Como Vai Acabar o Capitalismo?

O epílogo de um sistema em desmantêlo crônico: A legitimidade da ‘democracia’ capitalista se baseava na premissa de que os Estados eram capazes de intervir nos mercados e corrigir seus resultados, em favor dos cidadãos; hoje, as dúvidas sobre a compatibilidade entre uma economia capitalista e um sistema democrático voltaram com força total.

por Wolfgang Streeck, na Revista New Left Review, maio/junho de 2014 [acesso em dezembro de 2016]

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Casas abandonadas em bairro residencial em Detroit durante a crise de 2008

[Nota do Minhocário1) Me parece que apesar dele não explicitar isso no texto, o que o prof. Streeck chama de “Capitalismo” é um somatório do meio de produção alienado dos produtores (baseado na propriedade privada dos meios de produção e na produção e comercialização de mercadorias na base de trabalho assalariado) e uma ordem sistêmica coesa em torno dele. Assim, o que ele vê como “fim do capitalismo” seria o desmantêlo dessa ordem relativa num cenário de caos sistêmico, onde as peças tenderiam a não ‘se encaixar’ mais, marcado por aspectos como megaexploração da mão de obra, precarização e falta de segurança generalizada, violência, banditismo, fundamentalismo religioso e identitário, fascismo, etc – mas ainda mantendo a extração de mais-valia e multiplicação do capital como fundamentos de cada uma dessas formações sociais menos articuladas. Portanto, o prof. Streeck não trata neste artigo de um fim para o modo de produção capitalista.

2) É claro que o caminho delineado no artigo abaixo não é o único possível. Aqui n’O Minhocário há vários artigos tratando de possibilidades para o nosso futuro em comum, principalmente envolvendo o potencial de avanços tecnológicos recentes em robótica e inteligência artificial e seu possível impacto sobre o emprego e o tempo livre da população. Ver principalmente os artigos nas categorias Tecnologia, Socialismo e o Futuro e Pós-Trabalho. O próprio texto do prof. Streeck toca nesse ponto na nota 45, e como tantos outros pensadores na Esquerda (por exemplo, Peter Frase em Lingerie Egípcia e o Futuro Robô  e Michael Roberts em ‘Robôs e Inteligência-Artificial:Utopia ou Distopia?’), ele considera que o potencial para avanços imensos em produtividade nessas áreas (juntamente da liberação de tempo livre com qualidade de vida para a maioria da população) não significa que eles serão adotados, principalmente por que o baixo custo da mão de obra global sob o neoliberalismo torna bem mais confortável para os capitalistas manter os métodos de produção baseados em empregos precarizados. Como Peter Frase observa no texto citado acima, é justamente a luta dos trabalhadores por melhores condições de trabalho, tempo de jornada e salários que tende a impulsionar a busca capitalista por mais automação. No caso de termos tais avanços, podemos refletir sobre outras possibilidades de organização política e social, como em ‘Quatro Futuros’, também de Peter Frase.

3) De qualquer maneira, me parece gigantesca a importância do artigo abaixo em delinear as principais tendências destrutivas atuais e suas contradições, a improbabilidade de soluções dentro dos marcos políticos-econômicos-sociais atuais, e o potencial para um desmantelo sistêmico da  ordem capitalista atual à partir delas, mesmo na ausência de uma alternativa mais racional e humana para substituí-la. Me parece que não faltam sinais de que este pode ser um caminho mais provável à frente, mantidas as direções atuais da ordem neoliberal. Incluí no final um trecho de um outro artigo do prof. Streeck (‘Do Futuro Sombrio do Capitalismo’) para ilustrar como a sociabilidade neoliberal e suas contradições atuais podem dar sinais para imaginarmos o que tende a ser o resultado de sua desordem interna. ]

Mais do que em qualquer momento desde o fim da Segunda Guerra Mundial, [1] há hoje em dia um sentimento generalizado de que o capitalismo está em estado crítico. Em retrospectiva, a crise de 2008 foi apenas o mais recente de uma longa sequência de desarranjos políticos e econômicos iniciada em meados da década de 70, com o fim da prosperidade do pós-guerra. Cada crise sucessiva mostrou-se mais grave do que a anterior, alastrando-se mais ampla e rapidamente por toda a economia global, cada vez mais interligada. O surto de inflação dos anos 70 foi seguido pelo aumento da dívida pública nos anos 80, e o ajuste fiscal dos anos 90 se fez acompanhar por um acentuado aumento da dívida do setor privado. [2] Já faz quatro décadas que o desequilíbrio tem sido mais ou menos a condição normal do mundo industrial ‘avançado’, tanto em nível nacional como global.

Com o tempo, as crises do modelo do pós-guerra nos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) [3] se tornaram tão recorrentes que não são mais vistas como meramente econômicas; elas resultaram na redescoberta da antiga noção de “sociedade capitalista” – do capitalismo como uma ordem social e um modo de vida que depende visceralmente do progresso ininterrupto da acumulação de capital privado.

Os sintomas da crise são muitos, mas predominam três tendências de longo prazo nas trajetórias dos países ricos altamente industrializados – ou melhor, cada vez mais desindustrializados. A primeira é um declínio persistente da taxa de crescimento, agravado pelos acontecimentos de 2008 (figura 1, abaixo). A segunda, associada à anterior, é um aumento também persistente do endividamento total nos principais países capitalistas, onde governos, famílias, empresas e bancos vêm acumulando passivos financeiros nos últimos quarenta anos (para o caso dos EUA, ver figura 2, abaixo). A terceira tendência, enfim, consiste no recrudescimento, já há várias décadas, da desigualdade (figura 3, abaixo), tanto de renda como de riqueza, junto de uma dívida crescente e um crescimento em queda.

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Figura 1: Taxas médias de crescimento anual dos 20 países da OCDE, 1972-2010 | Metodologia: Média móvel de cinco-anos | Fonte: ‘OECD Economic Outlook: Statistics and Projections’

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Figura 2: Dívidas como uma porcentagem do PIB dos EUA por setor, 1970-2011 | Do mais escuro para o mais claro: Empresas Financeiras, Famílias, Empresas Não-Financeiras, Governo geral | Fonte: ‘OECD National accounts

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Figura 3: Aumento no coeficiente Gini [desigualdade], média da OCDE | Fonte: ‘OECD Income Distribution Database

O crescimento constante, a moeda estável e um mínimo de igualdade social, disseminando alguns benefícios do sistema para os que não têm capital, por muito tempo foram considerados pré-requisitos para uma economia política capitalista conseguir a legitimidade de que precisa. Nesse sentido, o mais alarmante é que as tendências críticas mencionadas podem estar se reforçando mutuamente.

Crescem os indícios de que o aumento da desigualdade pode ser um dos fatores do declínio do crescimento, pois a desigualdade trava as melhorias na produtividade e também enfraquece a demanda. O baixo crescimento, por sua vez, reforça a desigualdade ao intensificar a disputa pelos recursoso chamado conflito distributivo –, tornando mais custosas aos ricos as concessões aos pobres, e fazendo com que os primeiros insistam mais do que nunca na estrita observância do “Efeito Mateus” que rege os mercados livres: “Ao que tem muito, mais lhe será dado e ele terá em abundância; mas ao que não tem, até mesmo o pouco que lhe resta lhe será tirado.” [4]

Além disso, o endividamento crescente, ao mesmo tempo que não consegue deter a redução do crescimento econômico, torna-se mais um componente da desigualdade devido às mudanças estruturais associadas à financeirização da economia – financeirização esta, no entanto, que visava compensar os assalariados e consumidores pelo aumento da desigualdade de renda causada pela estagnação dos salários e pelos cortes nos serviços públicos.

Isso que parece ser um círculo vicioso de tendências nocivas pode continuar para sempre? Ou existem forças contrárias capazes de romper esse círculo? E o que acontecerá se se essas forças contrárias não se materializarem, como assistimos há quase quatro décadas?

Os historiadores nos informam que as crises não são uma novidade para o capitalismo, e podem até ser necessárias para sua saúde em longo prazo. Mas eles estão falando de movimentos cíclicos ou choques aleatórios, após os quais as economias podem conseguir um novo estado de equilíbrio, pelo menos temporário. O que estamos vendo, porém, parece em retrospecto ser um processo contínuo de decadência gradual, lento mas aparentemente inexorável. Recuperar-se de um processo de purificação [Reinigungskrise, em alemão] eventual é uma coisa; interromper o encadeamento de tendências de longo prazo entrelaçadas é outra bem diferente. Admitindo que um crescimento cada vez menor, uma desigualdade cada vez maior e o endividamento sempre crescente não sejam sustentáveis indefinidamente – e podem, juntos, resultar numa crise de natureza sistêmica, cujas características temos dificuldade de imaginar –, será que podemos vislumbrar sinais de uma recuperação iminente?

Outra Solução Temporária

Aqui as notícias não são boas. Seis anos se passaram desde 2008, até aqui o auge dessa sequência de crises do pós-guerra. Enquanto a lembrança do abismo ainda estava fresca na memória, foram muitas as demandas e planos por “reformas” para evitar nova recaída. Conferências internacionais e reuniões de cúpula de todo tipo se sucederam, mas meia década depois quase nada resultou desses encontros. Enquanto isso, o setor financeiro, berço do desastre, apresentou uma recuperação completa: lucros, dividendos, salários e bônus para os executivos retornaram ao ponto em que estavam, enquanto uma regulação mais estrita ficou atolada em negociações internacionais e lobby doméstico.

Os governos, sobretudo o dos Estados Unidos, continuaram firmemente sob o controle das indústrias de fazer dinheiro. Estas, por sua vez, estão sendo generosamente abastecidas de dinheiro barato, criado a partir do nada, para benefício delas, por seus amigos nos bancos centrais – eminente entre eles o antigo homem do Goldman Sachs, Mario Draghi, no comando do Banco Central Europeu; elas então acumulam esse dinheiro, ou investem em dívida pública. O crescimento continua anêmico, assim como os mercados de trabalho; a emissão sem precedentes de dinheiro não conseguiu alavancar a economia; e a desigualdade está alcançando níveis cada vez mais impressionantes, já que o parco crescimento tem sido apropriado pelo 1% mais rico – e a parte do leão por uma pequena fração destes. [5]

Parece haver poucas razões para ser otimista. Já faz algum tempo que o capitalismo nos países ricos vem se mantendo por meio de injeções generosas de dinheiro sem lastro, sob uma política de expansão monetária cujos arquitetos sabem, melhor do que ninguém, que não pode continuar para sempre.

Várias tentativas foram feitas em 2013 para largar o vício, no Japão e nos Estados Unidos, mas, quando as Bolsas despencaram em resposta à possibilidade de redução gradual do relaxamento monetário, as diligências foram engavetadas por mais um tempo. Em meados de junho último, o Banco de Compensações Internacionais (BIS), na Basileia, Suíça – a mãe de todos os bancos centrais –, declarou que o relaxamento monetário precisava chegar ao fim. Em seu relatório anual, o banco apontou que os bancos centrais, reagindo à crise e à lenta recuperação, expandiram seus balanços patrimoniais, “que estão agora coletivamente em cerca de três vezes seus níveis anteriores à crise – e crescendo”. [6]  Embora isso tenha sido necessário para “evitar o colapso financeiro”, agora era preciso “fazer com que as economias ainda fracas voltem a um crescimento forte e sustentável”. Isso, no entanto, estava além das capacidades dos bancos centrais, que:

“… não podem implementar as reformas estruturais necessárias para fazer com que as economias retomem o caminho do crescimento real que as autoridades e seus públicos querem e esperam. O que a ação dos bancos centrais conseguiu durante a recuperação foi comprar tempo. […] Mas esse tempo não foi bem empregado, já que os juros baixos contínuos e as políticas não convencionais favoreceram o adiamento da redução das dívidas do setor privado, o financiamento dos déficits dos governos, e a postergação das reformas necessárias na economia real e no sistema financeiro, por parte das autoridades. Afinal, o dinheiro barato torna mais fácil pedir emprestado do que economizar, mais fácil gastar do que tributar, mais fácil manter tudo como está do que mudar.”

Mesmo o Federal Reserve, o banco central estadunidense, aparentemente tinha essa mesma opinião quando seu presidente era Ben Bernanke, que deixou o cargo no começo deste ano. No início do segundo semestre de 2013, o banco parecia, mais uma vez, sinalizar que a época do dinheiro fácil estava com os dias contados. Em setembro do ano passado, porém, o esperado retorno às taxas de juros mais altas foi novamente adiado porque “a economia” parecia menos “forte” do que se esperava. Os preços de ações subiram imediatamente por todo o mundo.

A verdadeira razão, é claro, pela qual é tão difícil retomar as políticas monetárias mais convencionais pode ser dita com mais liberdade por uma instituição internacional como o BIS do que um banco central nacional, politicamente mais exposto – pelo menos atualmente. Nas atuais circunstâncias, a única alternativa à sustentação do capitalismo por meio de injeções ilimitadas de dinheiro é tentar reanimá-lo por meio de reformas econômicas neoliberais, [7] como resume bem o segundo tópico do Relatório Anual do BIS 2012-13: “Aumentar a flexibilidade: uma chave para o crescimento.”

