do seu vetor final de demanda, e sim nas compras agregadas de bens para o consumo final pelos cidadãos, mas nada impede que possamos refletir sobre possíveis usos desse tipo de tecnologia para auxiliar nesse processo, principalmente na antecipação de tendências menos imediatas em estudos para projetos um pouco mais longos. [N.M.]

[12]  Na matemática e na área de Estruturas de Dados na Ciência da Computação, um vetor é um conjunto de valores do mesmo tipo. Por exemplo, sendo

v1 = {30, 3, 12, 15}

v2 = {25, 100}

v3 = {19}

v1 é um vetor formado pelos valores 30, 3, 12 e 15; v2 é um vetor formado pelos valores 25 e 100; v3 é um vetor com um único valor, 19. A quantidade de elementos em um vetor pode variar de zero (um conjunto vazio) ao infinito inteiro positivo.

No caso mencionado no trecho do texto, o vetor-alvo de produção líquida seria o conjunto com as quantidades de cada produto, conforme demandado pela população. Essas quantidades seriam definidas através do próprio consumo e de proporções gerais definidas democraticamente, como indicado no texto.

***

A diferença entre um vetor e uma matriz é que o vetor possui apenas uma dimensão, enquanto a matriz é bi-dimensional – pode-se pensar no vetor como uma matriz de n colunas por 1 linha (n x 1); também pode-se pensar em uma matriz de n colunas por m linhas (n x m) como um sistema formado por m vetores ( n x 1 ) esse é o caso, por exemplo, do sistema linear formado pela matriz de insumos-produtos abordada no artigo: cada linha dessa matriz é um vetor que representa o processo de produção de uma unidade de um determinado produto (bem ou serviço), indicando a quantidade necessária de cada produto usado como insumo nesse processo de produção. Assim, a matriz de insumos-produtos completa inclui todos os vetores descrevendo os insumos necessários para se produzir 1 unidade de qualquer produto presente na economia. [N.M.]

[13] Seria anacrônico acusar Hayek de não enxergar o conhecimento codificado em softwares, mas mesmo na sua época já havia conhecimento na forma de programas de controle de máquinas automáticas – por exemplo, em rolos de pianola.

[14] É certo que tal imagem, por si só, não fornece qualquer informação sobre como, por exemplo, um conjunto particularmente favorável de relações de insumos-produtos poderia ser alcançado – apenas que essas relações são possíveis. Oferecemos alguns pensamentos adicionais sobre a transmissão desse conhecimento sobre os métodos de produção na seção 7.1 abaixo.

[15] Embora o argumento de Nove certamente seja exagerado em um aspecto: se o plano central exigir que a empresa A forneça o bem intermediário x para a empresa B, onde ele será usado na produção de algum outro bem y, e se os planejadores informarem A e B desse fato, então certamente há espaço para uma discussão horizontal entre as duas empresas sobre a especificação precisa do projeto de x, mesmo na ausência de relações de mercado entre A e B. [N.M.: Qualquer pessoa que já trabalhou em algum projeto de integração de sistemas entre duas empresas capitalistas diferentes sabe que é assim que esses projetos são realizados, mesmo sob o capitalismo.]

[16] no original, “optima”. Se algum seguidor da Escola Austríaca se apressar e, já neste momento, criticar a ideia da existência desses pontos otimizados, como se Cockshott e Cottrell estivessem falando do ponto de equilíbrio da teoria do equilíbrio geral dos neoclássicos, favor consultar a seção 5 e o conceito de Equilíbrio Estatístico, em oposição ao conceito de Equilíbrio Mecânico usado na teoria neoclássica (e criticado tanto por Austríacos quanto por Marxistas). [N.M.]

[17] Se tomarmos a teoria neoclássica nos seus próprios termos, o processador teria de ser analógico, já que os aspectos matemáticos da teoria neoclássica são expressos em termos de variáveis em números reais. De acordo com Velupillai (2003) isso enfraquece de maneira fundamental muitas das suas conclusões. Entretanto, Cockshott e Michaelson (2007) mostram  como a computação analógica com números reais é, por razões físicas, uma fantasia. Além do mais, todas as transações econômicas são realizadas utilizando quantidades inteiras de dinheiro.

[18] Na verdade, as pesquisas com o entrelaçamento quântico mostram que pode existir a possibilidade de se superar este limite, talvez até mesmo possibilitando condições para a comunicação instantânea entre pontos remotos no universo, mas ainda estamos longe de usos práticos desse conhecimento na computação diária. [N.M.]

