Quatro Futuros

Uma coisa de que podemos ter certeza é que o Capitalismo vai acabar; a questão, então, é o que virá depois.

por Peter Frase, na Revista Jacobin, dezembro de 2011

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[Nota do MinhocárioEste texto é o artigo original, de 2011. Para o livro lançado pelo mesmo autor em 2016, ‘Four Futures: Life After Capitalism’ (‘Quatro Futuros: Vida Após o Capitalismo’’), ver a introdução em Tecnologia e Ecologia como Apocalipse e Utopia’ e o capítulo sobre o futuro comunista em ‘Comunismo Como Futuro Automatizado de Igualdade e Abundância.]

Em seu discurso [1] para os acampados no Occupy Wall Street no Parque Zuccotti, Slavoj Zizek lamentou que “É fácil imaginar o fim do mundo, mas não conseguimos imaginar o fim do Capitalismo.” É a citação de uma frase que Fredric Jameson disse alguns anos atrás [2], quando a hegemonia do Neoliberalismo ainda parecia absoluta. Mesmo assim, a mera existência do Occupy Wall Street sugere que o fim do Capitalismo se tornou um pouco mais fácil de se imaginar recentemente. De início essa imagem tomou uma forma ameaçadora e distópica: no pico da crise financeira, com a economia global parecendo em colapso completo, o fim do Capitalismo parecia que poderia ser o início de um período de violência anárquica e miséria. E ainda pode ser, com a Eurozona tateando na beira do colapso enquanto escrevo [3]. Mas mais recentemente os protestos que se espalharam pelo globo, do Cairo à Madri, à Madison e à Wall Street deram à Esquerda alguma razão para aumentar timidamente suas esperanças de um futuro melhor após o Capitalismo.

Uma coisa de que podemos ter certeza é que o Capitalismo vai acabar. Talvez não tão em breve, mas provavelmente num futuro não muito distante; a Humanidade nunca conseguiu criar um sistema social eterno, afinal, e o Capitalimo é uma ordem notavelmente mais precária e volátil que a maioria das que o precederam. A questão, então, é o que virá depois. Rosa Luxemburgo, reagindo ao início da I Guerra Mundial citou uma frase de Engels [4]: “A sociedade burguesa se encontra em uma encruzilhada, ou entra em transição para o Socialismo ou regride para a barbárie.” Nesse espírito, ofereço um experimento de reflexão, uma tentativa de divisar nossos possíveis futuros. Estes são alguns dos Socialismos que podemos alcançar se uma Esquerda ressurgente tiver sucesso, ou os Barbarismos aos quais podemos ser lançados se falharmos.

Muito da literatura sobre Economias pós-Capitalistas está preocupada com o problema de gerenciar o trabalho na ausência de chefes capitalistas. Porém, começarei assumindo que já teremos nos livrado desse problema, para iluminar melhor outros aspectos da questão. Isso pode ser feito simplesmente extrapolando a tendência capitalista rumo a uma automação sempre crescente, que torna a produção sempre mais eficiente enquanto simultaneamente desafia a capacidade do sistema de criar empregos, e assim sustentar a demanda para o que é produzido. Esse tema tem ressurgido recentemente no pensamento burguês: em Setembro de 2011, Farhad Manjoo escreveu para a revista Slate uma série longa sobre “The Robot Invasion” (“A Invasão Robô”) [5], e pouco depois dois economistas do MIT publicaram “Race Against The Machine” (“Corrida Contra A Máquina”) [6], um livro eletrônico em que eles argumentam que a automação estava rapidamente tomando muitas das áreas que até recentemente serviram como os maiores motores de criação de empregos da Economia Capitalista. De fábricas automotivas completamente automáticas a computadores que podem diagnosticar condições de saúde, a robotização está tomando não apenas a manufatura, mas muito do setor de serviços também.