Em outras palavras, um remédio amargo para muitos, combinado com maiores incentivos para poucos. [8]

Um Problema Com a Democracia

É aqui que a discussão sobre a crise e o futuro do capitalismo moderno deve se voltar para a política democrática. O capitalismo e a democracia por muito tempo foram considerados adversários, até que os arranjos do pós-guerra pareceram reconciliá-los. Já bem entrado o século XX, os detentores do capital ainda temiam que as maiorias democráticas fossem abolir a propriedade privada, enquanto os trabalhadores e suas organizações receavam que os capitalistas financiassem recaídas autoritárias em defesa de seus privilégios.

Só na Guerra Fria o capitalismo e a democracia passaram a parerecer alinhados, pois o progresso econômico permitiu que o grosso da classe trabalhadora aceitasse um regime de livre mercado e propriedade privada – o que, por sua vez fez parecer que a liberdade democrática era inseparável, e que de fato dependia, de liberdade para os mercados e para o lucro. Hoje, porém, as dúvidas sobre a compatibilidade entre uma economia capitalista e um sistema político democrático voltaram com força total. Entre as pessoas comuns, há agora um sentimento disseminado de que a política não pode mais fazer diferença em suas vidas, como refletido nas percepções comuns de impasse, incompetência e corrupção entre uma classe política que parece ser cada vez mais fechada em si mesma e servindo a si mesma – unida na afirmação de que “não há alternativa” para ela e suas políticas. [9] Daí a queda na participação eleitoral combinada à alta volatilidade do eleitorado, produzindo resultados eleitorais cada vez mais fragmentados – devido à ascensão de partidos “populistas” de protesto – e a instabilidade generalizada dos governos. [10]

A legitimidade da democracia no pós-guerra se baseava na premissa de que os Estados eram capazes de intervir nos mercados e corrigir seus resultados, no interesse dos cidadãos. Décadas de desigualdade crescente – bem como a impotência dos governos antes, durante e depois da crise de 2008 – lançaram dúvidas sobre essa ideia. Em resposta a sua crescente irrelevância numa economia de mercado global, governos e partidos políticos nas democracias da OCDE assistiram à transformação da “luta de classes democrática” num circo de mídia, num entretenimento pós-democrático. [11]

Enquanto isso, a passagem da economia política capitalista, do keynesianismo do pós-guerra para o hayekianismo neoliberal, [12] transcorreu sem dificuldades: uma fórmula política para o crescimento econômico por meio da redistribuição de cima para baixo foi substituída por outra que espera promover o crescimento por meio da redistribuição de baixo para cima. A democracia igualitária, antes considerada economicamente produtiva sob o keynesianismo, passou a ser vista como um empecilho à eficiência sob o hayekianismo contemporâneo, onde mercados protegidos contra distorções geradas por políticas redistributivas – e as vantagens cumulativas que eles implicariam – trariam mais crescimento.

Um tópico-chave da retórica antidemocrática vigente é a crise fiscal do Estado contemporâneo, tal como vista no aumento espantoso da dívida pública desde a década de 70 (figura 4, abaixo). [13] Esse aumento é atribuído a uma maioria do eleitorado que viveria acima das suas posses, explorando o “fundo comum” de suas sociedades, e a políticos oportunistas que comprariam o apoio de eleitores míopes com um dinheiro que não têm. [14]

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Figura 4: Endividamente governamental como porcentagem do PIB, 1970-2011 | países incluídos em média não-ponderada: Austria, Bélgica, Canadá, França, Alemanha, Itália, Japão, Holanda, Noruega, Suécia, Reino Unido, EUA. Fonte: ‘OECD Economic Outlook: Statistics and Projections‘.

A crise fiscal, porém, não foi determinada por um excesso de democracia redistributiva, como se pode constatar pela coincidência do acúmulo da dívida pública com um declínio na participação eleitoral, sobretudo entre as pessoas de menor renda. E mais: o acúmulo da dívida pública acompanhou o enfraquecimento da sindicalização, o desaparecimento das greves, os cortes no Estado de bem-estar e o crescimento disparado da desigualdade de renda.

Por outro lado, o que de fato esteve relacionado com a deterioração das finanças públicas foram a queda dos níveis gerais de tributação (figura 5, abaixo) e o caráter cada vez mais regressivo dos impostos – como resultado de “reformas” na tributação das empresas e das faixas superiores de renda (figura 6, abaixo). Além disso, ao substituir as receitas tributárias pela dívida, os governos contribuíram ainda mais para a desigualdade, oferecendo oportunidades de investimento seguro para aqueles cujo dinheiro eles já não queriam, ou não podiam, confiscar – ao contrário, passaram a pedir emprestado esse dinheiro. Diferentemente de quem paga impostos, quem compra títulos do governo continua a possuir aquilo que pagou ao Estado, e de fato recebe juros sobre esses papéis, tipicamente pagos por impostos cada vez mais regressivos; e também podem transmití-los como herança para os filhos. [15]

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Figura 5: Receita tributária total como porcentagem do PIB, 1970-2011 | Países em média sem ponderação: Austrália, Áustria, Bélgica, Canadá, Dinamarca, Finlândia, França, Alemanha, Grécia, Irlanda, Itália, Japão, Holanda, Noruega, Portugal, Espanha, Suécia, Suíça, Reino Unido, EUA. | Fonte: Tabelas comparativas, ‘OECD Tax Statistics Database’.

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Figura 6: Margens mais altas de taxas de impostos de renda, 1900-2011 | Fonte: Facundo Alvaredo et al, “The Top 1 per cent in Internation and Historical Perspective”.

Além disso, o aumento da dívida pública pode ser – e está sendo – utilizado politicamente para defender cortes nos gastos do Estado e a privatização dos serviços públicos, restringindo ainda mais a intervenção democrática redistributiva na economia capitalista.

Nas últimas décadas, a economia de mercado foi muito beneficiada por mais proteções institucionais contra a interferência democrática. Os sindicatos estão em baixa no mundo todo, e em países como os Estados Unidos foram quase erradicados. A política econômica basicamente passou para as mãos de bancos centrais independentes – desobrigados de prestar contas democraticamente e interessados acima de tudo na saúde e na boa vontade dos mercados financeiros. [16] Nos países europeus, as políticas econômicas nacionais, que abrangem a fixação dos salários e a elaboração do orçamento, são cada vez mais governada por organismos supranacionais, como a Comissão Europeia e o Banco Central Europeu, ambos fora do alcance da democracia popular. Isso efetivamente desdemocratiza o capitalismo europeu – sem, é claro, despolitizá-lo. [17]

Ainda assim, as classes que dependem do lucro seguem duvidando que a democracia, mesmo em sua atual versão castrada, permitirá as “reformas estruturais” neoliberais necessárias para o regime se recuperar. Tal como os cidadãos comuns, embora por razões opostas, as elites estão perdendo a fé em governos democráticos e em sua adequação para remodelar as sociedades conforme os imperativos do mercado. A aviltante visão da teoria da “escolha pública”, segundo a qual a política democrática corrompe a justiça do mercado ao servir a políticos oportunistas e sua clientela, tornou-se consenso entre pessoas da elite – assim como a convicção de que o capitalismo de mercado, expurgado da política democrática, será mais eficiente, virtuoso e responsável. [18]

Elogiam-se países como a China, cujo sistema político autoritário seria muito mais equipado do que a democracia majoritária, com seu viés igualitário, para lidar com o que afirmam ser os desafios da “globalização” – uma retórica que começa a saltar à olhos vistos como uma emulação da celebração que as elites capitalistas faziam do fascismo alemão e italiano (e até mesmo do stalinismo) no período entreguerras, dada a suposta superioridade de sua governança econômica. [19]

Por enquanto, a utopia política da corrente neoliberal convencional é uma “democracia em conformidade com mercado”, sem poderes de correção do mercado e favorável a uma redistribuição da base para o topo, “compatível com os incentivos” ‘necessários’ para estimular o crescimento. [20] Ainda que esse projeto já esteja bem avançado na Europa Ocidental e nos Estados Unidos, seus defensores continuam temendo que em algum momento a maiorias populares retomem as instituições políticas herdadas do pacto social do pós-guerra, num esforço derradeiro para bloquear o avanço de uma solução neoliberal para a crise. Assim, as pressões da elite para neutralizar a democracia igualitária seguem firmes; na Europa, elas se traduzem na contínua transferência da tomada de decisões políticas/econômicas para instituições supranacionais como o Banco Central Europeu e as reuniões de cúpula de governantes.

Capitalismo à Beira do Precipício?

Será que os dias do capitalismo ficaram para trás? Nos anos 80, abandonou-se a ideia de que o “capitalismo moderno” poderia ser gerido como uma “economia mista”, administrada tecnocraticamente e controlada democraticamente. Mais tarde, na revolução neoliberal, a ordem econômica e social foi reconcebida como algo que surgia, benevolamente, da “livre atuação das forças de mercado”. Com a recessão de 2008, esvaziou-se a promessa de que mercados autorregulados atingiriam o equilíbrio por conta própria, embora não se tenha proposto uma nova fórmula de governança político-econômica. Isso por si só pode ser considerado sintoma de uma crise que se tornou sistêmica, mais ainda pela sua duração.

Considerando as décadas de declínio do crescimento, o aumento da desigualdade e a escalada da dívida – assim como as sucessivas agonias da inflação, dívida pública e implosão financeira desde os anos 70 – acredito ter chegado a hora de voltar a pensar o capitalismo como um fenômeno histórico, que tem um início e também um fim. Para tanto, precisamos descartar modelos farisaicos de mudança social e institucional. Enquanto imaginarmos que o capitalismo terá seu fim decretado, ao estilo leninista, por algum governo ou comitê central, persistiremos na crença de que o capitalismo é eterno. (Na verdade, era o sistema soviético, centralizado como estava em Moscou, que podia ser encerrado por decreto, e assim foi.) A coisa muda de figura se – em vez de imaginar que uma decisão coletiva, amparada numa nova ordem previamente concebida, porá termo ao capitalismo – permitirmos que o sistema desmorone por si só.

É um preconceito marxista – ou melhor, modernista – acreditar que o capitalismo como época histórica só terminará quando uma sociedade melhor estiver à vista, com um sujeito revolucionário pronto para implementá-la em prol do avanço da humanidade. Devemos aprender a pensar a aproximação do fim do capitalismo sem nos comprometermos em responder à pergunta sobre o que colocar em seu lugar.

Isso pressupõe um grau de controle político sobre nosso destino comum com o qual sequer podemos sonhar depois do aniquilamento da ação coletiva, e até da esperança nesse tipo de ação, durante a revolução neoliberal globalista. Nem uma visão utópica de um futuro alternativo nem um poder sobre-humano de vidência deveriam ser requisitos para validar a afirmação de que o capitalismo está enfrentando seu “crepúsculo dos deuses”.

Estou inclinado a endossar essa afirmação, embora ciente das inúmeras vezes que, no passado, o capitalismo foi declarado morto. Na verdade, todos os principais teóricos do capitalismo já previram seu fim iminente desde que o conceito passou a ser usado, em meados do século XIX – não apenas por críticos radicais como Karl Marx ou Karl Polanyi, mas também por teóricos burgueses como Max Weber, Joseph Schumpeter, Werner Sombart e o próprio Keynes. [21]

O fato de que algo não aconteceu, apesar de razoáveis previsões ao contrário, não significa que nunca vá acontecer; aqui também não há prova indutiva. Creio que desta vez é diferente: nem mesmo os mestres técnicos do capitalismo têm alguma ideia de como fazer o sistema voltar a funcionar plenamente. Pensemos, por exemplo, na publicação no início deste ano das atas das deliberações do conselho do Federal Reserve em 2008 [22] – mostrando que o banco central estadunidense ignorava o verdadeiro estado do sistema financeiro do país –, ou na busca desesperada dos banqueiros centrais pelo momento certo para acabar com o “relaxamento monetário”.

Esta, porém, é apenas a superfície do problema. Abaixo dela está o fato de que o progresso capitalista de certo modo destruiu qualquer agente que pudesse estabilizá-lo ao impor limites ao sistema. O ponto é que a estabilidade do capitalismo como um sistema sócio-econômico depende de que sua dinâmica seja contida por forças compensatórias – interesses coletivos e instituições que sujeitem a acumulação de capital a freios e contrapesos sociais. A implicação é que o capitalismo pode sabotar a si mesmo por ser excessivamente bem-sucedido. Defenderei este ponto em mais detalhes abaixo.

