Realismo Capitalista e a Exclusão do Futuro

O fracasso do futuro assombra o capitalismo: depois de 1989, a vitória do capitalismo não consistiu na sua reivindicação confiante do futuro, mas em negar que o futuro seja possível. Tudo o que podemos esperar, temos sido levados a acreditar, é mais do mesmo – mas em telas de resolução mais alta com conexões mais rápidas. A assombralogia, penso, expressa insatisfação com esta exclusão do futuro. […]  Parte da batalha agora será para garantir que o neoliberalismo seja percebido como morto. Acho que isso já está acontecendo. Há uma mudança nas atmosferas culturais, pequena no momento, mas vai crescer.”

Mark Fisher, entrevistado por Rowan Wilson em 2010, Verso Books

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“Sem Futuro”, grafite do artista Banksy

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A Fantasia do Livre-Mercado

“Designar o mercado como ‘natural’ e o Estado como ‘antinatural’ é uma ficção conveniente para aqueles casados com o status quo. O “capitalismo consciente”, embora atraente em alguns aspectos, não é uma solução para a degradação ambiental e social que acompanha o sistema de produção voltado ao lucro. A sociedade precisa decidir em que tipo de mundo deseja viver, e essas decisões devem ser tomadas por meio de estruturas e processos democráticos.”

por Nicole M. Aschoff,  na Revista Jacobin, Abril de 2015

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Uma ponte num canal governamental em Menasha, WI, EUA.

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Bill Gates e os 4 Bilhões na Pobreza

A pobreza global está caindo ou crescendo? Sabe-se que a desigualdade global vem aumentando rapidamente nas últimas décadas, mas muitos defensores do capitalismo se apressam para nos afirmar que, apesar disso, nunca estivemos melhor. Será mesmo?

por Michael Roberts, em seu blog The Next Recession, Abril de 2017

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Crianças aguardam para receber comida em Mogadishu, Somalia, em 2011. (Farah Abdi Warsameh | Associated Press)

A pobreza global está caindo ou crescendo? Estimativas realistas calculam que há mais de 4 bilhões de pessoas na pobreza neste mundo, ou dois terços da população. No entanto, em sua “carta pública” mais recente, escrita no mês passado, Bill e Melinda Gates, a família mais rica do mundo, estavam entusiasmados para nos dizer que a batalha contra a pobreza global estava sendo vencida, pois desde 1990 caiu pela metade o número de pessoas que vivem com menos de US $ 1,25 por dia. Como conciliar essas duas estimativas? Continuar lendo

ABCs do Socialismo

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[Nota de Tradução: Em abril de 2016 a Revista Jacobin lançou um especial introdutório à várias questões relacionadas ao Socialismo como uma resposta ao enorme crescimento do interesse por informações sobre esses temas, principalmente com a campanha presidencial de Bernie Sanders nos EUA. O livro conta com todas essas lindas ilustrações originais de Phil Wrigglesworth. O especial pode ser baixado na íntegra em inglês aqui.

Seguem abaixo os links para as traduções de todos os 13 textos do especial. Continuar lendo →

Votando Sob o Socialismo

Vai ser mais significativo – mas esperamos que não envolva assembleias sem-fim.

por Peter Frase, na Revista Jacobin, novembro de 2016

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Depois de assistir meses de cobertura na mídia, você vai para as urnas por alguns minutos e deposita seu voto para alguém te representar… E então acabou. Isso é o que “democracia” significa hoje.

Certamente, conquistar mesmo esta forma limitada de democracia eleitoral foi uma importante vitória da classe-trabalhadora. E o acesso às urnas permanece uma questão importante. Conservadores continuam seus esforços para reverter direitos de voto de pessoas negras nos Estados Unidos. [1] Outras populações, tais como condenados, residentes sem a condição de cidadãos e adolescentes com menos de 18 anos estão inteiramente por fora dessa concessão.

A questão permanece, porém, se estas são algo mais do que batalhas táticas, formas de conquistar vantagens na luta contra o Capital. Em um mundo melhor, democracia não significaria mais do que isso? Que tipo de organização política é adequada para uma sociedade socialista? Continuar lendo

Socialismo, Mercado, Planejamento e Democracia

O socialismo promete a emancipação humana, com o alargamento da democracia e da racionalidade para a produção e distribuição de bens e serviços e o uso da tecnologia acumulada pela humanidade para a redução a um mínimo do trabalho necessário por cada pessoa, liberando seu tempo para o seu livre desenvolvimento. Como organizar uma economia socialista para realizar essas promessas?

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O texto a seguir apresenta um debate sobre a organização da economia num futuro socialista, analisando os problemas das experiências soviéticas e do Leste Europeu e apresentando argumentos e críticas de propostas alternativas. Está dividido em três partes:

Parte I. O texto “O Vermelho e o Preto”, de Seth Ackerman, publicado pela revista Jacobin, que apresenta uma crítica do modelo de Economia Participativa; um relato histórico sobre o modelo de Planejamento Centralizado adotado pelas experiências soviéticas e do Leste Europeu, desmontando alguns mitos sobre seu insucesso mesmo em termos da teoria econômica dominante; e uma proposta de alternativa baseada num Socialismo de Mercado com bancos correntistas e bancos de investimento socializados.

