Automação e o ‘Fim do Trabalho’ na Mídia Internacional Dominante

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“No ano 2000” | Ilustração: Jean-Marc Côté

[Nota de tradução: Este post apresenta alguns textos sobre o potencial para a Automação de Empregos através de avanços recentes em tecnologias como Robótica e Inteligência Artificial, para mostrar como grandes veículos da mídia internacional (de Direita) estão tratando do assunto e as transformações que eles estão antecipando para as próximas décadas. O Minhocário vê este tema como central, urgente e necessário para a discussão sobre como construiremos nosso futuro em comum. O blog não concorda necessariamente com as visões expressas nos textos abaixo, mas os apresenta para fomentar o debate e a discussão, e para ilustrar a direção para onde o debate caminha nas mídias capitalistas dominantes. No blog podem ser encontrados vários outros textos sobre o assunto exibindo contradições e aspectos não considerados nos textos abaixo.]

O Último Emprego da Terra

no jornal The Guardian, Fevereiro de 2016

As máquinas podem tomar 50% de nossos empregos nos próximos 30 anos, de acordo com cientistas. Enquanto não podemos predizer o futuro, podemos imaginar um mundo sem trabalho – um em que aqueles que possuem a tecnologia ficam ricos à partir dela e todo os outros se viram para tentar se sustentar [1], se escorando em uma condição cada vez mais frágil. Conheça Alice, portadora do último emprego reconhecível na Terra, tentando compreender o seu papel em um mundo automatizado.

A Automação pode significar uma sociedade Pós-Trabalho, mas nós não deveríamos nos preocupar

Para nos beneficiarmos da Revolução da Automação precisamos de uma Renda Básica Universal, de uma redução formidável nas horas de trabalho e de uma redefinição de nossos eus sem o trabalho.

por Paul Mason, no jornal The Guardian, fevereiro de 2016

Quando os pesquisadores Frey e Osborne previram [2] em 2013 que 47% dos empregos estadunidenses serão suscetíveis a automação em torno de 2050, eles iniciaram uma onda de preocupações distópicas. Mas a palavra chave é “suscetíveis”. A revolução da automação é possível, mas sem uma mudança radical nas convenções sociais que cercam o trabalho, ela não acontecerá. A distopia real seria que, temendo o desemprego em massa e a falta de propósito psicológico que isso pode trazer, nós travássemos a terceira revolução industrial. Ao invés dela, nós podemos acabar criando milhões de empregos de baixa qualificação que não precisam existir.

A solução seria começar a desvincular o trabalho dos salários. Você pode ver o começo dessa separação em qualquer voo de negócios. Homens e mulheres curvados sobre laptops e tablets, cotovelos tão próximos que se aquilo fosse uma fábrica, seria fechada por razões de saúde e segurança.

Mas isso é uma fábrica e eles estão trabalhando – em parte do tempo. Eles passam de planilha para um filme para o email para o Paciência: ninguém coloca um contador de tempo – a não ser em profissões contratadas por hora, como advocacia. Na ponta de alta qualificação da força de trabalho nós estamos cada vez mais trabalhando para cumprir objetivos estabelecidos, não tempo.

Mas para libertar apropriadamente a revolução da automação nós precisaremos provavelmente de uma combinação de Renda Básica Universal [3], paga através de taxação, e uma redução agressiva das horas de trabalho oficiais. Tipicamente, a Escandinávia está à frente da curva: a Suécia cortando o dia de trabalho para 6 horas [4], enquanto a Finlândia está experimentando com a ideia de uma renda básica cidadã [5].

A renda básica tem seus proponentes tanto na Direita quanto na Esquerda, com os primeiros a vendo como uma forma de Estado de Bem-Estar Social de preço baixo. Mas sua contribuição mais útil viria como um subsídio de uma só vez para a rápida automação da Economia.

Se isso acontecesse, vale a pena considerar em detalhes como as tecnologias poderiam interagir. Há muito foco na robotização, com criaturas brancas antropomórficas agora capazes de dançar disco em sincronia [6]. Mas o potencial real da automação reside na inteligência artificial, no aprendizado de máquina e em sistemas auto-curáveis.

Na animação “O último emprego na Terra” [disponível no final do post], a trabalhadora Alice fica frustrada quando a máquina se recusa a entregar o seu remédio.  Enquanto a sociedade se torna cada vez mais automatizada nós podemos chegar num ponto em que a epidemiologia em tempo-real usará sensores para medir nossa saúde e dizer à nossa trabalhadora: você provavelmente vai ficar doente essa noite, nós colocamos um remédio no sistema de Ar-Condicionado da sua casa.