A imagem que tenho do fim do capitalismo – um epílogo que acredito já estar sendo escrito – é de um sistema social em desmantelo crônico, por razões que lhe são próprias, independentemente de uma alternativa viável. Embora não possamos saber exatamente quando e como o capitalismo vai desaparecer e o que virá em seguida, o que importa é que não há nenhuma força disponível que pudesse reverter as três tendências destrutivas – queda de crescimento, desigualdade social e instabilidade financeira – e impedi-las de um reforço mútuo. Hoje, diferentemente da década de 30, não há no horizonte nenhuma fórmula político-econômica, à esquerda ou à direita, capaz de fornecer às sociedades capitalistas um novo regime coerente de regulação. A integração social, assim como a integração sistêmica parecem irreversivelmente danificadas e caminhando para se deteriorar ainda mais. [23]

O mais provável é que, com o passar do tempo, ocorra um acúmulo de disfunções pequenas e não tão pequenas – nenhuma necessariamente fatal, porém a maioria sem conserto (e, conforme se multiplicarem, será impossível lidar com cada uma delas individualmente). Nesse processo, as partes do todo vão se encaixar cada vez menos; atritos de todo tipo vão se propagar; consequências inesperadas vão se disseminar, por razões cada vez mais difíceis de serem determinadas. Incertezas vão proliferar; crises de todo tipo – de legitimidade, de produtividade ou ambas – vão se suceder, enquanto diminuirão ainda mais a previsibilidade e a governabilidade (como vem acontecendo há décadas). Por fim, a miríade de correções provisórias concebidas para gerir crises no curto prazo vai entrar em colapso sob o peso dos desastres diários produzidos por uma ordem social em profunda instabilidade e anomia.

Conceber o fim do capitalismo como um processo, e não como um evento, levanta a questão de como definir o capitalismo. Sociedades são entidades complexas que não morrem da mesma maneira que os organismos: com a rara exceção da extinção total, a descontinuidade sempre está acompanhada de alguma continuidade. Se dizemos que uma sociedade acabou, queremos dizer que desapareceram certas características de sua organização que consideramos essenciais, embora outras possam muito bem ter sobrevivido. Eu proponho que para determinar se o capitalismo está vivo, moribundo ou morto, comecemos por defini-lo como uma sociedade moderna [24] que assegura sua reprodução coletiva como um efeito colateral, não intencional, da maximização competitiva do lucro. Uma maximização feita de forma individualmente racional, em busca da acumulação de capital, por meio de um “processo de trabalho” que combina propriedade privada do capital com mercantilização da força de trabalho, cumprindo a promessa de Bernard Mandeville [25] de que os vícios privados se transformam em benefícios públicos. [26] É essa promessa que o capitalismo contemporâneo não pode mais cumprir – encerrando sua existência histórica como uma ordem social sustentável, previsível, legítima e que se autorreproduz.

O fim do capitalismo assim definido não deve seguir nenhum plano. À medida que a deterioração avança, é inevitável que provoque gritas e tentativas de intervenção coletiva. Mas por um bom tempo estas provavelmente serão do tipo ludita: locais, dispersas, descoordenadas, “primitivas” – aumentando a desordem sem ser capaz de criar uma ordem nova; na melhor das hipóteses, colaborando involuntariamente para o surgimento dessa ordem nova.

Poderíamos pensar que uma tal crise de longa duração abriria muitas oportunidades para agentes reformistas ou revolucionários. Parece, no entanto, que o capitalismo desorganizado está desorganizando não só a si mesmo como também a sua oposição, privando-a da capacidade de derrotar o sistema, ou então de salvá-lo. Assim, para que chegue ao fim, o capitalismo deve providenciar sua própria destruição – e defendo que é exatamente o que estamos testemunhando hoje.

Uma Vitória de Pirro

Mas por que o capitalismo, sejam quais forem suas deficiências, haveria de estar em crise, se a ele não existe nenhuma oposição digna desse nome? Quando o bloco soviético implodiu em 1989, o fato foi amplamente considerado como o triunfo final do capitalismo, como “o fim da história”. Mesmo hoje, depois de 2008, a “velha esquerda” continua à beira da extinção em todos os lugares, enquanto uma nova “nova esquerda” ainda não apareceu. As massas, os pobres e os despossuídos, assim como os que estão relativamente bem, parecem firmemente presos nas garras do consumismo, com bens, ação e organização coletivas completamente fora de moda. Sendo a única opção disponível por aí, por que o capitalismo não haveria de continuar, nem que fosse só por seguir com o funcionamento padrão? Por simples falta de alternativa?

À primeira vista, há de fato muita coisa que contraria a afirmação de que o capitalismo morreu, apesar de todos os escritos agourentos na parede da história. As pessoas, por exemplo, podem se acostumar com a desigualdade, sobretudo com uma mãozinha do entretenimento e da repressão política. Além disso, abundam exemplos de reeleições de governos que cortaram gastos sociais e privatizaram serviços públicos, na busca por dinheiro seguro para os donos do dinheiro. Quanto à deterioração ambiental, ela prossegue, lenta em comparação com o tempo de vida humana, de modo que é possível negá-la e ao mesmo tempo aprender a conviver com ela. Os avanços tecnológicos que permitem um ganho de tempo – como o fracking, que viabiliza a extração do gás armazenado em rochas – não devem ser descartados; e, se há limites para os poderes apaziguadores do consumismo, é evidente que não estamos perto deles.

Além disso, adaptar-se a regimes de trabalho que consomem mais tempo e mais vida pode ser considerado um desafio competitivo, uma oportunidade para a realização pessoal. Definições culturais de “vida boa” sempre foram elásticas e podem muito bem ser esticadas ainda mais para se adequar ao avanço da mercantilização geral, pelo menos enquanto os desafios radicais ou religiosos à reeducação pró-capitalista puderem ser suprimidos, ridicularizados ou marginalizados.

Por fim, a maioria das atuais teorias sobre a estagnação se aplica unicamente ao Ocidente rico, ou apenas aos Estados Unidos, não à China, Rússia, Índia ou Brasil – países para os quais a fronteira do crescimento econômico pode estar prestes a migrar, com vastas terras virgens à espera do progresso capitalista. [27] (Mesmo considerando que as últimas avaliações sobre a performance econômica desses países tenham se mostrado bem menos otimistas do que eram dois ou três anos atrás.)

Penso que não enfrentar oposição nenhuma, mais que uma vantagem, pode ser uma desvantagem para o capitalismo. Sistemas sociais prosperam com a heterogeneidade interna, o pluralismo de princípios organizacionais que os blinda da dedicação a uma única finalidade, criando outras metas que também devem ser cumpridas para que o sistema seja sustentável.

O capitalismo, tal como o conhecemos, se beneficiou muito com a ascensão de movimentos opostos ao domínio do lucro e do mercado. O socialismo e o sindicalismo ao impor um freio na transformação de tudo em mercadoria, impediram o capitalismo de destruir seus alicerces não capitalistas – a confiança, a boa-fé, o altruísmo, a solidariedade no seio das famílias e das comunidades, e assim por diante.

Sob o keynesianismo e o fordismo, a oposição mais ou menos leal ao capitalismo garantiu e ajudou a estabilizar a demanda agregada, especialmente nas recessões. Onde as circunstâncias eram favoráveis, a organização da classe trabalhadora serviu até mesmo como um “chicote da produtividade”, forçando o capital a embarcar em conceitos mais avançados de produção. É nesse sentido que o economista britânico Geoffrey Hodgson argumentou que o capitalismo só pode sobreviver enquanto não for totalmente capitalista – enquanto ainda não tiver se livrado, ou livrado a sociedade, das “impurezas necessárias”. [28] Vista dessa forma, a derrota que o capitalismo infligiu a sua oposição pode ter sido na verdade uma vitória de Pirro, que o libertou de forças compensatórias que, embora às vezes inconvenientes, na verdade lhe davam apoio. Será que o capitalismo vitorioso se tornou o pior inimigo de si mesmo?

Fronteiras da Mercantilização

Explorando esta possibilidade, podemos nos voltar às ideias de Karl Polanyi [29] de limites sociais à expansão do mercado, tese que constituiu a base de seu conceito das três “mercadorias fictícias”: trabalho, terra (ou natureza) e dinheiro. [30] Ele define uma mercadoria fictícia como um bem ao qual as leis da oferta e da procura se aplicam apenas de modo parcial e imperfeito, quanto muito; e que só pode, portanto, ser tratado como mercadoria de uma forma cuidadosamente circunscrita e regulada, uma vez que a completa mercantilização o destruiria ou tornaria inutilizável.

Os mercados, porém, têm a tendência inerente a expandir-se além de seu domínio original (o comércio de bens materiais), para todas as outras esferas da vida, sejam ou não aptas à condição de mercadoria (ou mercantilização); em termos marxistas, os mercados tendem a subsumir tudo à lógica da acumulação de capital. Assim, se não for contida por instituições de controle, a expansão do mercado corre o risco permanente de sabotar a si mesma, e levando consigo a viabilidade do sistema econômico e social capitalista .

De fato, tudo indica que hoje a expansão do mercado alcançou um limiar crítico no âmbito das três mercadorias fictícias de Polanyi, já que as salvaguardas institucionais que as protegeram contra a completa mercantilização sofreram erosão em várias frentes. Parece que é isso que está por trás da busca, em todas as sociedades capitalistas avançadas, de um novo regime de trabalho, em particular uma nova distribuição do tempo entre as relações e metas sociais e econômicas; um regime de produção e consumo de energia ambientalmente sustentável; e um regime financeiro estável para a produção e a alocação de dinheiro.

Em todas as três áreas, as sociedades estão tateando por limitações mais eficazes à lógica de expansão [31] dos mercados, institucionalizada como uma lógica de enriquecimento privado, que é fundamental para a ordem social capitalista. Estas limitações têm seu centro numa tentativa de conter as pressões cada vez maiores do sistema de emprego sobre o trabalho humano; dos sistemas capitalistas de produção e consumo sobre os recursos naturais finitos; e do sistema financeiro e bancário sobre a confiança das pessoas em pirâmides de dinheiro, crédito e débito cada vez mais complexas.

Examinando cada uma das três zonas de crise de Polanyi por vez, podemos notar que foi a mercantilização excessiva do dinheiro que derrubou a economia mundial em 2008: a transformação de uma oferta ilimitada de crédito barato em “produtos” financeiros cada vez mais sofisticados gerou uma bolha imobiliária de tamanho inimaginável na época. A desregulamentação dos mercados financeiros dos Estados Unidos, a partir dos anos 80, havia abolido as restrições privadas à produção privada e mercantilização do dinheiro concebidas depois da Grande Depressão. A “financeirização”, como o processo passou a ser conhecido, parecia ser o último recurso para recuperar o crescimento e a lucratividade para a economia da hegemonia sobre-estendida do capitalismo global. Uma vez livre das amarras, porém, a indústria de fazer dinheiro investiu boa parte de seus colossais recursos em lobbies que pressionaram pelo fim de todas as regras de precaução, e ainda passaram a perna nas poucas que restaram. Olhando para trás, é fácil perceber os enormes riscos que acompanharam a mudança do antigo regime D-M-DI (dinheiro–mercadoria–dinheiro) para o novo regime D-DI (dinheiro gerando dinheiro), assim como também é com a tendência em direção a desigualdade sempre crescente associada com o crescimento desproporcional do setor bancário. [32]

Em relação à natureza, há uma inquietação crescente no que diz respeito à tensão, hoje amplamente percebida, entre o princípio capitalista de expansão infinita e o suprimento finito de recursos naturais. Discursos neomalthusianos de correntes variadas ganharam popularidade nos anos 70. Não importa o que alguém pense sobre eles, e embora alguns deles sejam hoje considerados prematuramente alarmistas, ninguém nega seriamente que o padrão de consumo de energia das sociedades capitalistas ricas não pode ser estendido ao mundo todo sem destruir precondições essenciais para a vida humana. Parece estar se configurando uma corrida entre o avanço do esgotamento da natureza de um lado e a inovação tecnológica de outro – substituindo materiais naturais por artificiais, prevenindo ou reparando danos ambientais, planejando abrigos contra a degradação inevitável da biosfera. Resta uma pergunta até hoje sem resposta: como mobilizar os enormes recursos coletivos necessários para tudo isso em sociedades regidas pelo “individualismo possessivo” (na expressão do cientista político canadense C. B. MacPherson)? [33] Que atores e instituições podem garantir o bem coletivo de um ambiente habitável, num mundo onde reina a competição, seja na produção, seja no consumo?

Quanto à mercantilização do trabalho humano, esta pode ter atingido um ponto crítico. A desregulamentação dos mercados de trabalho, sob a pressão da concorrência internacional, desfez quaisquer perspectivas de uma limitação generalizada da jornada laboral. [34] Também tornou o emprego mais precário para uma parcela crescente da população. [35] Com o avanço da participação das mulheres no mercado de trabalho – em parte devido à insuficiência do salário para o sustento de uma família –, as horas mensais vendidas pelas famílias aos empregadores aumentaram, enquanto os salários não acompanharam a escalada da produtividade [36] ‒especialmente no coração do capitalismo, os Estados Unidos (ver figura 7, abaixo).