Levada ao seu limite lógico, esta dinâmica nos traria ao ponto onde a Economia não precisará de nenhum trabalho humano. Isso não traria automaticamente o fim do trabalho assalariado, como tem sido falsamente previsto inúmeras vezes como resposta aos desenvolvimentos tecnológicos. Mas isso significa que as sociedades humanas irão encarar cada vez mais a possibilidade de libertar as pessoas do trabalho involuntário. Se vamos agarrar essa oportunidade, e como faremos isso, dependerá de dois fatores principais, um material e um social. A primeira questão é sobre a escassez de recursos: a habilidade de encontrar fontes de energia baratas, de extrair ou reciclar matérias-primas, e em geral, de depender da capacidade da Terra de prover um alto padrão de vida material para todos. Uma sociedade que possua tanto tecnologias de substituição do trabalho quanto recursos abundantes pode sobrepujar a escassez de uma maneira completa que uma sociedade que possua apenas o primeiro elemento não pode. A segunda questão é política: que tipo de sociedade seremos? Uma em que todas as pessoas são tratadas como seres livres e iguais, com um direito igualitário de compartilhar da riqueza da sociedade? Ou uma ordem hierárquica em que uma elite domina e controla as massas e seu acesso aos recursos sociais?

Existem então quatro combinações lógicas dessas duas oposições, abundância de recursos vs. escassez e igualitarismo vs. hierarquia. Para colocar as coisas em termos de um marxismo um tanto vulgar, o primeiro eixo dita a base econômica do futuro pós-capitalista, enquanto o segundo pertence à superestrutura sócio-política. Dois desses possíveis futuros são “socialismos” (e apenas um deles eu chamarei por esse nome) enquanto outros dois são sabores contrastantes de “barbarismos”.

Igualitarismo e Abundância: Comunismo

Há uma famosa passagem no terceiro volume d’O Capital, em que Marx distingue entre um “Reino da Necessidade” e um “Reino da Liberdade” [7]. No reino da necessidade nós precisamos “lutar com a Natureza para satisfazer [nossos] desejos, para manter e reproduzir [nossa] vida”, através do trabalho físico na produção. Este reino da necessidade, Marx diz, existe “em todas as formações sociais e sob todos os possíveis modos de produção”, presumivelmente incluindo o Socialismo. O que distingue o Socialismo, então, é que a produção é racionalmente planejada e democraticamente organizada, ao invés de operar sob os caprichos do Capitalista ou do Mercado. Para Marx, entretanto, este nível da sociedade não era o objetivo real da Revolução, mas meramente uma pré-condição para “aquele desenvolvimento da energia humana que é um fim em si mesmo, o verdadeiro reino da liberdade, que entretanto, só pode florir com este reino da necessidade como sua base.”

Em outros lugares, Marx sugere que um dia poderemos nos libertar até mesmo do reino da necessidade. Na “Crítica do Programa de Gotha” [8], ele imagina que:

“Em uma fase mais alta da Sociedade Comunista, depois que a subordinação escravizadora do indivíduo à divisão do trabalho, e com isso também a antítese entre o trabalho mental e físico, tenham desaparecido; depois que o trabalho tenha se tornado não apenas um meio de vida mas o principal desejo da vida; depois que as forças produtivas tenham também aumentado com um amplo e completo desenvolvimento do indivíduo, e que todos os frutos da riqueza co-operativa fluam mais abundantemente – só então o estreito horizonte do direito burguês poderá ser riscado completamente e a sociedade poderá inscrever em seus cartazes: De cada um segundo sua habilidade, a cada um segundo suas necessidades!”

Os críticos de Marx tem frequentemente voltado esta passagem contra ele, a retratando como uma Utopia irremediavelmente improvável. Que possível sociedade poderia ser tão produtiva que os humanos poderiam ser inteiramente libertos de fazerem algum tipo de trabalho involuntário e insatisfatório? E mesmo assim a promessa da ampla difusão da automação é exatamente que ela poderia decretar tal libertação, ou pelo menos aproximar-nos dela – se, claro, encontrarmos uma maneira de lidar com as necessidades de geração de energia e de obtenção de recursos. Mas desenvolvimentos tecnológicos recentes aconteceram não apenas na produção de mercadorias, mas também na geração da energia necessária para operar as fábricas automáticas e as impressoras 3-D do futuro. Daí um possível futuro pós-escassez combina tecnologias de economia de trabalho com uma alternativa ao atual regime de energia, que no final está limitado pela escassez física e pela destruição ecológica dos combustíveis fósseis. Isto está longe de garantido, mas existem indicadores promissores. O custo de produção e operação de painéis solares, por exemplo, vem caindo dramaticamente na última década [9]. Na trajetória atual eles seriam mais baratos que nossas fontes de eletricidade atuais em torno de 2020. Se energia barata e automação forem combinadas com métodos de fabricação eficientes ou reciclagem de matérias-primas, então nós realmente deixamos para trás “A Economia” como um mecanismo social de gerenciamento da escassez. O que nos espera além desse horizonte?

