A Gente Trabalha Demais, Mas Não Precisa Ser Assim

Entre os séculos XIX e XX os trabalhadores conquistaram o dia de trabalho de 10 horas e então o de 8 horas, mas depois da Grande Depressão a tendência parou. Do que precisaríamos para recuperar nosso tempo livre?

por Peter Frase (editor da Revista Jacobin), no Washington Post, agosto de 2016

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A distinção entre trabalho e lazer é tão velha quanto a civilização humana, e sempre houveram aqueles que sugerem que o primeiro é apenas uma pré-condição para o segundo. Aristóteles, por exemplo, pensava que a felicidade depende do lazer, que ele definia como uma atividade que se faz apenas com ela mesma como objetivo, ao invés de como um meio para alguma outra coisa.

Desde a Revolução Industrial, a distinção entre trabalho e lazer tem tomado uma forma particularmente rígida, por que o que a maioria de nós experiencia como “trabalho” é a instituição historicamente específica do trabalho assalariado: o tempo que nós gastamos obedecendo as ordens de alguma outra pessoa em troca de dinheiro.

Em defesa do lazer [1]

Através da história do Capitalismo, os trabalhadores têm demandado uma redução nas horas de trabalho para liberar mais tempo para o lazer, enquanto empregadores têm forçado no sentido oposto. No final do século XIX e início do século XX, os trabalhadores lutaram e conquistaram o dia de trabalho de 10 horas e então o de 8 horas. Desde então, entretanto, o progresso rumo a menos horas travou. Vai ser necessário organização política e reformas legislativas para expandir e enriquecer o tempo disponível para nós fora do trabalho.

Lá pelos anos 30, a redução progressiva das horas de trabalho havia sido aceita como um fato da vida,  e os comentaristas previam uma vida com tempo livre cada vez maior para as massas. O economista John Maynard Keynes escreveu um ensaio contemplando as implicações sociais dessa tendência, intitulado “Possibilidades Econômicas Para Nossos Netos.” [2] Nele, ele dava como garantida a diminuição gradual das horas de trabalho e passava para o que, para ele, seriam, questões existenciais mais profundas: O que faríamos com o nosso tempo livre? Como encontraríamos fontes de sentido e de propósito?

Mas depois da Grande Depressão, algo estranho aconteceu: A tendência rumo menos horas parou. A produtividade continuou aumentando , mas os trabalhadores não recebiam mais um dividendo na forma de tempo livre. O movimento trabalhista descobriu que os trabalhadores estavam mais dispostos a garantir salários maiores do que jornadas mais curtas, pelo menos enquanto a produtividade dos trabalhadores se manteve crescendo rapidamente, e a competição com a União Soviética fazia jornadas menores mais difíceis de se vender. No fim, os trabalhadores deixaram de compartilhar do crescimento da produtividade através de aumentos nos salários também: Desde os anos 70 a produtividade continuou aumentando, mas os salários têm continuado estagnados [3]. A duração da semana de trabalho completa tem permanecido em 40 ou 40 e poucas horas desde os anos 50, apesar do fato de que as mulheres, que agora compõem 47% da força de trabalho, dedicam significantes horas adicionais para o que o sociólogo Arlie Rissell Hochschild chama de “segundo turno” em casa [4].

Do que precisaríamos para recuperar nosso tempo livre? Como listado acima, foi o trabalho organizado que liderou a luta por menores horas e mais tempo vago, para começar. Não é coincidência que nos países europeus com sindicatos mais fortes, os trabalhadores aproveitam férias garantidas [5], mesmo se eles tendem a trabalhar tantas horas quanto os estadunidenses quando estão no emprego. A taxa de sindicalização está em torno de 11% nos Estados Unidos [6], e fica difícil pedir aos seus chefes horas menores quando você pode ser demitido facilmente e ser substituído por alguém mais inclinado a ser um “workaholic” [7].