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Figura 7: O contrato social quebrado, EUA, 1947-presente | Linha contínua: Produtividade; Linha pontilhada: Renda Familiar; Linha tracejada: Salário médio por hora | Fonte: Thomas Kochan, “The American Job Crisis and the Implications for The Future of Employment Policy”, International Labor Relations Review, vol. 66, no. 2, 2013

Ao mesmo tempo, não obstante a desregulamentação e o aniquilamento dos sindicatos, os mercados de trabalho não absorvem toda a mão de obra, e um desemprego residual da ordem de 7% a 8% passou a ser considerado normal, mesmo num país como a Suécia. O trabalho semiescravo se expandiu em muitos setores, inclusive nos serviços, em especial nos países periféricos, fora do alcance das autoridades e do que resta dos sindicatos no centro capitalista, e também longe dos olhos dos consumidores. Na competição entre essa mão de obra e aquela de países com tradição de proteções trabalhistas fortes, as condições de trabalho se deterioram na periferia e o desemprego se torna endêmico no centro.

Enquanto isso, multiplicam-se as queixas de que o trabalho está invadindo a vida familiar, e aumentam as pressões para que os mercados de trabalho entrem numa corrida sem fim para elevar seu “capital humano”. Não bastasse, a mobilidade global permite aos empregadores substituir a mão de obra local insubmissa por imigrantes mais dóceis. Isso compensa pela taxa de natalidade abaixo daquela necessária para a manutenção da população, ela mesma resultado em parte de um equilíbrio alterado entre trabalho pago e trabalho-não pago [37] e entre consumo dentro e fora do mercado. O resultado é um enfraquecimento crônico dos movimentos sociais contestatórios, causado por uma perda de solidariedade social ou de classe, acompanhada de conflitos políticos perniciosos em torno da diversidade étnica, até em países tradicionalmente liberais [38], como Holanda, Suécia e Noruega.

Ao longo de toda a história do capitalismo, discutiu-se como e onde a acumulação de capital deve ser restringida a fim de proteger as três mercadorias fictícias da mercantilização total. Mas a desordem mundial nessas três áreas, concomitante, é hoje uma outra coisa: é o resultado de um veloz e espetacularmente bem-sucedido ataque dos mercados, se expandindo mais rapidamente que nunca, a um amplo leque de instituições e atores, herdados do passado ou construídos em longas lutas políticas, que por algum tempo conteve o avanço do capitalismo em limites até certo ponto socialmente aceitáveis.

Trabalho, terra e dinheiro passaram a ser zonas de crise simultaneamente depois que a “globalização” dotou as relações de mercado e as cadeias de produção de uma capacidade sem precedentes de atravessar as fronteiras políticas e jurídicas nacionais. E isso ocasionou uma desorganização fundamental das instituições que mal ou bem tinham, na época moderna, conseguido domesticar o “espírito animal” capitalista, para o bem da sociedade como um todo e também do próprio capitalismo.

Não é só em relação às mercadorias fictícias que a acumulação de capital pode estar atingindo seus limites. Na superfície, o consumo de bens e serviços continua crescendo, e a premissa implícita da teoria econômica moderna – de que o desejo humano e a capacidade de consumir são ilimitados – parece comprovada por uma visita a qualquer shopping center. Ainda assim, o temor de que os mercados de bens de consumo possam, em algum momento, ficar saturados – talvez no decorrer de uma dissociação pós-materialista entre as aspirações humanas e a aquisição de mercadorias – é endêmico entre produtores, que dependem do lucro. Isso por si só reflete o fato de que há muito tempo o consumo nas sociedades capitalistas maduras se dissociou das necessidades materiais. [39]

Hoje a maior parte do gasto de consumo (e uma que continua crescendo rapidamente) não está atrelada ao valor de uso das mercadorias: o que conta é seu valor simbólico, sua aura ou halo. É por isso que os profissionais da indústria pagam mais do que nunca pelo marketing – publicidade, design dos produtos e inovação. Mesmo assim, apesar da crescente sofiticação nas estratégias de promoção dos produtos, os valores intangíveis da cultura tornam o sucesso comercial difícil de prever, certamente mais do que na época em que era possível alcançar o crescimento suprindo, gradualmente, todos os lares de um país com uma máquina de lavar. [40] [41]

Cinco Desordens

Sem oposição, o capitalismo se entrega a seus próprios mecanismos, que não incluem a autocontenção. A busca do lucro capitalista é interminável, e não poderia ser diferente. O princípio de que “menos” pode ser “mais” não pode ser honrado por uma sociedade capitalista: ele lhe deve ser imposto, ou não haverá fim para o seu avanço, por mais que assim ele possa acabar enfim consumindo a si mesmo.

No momento, posso afirmar que já estamos observando a agonia do capitalismo, provocada pelo desmantelamento de sua oposição – ele morre de uma overdose de si mesmo. Para ilustrar, vou apontar cinco doenças sistêmicas do capitalismo avançado de hoje; todas elas resultam, de várias maneiras, do enfraquecimento das restrições institucionais e políticas tradicionais ao seu avanço. Eu as chamo de estagnação, redistribuição oligárquica, pilhagem do setor público, corrupção e desordem global.

Estagnação Econômica

Seis anos depois da quebra do banco de investimentos Lehman Brothers, previsões de que a estagnação econômica vai se prolongar por um bom tempo estão na moda. [42] Um exemplo famoso é um artigo muito discutido do economista estadunidense Robert Gordon, que sustentava que as principais inovações impulsoras de produtividade e crescimento econômico desde o século XIX só poderiam acontecer uma única vez, como o aumento da velocidade dos transportes ou a instalação de água encanada nas cidades. [43] Comparada a elas, a recente difusão da tecnologia da informação produziu aumentos menores da produtividade, se é que houve algum.

Embora o argumento de Gordon possa soar um tanto determinista tecnologicamente, parece plausível que, só se a tecnologia abrir oportunidades sempre novas de aumento da produtividade, o capitalismo pode ter a esperança de atingir o nível de crescimento necessário para compensar uma classe trabalhadora não-capitalista por ajudar outros a acumular capital. Em todo caso, no que parece ser uma reflexão posterior, Gordon baseia sua previsão de baixo ou nenhum crescimento em seis fatores não tecnológicos, que chamou de “ventos contrários”, capazes de causar uma estagnação de longo prazo, “mesmo que a inovação continuasse […] no mesmo ritmo dos vinte anos anteriores a 2007”. [44] Entre esses fatores ele inclui dois que, como venho defendendo, há algum tempo estão entrelaçados ao baixo crescimento: a desigualdade e “o excesso de endividamento dos consumidores e do governo”. [45]

É espantoso como as atuais teorias sobre a estagnação estão próximas das teorias marxistas do subconsumo dos anos 70 e 80. [46] Recentemente, ninguém menos que Lawrence Summers, ou “Larry” – amigo de Wall Street, arquiteto-chefe da desregulamentação financeira no governo de Bill Clinton, e primeira opção de Barack Obama para a presidência do Federal Reserve, até que teve de recuar diante da oposição do Congresso [47] –, se uniu aos teóricos da estagnação. Em novembro de 2013, na conferência anual do Fundo Monetário Internacional, Summers confessou ter perdido a esperança de que as taxas de juros próximas a zero iriam gerar um crescimento econômico significativo no futuro previsível, num mundo que estaria sofrendo de um excesso de capital. [48] A previsão de Summers de uma “estagnação secular” como o “novo normal” recebeu uma aprovação surpreendentemente ampla de seus colegas economistas, incluindo o neokeynesiano Paul Krugman. [49]

O que Summers mencionou apenas de passagem é que o fracasso evidente da política de juros baixos, ou mesmo negativos, em reviver os investimentos coincidiu com um longo período de aumento da desigualdade social, nos Estados Unidos e em outros países. Como Keynes bem sabia, a concentração de renda no topo reduz a demanda efetiva e leva os donos do capital a procurar oportunidades de lucro especulativo fora da “economia real”. Essa pode de fato ter sido uma das causas da “financeirização” do capitalismo iniciada na década de 80.

Tem-se a impressão de que as poderosas elites do capitalismo global estão se resignando a um crescimento baixo ou mesmo inexistente no futuro previsível. O que não exclui altos lucros no setor financeiro, provenientes basicamente de operações especulativas com dinheiro barato fornecido pelos bancos centrais.

Poucos parecem temer que o dinheiro gerado para evitar que a estagnação se transforme em deflação cause inflação, já que não existem mais os sindicatos que poderiam reivindicar uma parcela desse dinheiro. [50] Agora a preocupação é com uma inflação muito pequena, e não muito grande – vem despontando o consenso de que uma economia saudável exige uma inflação anual de pelo menos 2%, se não mais. Mas a única inflação à vista é a das bolhas no preço dos ativos, e Summers teve o cuidado de preparar seu público para muitas delas.

Para os capitalistas e seus defensores, o futuro parece decididamente turbulento. O baixo crescimento vai lhes negar recursos adicionais com os quais poderiam resolver conflitos distributivos e apaziguar o descontentamento. Há bolhas à espera de uma agulha, prontas para estourar sem aviso, e não é certo se os países vão recuperar a capacidade de cuidar das vítimas a tempo. A economia estagnada que parece se configurar estará longe de ser uma economia estacionária ou estável; à medida que o crescimento declina e o risco aumenta, a luta pela sobrevivência se tornará mais intensa. Ao invés de restaurar os limites preventivos à mercantilização que a globalização tornou obsoletos, se buscará cada vez mais novos caminhos para extrair os recursos da natureza, aumentar e intensificar a jornada de trabalho, e incentivar o que o jargão chama de “criatividade financeira”, num esforço desesperado para manter a marcha dos lucros e da acumulação de capital. [51]

Pode-se imaginar o cenário de “estagnação com chance de bolhas” plausivelmente como uma batalha de todos contra todos, marcada por ocasionais crises de pânico, quando encenar o “fim do jogo” se tornará um passatempo popular.

Plutocratas e Pilhagem – Redistribuição Oligárquica

Passemos à segunda doença, a redistribuição oligárquica. Não há nenhuma indicação de que a tendência de longo prazo para uma desigualdade crescente será rompida tão cedo, ou mesmo algum dia. A desigualdade deprime o crescimento, por razões keynesianas e outras. Mas o dinheiro fácil fornecido pelos bancos centrais para restaurar o crescimento – fácil para o capital, mas não para o trabalho, é claro – aumenta ainda mais a desigualdade, expandindo o setor financeiro e incentivando o investimento especulativo, em vez do produtivo.

Assim, a redistribuição para o topo se torna oligárquica: em vez de servir ao interesse coletivo no progresso econômico, como prometido pela teoria econômica neoclássica, ela se transforma na extração de recursos de sociedades cada vez mais empobrecidas e declinantes. Penso em países como a Rússia e a Ucrânia, mas também a Grécia e a Espanha, e, cada vez mais, os Estados Unidos. Na redistribuição oligárquica, corta-se o vínculo keynesiano entre os lucros dos ricos e os salários dos pobres, apartando o destino das elites econômicas do das massas. [52] Isso foi antecipado nos infames memorandos sobre ‘plutonomia’ distribuídos pelo Citibank em 2005 e 2006 a um círculo seleto de clientes mais ricos, para lhes assegurar que sua prosperidade não dependia mais da prosperidade dos assalariados. [53]

A redistribuição oligárquica e a tendência à “plutonomia”, [54] mesmo em países ainda considerados democráticos, evocam o pesadelo de elites confiantes em que sobreviverão ao sistema social que as torna ricas. [55] Os capitalistas plutonômicos não precisam mais se preocupar com o crescimento econômico nacional, já que suas fortunas transnacionais crescem independentemente dele. Daí o êxodo dos super-ricos russos ou gregos, por exemplo: eles pegam seu dinheiro – ou o de seus concidadãos – e fogem, de preferência para a Suíça, a Grã-Bretanha ou os Estados Unidos.

A possibilidade de salvar a si mesmo e a sua família fungindo com suas posses, proporcionada pelo mercado de capitais globalizado, oferece aos ricos a maior tentação possível, que é passar para o modo “fim do jogo” – vender tudo, pegar o dinheiro, queimar as pontes e deixar para trás apenas terra arrasada.

Privatizações e Pilhagem do Setor Público

Intimamente relacionada a essa doença vem a terceira, a pilhagem do setor público por meio do subfinanciamento e da privatização. Em outros artigos tracei sua origem ena dupla transição, ocorrida desde a década de 70, do Estado dos impostos para o Estado da dívida e, por fim, para o Estado do ajuste ou da austeridade.

A causa principal dessa virada foram as novas oportunidades que os mercados de capital mundiais ofereceram desde os anos 80 para a fuga de impostos, a evasão fiscal, a busca de regimes de tributação mais favoráveis e a extorsão de benefícios fiscais dos governos, praticada por empresas e pessoas de renda elevada. As tentativas de acabar com o déficit público se basearam quase exclusivamente em cortes nos gastos governamentais – tanto em previdência social como em investimentos na infraestrutura física e no capital humano.