Não é que todo trabalho cessaria, no sentido em que todos apenas sentaríamos em dissipação e torpor. Como Marx coloca, “[…] o trabalho tenha se tornado não apenas um meio de vida mas o principal desejo da vida.” Qualquer atividade ou projetos em que tomássemos parte, o faríamos por que os acharíamos inerentemente satisfatórios, não por que precisaríamos de um salário ou por que devêssemos nossas horas mensais para a cooperativa. Isto não é tão implausível, considerando o grau em que decisões sobre o trabalho já são guiadas por considerações não-materiais, entre aqueles que são privilegiados o bastante para ter a opção: milhões de pessoas escolhem ir para a Universidade, se tornar trabalhadores sociais, ou começar pequenas fazendas orgânicas, mesmo quando carreiras bem mais lucrativas estão abertas a elas.

A derrocada do trabalho assalariado pode parecer hoje um sonho distante. Mas houve um tempo – antes do movimento trabalhista recuar em suas demandas por menos horas de trabalho, e antes da estagnação e reversão da longa tendência rumo a semanas de trabalho mais curtas – em que algumas pessoas realmente se preocupavam sobre o que faríamos depois de libertos do trabalho. Em um ensaio sobre “Possibilidades Econômicas para Nossos Netos” (“Economic Possibilities for Our Grandchildren”) [10], John Maynard Keynes previu que dentro de poucas gerações, “os homens se depararão com seu problema real e permanente – como usar sua liberdade das preocupações econômicas que o pressionam, como ocupar o lazer, que Ciência ou interesses o apetecerão, para viver sabiamente, agradavelmente e bem.” E em uma discussão recentemente publicada de 1956 [11], Max Horkheimer começa por casualmente comentar com Theodor Adorno que “hoje em dia temos o suficiente em relação a forças produtivas; é óbvio que poderíamos suprir o mundo inteiro com bens e poderíamos então tentar abolir o trabalho como uma necessidade para os seres humanos.”

E Keynes e Adorno viviam em um mundo em que a indústria parecia possível apenas em uma escala muito grande, seja em fábricas capitalistas ou em empreendimentos estatais; aquela forma de indústria implica hierarquia, não importa em que formação social ela esteja inserida. Mas recentes avanços tecnológicos sugerem a possibilidade de retorno a uma estrutura menos centralizada, sem reduzir drasticamente os padrões materiais de sobrevivência: a proliferação de impressoras 3-D e “laboratórios de fabricação” em pequena escala está possibilitando cada vez mais reduzir a escala de pelo menos algumas manufaturas sem sacrificar completamente a produtividade. Assim, na medida em que algum trabalho humano ainda fosse necessário na produção em nosso imaginado futuro comunista, ele poderia tomar a forma de pequenos coletivos ao invés de firmas dirigidas por capitalistas ou pelo Estado.

Mas deixar para trás o trabalho assalariado economicamente significa também deixá-lo para trás socialmente, e isso acarreta mudanças profundas em nossas prioridades e em nosso estilo de vida. Se queremos imaginar um mundo onde o trabalho não é mais uma necessidade, será mais frutífero beber da ficção do que da teoria. De fato, muitas pessoas já estão familiarizadas com a Utopia de um Comunismo pós-escassez, por que ele foi representado em um dos trabalhos mais familiares da cultura popular: Star Trek. A economia e a sociedade daquele show estão baseadas em dois elementos técnicos. Um é a tecnologia do “replicador”, que é capaz de materializar qualquer objeto do nada, com um simples pressionar de um botão. O outro é uma fonte de energia aparentemente inesgotável (ou próxima disso) vagamente descrita, que alimenta os replicadores e tudo o mais no programa.

O aspecto comunista do universo de Star Trek é frequentemente obscurecido por que os filmes e as séries de TV estão centradas na hierarquia militar do Starfleet, que explora a galáxia e entra em conflito com raças alienígenas. Mas mesmo essa parece ser uma hierarquia voluntariamente escolhida, atraindo aqueles que buscam uma vida de aventura e exploração; na medida em que vislumbramos a vida civil, ela parece não ser incomodada com hierarquia ou compulsão. E na medida em que o programa se distancia da utopia comunista, é por que os roteiristas introduzem ameaças externas de raças alienígenas hostis ou recursos escassos para produzir tensão dramática.