Uma sociedade de pouco-trabalho só é uma distopia se o sistema social estiver aparelhado para distribuir recompensas através do trabalho. No início do século XIX, Socialistas Utópicos tentavam não apenas imaginar uma alternativa mas a implementá-la, em comunidades fechadas um pouco doidas inspiradas nos escritos do filósofo Charles Fourier [7].

É famoso que Fourier previu que o trabalho poderia se tornar diversão – suas qualidades poderiam absorver as qualidades de falta de propósito, humor, mesmo erotismo. Nós iriamos saltar de um tipo de trabalho para outro, sem notar a sua função produtiva.

O Marxismo foi fundado na rejeição dessa ideia: o Socialismo anti-utópico se tornou focado em reduzir o trabalho a um mínimo enquanto maximizando o tempo livre.

Hoje, com todas as utopias baseadas no trabalho desafiadas pela possibilidade de seu desaparecimento, o melhor que você pode dizer sobre o debate de diversão versus trabalho versus é: é complicado. Muitos de nós trabalhamos através de um único dispositivo de mão que, sobre nossos contatos, emails, roteiros e tudo mais contém muito do nosso eu externalizado [8].

Já podemos ver o eu se fragmentando, se tornando “multicanal”, enquanto comunicações em rede abrem espaços como na mesa de jantar, na cama compartilhada, no escritório de outra forma hierarquizado.

O maior enigma da sociedade pós-trabalho é o que acontece com o eu quando ele não pode se definir contra uma identidade corporativa, um conjunto de habilidades ou senioridade. Veremos.

Se os robôs são o futuro do trabalho, onde os humanos se encaixam?

Nós precisamos repensar nossa visão sobre trabalho e lazer – e rápido, se queremos evitar ficarmos obsoletos

por Zoe Williams, no jornal The Guardian, maio de 2016

Robin Hanson acha que o levante dos robôs, quando vier, será na forma de emulações. Em seu novo livro, “A Era de Em” [9], o economista explica: você pega os “melhores e mais brilhantes 200 seres humanos no planeta, escaneia seus cérebros e você tem robôs que para todas as intenções e propósitos são indivisíveis dos humanos nos quais eles foram baseados, exceto que mil vezes mais rápidos e melhores”. [10]

Por alguma razão, Hanson repetidamente chama esses 200 protótipos humanos de “os bilionários”, mesmo que ter um bilhão em qualquer moeda seja uma forte evidência contra você ser “o mais brilhante”, já que você não tem senso do quanto é o bastante [11]. Mas essa é só uma diferença natual de opinião entre um economista e uma pessoa medíocre que agora teme pelo futuro.

Esses “Ems”, sendo superiores em tudo e não tendo necessidades materiais que não pudessem serem satisfeitas virtualmente, vai cortar os humanos do mercado de trabalho e nos tornar totalmente desnecessários. Nós vamos todos efetivamente nos aposentar. Se seremos ou não colocados em pastos agradáveis ou brutalmente exterminados vai depender de como nos comportamos com esses Ems em seu início.

Quando Hanson apresenta a sua previsão em público, uma questão sempre surge: o que vai impedir os Ems de nos matar? “Bem, por que não exterminamos os aposentados agora mesmo?” ele pergunta, retoricamente, antes de responder: alguma combinação de gratidão, empatia e afeição entre indivíduos, que os Ems, sendo modelos precisamente sobre nós, irão compartilhar (a não ser que usemos bilionários reais como modelos).

Opiniões sobre a forma precisa do futuro dos robôs permanecem divididas: o historiador Yuval Noah [12] argumenta, em “Homo Deus: A Brief History of Tomorrow” (“Homo Deus: Uma Breve História do Amanhã”) [13], que os robôs com inteligência artificial serão os primeiros a atingirem a dominação mundial. Este futuro é mais sombrio que o de Hanson – sem empatia, esses robôs não teriam afeição sentimental com seus progenitores – mas é essencialmente o mesmo. Harari prevê a ascensão de uma “classe inútil”: humanos que não saberão o que estudar por que não terão ideia de quais qualidades serão necessárias quando forem terminar, que não poderão trabalhar por que sempre existirá um robô melhor e mais barato, e que gastarão o  tempo tomando drogas e olhando para telas.