À medida que os ganhos na renda ficavam cada vez mais concentrados no 1% mais rico, o setor público das economias capitalistas encolheu, muitas vezes de forma dramática, privado de sustento em favor da riqueza de uma oligarquia com mobilidade internacional. A privatização – realizada sem levar em conta a contribuição que o investimento público na produtividade e na coesão social poderia ter dado para o crescimento econômico e a equidade social – foi parte desse processo.

Mesmo antes de 2008, era um consenso admitir que a crise fiscal do Estado pós-guerra precisava ser resolvida por meio da redução dos gastos governamentais, e não pelo aumento de impostos, sobretudo impostos sobre os ricos. A consolidação das finanças públicas por meio da austeridade foi imposta às sociedades, e continua sendo, embora tenda a deprimir o crescimento. Essa parece ser mais uma indicação de que a economia dos oligarcas foi apartada da economia das pessoas comuns, já que os ricos não mais esperam ter de pagar um preço pela maximização de sua renda à custa dos não ricos, ou por buscar seus interesses em detrimento da economia como um todo.

O que pode estar aflorando aqui é a tensão fundamental descrita por Marx entre, de um lado, a natureza cada vez mais social da produção numa economia e sociedade avançada, e, de outro lado, a propriedade privada dos meios de produção. Como o aumento da produtividade requer mais investimento público, ele tende a se tornar incompatível com a acumulação privada dos lucros, obrigando as elites capitalistas a escolher entre as duas coisas. O resultado é o que já estamos vendo hoje: estagnação econômica combinada com redistribuição oligárquica. [56]

Corrupção e Desmoralização do Sistema – Corroções da Gaiola de Ferro

Ao lado do declínio do crescimento econômico, do aumento da desigualdade e da transferência do setor público para a propriedade privada, a corrupção é a quarta doença do capitalismo contemporâneo.

Em sua tentativa de reabilitar o capitalismo resgatando seus fundamentos éticos, Max Weber traçou uma linha divisória nítida entre capitalismo e ganância, apontando para as origens do capitalismo que, ele acreditava, estavam na tradição religiosa do protestantismo. Segundo Weber, a ganância sempre existiu, em todos os lugares e em todos os momentos; não seria uma característica distintiva do capitalismo, podendo até subvertê-lo. O capitalismo não seria baseado em um desejo de ficar rico, mas sim em autodisciplina, esforço metódico, administração responsável, devoção sóbria a uma vocação e a uma organização racional da vida.

Weber esperava que os valores culturais do capitalismo se enfraquecessem e desaparecessem na medida em que o sistema amadurecesse e se transformasse numa “gaiola de ferro”, onde a regulação burocrática e as restrições impostas à concorrência tomariam o lugar das ideias culturais que em sua origem serviram para desvincular a acumulação de capital do consumo hedonista/materialista e de instintos primitivos de monopolização de recursos. O que ele não poderia prever, porém, foi a revolução neoliberal ocorrida no último terço do século XX e as oportunidades sem precedentes que ela ofereceu para a acumulação de riquezas enormes.

Com o devido respeito a Weber, a fraude e a corrupção sempre foram companheiras do capitalismo. Mas há boas razões para acreditar que com o setor financeiro passando a dominar a economia, elas se tornaram tão difundidas que a justificativa ética de Weber para o capitalismo agora parece se aplicar a um mundo inteiramente diverso.

As finanças são uma “indústria” onde é difícil distinguir a inovação da distorção ou da violação das normas; onde o retorno financeiro para atividades semilegais e ilegais é especialmente elevado; onde a discrepância de informação e de remuneração entre empresas e autoridades reguladoras é extrema; onde a porta giratória entre essas duas esferas oferece possibilidades intermináveis de corrupção sutil ou não tanto; [57] onde as maiores empresas não são apenas “grandes demais para falir”, mas também grandes demais para ir para a cadeia, dada sua importância para a política econômica nacional e a receita tributária; e onde a fronteira entre empresas privadas e Estado é menos nítida do que em qualquer outra área, como mostra o pacote de socorro de 2008, ou o estratosférico número de antigos (e futuros) funcionários de empresas financeiras no governo estadunidense.

Após a falência da distribuidora de energia Enron, em 2001, e da gigante das telecomunicações WorldCom, em 2002, parecia que a fraude e a corrupção tinham alcançado níveis históricos na economia dos Estados Unidos. Mas o que veio à tona depois de 2008 superou tudo: agências de classificação de risco de crédito remuneradas pelos próprios emissores de papéis podres para lhes atribuir as melhores notas; um sistema bancário paralelo em paraísos fiscais; atividade bancária nas sombras em paraísos fiscais, lavagem de dinheiro e assessoria para a evasão fiscal em grande escala como atividades corriqueiras dos maiores bancos; a venda, para clientes desavisados, de papéis concebidos para que outros clientes pudessem apostar contra eles; os principais bancos de todo o mundo fixando, de forma fraudulenta, as taxas de juros e o preço do ouro; e por aí afora.

Nos últimos anos, vários bancos grandes tiveram de pagara bilhões de dólares em multas por atividades desse naipe e mais eventos desse tipo parecem estar à caminho. Mas as sanções, que à primeira vista podem parecer significativas, são minúsculas se comparadas ao balanço dos bancos – lembrando que todas essas multas decorreram de acordos extrajudiciais, de casos que os governos não quiseram ou não se atreveram a levar aos tribunais. [58]

O declínio moral do capitalismo pode estar conectado a seu declínio econômico, à luta pelas oportunidades remanescentes de lucro, mais feia a cada dia e se transformando numa pilhagem de bens em escala gigantesca. Seja como for, para o público, hoje, o capitalismo passa uma imagem profundamente cínica; o sistema como um todo é visto por muitos como um cipoal de truques sujos para garantir que os ricos fiquem ainda mais ricos. Ninguém acredita num renascimento moral do capitalismo. A tentativa weberiana de evitar que ele fosse confundido com a ganância fracassou, já que o capitalismo se tornou, mais do que nunca, sinônimo de corrupção.

Um Mundo Desarticulado

Chegamos, finalmente, à quinta doença, a desordem global. O capitalismo global precisa de um centro para garantir sua periferia e fornecer a ela um regime monetário digno de confiança. Até a década de 20, esse papel coube à Grã-Bretanha, e de 1945 até a década de 70, aos Estados Unidos; os anos intermediários, quando faltava um centro e várias potências aspiravam a assumir esse papel, foram uma época de caos econômico e também político.

Relações estáveis entre as moedas dos países partícipes da economia capitalista mundial são vitais para o fluxo de mercadorias e capitais através de fronteiras nacionais, que por sua vez é essencial para a acumulação de capital; essa estabilidade precisa ser garantida por um banqueiro global de última instância. Também é necessário um centro que funcione, para apoiar regimes na periferia dispostos a tolerar a extração a baixo preço de suas matérias-primas. Além disso, é indispensável a colaboração local para conter a oposição tradicionalista à expansão das fronteiras do capitalismo fora do mundo desenvolvido.

O capitalismo contemporâneo sofre cada vez mais de um desarranjo global, já que os Estados Unidos não estão mais aptos a desempenhar seu papel do pós-guerra, e uma ordem mundial multipolar não se vislumbra no horizonte. Embora não haja (ainda?) confrontos entre grandes potências, a função do dólar como moeda de reserva internacional está sendo contestada – e não poderia ser diferente, dado o desempenho declinante da economia estadunidense, seus níveis crescentes de endividamento público e privado, e a experiência recente de várias crises financeiras avassaladoras.

A busca de uma alternativa internacional, talvez sob a forma de uma cesta de moedas, está empacada, uma vez que os Estados Unidos não abrem mão do privilégio de se endividar na própria moeda. Além disso, as medidas de estabilização tomadas por organizações internacionais sob orientação de Washington tendem cada vez mais a ter efeitos desestabilizadores na periferia do sistema, como no caso das bolhas inflacionárias que o “relaxamento monetário” no centro causou em países como Brasil e Turquia. [59]

Militarmente, os Estados Unidos já foram derrotados ou levados a um impasse em três grandes guerras terrestres desde os anos 70 – no Vietnã, no Iraque e no Afeganistão. No futuro, Washington provavelmente vai pensar duas vezes antes de lançar seus soldados para intervir em conflitos locais. Novos e sofisticados instrumentos de violência estão sendo implementados para tranquilizar governos aliados e inspirar confiança nos Estados Unidos como um garantidor global dos direitos oligárquicos à propriedade, e como um porto seguro para as famílias oligárquicas e seus tesouros.

Tais instrumentos incluem o uso de “forças especiais” altamente secretas para localizar e destruir inimigos potenciais individualmente; aeronaves não tripuladas capazes de matar qualquer pessoa em praticamente qualquer canto do mundo; confinamento e tortura de um número desconhecido de pessoas num sistema mundial de prisões secretas; e a vigilância abrangente da oposição potencial em todos os lugares, com a ajuda de tecnologia cibernética de ‘Big Data’. [60]

Se isso bastará para restaurar a ordem global, sobretudo à luz da ascensão da China como uma verdadeira rival econômica – e, em menor medida, militar – dos Estados Unidos, pode, porém, levantar dúvidas. Uma solução cooperativa do problema da ordem internacional, por exemplo, por meio da partilha de poder entre os EUA e a China não está à vista. Na periferia do sistema capitalista mundial, os EUA perderam várias guerras sucessivas; o desenvolvimento democrático-capitalista, ou seja, a “construção nacional”, falhou em grandes partes do mundo. Em vez do projeto do pós-guerra de um sistema global de Estados soberanos, o qual abrangeria todo o globo, grandes e crescentes territórios tornaram-se “sem Estado”. Em muitos deles, os movimentos religiosos fundamentalistas assumiram o controle, rejeitando o modernismo e o direito internacional; eis que passaram a buscar uma alternativa ao consumismo do capitalismo contemporâneo, do qual eles não podem mais esperar que venha trazer quaisquer benefícios aos seus países. Cada vez mais, alguns desses movimentos encontram aliados no Norte global, em particular entre os imigrantes do Sul aí residentes, que respondem à sua exclusão social e econômica transportando as guerras da periferia para o centro. 

Conclusão

Resumindo, o capitalismo, como uma ordem social que se mantém unificada pela promessa de progresso coletivo ilimitado, está em situação crítica. O crescimento está dando lugar à estagnação crônica; o que sobra de progresso econômico é cada vez menos compartilhado;  e a confiança na economia monetária capitalista está alavancada sobre uma montanha crescente de promessas que parecem cada vez menos prováveis de serem mantidas. Desde os anos 70, o centro capitalista sofreu três crises sucessivas, de inflação, finanças públicas e de endividamento privado. Hoje, em uma fase inquieta de transição, sua sobrevivência depende de bancos centrais lhe fornecendo uma liquidez artificial ilimitada. Passo a passo, o casamento forçado do capitalismo com a democracia desde 1945 está se rompendo. Nas três fronteiras da mercantilização – trabalho, natureza e dinheiro – instituições regulatórias restringindo o avanço do capitalismo pelo seu próprio bem colapsaram, e após a vitória final do capitalismo sobre seus inimigos nenhuma ação política capaz de reconstruí-las está à vista. No momento, o sistema capitalista vem sendo atingido por pelo menos cinco doenças se agravando, para as quais nenhuma cura se encontra à mão: crescimento declinante, redistribuição oligárquica, estrangulamento da esfera pública, corrupção e desordem internacional. O que podemos esperar, à luz do registro histórico recente do capitalismo, é um longo e doloroso período de decadência cumulativa: de atritos se intensificando, de fragilidade e incerteza, e de uma sucessão regular de ‘acidentes normais’ – não necessariamente, mas bem possivelmente, na escala do desarranjo global dos anos 30 do século XX.

Tradução – base: Revista Piauí [acesso em outubro de 2016] | ajustes e complementos: Everton Lourenço

complementado com trecho de ‘Do Futuro Sombrio do Capitalismo‘, também de Wolfgang Streeck [acesso em dezembro de 2016] – no subtítulo ‘Um Mundo Desarticulado’


Do Futuro Sombrio

Trecho de Do Futuro Sombrio do Capitalismo‘, também de Wolfgang Streeck [acesso em dezembro de 2016]

Como pode o capitalismo terminar sem que uma nova sociedade esteja aí para tomar o seu lugar? Para entender isso, devemos abandonar a ideia de uma sucessão ordenada das formações sociais, isto é, a expectativa histórico-materialista de que uma sociedade morre para dar à luz a uma nova e mais avançada, incluindo-se nessa falácia a tese bolchevique de que uma ordem social termina apenas quando uma ordem social distinta é posta em prática pelo comitê central de um partido revolucionário vitorioso.

