Rumo a Um Socialismo Ciborgue

A Esquerda precisa de mais vozes e de críticas mais afiadas que coloquem nossa análise do poder e de justiça no centro das discussões ambientais, onde elas devem estar.

por Alyssa Battistoni, na Revista Jacobin, janeiro de 2014

cyborg

O primeiro Dia da Terra [1] foi em 22 de abril de 1970. Era também o centésimo aniversário de Lênin. A coincidência não foi intencional.

De fato, parte do ponto do Dia da Terra era distanciar o movimento ambientalista nascente das críticas da Nova Esquerda à Sociedade de Consumo, desenvolvimento suburbano e ao lixo nuclear. Em uma tentativa de evitar acusações de política “melancia” – verde por fora, vermelha por dentro – a mensagem inicial do movimento ambientalista, como um slogan do Greenpeace afirmava explicitamente, era “não sou um Vermelho, sou um Verde.” Enquanto o ambientalismo se tornava mainstream, ONGs verdes se tornaram ricas e poderosas na base de doações de corporações e adotaram estratégias de conciliação visando esverdear o mundo, uma marca por vez.

Nos dias de hoje, o ambientalismo pode rivalizar o ecletismo da Esquerda: severas fantasias selvagens, misticismo Nova Era [2] e romantismo de classe-média existem lado-a-lado com protestos indígenas anti-nucleares, campanhas contra a nuvem de poluição urbana, nostalgia agrária de volta-à-terra e tecnologia empresarial verde. Mas recentemente, o ambientalismo militante vem encenando um retorno – assim como a repressão estatal. E mesmo as variedades mais dominantes do ambientalismo estão se movendo lentamente para a Esquerda. A mudança climática em particular tem potencial radicalizante, enquanto mais e mais pessoas estão começando a questionar os efeitos destrutivos do sistema econômico predominante sobre o meio-ambiente. Mas grupos ambientalistas dominantes não vão oferecer uma crítica coerente das consequências ecológicas do capitalismo ou fazer o trabalho de teorizar alternativas.

É ridículo que nós ainda classifiquemos mudança climática e reservas de água como questões especificamente “ambientais”: as questões à mão são de Economia Política e Ação Coletiva. Quer dizer, são coisas sobre as quais a Esquerda tem muito a dizer. Mas enquanto esquerdistas estão cada vez mais reconhecendo a importância de questões antes compartimentalizadas como “ambientais,” perspectivas de Esquerda sobre estas questões permanecem sub-teorizadas e muito raramente discutidas. Isso precisa mudar – não podemos apenas continuar repetindo a Naomi Klein [3] sempre que o tópico aparece.

A Esquerda precisa de mais vozes e de críticas mais afiadas que coloquem nossa análise do poder e de justiça no centro das discussões ambientais, onde elas devem estar. Nós podemos começar dando apoio e amplificando o trabalho de defensores da justiça ambiental que tem há tempos enfrentado os efeitos desiguais da destruição ambiental sobre as comunidades trabalhadoras – particularmente negros da classe trabalhadora e indígenas – e outros grupos marginalizados. Mas há mais à fazer.

Esquerdismo Ambiental tende a ter uma inclinação anarquista: protestantes anti-globalização, ativistas do “Earth First![4] orientados à ação direta, liberacionistas dos Direitos Animais e coletivos de ciclistas. E como problemas ambientais são tão específicos de cada lugar, eles frequentemente despertam soluções na forma de ação local de pequena-escala. Mas a mudança climática e outros desafios ambientais globais são questões sistêmicas que requerem mais do que bolsas de práticas alternativas.

Ainda assim, se o eco-anarquismo não tende a escalar bem, críticas amplas e difusas do tipo “é o capitalismo, estúpido” [5] não são muito úteis quando se trata das especificidades do que exatamente se fazer sobre isso. Socialistas também, frequentemente fogem de questões sobre como atingir justiça econômica mundial sem depender de formas existentes de produção de energia ou exacerbando a destruição ambiental. Mesmo deixando de lado a réplica inevitável de que a União Soviética não era bem um paraíso ecológico, os velhos sonhos socialistas de maximizar a produção na busca por abundância e igualdade parecem cada vez mais insustentáveis. O que irá substituí-los?

Não é que a gente precise apresentar uma série de planos quinquenais [6] para o meio-ambiente. As exigências da crise climática significam que nós não teremos a chance de construir uma Eco-Utopia do zero. Nossa situação requer uma luta por reformas não-reformistas [7] – projetos que nos arrumem tempo e que permitam que as sociedades se adaptem à mudança climática e que atendam necessidades imediatas, enquanto também nos colocando no caminho para transformações mais fundamentais. Sem uma visão e um conjunto de ideias concretas sobre como chegar lá, nós estamos sujeitos a terminar com o tipo de centrismo verde-claro que favorece tanto ciclovias quanto cortes no orçamento, drones abastecidos com energia solar e cadeias abastecidas com microgrids [8] – isto é, algo que lembra o Partido Verde da Alemanha, que já foi um esforço inspirador e que hoje é descrito por um co-fundador desiludido como “neoliberais de bicicletas.” Nós já temos muitos desses.