Não é necessário conjurar naves espaciais e alienígenas para imaginar as tribulações de um futuro comunista, no entanto. O romance “Down and Out in the Magic Kingdom” (“O Fundo do Poço no Reino Encantado”) de Cory Doctorow [12] imagina um mundo pós-escassez que se localiza em uma extrapolação reconhecível dos Estados Unidos atuais. Assim como em Star Trek, a escassez material foi superada neste mundo. Mas Doctorow entende que dentro de sociedades humanas, certos bens imateriais serão sempre inerentemente escassos: reputação, respeito, estima entre os pares. Daí que o livro gira em torno das tentativas de vários personagens de acumular “whuffie”, que são um tipo de pontos virtuais que representam a boa vontade que você acumulou dos outros. Whuffie, por sua vez, é usada para determinar quem terá autoridade em qualquer empreendimento voluntário coletivo – assim como, no romance, administrar a Disneylândia.

O valor do livro de Doctorow, em contraste com Star Trek, é que ele trata um mundo pós-escassez como um que teria as suas próprias hierarquias e conflitos, ao invés de um em que todos vivessem em perfeita harmonia e em que a política tivesse chegado a um impasse. Reputação, como Capital, pode ser acumulada de uma maneira desigual e auto-perpetuante, uma vez que os que já são populares ganham a habilidade de fazer coisas que atraiam para si mais atenção e os faça mais populares. Tais dinâmicas já podem ser observadas hoje, enquanto blogs e outras mídias sociais passam a serem capazes de determinar quem consegue atenção e quem não consegue, de uma forma que não é completamente uma função de quem tem dinheiro para gastar. Organizar a sociedade de acordo com quem tem mais “likes” no Facebook com certeza tem certos inconvenientes, para dizer o mínimo, mesmo quando tiramos essa ideia de seu invólucro capitalista.

Mas se não é a visão de uma sociedade perfeita, esta versão do Comunismo é pelo menos um mundo em que o conflito não é mais baseado na oposição entre trabalhadores assalariados e capitalistas, ou na luta por recursos escassos. É um mundo em que as coisas no final não se resumem a dinheiro. Uma sociedade comunista certamente teria hierarquias de status – como as tem todas as sociedades, assim como as tem o Capitalismo. Mas no Capitalismo, todas as hierarquias de status tendem a estarem alinhadas, ainda que não perfeitamente, com uma hierarquia de status mestra: a acumulação de Capital e de dinheiro. O ideal de uma sociedade pós-escassez é que os vários tipos de estima sejam independentes, para que a estima em que alguém é mantido como um músico seja independente da que alguém atinge como ativista político, e em que ninguém possa usar um status para comprar outro. De certa forma, então, não faz sentido nos referirmos a esta como uma configuração “igualitária”, já que não seria um mundo sem hierarquias mas um com muitas hierarquias, nenhuma das quais seria superior às outras.

Hierarquia e Abundância: Rentismo

Dadas as premissas técnicas da automação completa e de energia inesgotável, a utopia do Star Trek de um Comunismo puro se torna uma possibilidade, mas dificilmente inevitável. A elite burguesa do presente não possui apenas acesso privilegiado a bens materiais escassos, afinal; eles também gozam de um status exaltado e poder social sobre as massas trabalhadoras, que não devem ser menosprezados como fontes de motivação capitalista. Na verdade ninguém consegue gastar um bilhão de dólares em si mesmo, afinal, e ainda assim existem administradores de fundos Hedge que ganham esse tanto em um único ano e então voltam por mais. Para tais pessoas, dinheiro é uma fonte de poder sobre os outros, um gerador de status, e uma forma de manter um placar – realmente não tão diferente dos whuffie do Doctorow, exceto que esta é uma forma de status que depende da privação material de outros. É portanto de se esperar que mesmo que o trabalho pudesse se tornar supérfluo na produção, as classes dirigentes se esforçariam para preservar um sistema baseado em dinheiro, lucro, e poder de classe.