Ao mesmo tempo, devemos também tomar cuidado para não sermos vítimas de um equivalente contemporâneo do que poderia ser chamada de Ilusão Ravena: a profunda convicção das classes dominantes do Império Romano do Ocidente, no século V, na imortalidade predeterminada de sua civilização. Ela foi tida como inabalável mesmo depois que o seu território havia sido reduzido à pequena cidade de Ravena, na costa do Adriático; como essa urbe estava circundada por pântanos, isto lhes concedeu um adiamento da derrocada final no mesmo momento em que as hordas germânicas estavam ocupadas saqueando Roma, assim como as províncias do Império Ocidental. Convencidas de que a vida poderia, eventualmente, voltar ao que sempre tinha sido, as famílias dos governantes de Roma, em seu refúgio em Ravena, ocuparam-se com intrigas a respeito da sucessão no Império. [61] É preciso aprender com este exemplo que o otimismo pode, por vezes, decorrer não mais do que de falta de imaginação. É preciso considerar a possibilidade de que uma ordem social possa resultar, não em outra ordem, mas em uma duradoura desordem – isto é, numa época histórica de duração incerta em que, nas palavras de Antônio Gramsci, “o velho está morrendo, mas o novo ainda não pode nascer”. [62]

Como pode ser a vida num tempo como este? De acordo com Gramsci, o colapso de uma ordem social na ausência de uma sucessora pode dar origem a “um interregno em que os fenômenos patológicos de todos os tipos passam a existir” [63] – em outras palavras, cai-se numa sociedade desprovida de instituições coerentes capazes de normalizar a vida de seus membros, protegendo-os de acidentes e de anomalias de todos os tipos. A vida em um tal interregno se caracteriza pela falta de determinação estrutural [64] em que tudo então se torna imprevisível. Uma sociedade como essa não consegue fornecer aos seus membros regras confiáveis por meio das quais possam se organizar: em vez disso, ela demanda constante improvisação, faz com que os indivíduos substituam um comportamento estruturado por um comportamento meramente estratégico – situação esta que oferece oportunidades excepcionais para oligarcas e senhores da guerra de todos os tipos passarem a forçar a maioria a viver em situação de insegurança, incerteza e anomia. Forja-se, assim, uma situação muito parecida com aquela do longo interregno que começou no século V e que agora é chamado de Idade Negra.

O sistema de integração no capitalismo contemporâneo encontra-se num estado instável de mudança, o qual não parece levar a uma nova ordem estável. Turbulência e imobilidade, dinâmica e estagnação estão se tornando correlatos próximos. Este tipo de estrutura social alimenta um tipo de indivíduo social [65]: o indivíduo individualista, intencionalmente autossuficiente, de-socializado, que se fia apenas na autopoliciada governamentalidade neoliberal [66] para compensar a ausência de governo e a debilidade da governança. Nesse mundo social indeterminado emerge uma estrutura social anômala; ou melhor, aquela que existe é substituída por uma malha de indivíduos auto interessados e improvisadores que se movem em redes constituídas por relações oportunistas. Tem-se, assim, uma sociedade Ersatz de usuários ao invés de uma sociedade formada por membros integrados. Construída a partir de baixo, parece ter se elevado com base em uma riqueza libertária de alternativas, a qual é vendida ideologicamente como um grande parque de diversões. Porém, na verdade, ela reflete apenas a ausência destrutiva da ordem social.

A sociedade fraturada que impera no interregno pós-capitalista está desprovida de legitimação normativa – ela transformou a responsabilidade com um fim em si mesmo em escolhas racionais de seus membros como indivíduos, deixando-os sem instrução de como fazer boas escolhas. Embora isso possa ser e seja apresentado como libertação, na realidade do pós-capitalismo, o espaço das normas e das instituições sociais é tomado pela ganância e pelo medo. E estes dois sentimentos funcionam então como mecanismos últimos do controle social. Juntos, eles alimentam a “autoeconomização” e a “auto-mercantilização” dos próprios indivíduos que lutam para se manterem adaptáveis às formas imprevisíveis de evolução das circunstâncias. Eles buscam, então, o incansável investimento competitivo na própria “flexibilidade” e no próprio “capital humano”. Querem maximizar a sua aptidão na imaginada meritocracia do mercado “livre” – que é, na verdade, um mundo explodindo em desigualdades. A autossuficiência entra na ordem do dia, mesmo se – e precisamente porque – alguns têm muito mais “si mesmo” para confiar do que outros.

No pós-capitalismo, a obtenção de lucro privado terá continuidade, mesmo sob a sombra da incerteza que prosperará em uma sociedade marcada pela anomia, com instituições decadentes, de reduzida coerência, crises sucessivas, atravessada por conflitos e contestações locais ou de maior âmbito. A cooperação da massa com a acumulação de capital será impulsionada por uma cultura de consumo competitivo. Em grandes partes da Ásia, essa cooperação parece estar baseada hoje num profundo conformismo coletivo. Porém, ela precisará estar vigilantemente protegida contra a subversão da mudança pós-materialista do valor, senão devido ao encolhimento do poder de compra. A vida dos indivíduos nesse interregno pós-capitalista em que imperará o “sauve qui peut” seguirá as prescrições comportamentais da doutrina neoliberal [67]. E isto significa que será necessário queimar até a raiz os fundamentos de uma economia e sociedade bem-sucedidas.

Como se sabe, a vida social não pode ser reduzida à vida econômica e a vida econômica não é possível fora de uma sociedade que a abrigue. A proposição de número doze da obra A dimensão moral de Etzioni [68] aplica-se aqui: “Quanto mais as pessoas aceitam o paradigma neoclássico como guia para o seu próprio comportamento [e não apenas como uma apologia conveniente do sistema econômico da relação de capital], mais a capacidade coletiva de manter uma economia de mercado será prejudicada”. O futuro do capitalismo afigura-se sombrio.

[Não consegui descrobrir quem realizou a tradução do trecho acima, retirado do blog de Eleutério Prado (talvez tenha sido ele)]


Leituras Relacionadas

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  • As Perspectivas da Liberdade“A idéia de liberdade degenera assim em mera defesa do livre empreendimento, que significa a plenitude da liberdade para aqueles que não precisam de melhoria em sua renda, seu tempo livre e sua segurança, e um mero verniz de liberdade para o povo, que pode tentar em vão usar seus direitos democráticos para proteger-se do poder dos que detêm a propriedade.”
  • Estranho, com Orgulho – “Você se sente perdido? Talvez isso seja por que você se recusa a sucumbir à competição, inveja e medo que o neoliberalismo desperta.
  • Uma Filosofia para o Proprietariado – “O ‘Libertarianismo’ não oferece solução alguma para a política plutocrática de hoje em dia – não passa de uma rejeição reacionária à luta política.”
  • O Mercado é Mesmo Bom?“Há um elemento comum, nas manifestações recentes da direita: o discurso de que o Estado deve recuar e o mercado deve regular uma porção maior das interações humanas. Se a lógica do mercado opera, dizem eles, no final das contas todos ganham. Será que é mesmo assim?”
  • Existe Mesmo Algo Como Um “Livre-Mercado”? – Todo mercado tem algumas regras e limites que restringem a liberdade de escolha. O mercado só parece livre porque estamos tão condicionados a aceitar as suas restrições subjacentes que deixamos de percebê-las.”
  • O Livre-Mercado Faz Países Pobres Ficarem Ricos? –  “Os supostos lares do livre comércio e do livre mercado ficaram ricos por meio da combinação do protecionismo, subsídios e outras políticas que hoje eles aconselham os países em desenvolvimento a não adotar. As políticas de livre mercado tornaram poucos países ricos até agora e poucos ficarão ricos por causa dela no futuro.”
  • Uma Criança que Morre de Fome Hoje é Assassinada“Relator da ONU para o direito à alimentação entre 2000 e 2008, Jean Ziegler procura explicar por que ainda existe fome se a produção agrícola mundial é suficiente para alimentar toda a população e faz contundentes críticas à especulação nas bolsas de commodities e às multinacionais”
  • Sua Majestade, a Teoria Econômica “Aqui temos a crise econômica e financeira mais espetacular em décadas e o grupo que passa a maior parte de suas horas ativas analisando a economia basicamente não a enxergou.”
  • Socialismo, Transformando “Miséria Histérica” em “Tristeza Qualquer”“A Esquerda quer dar às pessoas a chance de fazer algo mais com suas vidas, lhes dando tempo e espaço longe do mercado.”
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  • Pelo Menos o Capitalismo é Livre e Democrático, Né? – Pode parecer que é assim, mas Liberdade e Democracia genuínas não são compatíveis com o Capitalismo.
  • Os Ricos Não Merecem Ficar Com a Maior Parte do Seu Dinheiro?“A riqueza é criada socialmente – a redistribuição apenas permite que mais pessoas aproveitem os frutos do seu trabalho.”
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  • Políticas Para Se ‘Arranjar Uma Vida’ – “O trabalho em uma sociedade capitalista é um fenômeno conflituoso e contraditório. Uma política para a classe trabalhadora tem de ser contra o trabalho, apelando para o prazer e o desejo, ao invés de sacrifício e auto-negação.
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  • O Marxismo Está Ultrapassado? Ele Só Tinha Algo a Dizer Sobre a Inglaterra do Século XIX, e Olhe Lá?
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Notas

[1] Uma versão deste texto foi apresentada como a Palestra Anual da Fundação Anglo-Germânica [“Anglo-German Foundation Lecture“] na Academia Britânica [“British Academy”] em 23 de janeiro de 2014 – http://www.britac.ac.uk/node/1287/

[2] Explorei estes argumentos mais completamente no livro Buying Time: The Delayed Crisis of Democratic Capitalism, Londres e Nova Iorque, 2014. [“Comprando Tempo: A Crise Atrasada do Capitalismo Democrático”, até onde sei, ainda sem versão em português]

[3] A OCDE reúne 34 países ricos, incluindo os Estados Unidos e a maioria dos europeus. É um fórum de pesquisa, debate e propostas de políticas públicas. [Piauí]

[4] Uma referência ao versículo 29 do capítulo 25 do Evangelho de São Mateus, usado pela primeira vez para descrever um mecanismo social pelo sociólogo da ciência estadunidense Robert Merton em ‘The Matthew Effect in Science’ [“O Efeito Mateus na Ciência”], Revista Science, vol. 159, no. 3810, pp. 56–63. O termo técnico é “vantagem cumulativa”: quem tem mais dinheiro acumula mais.

[5] Ver ‘Striking It Richer: The Evolution of Top Incomes in the United States’ [algo como “Tirando a Sorte Maior Ainda: A Evolução das Rendas no Topo nos Estados Unidos ”], de Emmanuel Saez, 2 de Março de 2012, disponível na página pessoal de Saez no site da UC Berkeley; e ‘The Top 1 per cent in International and Historical Perspective’ [“O 1% do Topo em Perspectiva Internacional e Histórica”], de Facundo Alvaredo, Anthony Atkinson, Thomas Piketty e Emmanuel Saez, Journal of Economic Perspectives, vol. 27, no. 3, 2013, pp. 3–20.

[6] 83o Relatório anual do Banco de Compensações Internacionais [“Bank for International Settlements, 83rd Annual Report”], 31 de março/1 de abril de 2013, Basileia, p. 5.

[7] ver o artigo ‘Neoliberalismo, a Ideologia na Raiz de Nossos Problemas‘, de George Monbiot [N.M.]

[8] Mesmo isso pode ser menos do que promissor em países como EUA e Inglaterra, onde está difícil ver quais ‘reformas’ neoliberais ainda faltam  serem implementadas.

[9] É justamente o discurso ‘liberal’ da mídia, dos políticos (principalmente do DEM e do PSDB, e mais recentemente grande parte do PMDB) e economistas neoclássicos desde que a crise atingiu o Brasil. À contragosto, Dilma se rendeu a eles em seu segundo mandato, acreditando que se colocasse um deles à cargo da economia teria fôlego para governar, mas os efeitos do ajuste fiscal duríssimo de Levy aprofundaram o que era um processo de fim de ciclo econômico, jogando o país em uma recessão aberta, desgastando a base política do governo na população e fortalecendo o discurso do impeachment. Na prática, a ‘Ponte Para o Futuro’, Temer, o golpe, o apoio do PSDB e da Mídia, a PEC 55/241, a ‘Reforma Trabalhista’, a Reforma Previdenciária, a privatização do Pré-Sal, [etc etc etc] são todos elementos da versão brasileira do “NÃO HÁ ALTERNATIVA” neoliberal. Ver o artigo ‘Os Irresponsáveis no Poder: Desmontando o Conto da Dona de Casa‘ do prof. Ladislau Dowbor; o documento Austeridade e Retrocesso, elaborado por especialistas da Plataforma Política Social, da Sociedade Brasileira de Economia Política, do Fórum 21 e da Fundação Friedrich Ebert; e o livro ‘Austeridade Para Quem‘, que reúne artigos sobre o assunto de alguns dos maiores pesquisadores de Economia Política e da crítica a ela no país. Outras recomendações de leitura sobre o assunto estão disponíveis no Dossiê Temer. [N.M.]