Estes meandros de IA versus Ems, IA versus AI (“amplificação de inteligência”, onde humanos não são suplantados por nossos avanços tecnológicos mas sim melhorados por eles) fascinam os futurologistas.

Hanson defende que a Inteligência Artificial está se movendo devagar demais, enquanto apenas três tecnologias precisam coincidir para tornar os Em possíveis: computadores mais rápidos e baratos, que o mundo já tem em mãos; escaneamento cerebral, que vem sendo desenvolvido em uma escala muito menor mas ativa por uma comunidade biológica; e a modelagem da mente humana, “que é mais difícil de prever”.

Mas todas as previsões caminham para o mesmo lugar: a obsolescência do trabalho humano. Mesmo se uma tomada de poder pelos robôs parece ainda distante, essa ideia já vem pressionando alguns setores específicos. Já se prevê que carros auto-pilotáveis [14] vão compor até 75% de todo o tráfego em torno de 2040, dando origem a um espectro não só de ligas de motoristas desempregados, mas também de transformação de toda a infraestrutura em torno do emprego, desde treinamento até estações de petróleo.

Há sempre uma voz no debate dizendo que não temos de nos render às nossas próprias inovações: não precisamos automatizar tudo só por que podemos. Ainda assim, a História nos ensina que nós iremos, e nos ensina, além disso, que resistir à invenção é um tipo próprio de fracasso. Fundamentalmente, se a grande ideia de um futuro progressista é se agarrar ao trabalho para evitar a falta de trabalho, nós poderíamos sonhar com empregos mais corajosos e muito mais recompensadores do que dirigir [15].

Há duas grandes ameaçadas colocadas por um futuro automatizado. A primeira – que nós iremos irritar os robôs e eles irão nos dominar e rapidamente obliterar – é pra Hollywood se preocupar. Não há muito aparato que a gente possa construir em antecipação que nos façam menos irritantes. Sem dúvidas haverão aqueles que acreditam que a nossa obliteração é tão inevitável que qualquer outra ansiedade é uma questão secundária.

Se você consegue se segurar contra isso, a questão crítica se torna: em um mundo sem trabalho, como nós distribuimos os recursos? É uma questão articulada precisamente por Stephen Hawking ano passado, quando ele disse que “Se as máquinas produzirem tudo que a gente precisa, o resultado vai depender de como as coisas serão distribuídas. Todo mundo poderá desfrutar da tecnologia, do luxo e do lazer se o que for produzido por máquinas de fato for compartilhado com todos. Ou a maioria das pessoas poderá ficar miseravelmente pobre se os donos desses robôs conseguirem fazer ‘lobby’ contra a redistribuição de riqueza. Até o momento, a tendência parece que será a segunda opção, com a tecnologia crescendo de forma desigual” [16]

Como tantas coisas, desde o cancelamento de dívidas até a mudança climática, a realidade da situação é facilmente compreendida por cientistas, acadêmicos, filósofos da Esquerda à Direita, ativistas dentro e fora do Sistema [17]; e os únicos que resistem firmemente são os pretensos “realistas políticos”.

A questão de como distribuir a riqueza no futuro se curva até encontrar um enigma levantado pelo passado: como podemos reconstruir a rede de segurança social para que ela encorpore solidariedade, generosidade e confiança, ao invés do Estado de Bem-Estar Social atual, raquítico e carunchado pela suspeita mútua.

A ideia de uma renda básica universal é geralmente emoldurada como um caminho para “mudar do princípio de Beveridge [18] de previdência nacional baseada em contribuições e no compartilhamento do risco, por um sistema de renda como um direito” (como descrito em um artigo no Compass [19] por Howard Reed e Stewart Lansley). Em sua iteração mais simples, todos os cidadãos recebem a mesma renda. Há trabalho a ser feito nos números – se essa renda precisa ser suplementada para moradia, em qual forma ela teria seus efeitos mais progressistas, se e como ela será taxada entre os mais ricos, como ela pode ser acessível e ao mesmo tempo genuinamente suficiente para se viver.

Também há trabalho a ser feito sobre os incentivos relacionados, se uma renda básica iria virar de ponta cabeça a ética de trabalho e deixar o mundo com escassez de pessoal em diferentes áreas, enquanto esperamos a tomada de poder pelos robôs (um esquema piloto no Canadá concluiu que os únicos grupos que trabalharam menos com uma renda dessas foram mães de bebês jovens e adolescentes ainda estudantes; outros projetos piloto estão a caminho no Kenya [20] e através da Europa).