[19] Vivemos em um mundo de serviços digitais e bancos de dados gigantescos, acessíveis de qualquer lugar com uma conexão de internet. Exemplos de sistemas distribuídos em escala global interligados através dessa infraestrutura de comunicações, e que envolvem estruturas de processamento desse tipo não faltam: o Google, um mecanismo de busca centralizado capaz de reunir e indexar cada página na internet e disponibilizar tudo isso para todo o mundo segundo os mais diversos critérios de busca; operadoras de cartão de crédito como Visa e MasterCard, capazes de usar cartões magnéticos e registros digitalizados para oferecer os serviços de compra e venda à crédito em praticamente qualquer loja física ou virtual no planeta; o mamute das lojas virtuais Amazon, cuja logística global garante uma agilidade gigantesca no despacho dos materiais e no gerenciamento de seus armazéns de estoque; o Uber, capaz de usar a localização por satélite dos celulares para calcular as melhores rotas, custos, tempo de corrida e os motoristas mais próximos para realizá-las; as cadeias logísticas globais dos sistemas de produção just-in-time, que estabelecem uma coordenação muito mais interconectada entre os processos dos vários nós na cadeia produtiva, eliminando a necessidade de estoques e transformando as antigas fábricas em unidades que na verdade se espalham por diversas empresas e fornecedores diferentes; o planejamento global centralizado de qualquer empresa transnacional; os centros monolíticos de processamento e de armazenamento de dados dos Googles e Facebooks da vida; para não falar nos sistemas de vigilância generalizada por agências como a NSA dos EUA. [N.M.]

[20] A referência específica aqui é à p. 43, e mais particularmente a nota 37 nas pp. 212-213, de “A Contra-Revolução da Ciência”. [na versão estadunidense] Na nota, Hayek apela ao julgamento de Pareto e Cournot, sobre como a solução de um sistema de equações representando as condições de equilíbrio geral seria inviável na prática. Talvez valha a pena enfatizar esse ponto, em vista da tendência dos defensores modernos de Hayek de minimizar a questão computacional.

[21] ver NP (Complexidade) e NP-Difícil. [N.M.]

[22] Pelo menos para o modelo computacional procedural digital. Ainda está em aberto se essa condição se manteria para modelos baseados em computação quântica. [N.M.]

[23] Ver Cockshott (1990), Cottrell e Cockshott (1993).

[24] Talvez para pessoas que não estejam muito familiarizadas com o jargão da Ciência da Computação essa palavra possa parecer estranha, mas “iteração” se refere à repetição, a processos que precisam ser executados repetidamente até que se atinja uma condição previamente estabelecida. No artigo essa palavra (e derivadas) aparece várias vezes. [N.M.]

[25] Hayek (1935); ver também Lawlor e Horn (1992) e Cottrell (1994).

[26] Na versão de 2007, que foi publicada como um capítulo do livro ( Classical Econophysics” (“Econofísica Clássica”)  ) os autores se referiam às simulações multi-agentes já abordadas em capítulos anteriores. [N.M.]

[27] A entropia mede o nível de liberdade dos movimentos dos elementos no interior de um sistema – em um sistema fechado, sem choques externos (e sem a presença de algum tipo de atractor que o traga para um estado de equilíbrio), a tendência é que a entropia sempre cresça. No caso do sistema de mercado, estamos falando da “liberdade” de variação dos preços pelos quais os bens e serviços são negociados; nesse caso, o processo de formação de preços induz à redução da entropia, pois ele propaga as mudanças dos preços entre os produtores, gerando novos níveis de preços tanto para os produtores dos bens diretos, quanto para os demais produtos na cadeia produtiva – e, com a concorrência, os ajustes nesses preços serão menos “livres”, fazendo com que os preços dos produtos tenham influência sobre os preços de muitos outros produtos).

Cockshott e Cottrell reconhecem nesse ponto que Hayek tem razão sobre a “economia de informação” no sentido de que, ao gerar essa redução da entropia na formação dos preços, o sistema de preços depende de menos informações do que se todos esses produtores tivessem de acompanhar os motivos, processos e tendências dos outros. [N.M.]

[28] no original, “contractive affine transform”. [N.M.]

[29] Evidências empíricas em Petrovic (1987), Ochoa (1989), Cockshott e Cottrell (1997), Michaelson et al. (1995), Shaikh (1998), Cockshott e Cottrell (2003) indicam que o vetor de preços para o qual esse processo converge encontra-se em algum lugar entre o vetor de valores-trabalho e o vetor de preços Sraffianos.

[30] Ou seja, antes de alcançarmos o Comunismo de Luxo Totalmente Automatizado! 😉 [N.M.]

[31] Toda função que pode ser computada fisicamente, pode ser computada por uma máquina de Turing. Informalmente, a tese de Church-Turing afirma que nossa noção de algoritmo pode ser feita com precisão, e que os computadores podem executar esses algoritmos. Além disso, um computador pode, teoricamente, executar qualquer algoritmo; em outras palavras, todos os computadores comuns são equivalentes entre si em termos de poder computacional teórico, e não é possível construir um dispositivo de cálculo que seja mais poderoso do que o computador mais simples (uma máquina de Turing).

[32] A complexidade computacional de se determinar iterativamente os valores-trabalho é relativamente baixa – significativamente menor do que o processo de computação de uma estrita inversão de matriz, que é a maneira como o problema normalmente está especificado na literatura. Um algoritmo ingênuo para a inversão de uma matriz possui complexidade N3, mas existem versões otimizadas com complexidade de N2.38 (ver Numerical Recipies Software (1988), pág. 104).

O método de aproximação iterativa tem complexidade de kN2, onde k é o número de iterações necessárias para se obter uma resposta aceitavelmente precisa. A resposta converge rapidamente, então resultados aceitáveis podem ser obtidos com k <10.