Mas mesmo sem um renascimento dos sindicatos, existem remédios legislativos. Baixar o limite para pagamento de horas extras e estendê-lo para cobrir mais trabalhadores diminuiria o incentivo para extrair o máximo de horas de cada trabalhador. Salários mínimos mais altos significaria que as pessoas não precisariam trabalhar tanto para sobreviver. Mais radicalmente, alguns têm proposto uma “renda básica universal” [8]: um pagamento garantido para todos os adultos que tornaria possível viver sem trabalhar, pelo menos por curtos períodos.

Chegou a hora de uma semana de trabalho mais curta? [9]

Criar mais tempo livre seria bom para todos nós, bom para a sociedade, mesmo bom para o meio-ambiente. Mas para evitar a experiência do tempo livre como tédio ou falta de sentido, as pessoas precisam de acesso a ferramentas para usar o tempo de lazer “sabiamente , agradavelmente e bem”, nos termos de Keynes. Para lidar com essa necessidade, nós também precisaremos repensar nossa concepção de educação pública.

Hoje, a educação é tipicamente debatida em termos de testes padronizados e preparação para o trabalho. Mas a Educação também permite que as pessoas explorem seus interesses e desenvolvam seus talentos, seja em programação de computadores, concerto de carros, música e arte. Como a professora e escritora Megan Erickson defendeu em seu livro recente “Guerra de Classes” [10], precisamos de uma visão da educação que seja mais do que decoreba e treinamento para o emprego. Nós precisamos de escolas em que os estudantes não aprendam apenas para passar nas provas e se comportar como empreendedores-modelo, mas onde sejam guiados [11] por professores que os ajudem a desenvolver suas habilidades e sua criatividade para si mesmas, para que elas possam aproveitar por completo o lazer no sentido de Aristóteles.

Os Estados Unidos são uma sociedade mais rica do que qualquer outra que já existiu. É possível para nós recebermos mais dessas riquezas na forma de tempo para as massas, ao invés de coisas para o 1% mais rico. Mas para fazermos isso precisamos desenvolver tanto o poder de demandar mais liberdade em relação ao trabalho e a capacidade para fazermos uso completo das nossas horas livres.

Tradução: Everton Lourenço


Leituras Relacionadas

  • Políticas para se ‘Arranjar Uma Vida’ – “O trabalho em uma sociedade capitalista é um fenômeno conflituoso e contraditório. Uma política para a classe trabalhadora tem de ser contra o trabalho, apelando para o prazer e o desejo, ao invés de sacrifício e auto-negação.

Notas

[1] https://www.washingtonpost.com/news/in-theory/wp/2016/08/24/in-defense-of-leisure/?tid=a_inl&utm_term=.feacaabcc13b

[2] http://www.geocities.ws/luso_america/KeynesPO.pdf e  http://www.econ.yale.edu/smith/econ116a/keynes1.pdf

[3] http://www.epi.org/publication/ib330-productivity-vs-compensation/

[4] https://www.washingtonpost.com/blogs/she-the-people/wp/2014/08/06/the-second-shift-at-25-q-a-with-arlie-hochschild/?tid=a_inl

[5] Nos Estados Unidos as férias variam. São poucos os empregos que oferecem férias de 3 semanas e pouquíssimos, de 1 mês – e até onde sei, em geral elas não são remuneradas.

[6] https://www.washingtonpost.com/news/in-theory/wp/2016/08/01/why-are-unions-in-the-u-s-so-weak/?tid=a_inl&utm_term=.1627cd5590d7

[7] “viciado em trabalho”

[8] https://www.washingtonpost.com/news/in-theory/wp/2015/09/28/universal-basic-income-a-primer/?tid=a_inl&utm_term=.f274e390afdc

[9] https://www.washingtonpost.com/news/in-theory/wp/2016/05/13/is-it-time-for-a-shorter-workweek/?tid=a_inl&utm_term=.946ed5b198e6

[10] https://www.amazon.com/gp/product/1781689482/ref=as_li_qf_sp_asin_il_tl?ie=UTF8&tag=slatmaga-20&camp=1789&creative=9325&linkCode=as2&creativeASIN=1781689482&linkId=d3ba13eacfe977ec24c672c0394c9bec

[11] O termo “guiados” com certeza deve deixar o leitor freiriano de orelha-em-pé, visto que ainda denota uma posição hierárquica da relação entre professor e alunos.

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