A forma embrionária de poder de classe em uma economia pós-escassez pode ser encontrada em nossos sistemas de leis de propriedade intelectual. Enquanto defensores contemporâneos da propriedade intelectual gostam de falar dela como se fosse amplamente análoga a outros tipos de propriedade, na verdade ela é baseada em um princípio diferente. Como os economistas Michele Boldrin e David K. Levine observam [13], direitos de propriedade intelectual vão além da concepção tradicional de propriedade. Eles não garantem apenas “seu direito de controlar sua cópia da ideia”, da maneira que eles protegeriam seu direito de controlar seus sapatos ou sua casa. Ao invés disso, eles dão ao detentor dos direitos a habilidade de dizer aos outros como usar cópias de uma ideia que “pertence” a eles. Como Boldrin e Levine colocam, “Isto não é um direito ordinariamente ou automaticamente garantido aos detentores de outros tipos de propriedades. Se eu produzo um copo de café, eu tenho o direito de escolher se o venderei ou não a você ou se eu mesmo vou bebê-lo. Mas meu direito de propriedade não é automaticamente um direito de tanto te vender um copo de café quanto de te dizer como você deve bebê-lo.”

A mutação da forma de propriedade, do real para o intelectual, cataliza a transformação da sociedade em algo que não é reconhecível como Capitalismo, mas que ainda assim é tão desigual quanto. Capitalismo, em suas raízes, não é definido pela presença de capitalistas, mas pela existência de Capital, o que por sua vez é inseparável do processo de produção de mercadorias através do trabalho assalariado, dinheiro->Capital->dinheiro. Quando o trabalho assalariado desaparece, a classe dirigente pode continuar a acumular dinheiro apenas se retiver a habilidade de se apropriar de um fluxo de rendas, que advém de seu controle sobre a propriedade intelectual. Daí emerge uma sociedade rentista, ao invés de uma capitalista.

Suponha, por exemplo, que toda a produção seja feita por meio dos replicadores do Star Trek. Para ganhar dinheiro vendendo itens replicados, as pessoas teriam de alguma forma de serem proibidas de simplesmente fabricar o que quisessem de graça, e essa é a função da propriedade intelectual. Um replicador está disponível apenas da companhia que te licencia o direito de usar um, já que qualquer um que quisesse te dar um replicador ou mesmo fazer um com seu próprio replicador estaria violando os termos de sua licença. Mais importante, toda vez que você fizer algo com seu replicador, você precisa pagar uma taxa de licenciamento para quem quer que seja que detém os direitos para aquela coisa em particular. Neste mundo, se o Capitão Jean-Luc Picard do Star Trek quisesse replicar seu querido “chá, Earl Grey, quente”, ele teria de pagar à companhia que detém os direitos reservados ao padrão do replicador para o chá Earl Grey quente.

Isso resolve o problema de como manter empresas visando lucro, pelo menos na superfície. Qualquer um que tentasse suprir suas necessidades à partir de um replicador sem pagar o cartel de direitos reservados se tornaria um fora-da-lei, como os compartilhadores de arquivos online de hoje em dia. Apesar de seu absurdo, esse arranjo provavelmente teria defensores entre os críticos contemporâneos da cultura de compartilhamento pela Internet; “You Are Not a Gadget” de Jaron Lanier [14], por exemplo, clama explicitamente pela imposição de uma “escassez artificial” de conteúdo digital com a intenção de restaurar o seu valor. As consequências de tais argumentos já estão aparentes nos processos movidos pela indústria musical contra desafortunados baixadores de mp3, e na intensificação contínua da vigilância estatal sob a guisa de combate à pirataria. A extensão desse regime para a micro-fabricação de objetos físicos apenas pioraria o problema. Uma vez mais, a ficção científica é esclarecedora, neste caso no trabalho de Charles Stross. “Accelerando” [15] nos mostra um futuro em que aqueles que infringem direitos reservados são perseguidos por assassinos de aluguél, enquanto “Halting State” [16] descreve indivíduos furtivos conhecidos como “fabbers” [17] que se esgueiram por becos onde operam suas impressoras 3-D sempre um passo além da lei.

Mas uma economia baseada em escassez artificial não é apenas irracional, é também desfuncional. Se todos estão constantemente sendo forçados a pagar por taxas de licenciamento, então eles precisarão de alguma maneira de ganhar dinheiro e isso gera um novo problema. O dilema fundamental do Rentismo é o problema da demanda efetiva: como garantir que as pessoas sejam capazes de ganhar dinheiro suficiente para poderem pagar as taxas de licenciamento das quais o lucro privado dependeria? É claro, isso não é tão diferente do problema que confrontou o Capitalismo Industrial [18], mas se torna mais severo quando o trabalho humano é cada vez mais espremido para fora do sistema, e serem humanos se tornam supérfluos como elementos de produção, mesmo se eles ainda permanecem necessários como consumidores. Então, que tipo de empregos ainda existiriam nessa economia?