De fato as matrizes de insumos-produtos desagregadas tipicamente são [muito] esparsas, com a maioria dos elementos sendo zero, o que permite aumentos de velocidade adicionais, compactando os dados para omitir os elementos zero. A complexidade resultante é da ordem de kNM, em que M é o número médio de insumos diretos que são usados na produção de um bem. Para tabelas totalmente desagregadas, M cresce muito mais lentamente que N, então a complexidade geral é significativamente menor que N2.

[N.M.: ver a seção 4.2 do artigo dos mesmos autores sobre o debate do cálculo socialista]

[33] Observe que essa medida de informação da distância até o equilíbrio, baseada em uma soma de logaritmos, difere de uma medida euclidiana simples, baseada em uma soma de quadrados. A medida de informação é mais sensível a uma multiplicidade de pequenos erros do que a um grande erro. Por causa da equivalência entre informação e entropia, ela também mede a entropia condicional do sistema.

[34] Ao contrário da visão de Hayek, que ainda é mantida pela maioria dos seus seguidores (onde num sistema socialista as decisões econômicas se dariam em intervalos discretos e com um longo período entre elas, em contraste com a energia gerencial necessária no dia-à-dia da administração empresarial em um sistema de mercado), com a possibilidade de operação diária desse cálculo, em busca dos ajustes necessários para responder às mudanças na realidade econômica, o modelo da operação do planejamento democrático socialista se aproximaria daquele observado em sistemas atuais como o controle de tráfego aéreo, ou a operação diária do setor de TI no ambiente de produção dos processos eletrônicos de uma empresa capitalista, com o acompanhamento constante dos mais diversos indicadores sobre a produção e sobre o consumo dos bens. Até certo ponto, essa visão já estava presente, por exemplo, no incipiente projeto Synco/Cybersyn, que buscava estabelecer, com a tecnologia disponível no Chile do início dos anos 70, as condições para uma operação de gestão socialista e democrática da produção (apesar da impossibilidade de cálculos num sentido semelhante ao discutido neste artigo). É claro, com o golpe militar de Pinochet (ironicamente, apoiado por Hayek) e com o massacre subsequente, o projeto foi imediatamente abandonado, antes que pudesse dar resultados significativos. [N.M.]

[35] no caso de Hayek, mesmo que não seja o estado de equilíbrio geral dos neoclássicos, em que todos os mercados estariam em pleno equilíbrio de demanda e oferta, ainda assim seria um estado de coordenação muito bem estabelecida – como discutido na seção 5, podemos pensar aqui nesse estado ideal (ou “ótimo”) simplesmente como uma região de equilíbrio estatístico mais próxima. [N.M.]

[36] ou seja, o espaço de estados da Economia como um todo é formado por TODAS as combinações entre TODOS os movimentos/decisões econômicas possíveis para cada produtor. [N.M.]

[37] novamente, como vimos na seção 5, alcançar uma região de equilíbrio estatístico mais próxima no espaço de estados da economia. [N.M.]

[38] é interessante como esses dilemas se manifestam na ficção. Na série de quadrinhos “Superman – Entre a Foice e o Martelo” temos um exemplo fictício de um “sistema de mercado […] restrito a uma economia pobre e atrasada, cercada por um mundo socialista industrializado”, como indicado por Cockshott e Cottrell no trecho. Mark Millar, por melhor roteirista que possa ser, ao desenvolver o seu enredo, assume premissas semelhantes às de Hayek, e mostra o sistema de mercado revertendo essas condições e, sob a liderança do gênio da inovação e do empreendedorismo Lex Luthor, finalmente, se tornando o paradigma dominante de organização da humanidade – supostamente, o paradigma definitivo e ideal.

É claro que Mark Millar faz parte da geração que absorveu fundo a ideia de Fukuyama sobre como teríamos, com o fim da União Soviética, chegado ao “Fim da História”, com o sistema de mercado como sendo o ponto final e ideal no desenvolvimento das instituições humanas. Também é claro que, com todas as turbulências econômicas, políticas, sociais e ideológicas pelas quais o mundo vem passando desde 2008, sob o domínio do sistema de mercado, a tese de Fukuyama no início da década de 90 parece cada vez mais uma peça datada e risível – tanto que o próprio autor, mais de vinte anos depois, voltou atrás substancialmente em sua análise. [N.M.]

[39] Isso lembra a maneira como as “ervas venenosas do passado” na mente dos homens eram apontadas como explicação para os problemas econômicos na China durante a Revolução Cultural.

[40] É possível apresentar a objeção de que havia um caráter metafórico para essa distinção em Marx – e havia mesmo. Mas mais de um século de elaborações teóricas por outros marxistas deu um conteúdo teórico-social denso àquilo que antes eram metáforas arquitetônicas. Resta saber se a Escola Austríaca pode alcançar um desenvolvimento teórico similar da dicotomia sintaxe / semântica de Boettke.