Entrando no futuro, com suas possibilidades de que muitas vocações se tornarão desnecessárias, e nós encaramos mais questões existenciais: como encontramos um sentido sem trabalho? Como encontramos camaradagem sem status? Como podemos preencher o lazer inteligentemente? Estes mistérios possuíram Bertrand Russel e John Maynard Keynes, e então saíram de moda quando nós percebemos que poderíamos abrir nosso caminho para fora da futilidade à base de consumo e incendiar nosso desejo por ganhar gastando antes de receber.

Mesmo sem levar em conta as restrições do globo, o plano falhou. O Consumo pode ter dado necessidade ao trabalho, mas não lhe conferiu sentido. E talvez a mais profunda acomodação que tenhamos de fazer com o futuro não seja se somos capazes ou não de compartilhar, mas onde encontraremos nosso ímpeto.

“Você pode só escrever,” Hanson pediu no final de nossa conversa, “que mesmo que eu esteja falando de coisas sombrias e dramáticas, sou um cara amigável e que sorri bastante?” Não tenho certeza de quanto isso ajuda. Algumas de suas previsões são suportáveis apenas se você assumir que terá morrido antes delas ocorrerem.

Hanson não insiste que esse seja o único caminho possível [21]. Ao invés disso, “você deveria esperar que, não importa qual mudança for acontecer, vai ser bem rápido. Tipo, cinco anos desde nada de diferente que você notasse até um mundo completamente diferente. O que eu quero é fazer pessoas entenderem o quão urgente será, quando essas coisas acontecerem, termos feito um plano.”

De carros autônomos até robôs de hospital: a automação vai mudar a vida e o trabalho

A quarta revolução industrial está à caminho enquanto “máquinas pensantes” transformam o ambiente de trabalho. Empregos poderão ser perdidos, mas muitos setores vão prosperar, dizem especialistas [22].

por David Benady, no jornal The Guardian, março de 2016

A Grã-Bretanha está à beira de uma revolução robótica. Avanços em tecnologia estão desencadeando uma nova era onde computadores vão cuidar de muitas tarefas anteriormente executadas por humanos. Desde fabricação automatizada até softwares que fazem trabalho legal complexo, os negócios estão se adaptando à economia robótica.

Alguns temem que isso levará a um apocalipse de empregos enquanto “máquinas pensantes” substituem trabalhadores. [23] Outros estão otimistas de que os robôs liberarão trabalhadores de tarefas mundanas e permitirão que eles se concentrem em trabalho em um nível mais alto de criatividade e estratégia. [24]

Mas uma coisa está clara: a economia está para mudar radicalmente. Robôs estão superando humanos em numerosos campos e a tecnologia está avançando, passo a passo, no ambiente de trabalho [25]. Para examinar como essa transformação vai se desenrolar, o The Guardian convidou figuras sênior da indústria e da academia para uma mesa de discussão, que recebeu o apoio de Julius Baer, do Swiss Bank. A discussão foi mediada por Rohan Silva, empreendedor tecnológico, colaborador do The Guardian e ex-conselheiro do primeiro ministro, David Cameron.

Indústria 4.0: a quarta revolução industrial

Conforme a mesa prosseguia, Wolfgang Epple, diretor de pesquisa e tecnologia na Jaguar Land Rover, disse que uma oportunidade enorme para o Reino Unido está na ‘Indústria 4.0’. [26] Esta quarta revolução industrial está onde os últimos desenvolvimentos na manufatura, como a Internet das Coisas [27], big data [28], automação e inteligência artificial (IA), permitem um aumento massivo  na produtividade e na eficácia.

A mesa ouviu que tal tecnologia já está sendo utilizada, por exemplo na customização em massa de carros [29] que, espera-se, levará a uma maior integração de habilidades humanas e robóticas. No presente, robôs na fabricação de carros são usados principalmente na montagem da carroceria, fazendo portas ou capôs; a robótica é menos avançada na linha de montagem, onde tarefas complexas requerem uma mão humana. Mas isso está começando a mudar. “Nos EUA, fabricantes começaram a ter robôs e humanos simultaneamente na linha de montagem e eles ensinam uns aos outros,’ disse Epple. Isso pode significar um humano tomando o braço de um robô e o movendo para ensiná-lo uma tarefa, tal como apertar um parafuso.

