Sua Majestade, a Teoria Econômica

“Aqui temos a crise econômica e financeira mais espetacular em décadas e o grupo que passa a maior parte de suas horas ativas analisando a economia basicamente não a enxergou.”

por David Harvey, em ‘O Enigma do Capital’, 2010, págs 190-194

Tradução: João Alexandre Peschanski | Editora Boitempo

greenspan

Alan Greenspan, ex-presidente do Federal Reserve nos EUA, teve de admitir que a teoria econômica neoclássica, que defendeu e aplicou por décadas, lhe deixou desarmado para antecipar, compreender ou enfrentar a crise de 2008.

Quando Sua Majestade a rainha fez uma visita à London School of Economics, em novembro de 2008, perguntou como era possível que nenhum dos economistas tivesse visto a crise financeira que se aproximava. Seis meses depois, os economistas da Academia Britânica enviaram-lhe uma carta um tanto apologética.

“Em resumo, Sua Majestade”, concluía, “a incapacidade de prever o momento, a extensão e a gravidade da crise e de tomar medidas cabíveis, reconhecendo que teve muitas causas, foi principalmente uma falha coletiva da imaginação de muitas pessoas brilhantes, tanto no país como internacionalmente, de compreender os riscos para o sistema como um todo”. É “difícil recordar um melhor exemplo de pensamento positivo combinado com arrogância”, observaram os financistas, que ainda admitiram que todos – presumivelmente incluindo eles mesmos – tinham sido apanhados em uma “psicologia de negação”. Do outro lado do Atlântico, Robert Samuelson, colunista do Washington Post, escreveu em uma veia um pouco semelhante: “Aqui temos a crise econômica e financeira mais espetacular em décadas […] e o grupo que passa a maior parte de suas horas ativas analisando a economia basicamente não a enxergou”. Mas os cerca de 13 mil economistas pareceram singularmente inclinados a não fazer uma “rigorosa autocrítica para explicar suas falhas”. A conclusão do próprio Samuelson foi que os teóricos da economia estavam interessados demais em formas sofisticadas de construção de modelos matemáticos para se preocupar com a confusão da história e com o fato de que essa confusão os pegou desprevenidos. O economista ganhador do Prêmio Nobel e colunista do The New York Times Paul Krugman concordou (de certo modo!). “[A] profissão de economista se extraviou”, escreveu, “porque os economistas, como um grupo, confundiram a beleza, folheada em uma matemática impressionante de se olhar, com a verdade”. O economista britânico Thomas Palley, em uma carta aberta de resposta à rainha, foi ainda menos generoso: a profissão da economia tornou-se “cada vez mais arrogante, estreita e limitada”, escreveu, e está completamente incapaz “de entender seu fracasso sociológico que produziu insuficiência intelectual maciça com custos enormes para a sociedade”.

Não cito esses exemplos para marcar apenas os economistas. Primeiro, nem todos falharam. Atual presidente do Conselho Econômico Nacional da Casa Branca, Larry Summers, em uma análise pertinente dos efeitos de socorros governamentais ao comportamento financeiro na esteira do crash da Bolsa em 1987, viu claramente os problemas de risco moral que podem ser gerados, mas concluiu que os efeitos de o governo não apoiar as instituições financeiras seriam muito piores do que os efeitos de socorrê-las. O problema da política não era evitar, mas limitar o risco moral. Infelizmente, enquanto secretário do Tesouro no fim dos anos 1990, ele se esqueceu de sua própria análise e promoveu exatamente o tipo de risco moral irrestrito que antes tinha mostrado que poderia arruinar a economia (um caso claro de negação na prática). Paul Volcker, ex-presidente do Federal Reserve, alertou para um crash financeiro em cinco anos, lá em 2004. Mas a opinião da maioria ficou do lado de Ben Bernanke, antes de ele se tornar presidente do Fed, quando disse em 2004 que “as melhorias na política monetária” tinham reduzido “a medida de incerteza econômica que confrontam as famílias e as empresas”, tornando assim recessões “menos frequentes e menos graves”. Essa foi a opinião do Partido (e que partido esperto!) de Wall Street. Mas vá dizer isso aos indonésios ou aos argentinos. É ser devoto ao máximo acreditar que o prognóstico de Bernanke, em agosto de 2009, de que o pior da crise já passou seja mais confiável.

As ideias têm consequências e as ideias falsas podem ter consequências devastadoras. As falhas políticas com base no pensamento econômico errôneo desempenharam um papel fundamental tanto na preparação quanto para o desastre de 1930 e na aparente incapacidade de encontrar uma saída adequada. Embora não haja uma visão universal entre os historiadores e economistas a respeito de exatamente quais políticas falharam, foi acordado que a estrutura de conhecimento pela qual a crise foi entendida precisava ser revolucionada. Keynes e seus colegas realizaram essa tarefa. Mas em meados da década de 1970 tornou-se claro que os instrumentos de política keynesiana não estavam mais funcionando, pelo menos não na forma como estavam sendo aplicados, e foi nesse contexto que o monetarismo, a teoria do crescimento da oferta e dos (bonitos) modelos matemáticos de comportamentos de mercado microeconômicos suplantaram em todos os níveis o pen­samento macroeconômico keynesiano. O quadro teórico mais estreito dos monetaristas e neoliberais que prevaleceu após 1980 está agora em questão.