[41] Sobre a qual dão uma admissão envergonhada, em Boettke e Subrick (2002 – seção 4):

Desde a queda do comunismo, os países do antigo bloco soviético têm passado por dificuldades extremas para realizar a transição para uma economia de mercado.


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Leituras Relacionadas

  • Planejando o Bom Antropoceno – [Leigh Phillips e Michal Rozworski] O mercado está nos levando cegamente a uma calamidade climática – o planejamento democrático é uma saída.
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  • Economia e Planejamento Soviéticos e as Lições na Queda – [Paul Cockshott e Allin Cottrel] “Desde os anos 90 temos sido bombardeados por relatos sobre como a queda da União Soviética seria uma prova definitiva da impossibilidade de qualquer forma de Economia Planejada racionalmente, de qualquer forma de Economia Socialista, de qualquer forma de Socialismo – e de que não existiria alternativa para organizar a produção e o consumo das sociedades humanas a não ser o Capitalismo de Livre-Mercado. Será mesmo?
  • Comunismo Verde Totalmente Automatizado – [Aaron Bastani] [O desafio das mudanças climáticas precisa de uma resposta à altura, que reconheça a sua dimensão, amplitude e a necessidade de mudanças profundas em nossas tecnologias, relações de produção, relações com a natureza, em nosso dia-a-dia e em nossas visões de mundo. Felizmente, depois de décadas de dominação quase absoluta do “realismo capitalista” e de suas propostas vazias de respostas à crise climática via mercado, vai se abrindo o espaço para uma proposta “populista” pela construção de uma alternativa radical que abrace a expansão e a democratização das tecnologias de energias renováveis, robótica fina, inteligência artificial, e produção aditiva como um projeto político a ser disputado, para a construção de uma sociedade focada na sustentabilidade e na socialização da abundância, do lazer, do bem-estar e da maior disponibilidade de tempo para as mais diversas atividades.]
  • Socialismo, Mercado, Planejamento e Democracia [Seth Ackerman, John Quiggin, Tyler Zimmer, Jeff Moniker, Matthijs Krul, HumanaEsfera] – “O socialismo promete a emancipação humana, com o alargamento da democracia e da racionalidade para a produção e distribuição de bens e serviços e o uso da tecnologia acumulada pela humanidade para a redução a um mínimo do trabalho necessário por cada pessoa, liberando seu tempo para o seu livre desenvolvimento. Como organizar uma economia socialista para realizar essas promessas?”
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  • Elon Musk Não é O Futuro [Paris Marx] – “Os dirigentes das grandes empresas de tecnologia estão nessa apenas por eles mesmos, não pelo bem público.
  • Bill Gates Não Vai Nos Salvar [E Nem Elon Musk] – [Ben Tarnoff] Quando se trata de tecnologia verde, apenas o Estado pode fazer o que o Vale do Silício não pode.
  • A Gente Trabalha Demais, Mas Não Precisa Ser Assim [Peter Frase] – “Entre os séculos XIX e XX os trabalhadores conquistaram o dia de trabalho de 10 horas e então o de 8 horas, mas depois da Grande Depressão a tendência parou. Do que precisaríamos para recuperar nosso tempo livre?”
  • Democratizar Isso [Michal Rozworski] – “Os planos do Partido Trabalhista inglês para buscar modelos democráticos de propriedade são o aspecto mais radical do programa de Corbyn, e um dos mais radicais que temos visto na política dominante em muito tempo.”
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  • Políticas Para Se ‘Arranjar Uma Vida’ [Peter Frase] – “O trabalho em uma sociedade capitalista é um fenômeno conflituoso e contraditório. Uma política para a classe trabalhadora tem de ser contra o trabalho, apelando para o prazer e o desejo, ao invés de sacrifício e auto-negação.
  • Renda Básica e o Futuro do Trabalho [David Raventós e Julie Wark] – “Não existe algo como a ‘dignidade do trabalho’. Não é o direito ao emprego, mas a uma existência material garantida que dá dignidade à vida humana.”
  • Viver, Não Apenas Sobreviver – [Alyssa Battistoni] “Os movimentos da classe trabalhadora devem colocar a reprodução social e ecológica no coração de sua visão do futuro.
  • Quatro Futuros: Vida Após o Capitalismo – [Peter Frase] “Crise climática”, “mudanças ambientais”, “robôs inteligentes”, “robôs tomando empregos”: os impactos da Crise Climática e de novas tecnologias de Automação de postos de trabalho para o nosso futuro comum vêm sendo cada vez mais discutidos. Se os avanços tecnológicos da “Quarta Revolução Industrial” (em especial em campos como Inteligência Artificial, Robótica avançada, fabricação aditiva, etc) forem o suficiente para automatizarmos a maior parte das atividades que hoje são empregos, reduzindo a um mínimo a necessidade de trabalho humano, a produção de mercadorias através de trabalho assalariado estará superada – e, portanto, estaremos falando do fim do Capitalismo; a questão então é o que virá depois. Será que a possibilidade de toda essa automação é o bastante para garantir que ela vai ocorrer? Qual seria o impacto disso sobre as vidas das pessoas? Como as questões ambientais/climáticas entram nesse quadro? E as relações de propriedade e produção capitalistas e a Política, especificamente a Luta de Classes? Que tipo de cenários podemos esperar à partir do fim do Capitalismo?