Carros autônomos

Epples também apontou para carros autônomos como uma aplicação de IA e robótica que oferece uma “tremenda oportunidade”, permitindo que pessoas trabalhem dentro de carros ao invés de dirigí-los, [30] impulsionando a produtividade. Mas Fergus Boyd, diretor digital e de TI da rede de hotéis Yotel, questionou a utilidade de carros autônomos. Ele argumentou que benefícios similares poderiam ser gerados por um serviço de compartilhamento de caronas [31] como o Uber. “Uber Pool oferece uma pessoa levando três ou quatro pessoas e é de baixo custo, fácil e amigável. Pra que um carro autônomo?”

O diretor de tecnologia da Ocado, Paul Clarke defendeu a ideia de carros autônomos, apontando para a visão original do Google para a tecnologia, que era impulsionar a eficiência de transporte ao ter veículos viajando próximos uns dos outros e em coordenação. Silva adicionou que a maior segurança é outro ponto positivo. “Outro elemento dessa visão é por que qualquer pessoa deveria morrer em acidentes de trânsito no século XXI?”, ele disse.

Agricultura baseada em dados

Enquanto carros autônomos devem transformar o transporte rodoviário, a automação e a inteligência artificial também estão tendo um impacto enorme sobre a agricultura. Antonio Marzia, vice-presidente para soluções de precisão e telemática na CNH Industrial, disse que existe uma crescente sinergia entre a agricultura tradicional e análises baseadas em dados. “Nós podemos localizar um ponto preciso em cada metro quadrado de chão ao redor do globo e podemos otimizar a forma com que fazemos agricultura naquela terra,” disse ele.

Agricultores estão dirigindo a demanda por mais tecnologia na agricultura enquanto buscam maior eficiência e melhores formas de cultivo, ele diz. Por exemplo, a tecnologia pode ajudar os agricultores com a semeadura, usando dados históricos e análises sobre a terra para dizer as maneiras e os momentos mais eficientes para executar a semeadura. A tecnologia pode também aprimorar a segurança na agricultura, por exemplo automatizando a pulverização de pomares ao invés de expor os agricultores a poluentes potencialmente perigosos. [32] “Estas são práticas que fazem mais com menos – menos químicos, menos diesel, menos sementes – e têm um impacto muito grande no meio-ambiente. É uma forma otimizada de fazer agricultura,” ele disse.

Marzia também apontou que robótica e inteligência artificial são dois campos diferentes mas relacionados. Robôs são máquinas que reagem ao seu ambiente – carros, por exemplo, não são robóticos, já que respondem a instruções humanas. Mas modelos mais recentes possuem robótica embutida, com estacionamento automatizado, que usa sensores para guiar o veículo na vaga. Enquanto isso, inteligência artificial é software que resolve problemas complexos e se adapta enquanto aprende. É a combinação de IA e robótica que será tão transformadora.

Essa transformação está sendo experimentada em call centers, que estão rapidamente sendo automatizados. Nicola Millard, chefe de visão de cliente e futuro na BT Global Innovation Team, disse que a tecnologia está tomando tarefas transacionais como checar as contas das pessoas, mas salientou que há muito que o computador não pode fazer. “A tecnologia não é boa em negociação; não é boa em inovação ou criatividade e não é boa em cuidar ou em empatia,” disse ela.

Com a tecnologia cuidando de funções mundanas – como gerar relatórios de contas – funcionários de call center pode se focar em tornar-se mais qualificados. [33] Tempo é liberado para que a equipe converse com os clientes e os ajude com suas solicitações. “Vamos olhar para os pontos fortes do humano e para os pontos fortes da tecnologia e pensar em como podemos somá-los juntos para ajudar de verdade aos clientes conseguirem o que querem,” disse Millard.