Parte II. Alguns textos publicados como respostas críticas ao texto de Ackerman, analisando pontos positivos e limitações de sua crítica e de suas propostas, além de considerar alternativas, principalmente sobre as possibilidades de um Planejamento Democrático em algum nível.

Parte III. Um trecho de uma intervenção do coletivo Libcom em um debate com defensores do modelo de Economia Participativa em que defendem um modelo baseado na Subversão das Cadeias Logísticas, mostrando que a discussão sobre modelos de organização da economia socialista não se esgota em Socialismo de Mercado x Planejamento Democrático x Economia Participativa, que existe espaço para outras ideias muito interessantes.

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Como Vai Acabar o Capitalismo?

O epílogo de um sistema em desmantêlo crônico: A legitimidade da ‘democracia’ capitalista se baseava na premissa de que os Estados eram capazes de intervir nos mercados e corrigir seus resultados, em favor dos cidadãos; hoje, as dúvidas sobre a compatibilidade entre uma economia capitalista e um sistema democrático voltaram com força total.

por Wolfgang Streeck, na Revista New Left Review, maio/junho de 2014 [acesso em dezembro de 2016]

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Casas abandonadas em bairro residencial em Detroit durante a crise de 2008

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As Perspectivas da Liberdade

“A idéia de liberdade degenera assim em mera defesa do livre empreendimento, que significa a plenitude da liberdade para aqueles que não precisam de melhoria em sua renda, seu tempo livre e sua segurança, e um mero verniz de liberdade para o povo, que pode tentar em vão usar seus direitos democráticos para proteger-se do poder dos que detêm a propriedade”

por David Harvey, em “Neoliberalismo, História e Implicações”, 2005

Tradução: Adail Sobral e Maria Stela Gonçalves | Edições Loyola

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Foto: Vadim Ghirda | Flickr

[Nota do Minhocário: Karl Polanyi escreveu seu livro “A Grande Transformação” entre os anos 30 e 40 para analisar como o mundo sucumbia ao Fascismo. Para ele, o Liberalismo Econômico dominante até os anos 20, que ruiu com a crise de 29, havia pavimentado o caminho para a ascensão desses movimentos de Extrema-Direita. Infelizmente, como o mundo voltou a ser dominado por um tipo de pensamento econômico “liberal” à partir do final dos anos 70, me parece que essa crítica dele continua extremamente atual, inclusive no sentido de como esse próprio liberalismo tende a desaguar numa sociedade cada vez mais autoritária (que, me parece muito claro, é exatamente o fenômeno que estamos assistindo nos EUA e Europa, após a crise de 2008, e no Brasil, mais recentemente). ]

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Sua Majestade, a Teoria Econômica

“Aqui temos a crise econômica e financeira mais espetacular em décadas e o grupo que passa a maior parte de suas horas ativas analisando a economia basicamente não a enxergou.”

por David Harvey, em ‘O Enigma do Capital’, 2010, págs 190-194

Tradução: João Alexandre Peschanski | Editora Boitempo

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Alan Greenspan, ex-presidente do Federal Reserve nos EUA, teve de admitir que a teoria econômica neoclássica, que defendeu e aplicou por décadas, lhe deixou desarmado para antecipar, compreender ou enfrentar a crise de 2008.

Quando Sua Majestade a rainha fez uma visita à London School of Economics, em novembro de 2008, perguntou como era possível que nenhum dos economistas tivesse visto a crise financeira que se aproximava. Seis meses depois, os economistas da Academia Britânica enviaram-lhe uma carta um tanto apologética. Continuar lendo

O Mercado é Mesmo Bom?

Há um elemento comum, nas manifestações recentes da direita: o discurso de que o Estado deve recuar e o mercado deve regular uma porção maior das interações humanas. Se a lógica do mercado opera, dizem eles, no final das contas todos ganham. Será que é mesmo assim?

por Luis Felipe Miguel, no blog da Boitempo, junho de 2015

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Há um elemento comum, nas manifestações recentes da direita brasileira – e não só brasileira: o discurso de que o Estado deve recuar e o mercado deve regular uma porção maior das interações humanas. Enquanto o Estado premiaria os “preguiçosos” por meio de suas políticas sociais, o mercado daria a cada um a recompensa justa pelo seu esforço. É o que diziam as faixas, nas manifestações de março e abril, que reivindicavam o direito daqueles que “trabalharam muito” a se dessolidarizar dos pobres e marginalizados. Por vezes, como quando denuncia as cotas nas universidades, este discurso ainda é tingido por um racismo indisfarçável.

É um entendimento que está presente mesmo em agentes que, à primeira vista, parecem mais motivados por uma pauta retrógrada no âmbito dos direitos individuais. Basta lembrar de Eduardo Cunha. Chegou à presidência da Câmara anunciando que barraria qualquer medida em favor do direito ao aborto, mas tratou de logo encaminhar, a todo vapor, a sacralização do financiamento privado de campanhas, seu principal interesse na “reforma política”, e o desmonte dos direitos trabalhistas, aprovando o PL 4330/2004. [1] Jornalistas e advogados conservadores não tardaram a anunciar as vantagens da “terceirização”, que consistiriam exatamente em reduzir a regulação estatal das relações de trabalho, permitindo que a lógica do mercado opere mais livremente. Se a lógica do mercado opera, dizem eles, no final das contas todos ganham. Menos direitos trabalhistas gerariam mais lucro, logo mais riqueza, mais trabalho e maiores salários. Continuar lendo