    • Tecnologia e Ecologia Como Apocalipse e Utopia [Quatro Futuros – Introdução] – [Peter Frase] “Muito se tem falado sobre os impactos da Crise Climática e de novas tecnologias de Automação de postos de trabalho para o nosso futuro em comum. Como as relações de propriedade e produção capitalistas e a Política, especificamente a Luta de Classes, se encaixam neste quadro? Será que a possibilidade de automação quase generalizada seria o bastante para garantir que ela ocorrerá? Qual seria o impacto dela sobre as condições de vida das pessoas? Com base nesses elementos, que tipo de cenários podemos esperar à partir do fim do Capitalismo?”
    • Comunismo Como Futuro Automatizado de Igualdade e Abundância[Quatro Futuros – Cap. 1 – Comunismo: Igualdade e Abundância] – [Peter Frase] “Um mundo em que a tecnologia tenha superado ou reduzido a um mínimo (e de forma sustentável) a necessidade de trabalho humano; em que esse potencial seja compartilhado com todos, eliminando a exploração e a alienação das relações de trabalho assalariado; onde as hierarquias derivadas do Capital tenham sido suplantadas por um modelo mais igualitário, agora capaz não só de sanar as necessidades de todos, mas de permitir o livre desenvolvimento de cada um, parece para muitos como um sonho de utopia inalcançável e ingênuo, onde não existiriam quaisquer conflitos ou hierarquias. Será mesmo?
    • Rentismo: Um Futuro Automatizado de Abundância Bloqueada Pela Desigualdade [Quatro Futuros – Cap. 2 – Rentismo: Hierarquia e Abundância] – [Peter Frase] Na penúltima parte da série sobre possíveis futuros após o fim do Capitalismo, – com o fim do uso de trabalho humano assalariado na produção de mercadorias, extrapolando as tendências atuais de aplicação de tecnologias como Inteligência Artificial, Robótica, Fabricação Aditiva, Nanotecnologia, etc – encaramos uma distopia em que as elites do sistema capitalista atual têm sucesso em manter seus privilégios e poderes, usando patentes e direitos autorais para bloquear e restringir para si o que poderia ser o livre-acesso universal à abundância possibilitada pelas conquistas do conhecimento humano num cenário em que a própria escassez poderia ser deixada para trás.
    • Socialismo Como Futuro Automatizado e Igualitário em Resposta à Crise Ambiental [Quatro Futuros – Cap. 3 – Socialismo: Igualdade e Escassez]– [Peter Frase] Se os avanços tecnológicos da Quarta Revolução Industrial (em campos como Inteligência Artificial, Robótica avançada, fabricação aditiva, etc) forem o suficiente para automatizarmos a maior parte dos empregos, reduzindo a um mínimo a necessidade de trabalho humano, a produção de mercadorias através de trabalho assalariado estará superada – e, portanto, também o capitalismo. Se isso for alcançado em uma sociedade mais igualitária, democrática, sustentável e racional, ainda assim é possível que teremos de nos organizar para lidar com o estrago deixado no planeta pelo sistema capitalista, planejando, executando e administrando  projetos gigantescos de reconstrução, geo-engenharia e racionamento de recursos limitados. Em outras palavras, provavelmente ainda precisaremos de algum tipo de Estado.
    • Exterminismo: ‘Solução Final’ Num Futuro Automatizado de Desigualdade e Escassez [Quatro Futuros – Cap. 4 – Exterminismo: Hierarquia e Escassez] – [Peter Frase] A cada semana somos bombardeados por notícias sobre avanços tecnológicos assombrosos, que prometem diminuir, e muito, a necessidade de trabalho humano nas mais diversas atividades. De fato, podemos imaginar que em algum momento no futuro teremos a necessidade de muito pouco trabalho humano na produção de mercadorias. Mas e se chegarmos nesse ponto ainda divididos entre podres de ricos e “a ralé”? E se os recursos naturais de energia e de matérias-primas não forem o bastante para garantir uma vida luxuriante para todos? E se, do ponto de vista dos abastados, os ex-trabalhadores passarem a representar apenas um “peso inútil”, ou até mesmo, um risco “desnecessário”? No último capítulo sobre possíveis futuros automatizados com o fim do Capitalismo, somos confrontados por uma distopia de desigualdade e crueldade cujas raízes já podemos notar em muitas tendências atuais.
    • Quatro Futuros [artigo original de 2011] – [Peter Frase] Uma coisa de que podemos ter certeza é que o Capitalismo vai acabar; a questão, então, é o que virá depois.
  • Lingirie Egípcia e o Futuro Robô [Peter Frase] – O pânico sobre automação erra o alvo – o verdadeiro problema é que os próprios trabalhadores são tratados feito máquinas.”