Uso de robótica criando empregos

Apesar de avanços tecnológicos, a indústria inglesa está atrasada em relação a outros países europeus em automação, disse a secretária geral da TUC, Frances O’Grady. “A maioria da robótica é usada no setor automotivo, não tem se espalhado como em outros países,” ela disse. Ela apontou que usar robôs em linhas de produção tem criado toda uma gama de novos empregos para fornecer manutenção e serviços relacionados com eles, ao invés de levar a perdas de emprego, enquanto também potencialmente liberando trabalhadores de tarefas mas entediantes. Ela acredita que a economia de baixos-salários no Reino Unido está impedindo a automação no presente, já que é mais barato empregar funcionários do que investir em maquinário caro. [34]

O’Grady acredita que o NHS [35] poderia oferecer um enorme escopo para automação. A Microsoft, por exemplo, está trabalhando com o hospital Addenbrooke em Cambridge, realizando análise de imagens cerebrais, reduzindo o tempo que consultores de oncologia gastam analisando imagens de tumores de 3 horas para 30 minutos. Dave Coplin, CEO da Microsoft do Reino Unido, disse que as grandes questões eram como os profissionais de saúde usariam o tempo liberado pelos avanços tecnológicos. “O verdadeiro presente disso é o que o consultor escolhe fazer com aquelas duas horas e meia,” ele disse. Esperançosamente, ele adicionou, eles gastarão esse tempo se relacionando mais de perto com os pacientes.

O impacto da automação sobre nossa saúde será sentido através da nossa própria absorção de novos aplicativos de saúde. “Nós acreditamos que a IA pode exercer um papel em responder algumas das questões que as pessoas possuem sobre sua saúde,” disse Matteo Berllucchi, chefe executivo do serviço médico digital Your.MD. Ele disse que no ano passado, o NHS estimou em 60 milhões de visitas aos postos de saúde foram por causa de doenças menores. Your.MD está sendo lançado no WhatsApp e em outros serviços de mensagem como um assistente virtual para aconselhar pessoas sobre seus males menores. Isso permitirá que os usuários chequem seus sintomas enquanto também permitindo ao assistente virtual uma chance de fazer perguntas sobre a saúde do usuário e checar se ele tem seguido os conselhos anteriores do assistente virtual.

Enquanto muito da atenção midiática tem se focado na perda de empregos, a mesa via os tipos de mudanças vistas nos cuidados de saúde como um exemplo do impacto mais amplo que a automação teria sobre como vivemos e os tipos de empregos sendo criados. [36]