[10] Ver Armin Schäfer e Wolfgang Streeck (eds), ‘Politics in the Age of Austerity’ [“Política na Era da Austeridade”], Cambridge 2013.

[11] Walter Korpi, ‘The Democratic Class Struggle’ [“A Luta de Classes Democrática”], Londres, 1983; e Colin Crouch, ‘Post-Democracy’ [“Pós-Democracia”], Cambridge, 2004.

[12] O inglês John Maynard Keynes (1883–1946) apontou que o livre mercado, sozinho, não dava conta de pôr fim aos períodos de recessão e desemprego; ele prescreveu intervenções do Estado para aumentar a demanda por bens e serviços, por meio dos salários e dos investimentos públicos. Seu rival ideológico foi o austríaco Friedrich Hayek (1899–1992), um economista neoclássico/austríaco que acreditava que o mercado livre tendia ao equilíbrio, e temia que um poder excessivo do Estado levasse à perda das liberdades individuais. [Piauí] [N.M.: Já Karl Polanyi (1886-1964) observava, ao analisar a ascensão dos fascismos no mundo dos anos 30, que o próprio Liberalismo Econômico defendido por gente como Hayek tendia, com o tempo, à destruição das liberdades individuais e direitos sociais, como observa David Harvey e como podemos ver em mais detalhes em seu artigo “Nossa Obsoleta Mentalidade de Mercado” e em seu livro “A Grande Transformação”. Com o estabelecimento do Neoliberalismo como ideologia fundamental do mundo capitalista após a crise dos anos 70 e com a sua entrada em uma nova fase em que caminha para um divórcio cada vez maior com qualquer noção de democracia e direitos humanos,  a história uma vez mais dá razão a Polanyi – e não deixa de ser tristemente irônico observar que o ‘verdadeiro caminho da servidão’ era justamente aquele que Hayek apontava como a saída para não cairmos nessa condição]

[13] Em média, o valor das dívidas públicas da Áustria, Bélgica, Canadá, França, Alemanha, Itália, Japão, Holanda, Noruega, Suécia, Reino Unido e Estados Unidos passou de pouco mais de 40% do PIB em 1970 para quase 100% do PIB em 2011, segundo a OCDE. [Piauí]

[14] Esta é a visão da escola da “Escolha Pública” sobre crise fiscal, como apresentada vigorosamente por James Buchanan e sua escola; ver por exemplo Buchanan e Gordon Tullock, ‘The Calculus of Consent: Logical Foundations of Constitutional Democracy’[“O Cálculo do Consentimento: Fundamentos Lógicos da Democracia Constitucional”], Ann Arbor 1962.

[15] O Brasil é um caso paradigmático, pagando nos títulos da dívida juros reais que muitas vezes alcançam a primeira posição em nível mundial. Ironicamente, com a PEC de ‘Teto de Gastos’ esse é um dos únicos gastos que não serão limitados, justamente por que é um sistema de ganhos garantidos para quem tem muito dinheiro. E, novamente, na questão de impostos, temos um sistema extremamente regressivo, que cobra mais de quem tem menos, e muito menos de quem tem mais. Para o caso brasileiro, tanto sobre a questão do sistema de dívida pública quanto sobre o sistema tributário (impostos), há várias referências neste link. [N.M.]

[16] É comum o esquecimento de que a maioria dos bancos centrais, incluindo o BIS, foram há muito tempo ou ainda são parcialmente de propriedade privada. Por exemplo, o Banco da Inglaterra e o Banco da França foram nacionalizados apenas em 1945. ‘Independência’ do Banco Central, como introduzido em muitos países na década de 1990, pode ser visto como uma forma de re-privatização.

[17] No sentido de que as relações de poder, os interesses dos grupos no poder, não foram abalados. Muitas vezes usamos a palavra ‘politizar’ como ‘mostrar os aspectos políticos’, ‘tornar claro os elementos políticos’ sobre uma determinada questão – mas está claro que não é o sentido usado pelo autor nessa frase. [N.M.]

[18] É claro, como Colin Crouch apontou, o neoliberalismo em sua forma realmente existente é uma oligarquia muito entrincheirada politicamente de empresas multinacionais gigantes; ver Crouch, ‘The Strange Non-Death of Neoliberalism’[“A Estranha Não-Morte do Neoliberalismo”], Cambridge 2011.

[19] Ver Daniel A. Bell, ‘Beyond Liberal Democracy: Political Thinking for an East Asian Context’ [“Para Além da Democracia Liberal: Pensamento Político Para um Contexto do Leste Asiático”], Princeton, 2006; e Nicolas Berggruen e Nathan Gardels (eds), ‘Intelligent Governance for the 21st Century: A Middle Way between West and East’ [“Governança Inteligente Para O Século XI: Um Meio-Termo Entre Ocidente e Oriente”], Londres, 2012.

[20] A expressão “democracia em conformidade com o mercado” [no original, ‘market-conforming democracy’] é de Angela Merkel. A retórica pública da chanceler parece deliberadamente desenhada para ofuscar e mistificar. Aqui está a sua fala original sobre o assunto em setembro de 2011, no ‘Merkelês’ original: ‘Wir leben ja in einer Demokratie und sind auch froh darüber. Das ist eine parlamentarische Demokratie. Deshalb ist das Budgetrecht ein Kernrecht des Parlaments. Insofern werden wir Wege finden, die parlamentarische Mitbestimmung so zu gestalten, dass sie trotzdem auch marktkonform ist, also dass sich auf den Märkten die entsprechenden Signale ergeben.’ Uma tradução grosseira poderia ser: ‘Nós certamente vivemos em uma democracia e estamos felizes com isso. Esta é uma democracia parlamentarista. Portanto o direito de estabelecer o orçamento é um direito central do parlamento. Nesta medida, encontraremos caminhos para dar forma a co-decisões parlamentares de uma tal maneira que estejam, não obstante, em conformidade com o mercado, para que os respectivos sinais emirjam no mercado.’

[21] Então, se a história provar que estou errado, pelo menos estarei em boa companhia.

[22] Como relatado por Gretchen Morgenson em ‘A New Light on Regulators in the Dark’[“Uma Nova Luz Sobre Autoridades Reguladoras No Escuro”], New York Times, 23 de april 2014. O artigo apresenta ‘um quadro perturbador de um banco central que estava no escuro sobre cada desastre assomando por todo ano de 2008’. [N.M. ver o artigo “Sua Majestade, a Teoria Econômica“, de David Harvey]

[23] Nestes termos, ver David Lockwood, ‘Social Integration and System Integration’ [“Integração Social e Integração Sistêmica”], em George Zollschan e Walter Hirsch (eds), ‘Explorations in Social Change’ [“Explorações em Mudança Social”], Londres, 1964, pp. 244–57.

[24] Ou, como Adam Smith coloca, uma sociedade ‘progressiva’ – uma que mira a sua produtividade e prosperidade e que é, em princípio, ilimitada, como medida pelo tamanho de sua economia monetária.

[25] O filósofo e economista político anglo-holandês Bernard de Mandeville (1670–1733) é autor de ‘A Fábula das Abelhas, ou Vícios Privados, Benefícios Públicos’, em que defendia que as ações movidas por interesses individuais egoístas geram prosperidade e beneficiam o coletivo. [Piauí]

[26] Outras definições de ‘capitalismo’ enfatizam, por exemplo, a natureza pacífica da troca comercial capitalista no mercado: ver Albert Hirschman, ‘Rival Interpretations of Market Society: Civilizing, Destructive or Feeble?’ [“Interpretações Rivais da Sociedade de Mercado: Civilizadora, Destrutiva ou Débil”], Journal of Economic Literature, vol. 20, no. 4, 1982, pp. 1463–84. Isso negligencia o fato de que o ‘livre mercado’ não-violento está tipicamente confinado ao centro do sistema capitalista, enquanto que em sua periferia histórica e espacial, a violência é desenfreada. Por exemplo, mercados ilegais (drogas, prostituição, armas, etc) governados por violência privada levantam imensas somas de dinheiro para investimento legal – uma versão de acumulação primitiva. Além disso, a violência pública legítima e a privada e ilegal frequentemente se misturam, não apenas na fronteira capitalista, mas também no apoio dado pelo centro aos seus colaboradores na periferia. É preciso também incluir a violência pública contra dissidentes no centro e, quando eles ainda existiam significativamente, sindicatos.

[27] Embora avaliações recentes de suas performances e perspectivas econômicas sejam muito menos entusiásticas do que eram dois ou três anos atrás. Ultimamente o discurso eufórico sobre ‘BRICs’ tem sido substituído por um questionamento ansioso sobre as perspectivas econômicas dos “Cinco Frágeis” (Turquia, Brasil, India, África do Sul e Indonesia; New York Times, 28 de janeiro de 2014). Relatos sobre os problemas se acumulando no capitalismo chinês têm também se tornado mais frequentes, apontando, entre outras coisas, para o extensivo endividamento dos governos locais e regionais. Desde a Crise da Crimeia, temos também ouvido sobre a fraqueza estrutural da economia russa.

[28] ‘Todo sistema sócio-econômico precisa se apoiar em pelo menos um subsistema estruturalmente dessemelhante para funcionar. É preciso sempre haver uma pluralidade coexiste de modos de produção, para que a formação social como um todo tenha o requisito de  a variedade estrutural para lidar com mudanças’:  Hodgson, ‘The Evolution of Capitalism from the Perspective of Institutional and Evolutionary Economics’ [“A Evolução do Capitalismo de uma Perspectiva da Economia Institucional e Evolucionária”], em Hodgson et al. (eds), ‘Capitalism in Evolution: Global Contentions, East and West’ [“Capitalismo em Evolução: Disputas Globais, Oriente e Ocidente”], Cheltenham, 2001, pp. 71ff. Para uma formulação menos funcionalista da mesma ideia, ver meu conceito de ‘restrição benéfica’: ‘Beneficial Constraints: On the Economic Limits of Rational Voluntarism’ [“Restrições Benéficas: Sobre os Limites Econômicos do Voluntarismo Racional”], em Rogers Hollingsworth e Robert Boyer (eds), ‘Contemporary Capitalism: The Embeddedness of Institutions’ [“Capitalismo Contemporâneo: A Natureza da Incorporação das Instituições”], Cambridge, 1997, pp. 197–219.

[29] O economista político Karl Polanyi (1866–1964), nascido na Áustria de pais húngaros, é autor do clássico ‘A Grande Transformação: As Origens de Nossa Época’ [1944]. [Piauí]

[30] Karl Polanyi, obra citada, Boston, 1957, pp. 68–76.

[31] Ou mesmo ‘transgressão’, se formos pelo alemão: Steigerungslogik.

[32] Donald Tomaskovic-Devey e Ken-Hou Lin, ‘Income Dynamics, Economic Rents and the Financialization of the US Economy’[“Dinâmicas de Renda, Renda Econômica e a Financialização da Economia dos EUA”], American Sociological Review, vol. 76, no. 4, 2011, pp. 538–59.

[33] C. B. MacPherson, ‘The Political Theory of Possessive Individualism: Hobbes to Locke’ [“A Teoria Política do Individualismo Possessivo: De Hobbes a Locke”], Oxford, 1962.

[34] Considere o ataque sobre os últimos resquícios da semana de trabalho de 35 horas na França, sob os auspícios de um presidente socialista e seu partido.

[35] Da fronteira capitalista, tem sido relatado que os principais bancos de investimento começaram a sugerir aos seus empregados de nível mais baixo que eles “deveriam tentar gastar quatro dias longe do escritório a cada mês, como parte de um esforço mais amplo para melhorar as condições de trabalho”: ‘Wall St Shock: Take a Day Off, Even a Sunday’ [“Choque em Wall Street: Tire Uma Folga, nem Que No Domingo”], New York Times, 10 de Janeiro de 2014.

[36] ver o artigo “A Gente Trabalha Demais, Mas Não Precisa Ser Assim“, de Peter Frase [N.M.]

[37] ver o artigo “Políticas Para Se Arranjar Uma Vida“, de Peter Frase [N.M.]

[38] [ou progressistas – FALAR DO TERMO]

[39] Pense no gigantesco ritual [no original, “potlach”] organizado a cada ano antes do natal pelas indústrias de bens de consumo e varejo, ou no dia após a Ação de Graças, chamada ameaçadoramente como “Black Friday” [“Sexta Negra”] por causa das ubíquas reduções de preço e da histeria coletiva de compras que isso inaugura. Imagina o desepero se ninguém aparecesse!