  • O Lamentável Declínio das Utopias Espaciais [Brianna Rennix] – “Narrativas ficcionais são um fator enorme moldando nossas expectativas do que é possível. Infelizmente, utopias estão atualmente fora de moda, como a tediosa proliferação de ficção distópica e filmes de desastre parece indicar. Por que só “libertarianos” fantasiam sobre o espaço hoje em dia?”
  • Obsolescência Planejada: Armadilha Silenciosa na Sociedade de Consumo[Valquíria Padilha e Renata Cristina A. Bonifácio] – O crescimento pelo crescimento é irracional. Precisamos descolonizar nossos pensamentos construídos com base nessa irracionalidade para abrirmos a mente e sairmos do torpor que nos impede de agir
  • Imaginários do Pós-Trabalho: Automação Completa, Renda Básica, Jornada de Trabalho e Ética do Emprego [Nick Srnicek e Alex Williams]  – “Uma Esquerda do século XXI deve procurar combater a centralidade do trabalho para a vida contemporânea. No fim das contas, nossa escolha está entre glorificar o trabalho e a classe trabalhadora ou abolir a ambas. […] Embora cada uma dessas propostas possa ser tomada como um objetivo individual em si mesmo, seu verdadeiro poder se expressa quando elas são levadas em frente como um programa integrado. Não se trata de uma reforma simples e marginal, mas de uma formação hegemônica inteiramente nova para competir com as opções neoliberais e social-democratas. A demanda pela automação completa amplifica a possibilidade de reduzir a semana de trabalho e aumenta a necessidade de uma renda básica universal; uma redução na semana de trabalho ajuda a produzir uma economia sustentável e a alavancar o poder de classe; e uma renda básica universal amplifica o potencial de reduzir a semana de trabalho e expandir o poder de classe. Também aceleraria o projeto da automação total: conforme a força dos trabalhadores aumentasse e o mercado de trabalho se tornasse mais apertado, o custo marginal da mão de obra aumentaria, à medida que as empresas se voltassem para a maquinaria, a fim de se expandir. Esses objetivos ressoam uns com os outros, ampliando seu poder combinado”
  • O Mito do Antropoceno [Andreas Malm] – Culpar toda a Humanidade pela mudança climática deixa o Capitalismo sair ileso.
  • Precisamos Dominá-la [Peter Frase] – “Nosso desafio é ver na tecnologia tanto os atuais instrumentos de controle dos empregadores quanto as precondições para uma sociedade pós-escassez.
  • O Socialismo Vai Ser Chato? – “O Socialismo não é sobre induzir uma branda mediocridade. É sobre libertar o potencial criativo de todos.
  • Tecnologia e Estratégia Socialista [Paul Heidmann] – “Com poderosos movimentos de classe em sua retaguarda, a tecnologia pode prometer a emancipação do trabalho, ao invés de mais miséria.
  • Modernidade de Esquerda: Por um Futuro de Progresso, Liberdade e Emancipação Universais [Nick Srnicek e Alex Williams] – “Sem uma concepção do futuro, a esquerda se limita à defesa da tradição e à proteção de bunkers de resistência. Como seria então uma modernidade de esquerda? Seria uma que oferecesse visões sedutoras e expansivas de um futuro melhor; ela operaria com um horizonte universal, mobilizaria um conceito substancial de liberdade e utilizaria as tecnologias mais avançadas para atingir seus objetivos emancipatórios. Em vez de uma visão eurocêntrica do futuro, ela contaria com um conjunto global de vozes articulando e negociando na prática o que um futuro comum e plural pode ser. Operando através de revoltas de escravos, lutas operárias, revoltas anticoloniais ou movimentos de mulheres, os críticos dos universalismos sedimentados sempre têm sido agentes essenciais na construção do futuro pela modernidade; são eles quem tem continuamente revisado, se revoltado e criado um “universalismo a partir de baixo”. Contudo, para permitir verdadeiramente a libertação de futuros no plural, a atual ordem global, baseada no trabalho assalariado e na acumulação capitalista, terá de ser transcendida primeiro. Uma modernidade de esquerda, em outras palavras, requer a construção de uma plataforma pós-capitalista e pós-trabalho sobre a qual múltiplos modos de vida possam emergir e florescer. “
  • Os Robôs Vão Tomar Seu Emprego? [Nick Srnicek e Alex Williams] – “Com a automação causando ou não uma devastação nos empregos, o futuro do trabalho sob o capitalismo parece cada vez mais sombrio. Precisamos agora olhar para horizontes pós-trabalho.”
  • Robôs e Inteligência Artificial: Utopia ou Distopia? [Michael Roberts] – “Diz muito sobre o momento atual que enquanto encaramos um futuro que pode se assemelhar ou com uma distopia hiper-capitalista ou com um paraíso socialista, a segunda opção não seja nem mencionada.”
  • Robôs, Crescimento e Desigualdade – Mesmo uma instituição como o FMIvem notando as tendências que a automação de empregos devem gerar nas próximas décadas, incluindo um crescimento vertiginoso da desigualdade social, e a necessidade de compartilhar a abundância prometida por essas inovações.