Leituras Relacionadas

  • Quatro Futuros – Uma coisa de que podemos ter certeza é que o Capitalismo vai acabar; a questão, então, é o que virá depois.
  • Tecnologia e Ecologia Como Apocalipse e Utopia“Muito se tem falado sobre os impactos da Crise Climática e de novas tecnologias de Automação de postos de trabalho para o nosso futuro em comum. Como as relações de propriedade e produção capitalistas e a Política, especificamente a Luta de Classes, se encaixam neste quadro? Será que a possibilidade de automação quase generalizada seria o bastante para garantir que ela ocorrerá? Qual seria o impacto dela sobre as condições de vida das pessoas? Com base nesses elementos, que tipo de cenários podemos esperar à partir do fim do Capitalismo?”
  • Comunismo Como Futuro Automatizado de Igualdade e Abundância“Um mundo em que a tecnologia tenha superado ou reduzido a um mínimo (e de forma sustentável) a necessidade de trabalho humano; em que esse potencial seja compartilhado com todos, eliminando a exploração e a alienação das relações de trabalho assalariado; onde as hierarquias derivadas do Capital tenham sido suplantadas por um modelo mais igualitário, agora capaz não só de sanar as necessidades de todos, mas de permitir o livre desenvolvimento de cada um, parece para muitos como um sonho de utopia inalcançável e ingênuo, onde não existiriam quaisquer conflitos ou hierarquias. Será mesmo?
  • Precisamos Dominá-la – “Nosso desafio é ver na tecnologia tanto os atuais instrumentos de controle dos empregadores quanto as precondições para uma sociedade pós-escassez.
  • Tecnologia e Estratégia Socialista – Com poderosos movimentos de classe em sua retaguarda, a tecnologia pode prometer a emancipação do trabalho, ao invés de mais miséria.
  • Os Robôs Vão Tomar Seu Emprego?“Com a automação causando ou não uma devastação nos empregos, o futuro do trabalho sob o capitalismo parece cada vez mais sombrio. Precisamos agora olhar para horizontes pós-trabalho.”
  • Robôs e Inteligência Artificial: Utopia ou Distopia? – “Diz muito sobre o momento atual que enquanto encaramos um futuro que pode se assemelhar ou com uma distopia hiper-capitalista ou com um paraíso socialista, a segunda opção não seja nem mencionada.”
  • Lingirie Egípcia e o Futuro Robô – O pânico sobre automação erra o alvo – o verdadeiro problema é que os próprios trabalhadores são tratados feito máquinas.”
  • Robôs, Crescimento e Desigualdade Mesmo uma instituição como o FMI vem notando as tendências que a automação de empregos devem gerar nas próximas décadas, incluindo um crescimento vertiginoso da desigualdade social, e a necessidade de compartilhar a abundância prometida por essas inovações.
  • A Gente Trabalha Demais, Mas Não Precisa Ser Assim – “Entre os séculos XIX e XX os trabalhadores conquistaram o dia de trabalho de 10 horas e então o de 8 horas, mas depois da Grande Depressão a tendência parou. Do que precisaríamos para recuperar nosso tempo livre?”
  • Rumo a Uma Sociedade Pós-TrabalhoA ‘Política do Tempo’ oferece uma resposta à atual crise do trabalho, nos convidando a falar sobre as condições para a liberdade e o tipo de sociedade em que queremos viver. É uma oportunidade para finalmente cumprir a promessa original do desenvolvimento produtivo do capitalismo: nos permitir desfrutar coletivamente de mais tempo livre, para explorar essas aptidões e aspectos de nós mesmos que muitas vezes ficam marginalizados em um mundo centrado no trabalho. “Precisamos tomar de volta o futuro das mãos do capitalismo e construir, nós mesmos, o mundo do século XXI que queremos.”
  • Renda Básica e o Futuro do Trabalho“Não existe algo como a ‘dignidade do trabalho’. Não é o direito ao emprego, mas a uma existência material garantida que dá dignidade à vida humana.”
  • Políticas Para se ‘Arranjar Uma Vida’ – “O trabalho em uma sociedade capitalista é um fenômeno conflituoso e contraditório. Uma política para a classe trabalhadora tem de ser contra o trabalho, apelando para o prazer e o desejo, ao invés de sacrifício e auto-negação.
  • Inovação Vermelha – “Longe de sufocar a inovação, uma sociedade Socialista colocaria o progresso tecnológico a serviço das pessoas comuns.
  • Todo Poder aos “Espaços de Fazedores” – “A impressão 3-D em sua forma atual pode ser um retorno às obrigações enfadonhas do movimento “pequeno é belo”, mas tem o potencial para fazer muito mais.
  • O Socialismo Vai Ser Chato? – “O Socialismo não é sobre induzir uma branda mediocridade. É sobre libertar o potencial criativo de todos.
  • O Mito do Antropoceno – Culpar toda a Humanidade pela mudança climática deixa o Capitalismo sair ileso.
  • Vivo Sob o SolNão há caminho rumo a um futuro sustentável sem lidar com as velhas pedras no caminho do ambientalismo: consumo e empregos. E a maneira de fazer isso é através de uma Renda Básica Universal.
  • Rumo a um Socialismo Ciborgue“A Esquerda precisa de mais vozes e de críticas mais afiadas que coloquem nossa análise do poder e de justiça no centro das discussões ambientais, onde elas devem estar.”
  • Um Mundo Socialista Não Significaria Só Uma Crise Ambiental Maior Ainda? – “Sob o Socialismo, nós tomaríamos decisões sobre o uso de recursos democraticamente, levando em consideração necessidades e valores humanos, ao invés da maximização dos lucros.

Notas

[1] É até um tanto natural que os articulistas do The Guardian só consigam de início imaginar um único futuro: Eles estão limitados por não aceitarem possibilidades diferentes do Capitalismo que defendem. Mas o próprio fato da diminuição da fabricação de mercadorias através de trabalho assalariado vai representar o fim do Capitalismo e sua substituição por um outro sistema. Para algumas considerações sobre as possibilidades de futuro após o fim do trabalho assalariado, recomendo imensamente: https://ominhocario.wordpress.com/2015/07/13/quatro-futuros/ [N.M.]

[2] http://www.oxfordmartin.ox.ac.uk/downloads/academic/The_Future_of_Employment.pdf [N.M.]

[3] https://www.theguardian.com/commentisfree/2016/jan/07/basic-income-royal-family-living-wage-economy

[4] https://www.theguardian.com/world/2015/sep/17/efficiency-up-turnover-down-sweden-experiments-with-six-hour-working-day

[5] http://www.pragmatismopolitico.com.br/2016/11/experimento-social-finlandia-revela-brasil-errado.html e http://basicincome.org/news/2015/12/finland-basic-income-experiment-what-we-know/ [N.M.]