Precisamos de novas concepções mentais para compreender o mundo. Quais poderiam ser e quem irá produzi-las, considerado o mal-estar sociológico e intelectual que paira sobre a produção do conhecimento de maneira mais geral? As concepções mentais profundamente arraigadas associadas às teorias neoliberais e a neoliberalização e corporatização das universidades e dos meios de comunicação têm desempenhado um papel importante na produção da atual crise. Por exemplo, toda a questão em torno do que fazer com o sistema financeiro, o setor bancário, o nexo Estado-finanças e o poder dos direitos de propriedade privada não pode ser trabalhada sem deixarmos de lado o pensamento convencional. Para que isso aconteça é necessária uma revolução no pensa­mento, em lugares tão diversos quanto as universidades, a mídia e o governo, bem como no âmbito das instituições financeiras.

Karl Marx, embora não estivesse de modo algum inclinado a abraçar o idealismo filosófico, considerou as ideias como uma força material na história. Concepções mentais constituem, afinal, um dos sete momentos da sua teoria geral da mudança correvolucionária. Evoluções autônomas e conflitos internos sobre quais con­cepções mentais passariam a ser hegemônicas, portanto, têm um papel histórico importante a desempenhar. Por essa razão Marx (junto com Engels) escreveu o Manifesto Comunista, O capital e inúmeras outras obras. Esses trabalhos fornecem uma crítica sistemática, ainda que incompleta, do capitalismo e das tendências de sua crise. Mas, como Marx também insistiu, apenas quando essas ideias críticas transitassem para os campos dos arranjos institucionais, formas organizacionais, sistemas de produção, vida cotidiana, relações sociais, tecnologias e relações com a natureza, o mundo realmente mudaria.

Uma vez que o objetivo de Marx era mudar o mundo e não apenas entendê-lo, ideias tinham que ser formuladas com certa intenção revolucionária. Isso significa, inevitavelmente, um conflito com modos de pensamento mais úteis e fáceis de se conviver para a classe dominante. O fato de as ideias de oposição de Marx, particularmente nos últimos anos, terem sido alvo de repetidas repressões e exclusões (sem falar do farto revisionismo e das distorções) sugere que suas ideias podem ser muito perigosas para serem toleradas pelas classes dominantes. Ainda que Keynes declarasse repetidamente que nunca tinha lido Marx, ele foi cercado e influenciado em 1930 por muitas pessoas (como por seu colega economista Joan Robinson) que leram. Embora muitos deles se opusessem veementemente aos conceitos fundamentais de Marx e seu modo dialético de raciocínio, eles estavam bastante conscientes e profundamente afetados por algumas de suas conclusões e previsões. É jus­to dizer, penso eu, que a revolução da teoria keynesiana não poderia ter sido rea­lizada sem a presença subversiva de Marx, sempre à espreita.

O problema nos dias de hoje é que a maioria das pessoas não tem ideia de quem foi Keynes e o que ele realmente defendia, e para estas o conhecimento de Marx é desprezível. A repressão das correntes críticas e radicais do pensamento ou, para ser mais exato, o confinamento do radicalismo dentro dos limites do multiculturalismo da escolha cultural criam uma situação lamentável na academia e fora dela, que equivale em princípio a ter de pedir aos banqueiros responsáveis pela bagunça que a limpem exatamente com as mesmas ferramentas que eles usaram para produzi-la. A ampla adesão às ideias pós-modernas e pós-estruturalistas que celebram o particular em detrimento do pensamento mais amplo não ajuda. Certamente, o local e o particular são de vital importância, e teorias que não aceitem, por exemplo, a diferença geográfica são inúteis (como me esforcei anteriormente para enfatizar). Mas quando esse fato é usado para excluir qualquer coisa maior do que políticas paroquiais, então, a traição dos intelectuais e a revogação do seu papel tradicional tornam-se completas. Sua Majestade a rainha adoraria escutar, estou certo, que um esforço está a caminho no sentido de por a grande perspectiva em um quadro ornamentado de tal modo que todos possam vê-la.

A atual população de acadêmicos, intelectuais e especialistas em ciências sociais e humanidades é, em geral, mal equipada para realizar tal tarefa coletiva. Poucos parecem predispostos a empreender aquela reflexão autocrítica incitada por Robert Samuelson. Universidades continuam a promover os mesmos cursos inúteis sobre a teoria política da escolha racional ou economia neoclássica, como se nada tivesse acontecido e as faculdades de administração adicionam um curso ou dois sobre ética dos negócios ou sobre como ganhar dinheiro a partir da falência de outras pessoas. Afinal, “a crise surgiu da ganância humana e não há nada que possa ser feito sobre isso”!

A atual estrutura do conhecimento é claramente disfuncional e ilegítima. A úni­ca esperança é que uma nova geração de estudantes com alto senso crítico (no sen­tido amplo de todos aqueles que pretendem conhecer o mundo) seja capaz de enxergar isso e insista em mudar essa realidade. Isso aconteceu na década de 1960. Em vários outros pontos críticos da história movimentos inspirados por estudantes, reconhecendo a disjunção entre o que acontecia no mundo e o que lhes estava sendo ensinado e transmitido pela mídia, estiveram dispostos a fazer algo a respeito disso.

Há sinais em Teerã a Atenas e em muitas universidades europeias de tal movimento. Como a nova geração de estudantes na China vai agir certamente deve ser de grande preocupação nos corredores do poder político em Pequim.

Um movimento revolucionário juvenil conduzido por estudantes, com todas as suas evidentes incertezas e problemas, é uma condição necessária, mas não suficiente, para produzir essa revolução nas concepções mentais que podem nos levar a uma solução mais racional para os atuais problemas de crescimento infinito.

A primeira lição que precisa aprender é que um capitalismo ético, sem exploração e socialmente justo que beneficie a todos é impossível. Contradiz a própria natureza do capital. 


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