  • Automação e o ‘Fim do Trabalho’ na Mídia Internacional Dominante 
  • Vivo Sob o Sol [Alyssa Battistoni] – “Não há caminho rumo a um futuro sustentável sem lidar com as velhas pedras no caminho do ambientalismo: consumo e empregos. E a maneira de fazer isso é através de uma Renda Básica Universal. “
  • Um Mundo Socialista Não Significaria Só Uma Crise Ambiental Maior Ainda? [Alyssa Battistoni] – “Sob o Socialismo, nós tomaríamos decisões sobre o uso de recursos democraticamente, levando em consideração necessidades e valores humanos, ao invés da maximização dos lucros.
  • Rumo a um Socialismo Ciborgue [Alyssa Battistoni] – “A Esquerda precisa de mais vozes e de críticas mais afiadas que coloquem nossa análise do poder e de justiça no centro das discussões ambientais, onde elas devem estar.”
  • A Fantasia do Livre-Mercado [Nicole M. Aschoff] – “Designar o mercado como ‘natural’ e o Estado como ‘antinatural’ é uma ficção conveniente para aqueles casados com o status quo. O “capitalismo consciente”, embora atraente em alguns aspectos, não é uma solução para a degradação ambiental e social que acompanha o sistema de produção voltado ao lucro. A sociedade precisa decidir em que tipo de mundo deseja viver, e essas decisões devem ser tomadas por meio de estruturas e processos democráticos.”
  • O Ano em Que o Capitalismo Real Mostrou a Que Veio – [Jerome Roós] “Tudo que nós um dia deveríamos temer sobre o socialismo — desde repressão estatal e vigilância em massa até padrões de vida em queda — aconteceu diante de nossos olhos
  • Bill Gates, Socialista? [Leigh Phillips] – “Bill Gates está certo: o setor privado está sufocando a inovação em energias limpas. Mas esse não é o único lugar em que o Capitalismo está nos limitando.
  • Os Ricos Não Merecem Ficar Com a Maior Parte do Seu Dinheiro? – “A riqueza é criada socialmente – a redistribuição apenas permite que mais pessoas aproveitem os frutos do seu trabalho.”
  • Contando Com os Bilionários [Japhy Wilson] – Filantropo-capitalistas como George Soros querem que acreditemos que eles podem remediar a miséria econômica que eles mesmos criam.
  • A Sociedade do Smartphone [Nicole M. Aschoff] – “Assim como o automóvel definiu o Século XX, o Smartphone está reformulando como nós vivemos e trabalhamos hoje em dia.”
  • Bill Gates e os 4 Bilhões na Pobreza [Michael Roberts] – “A pobreza global está caindo ou crescendo? Sabe-se que a desigualdade global vem aumentando rapidamente nas últimas décadas, mas muitos defensores do capitalismo se apressam para nos afirmar que, apesar disso, nunca estivemos melhor. Será mesmo?
  • Uma Economia Para os 99% – relatório da Oxfam apresentando dados sobre a situação atual das desigualdades sociais; os mecanismos que as vêm reproduzindo e aprofundando mundo à fora; sobre como isso destrói qualquer possibilidade de democracia; e sobre possíveis medidas para superar esta situação;
  • Pikettyismos [Ladislau Dowbor] – “O livro de Thomas Piketty [documentando toda a trajetória da desigualdade no mundo desenvolvido desde o século XIX e provando que ela vem crescendo rapidamente nas últimas décadas, desde a virada para o Neoliberalismo] está nos fazendo refletir, não só na esquerda, mas em todo o espectro político. Cada um, naturalmente, digere os argumentos, e em particular a arquitetura teórica do volume, à sua maneira.”
  • ABCs do Socialismo
  • Por Que Socialismo? – Albert Einstein explica, de maneira clara e objetiva, os problemas fundamentais que enxerga na sociedade capitalista e porque uma sociedade socialista poderia ser o caminho para superá-los.
  • Bancos, Finanças, Socialismo e Democracia – [Ladislau Dowbor, Nuno Teles e J. W. Mason] Os bancos são instituições centrais na articulação das atividades no sistema capitalista. Como essas instituições deixaram de cumprir suas funções básicas e passaram a estender seu domínio sobre toda a economia? Podemos ver o sistema financeiro como um ambiente “neutro” cujos resultados são os “naturais” gerados pelos “mercados”? Será que dividir os grandes bancos será o suficiente para resolver essa situação?
  • O Comunismo Não Passa de Um Sonho de Utopia? Só Funcionaria Com Pessoas Perfeitas? – [Terry Eagleton] “O Comunismo é apenas um sonho de ingenuidade, utopia e perfeição? Ele ignora a maldade e o egoísmo que estariam na essência da natureza humana? Um tal sistema precisaria que todos pensassem e agissem de uma única maneira, só poderia funcionar com pessoas perfeitas e harmoniosas como peças de relógio, nunca com os seres humanos diversos e falhos que realmente existem?”
  • Como Vai Acabar o Capitalismo? – [Wolfgang Streeck] “O epílogo de um sistema em desmantêlo crônico: A legitimidade da ‘democracia’ capitalista se baseava na premissa de que os Estados eram capazes de intervir nos mercados e corrigir seus resultados, em favor dos cidadãos; hoje, as dúvidas sobre a compatibilidade entre uma economia capitalista e um sistema democrático voltaram com força total.”