[40] A importância da cultura consumista para a reprodução do capitalismo contemporâneo não pode ser subestimada. Consumidores são os aliados definitvos do capital no conflito distributivo com produtores, mesmo que produtores e consumidores tendem a ser as mesmas pessoas. Ao caçar a melhor barganha, consumidores derrotam a si mesmos como produtores, forçando os seus próprios empregos para o estrangeiro; enquanto eles tomam crédito para consumo para reestabelecer seu poder de compra reduzido, eles suplementam incentivos consumistas com obrigações legais para trabalhar, introduzidos nelas como devedores e feitas cumprir por credores. Ver Lendol Calder, ‘Financing the American Dream: A Cultural History of Consumer Credit’ [“Financiando o Sonho Estadunidense: Uma História Cultural de Crédito de Consumo”], Princeton, 1999.

[41] Que foi parte do sucesso de Lula em seu segundo governo: o estabelecimento de um mercado interno através de regularização, crescimento do salário-mínimo acima da inflação e liberação do mercado de crédito para consumo. [N.M.]

[42] Para um exemplo que não pode ser acusado de ‘Esquerdismo’ ou ‘viés anti-capitalista’, ver as previsões dos analistas do Deutsche Bank, um dos maiores bancos de investimento do mundo. [N.M.]

[43] Robert Gordon, ‘Is US Economic Growth Over? Faltering Innovation Confronts the Six Headwinds’ [“O Crescimento Econômico dos EUA Acabou? Inovação Hesitante Confronta Seis Ventos Contrários”], NBER Working Paper no. 18315, August 2012.

[44] De acordo com Gordon, essa taxa somou 1.8% por ano. Sob o impacto de seis forças adversas ela iria, no futuro, cair para 0.2% por ano para 99% mais pobre da população estadunidense: Gordon, ‘Is US Economic Growth Over?’ [“O Crescimento Econômico dos EUA”], pp. 18 ff. (Crescimento para o 1% do topo, é claro, é coisa diferente.) Note que Gordon acredita que, de fato, a taxa básica de crescimento será mais baixa do que 1.8%.

[45] O exercício de previsão de Gordon foi e continua sendo amplamente debatido. Dúvidas têm sido levantadas, em particular com respeito ao futuro progresso tecnológico em inteligência artificial e robótica. Embora progresso nesse fronte pareça provável, porém, seus frutos não tendem a ser compartilhados de forma igualitária. Sem proteção social, avanços tecnológicos nestas áreas seriam destrutivas para o emprego e fariam surgir mais polarização social. Qualquer progresso tecnológico que adicionasse ao crescimento provavelmente seria cancelado pelo que adicionaria à desigualdade.

[46] Ver, entre outros, Harry Magdoff e Paul Sweezy, ‘Stagnation and the Financial Explosion’ [“Estagnação e Explosão Financeira”], Nova Iorque, 1987. Para uma avaliação interessante da aplicabilidade da teoria do subconsumo ao capitalismo pós-2008, ver John Bellamy Foster e Fred Magdoff, ‘The Great Financial Crisis: Causes and Consequences’ [“A Grande Crise Financeira: Causas e Consequências”], Nova Iorque, 2009.

[47] Presumivelmente também porque ele teria de declarar a renda substancial que ele recebeu de empresas de Wall Street depois de deixar a administração Obama, no final de 2010. Ver ‘The Fed, Lawrence Summers, and Money’ [“O Fed, Lawrence Summers, e dinheiro”] New York Times, 11 de Agosto de 2013.

[48] A mesma ideia havia sido apresentada em 2005 quando Ben Bernanke, que logo seria seguido por Alan Greenspan no FED, invocou um “apetite por poupança” para explicar o fracasso do FED “inundando os mercados com liquidez” para estimular investimento. Hoje Summers se alinha casualmente à visão de teóricos de Esquerda sobre estagnação de que o “boom” dos anos 90 e começo dos 2000 foi uma quimera: “Dinheiro fácil demais, empréstimos demais, riqueza demais. Havia um grande “boom”? A utilização de capacidade não esteve sob nenhuma grande pressão, o desemprego não esteve em um nível notavelmente baixo. A inflação estava inteiramente calma. Então, de alguma maneira nem uma grande bolha foi o bastante para produzir algum excesso na demanda agregada.” Um video da fala de Summers está disponível no site do FMI.

[49] Paul Krugman, ‘A Permanent Slump?’ [“Uma Queda Permanente?”], New York Times, 18 de novembro de 2013. Krugman, o ideólogo favorito do keynesianismo de centro-esquerda, é um caso interessante. Ao comentar no New York Times (16 de novembro de 2013) o ‘pronunciamento’ de Summers sobre a “estagnação secular” (ver nota 2), ele começa parafraseando Keynes. Eis que este havia dito: “todo gasto é bom; caso a despesa seja produtiva, é ainda melhor, mas um gasto improdutivo é melhor do que nada”. Daí ele deriva a afirmação de que “o dispêndio privado, mesmo que seja total ou parcialmente um desperdício”, ainda assim pode ser “uma coisa boa”. Para ilustrar essa afirmação, Krugman completa: “suponha-se que as empresas americanas, que estão atualmente sentadas em uma enorme montanha de dinheiro, fiquem de alguma forma convencidas de que seria uma ótima ideia transformar todos os seus empregados em ciborgues, munindo-os com Google Glass e relógios inteligentes. Suponha, também, que três anos depois elas venham a perceber que não obtiveram realmente recompensa substantiva portodos esses gastos. Apesar disso, o boom de investimentos que fora produzido teria proporcionado vários anos de emprego mais elevado, sem desperdício real, já que os recursos utilizados, em caso contrário, teriam ficados ociosos”. A respeito de bolhas, ele diz: “sabemos agora que a expansão econômica entre 2003 e 2007 foi impulsionada por uma bolha. É possível dizer o mesmo sobre a última parte da expansão dos anos 90; é possível ainda de fato afirmar o mesmo sobre os últimos anos de expansão da era Reagan; esta foi produzida por uma fuga das instituições de poupança, a qual gerou uma grande bolha no setor imobiliário comercial…” Tudo isso, de acordo com Krugman, tem “algumas implicações radicais”, dentre elas, conforme Summers, a seguinte: “muito do que poderia ter sido feito para evitar uma crise futura teria sido contraproducente” diante das novas circunstâncias. Uma outra implicação seria a seguinte: “mesmo uma melhora da regulação financeira não seria necessariamente uma coisa boa”, pois “poderia desencorajar empréstimos irresponsáveis, os quais se justificam num momento em que mais gastos de quaisquer espécies seriam bons para a economia”. Além disso, poderia ser interessante “para reconstruir o nosso sistema monetário como um todo – digamos, eliminando o papel-moeda e pagando taxas de juros negativas sobre depósitos”, etc. Texto disponível em http://krugman.blogs.nytimes.com/2013/11/16/secular-stagnation-coalminesbubbles-and-larry-summers/?_r=0, último acesso em 4 de agosto de 2015. [nota retirada do texto ‘Do Futuro Sombrio do Capitalismo’]

[50] Sua ausência, é claro, foi uma das razões em primeiro lugar porque lucros excessivos puderam se instalar e deprimir a demanda.

[51] Esse esforço desesperado para manter as margens de lucro para o capital, mesmo que às custas de qualquer conquista civilizatória, não deixa de ser exatamente o que está acontecendo com a série de contra-reformas em implementação no Brasil atualmente. [N.M.]

[52] Nos EUA e em outros lugares, os ricos se mobilizam contra sindicatos e estatutos de salário-mínimo, muito embora baixos salários enfraqueçam a demanda agregada. Aparentemente eles podem fazer isso porque a oferta abundante de dinheiro fresco substituí o poder de compra em massa, ao permitir àqueles que têm acesso a ele obter seus lucros no setor financeiro. A demanda dos ‘de baixo’ tornaria atrativo para as ‘poupanças’ dos ricos serem investidas em serviços e manufatura. Ver, neste contexto, o chamado no final do ano passado pelo diretor geral da Confederação da Indústria Britânica, que representa as empresas industriais, para que seus membros paguem melhor seus trabalhadores, como pessoas demais estão presas em empregos que pagam pouco. Ver ‘Companies urged to spread benefits widely’ [“Companhias instadas a espalhar benefícios mais amplamente”], Financial Times, 30 de dezembro de 2013.

[53] Citigroup Pesquisa, ‘Plutonomy: Buying Luxury, Explaining Global Imbalances’ [“Plutonomia: Comprando Luxo, Explicando Desequilíbrios Globais”], 16 de outubro de 2005; ‘Revisiting Plutonomy: The Rich Getting Richer’ [“Revisitando a Plutonomia: Os Ricos Ficando Mais Ricos”], 5 de março de 2006.

[54] Uma sociedade em que uma minoria controla a maior parte das riquezas. [Piauí]

[55] No  excelente artigo “Quatro Futuros“, Peter Frase trata de um possível futuro,  que ele chama de ‘Exterminismo’, em que a classe trabalhadora se torna praticamente ‘descartável’ para a classe dominante, com sua mão de obra sendo automatizada num cenário de escassez de recursos e de condições ambientais que mantém e aprofunda a hierarquia de poder capitalista. [N.M.]

[56] Observar bem que o capitalismo é sobre lucro, não sobre produtividade. Embora ambos possam algumas vezes andar juntos, eles são suscetíveis a abandonar a companhia um do outro quando o crescimento econômico começa a exigir uma expansão desproporcional do domínio público, como previsto tão cedo em ‘Wagner’s law’: Adolph Wagner, Grundlegung der politischen Oekonomie’ [“Lei de Wagner: Adolph Wagner, Fundamentos de Economia Política”], 3rd ed, Leipzig, 1892. As preferências dos capitalistas pelo lucro em detrimento da produtividade, e com elas pelo regime de propriedade privada capitalista como um todo, podem então se tornar um obstáculo ao progresso econômico e social.

[57] Incluindo no nível mais alto: tanto Blair quanto Sarkozy estão agora trabalhando para fundos hege, seu tempo como líderes nacionais eleitos aparentemente considerados por eles e por seus novos empregadores como um tipo de aprendizagem para uma posição muito mais bem paga no setor financeiro.

[58] Relatos de banco tendo de pagar multas por infrações de vários tipos podem ser encontrados quase diariamente em jornais de qualidade. Em 23 de março de 2014, o Frankfurter Allgemeine Zeitung relatou que desde o começo da crise financeira, bancos estadunidenses sozinhos foram multados em cerca de 100 bilhões de dólares.

[59] interessante notar como a mídia brasileira simplesmente fingiu que este evento não aconteceu para incentivar a ideia de que era tudo ‘papo de petista’ [N.M.]

[60] “Big Data” ou “Megadados” – https://pt.wikipedia.org/wiki/Big_data; Nesse sentido, sobre a vigilância em massa praticada pelos EUA e sua influência no jogo político mundial, as revelações de Edward Snowden são aterradoras. Para quem não conhece, recomendo imensamente o filme ‘Snowden‘, de Oliver Stone. [N.M.] 

[61] Gibbon, E. – ‘The decline and fall of the Roman Empire. Three Volumes‘ [“O declínio e a queda do Império Romano. Três Volumes”]. Nova Iorque: Alfred A. Knopf, 1993 [1776], p. 218 em diante.

[62] Tal como diz ele em seus Cadernos do Cárcere: “La crisis consiste nei fato che il vecchio muore e il novo non può nascere…”

[63] Diz ele: “…in questo interregno si verificano i fenomeni morbosi più svariati”.

[64] De modo similar, ver o que diz Calhoun em seu artigo no livro excelente de Wallerstein et al. – Wallerstein, I., Collins, R., Mann, M., Derluguian, G. and Calhoun, C. – ‘Does Capitalism Have a Future?‘ [“O Capitalismo Tem Um Futuro?”], Oxford: Oxford University Press, 2013.

[65] Gerth, H. and Mills, C. W. – ‘Character and social structure: the psychology of social institutions‘ [“Caráter e estrutura social: a psicologia das instituições sociais”]. Nova Iorque: Harcourt, Brace, 1953.

[66] Foucault, M. – ‘The birth of biopolitics: lectures at the College de France, 1978–1979‘.
London: Palgrave Macmillan, 2008. “Nascimento da Biopolítica”,  Martins Fontes, 2008.

[67] Dardot, P. and Laval, C. – ‘The New Way of the World: On Neo-Liberal Society‘. London
and NY: Verso, 2013 – “A Nova Razão Do Mundo: Ensaio Sobre a Sociedade Neoliberal”, Editora Boitempo, 2016.

[68] Etzioni, A. – ‘The Moral Dimension: Toward a New Economics‘ [“A Dimensão Moral: Por Uma Nova Economia”]. Nova Iorque: The Free Press, 1988.

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3 pensamentos sobre “Como Vai Acabar o Capitalismo?

    • Bem que eu gostaria, mas por enquanto esse é o único que tenho. Os artigos deles normalmente são bem extensos, né… Esse foi bem mais fácil porque já existia a tradução da Piauí, então eu pude revisá-la, ajustar um trecho ou outro e complementar com o que eles tinham tirado – e mesmo assim levou um bom tempo. Mas espero mais pra frente poder contribuir com mais traduções deles. 🙂

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  1. Pingback: Como Vai Acabar o Capitalismo? | robertacarrilho

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