[6] https://www.youtube.com/watch?v=4t1NWH6G1f0

[7] https://www.theguardian.com/books/2006/jan/22/philosophy

[8] https://ominhocario.wordpress.com/2015/08/21/a-sociedade-do-smartphone/ [N.M.]

[9] https://bookshop.theguardian.com/catalog/product/view/id/386851/

[10] Ah, o positivismo e sua fé em explicar tudo através da biologização e colocar pessoas em escalas… [N.M.]

[11] https://ominhocario.wordpress.com/2016/07/11/os-ricos-nao-merecem-ficar-com-a-maior-parte-de-seu-dinheiro/ [N.M.]

[12] https://www.theguardian.com/technology/2016/may/20/silicon-assassins-condemn-humans-life-useless-artificial-intelligence

[13] https://bookshop.theguardian.com/catalog/product/view/id/429131/

[14] http://www.nytimes.com/2015/11/15/magazine/the-dream-life-of-driverless-cars.html?_r=1

[15] https://www.theguardian.com/commentisfree/2016/may/20/driverless-cars-sad-death-joyous-driving-petrolhead-motoring-pleasure

[16] https://www.wired.com/brandlab/2015/10/stephen-hawkings-ama/

[17] No original, “establishment”. [N.M.]

[18] https://en.wikipedia.org/wiki/Beveridge_Report [N.M.]

[19] http://www.compassonline.org.uk/wp-content/uploads/2016/05/UniversalBasicIncomeByCompass-Spreads.pdf

[20] http://www.vox.com/2016/4/14/11410904/givedirectly-basic-income

[21] Ver https://ominhocario.wordpress.com/2015/07/13/quatro-futuros/ [N.M.]

[22] A noção de prosperidade de algumas pessoas é muito questionável, claro. De qualquer maneira, mesmo uma entidade tão central ao capitalismo global quanto o FMI não tem dúvidas sobre o impacto nos empregos: Não é uma questão de “se” empregos serão perdidos – https://ominhocario.wordpress.com/2016/10/26/robos-crescimento-e-desigualdade/ [N.M.]

[23]

https://www.theguardian.com/technology/2015/nov/12/thinking-machines-skilled-job-robots-steal

[24] Como Peter Frase enfatiza no texto abaixo e no livro sob o mesmo título, alguns podem manter um otimismo róseo, mas a questão sempre foi política. https://ominhocario.wordpress.com/2015/07/13/quatro-futuros/ [N.M.]

[25] https://www.theguardian.com/technology/2015/nov/05/robot-revolution-rise-machines-could-displace-third-of-uk-jobs

[26] http://www.techradar.com/news/world-of-tech/future-tech/5-things-you-should-know-about-industry-4-0-1289534

[27] “Internet of Things” ou “Internet das Coisas” – https://pt.wikipedia.org/wiki/Internet_das_coisas [N.M.]

[28] “Big Data” ou “Megadados” – https://pt.wikipedia.org/wiki/Big_data [N.M.]

[29] http://www.investopedia.com/terms/m/masscustomization.asp

[30] Claro, a primeira imagem que surge para essa gente do que as pessoas poderíam fazer com esse tempo não poderia ser outra além de gerar mais lucro. [N.M.]

[31] Não chega a ser engraçado ver o Uber chamado de “serviço de compartilhamento de caronas” ao invés de uma multinacional de terceirização de táxi? [N.M.]

[32] E dale agrotóxicos. [N.M.]

[33] Qual é o tamanho do cinismo nesse discurso? Quer dizer que os funcionários de call center tem pouca formação profissional por que não se focaram na aquisição dessa qualificação? [N.M.]

[34] Exatamente o argumento levantado por Peter Frase em seu livro “Four Futures: Life After Capitalism” [“Quatro Futuros:Vida Após o Capitalismo”] para afirmar que a possibilidade de maior automação de muitos empregos não levaria necessariamente a ela, com a desigualdade aumentando cada vez mais e um número cada vez maior de pessoas precarizadas dispostas a trabalhar por pouco. Se, por razões políticas, o custo da mão-de-obra humana é mais baixo do que o da automatizada, falta esse impulso para a automação.  [N.M.]

[35] Sistema público, universal e gratuito de saúde inglês, que inspirou a tentativa de construção do nosso SUS. [N.M.]

[36] Não custa nada lembrar que nem as simulações do FMI apontam na direção desse otimismo todo – https://ominhocario.wordpress.com/2016/10/26/robos-crescimento-e-desigualdade/ [N.M.]

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