  • Neoliberalismo, A Ideologia na Raiz de Nossos Problemas – [George Monbiot] “Crise financeira, desastre ambiental e mesmo a ascensão de Donald Trump – o Neoliberalismo,  a ideologia dominante no ‘Ocidente’ desde os anos 80, desempenhou seu papel em todos eles. Como surgiu e foi adotado pelas elites a ponto de tornar-se invisível e difuso? Por que a Esquerda fracassou até agora em enfrentá-lo?”
  • Desabamento Contínuo: Neoliberalismo Como Estágio da Crise Capitalista, Rendição Social-Democrata, Revolta Popular Recente e as Aberturas à Esquerda – [Robert Brenner] Na fase atual do neoliberalismo, o capitalismo não é mais capaz de garantir crescimento e desenvolvimento semelhantes aos estágios anteriores. Nem mesmo se mostra capaz de garantir condições de vida aos trabalhadores e, assim, assegurar seu apoio ao sistema – passando a depender cada vez mais do medo imposto sobre os mesmos sobre a perda de seus empregos, sobre o futuro, e sobre repressão – e despertando revolta de massa à Esquerda e à Direita. O que se segue é uma tentativa inicial e muito parcial de apresentar como entendemos o panorama político de hoje; uma série de suas características notáveis; as aberturas que se apresentam aos movimentos e à Esquerda; e os problemas que a Esquerda enfrenta.
  • O Projeto Socialista e a Classe Trabalhadora – [David Zachariah] “As pessoas na Esquerda estão unidas em seu objetivo de uma sociedade em que cada indivíduo encontre meios aproximadamente iguais para o pleno desenvolvimento de suas capacidades diversas. O que distingue os socialistas é o reconhecimento de que a forma específica como a sociedade está organizada para reproduzir a si mesma também reproduz grandes desigualdades sociais nos padrões de vida, emprego, condições de trabalho, saúde, educação, habitação, acesso à cultura, meios de desenvolvimento e frutos do trabalho social, etc.
  • O País Já Não é Meio Socialista? – Não, Socialismo não é só sobre mais governo – é sobre propriedade e controle democráticos.
  • Pelo Menos o Capitalismo é Livre e Democrático, Né? – Pode parecer que é assim, mas Liberdade e Democracia genuínas não são compatíveis com o Capitalismo.
  • O Socialismo Soa Bem na Teoria, Mas a Natureza Humana Não o Torna Impossível de Se Realizar? – “Nossa natureza compartilhada na verdade nos ajuda a construir e definir os valores de uma sociedade mais justa.”
  • Os Ricos Não Merecem Ficar Com a Maior Parte do Seu Dinheiro? – “A riqueza é criada socialmente – a redistribuição apenas permite que mais pessoas aproveitem os frutos do seu trabalho.”
  • Os Socialistas Vão Levar Meus CDs do Calypso? – Socialistas querem um mundo sem Propriedade Privada, não Propriedade Pessoal. Você pode guardar seus discos.
  • O Socialismo Não Termina Sempre em Ditadura? – O Socialismo é muitas vezes misturado com autoritarismo. Mas historicamente, Socialistas tem estado entre os defensores mais convictos da Democracia.
  • O Socialismo Não É Só Um Conceito Ocidental? – O Socialismo não é Eurocêntrico por que a lógica do Capital é universal – e a resistência a ela também.
  • E Sobre o Racismo? Os Socialistas Não Se Preocupam Só Com Classe? – Na verdade acreditamos que a luta contra o Racismo é central para desfazer o poder da classe dominante. 
  • O Socialismo e o Feminismo Não Entram Às Vezes Em Conflito? – Em última análise, os objetivos do Feminismo radical e do Socialismo são os mesmos – Justiça e Igualdade para todas as pessoas.
  • Um Mundo Socialista Não Significaria Só Uma Crise Ambiental Maior Ainda? – “Sob o Socialismo, nós tomaríamos decisões sobre o uso de recursos democraticamente, levando em consideração necessidades e valores humanos, ao invés da maximização dos lucros.
  • Os Socialistas São Pacifistas? Algumas Guerras Não São Justificadas? – Socialistas querem erradicar a guerra por que ela é brutal e irracional. Mas nós pensamos que existe uma diferença entre a violência dos oprimidos e a dos opressores. 
  • Por Que os Socialistas Falam Tanto em Trabalhadores? – Os trabalhadores estão no coração do sistema capitalista. E é por isso que eles estão no centro da política socialista. 
  • Os Socialistas Querem Tornar Todos Iguais? Querem Acabar Com a Nossa Individualidade?
  • O Marxismo Está Ultrapassado? Ele Só Tinha Algo a Dizer Sobre a Inglaterra do Século XIX, e Olhe Lá?
  • O Marxismo é Uma Ideologia Assassina, Que Só Pode Gerar Miséria? – “O Marxismo é uma ideologia sanguinária e assassina, que só pode gerar miséria compartilhada? Socialismo significa falta de liberdade e uma economia falida?”

 

4 pensamentos sobre “De Volta ao Debate Sobre o Planejamento Socialista II – Preços, Informação, Comunicação e Eficiência

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