E esqueça o Socialismo em um país só [9]ecossocialismo em um país só é ainda menos factível. O fato de que os problemas ecológicos não respeitam fronteiras nacionais ou institucionais é muitas vezes usado como uma desculpa para a inação, levando ao crônico colapso das negociações climáticas globais. Mas essa interdependência deveria ser um ímpeto para revigorar a Esquerda Internacional – um lembrete de que a sustentabilidade virá apenas através da solidariedade global.

Ao mesmo tempo, as consequências das lutas ambientais dentro dos EUA são vitais em vista da contínua hegemonia estadunidense – para não falar sobre seu status como um dos líderes mundiais em poluição. Os EUA têm não apenas falhado consistentemente em se comprometer com tratados internacionais e metas de emissão; têm também pressionado para substituir as responsabilidades mais rigorosas e o financiamento mais substancial propostos pelos países em desenvolvimento por mecanismos de mercado preferidos por interesses industriais e financistas, que vêem oportunidades para poupar custos e acumular na área de compensação [10] e comércio de créditos de carbono [11] – frequentemente com o apoio de ONGs estadunidenses que concederam os termos do debate.

O fracasso da Esquerda estadunidense em se engajar mais substancialmente em questões ambientais no país tem consequências reais para a expansão do Neoliberalismo mundo à fora.

A história do ambientalismo está cheia de Malthusianismo [12], determinismo ecológico, essencialismo biológico, conservacionismo neocolonial. Ceticismo de Esquerda – ou talvez mais precisamente, indiferença – em relação ao engajamento com políticas ecológicas é certamente compreensível. Mas não estamos falando de preservar um conceito idealizado de uma natureza intocada – estamos falando do mundo que escolhemos construir, e do mundo em que teremos de viver.

O verde domina a paisagem ambiental, desde o verde claro do greenwashing [13] de “estilos de vida sustentáveis” até o verde escuro de Ecologistas Profundos [14]. Mas o ambientalismo também é o preto das doenças de pulmão em cidades de mineração de carvão e dos campos tóxicos abandonados [15] em bairros urbanos, o brilho iridescente de um vazamento de petróleo e o branco translúcido das calotas polares em derretimento.

Então eu fico um pouco constrangida com o termo “ecossocialismo” – tem muita tonalidade de terra. O que nós precisamos é de um “Socialismo Ciborgue” que aponte não para a primazia da ecologia, mas para a integração do natural e do social, orgânico e industrial, ecológico e tecnológico; que reconheça as transformações humanas do mundo natural sem simplesmente afirmar sua dominação sobre ele.

A Esquerda não precisa ficar Verde – para salvar o planeta e as pessoas nele, ela precisa ficar Vermelha.

Tradução: Everton Lourenço


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Notas

[1] https://noticias.terra.com.br/ciencia/sustentabilidade/dia-da-terra-2013-entenda-como-surgiu-a-data-e-seu-significado,6274627e5bf2e310VgnVCM4000009bcceb0aRCRD.html

[2] https://pt.wikipedia.org/wiki/New_age

[3] https://www.youtube.com/watch?v=Y4p6MvwpUeo e https://www.youtube.com/watch?v=dhJA7HCPHDA

[4] http://www.pensamentoverde.com.br/atitude/conheca-o-movimento-ambientalista-earth-first/

[5] brincadeira com a famosa fase “é a economia, estúpido!”, quase um slogan durante a campanha presidencial de Bill Clinton em 1992.

[6] https://www.portaleducacao.com.br/pedagogia/artigos/64916/planos-quinquenais-sovieticos

[7] Reforma não-reformista: conceito de André Gorz sobre um tipo de reforma que afetaria questões centrais do sistema capitalista e que abriria espaço para reformas mais radicais, capazes até mesmo de colocar em cheque o próprio sistema, ou alimentar processos que o superariam.

[8] http://www.technologyreview.com.br/read_article.aspx?id=40882

[9] https://pt.wikipedia.org/wiki/Socialismo_em_um_s%C3%B3_pa%C3%ADs

[10] Compensação de Carbono – https://www.ups.com/content/br/pt/bussol/browse/carbon_neutral_offset.html

[11] Créditos de Carbono – https://pt.wikipedia.org/wiki/Cr%C3%A9ditos_de_carbono

[12] http://www.infoescola.com/geografia/teoria-populacional-malthusiana/

[13] https://pt.wikipedia.org/wiki/Greenwashing

[14] https://pt.wikipedia.org/wiki/Ecologia_profunda

[15] No original, “brownfields” – https://pt.wikipedia.org/wiki/Brownfields

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