Algumas pessoas ainda seriam necessárias para inventar novas coisas a serem replicadas, então restaria um lugar para uma pequena “classe criativa” de designers e artistas. E conforme suas criações se acumulassem, o número de coisas que poderiam ser replicadas rapidamente ultrapassaria vastamente o tempo e dinheiro disponíveis para aproveitá-las. A maior ameaça para os lucros de qualquer companhia não seriam o custo do trabalho ou de matérias-primas – ambos mínimos ou inexistentes – mas ao invés disso a perspectiva de que as licensas que elas possuíssem pudessem perder popularidade para as licensas dos competidores. Marketing e propaganda, então, continuaríam a empregar números significativos de trabalhadores. Ao lado do pessoal de marketing, existiria também um exército de advogados, conforme os litígios atuais sobre patentes e infrações de direitos reservados crescessem para englobar todas as atividades econômicas. E finalmente, como em qualquer sociedade hierárquica, seria necessário um aparato de repressão para garantir que os pobres e oprimidos não tomassem de volta sua parte dos ricos e poderosos. Impor leis draconianas de propriedade intelectual precisará de grandes batalhões do que Samuel Bowles e Arjun Jayadev chamam de “guard label” (“trabalho de guarda”): “Os esforços de monitores, guardas, e pessoal militar (…) direcionados não para a produção, mas para a imposição contra os clamores decorrentes de trocas e a perseguição penal ou prevenção de transferências unilaterais de direitos de propriedade.” [19]

Não obstante, manter o pleno emprego em uma economia rentista seria um desafio constante. Não parece que as quatro áreas que acabamos de descrever poderiam substituir completamente todos os empregos perdidos para a automação. E mais, estes empregos são eles mesmos passíveis de inovações em redução de trabalho. Marketing pode ser feito com data mining e algoritmos; grande parte dos negócios de rotina de advocacia pode ser substituída por software; trabalho de guarda pode ser executado por drones de segurança ao invés de uma polícia humana. Mesmo parte do trabalho de invenção de produtos poderia um dia ser dado a computadores que possuam alguma inteligência artificial criativa rudimentar.

E se a automação falhar, a elite rentista pode colonizar o nosso ócio para extrair trabalho gratuíto. O Facebook já invoca seus usuários a criar conteúdo gratuitamente, e a onda recente de “gameficação” [20] sugere que as corporações estão muito interessadas em encontrar maneiras de transformar o trabalho de seus empregados em atividades que as pessoas acharão aprazíveis, e assim farão gratuitamente em seu próprio tempo. O cientista da computação Luis von Ahn, por exemplo, tem se especializado no desenvolvimento de “jogos com um propósito”, aplicações que se apresentam ao usuário final como diversões agradáveis enquanto também realizam uma tarefa computacional útil. Um dos jogos de von Ahn solicitava que usuários identificassem objetos em fotos, e os dados então alimentavam de volta um banco de dados que seria usado para pesquisar imagens. Esta linha de pesquisa evoca o mundo do romance Ender’s Game [21], de Orson Scott, em que crianças lutam uma guerra interestelar remota através do que elas pensam serem video-games.

Tudo isso significa que a sociedade do Rentismo provavelmente seria objeto de uma tendência persistente de desemprego, que a classe dirigente teria de encontrar algum jeito de enfrentar para manter o sistema unido e funcionando. Isto implica em realizar uma visão que o finado André Gorz tinha de uma sociedade pós-industrial [22]: “a distribuição dos meios de pagamento precisam corresponder ao volume de riqueza socialmente produzida e não ao volume de trabalho executado.” Isso pode involver taxação de lucros das empresas lucráveis e redistribuição de dinheiro de volta para os consumidores – possivelmente como uma renda garantida sem nenhuma exigência, e possivelmente em troca da execução de algum tipo de trabalho sem sentido apenas para manter as pessoas ocupadas [23]. Mas mesmo se a redistribuição fosse desejável do ponto de vista da classe como um todo, um problema de ação coletiva emergeria; qualquer companhia individual ou pessoa rica se sentirá tentada a avançar sobre os pagamentos dos outros, e resistirá portanto aos esforços de imposição de impostos redistributivos. O governo poderia também simplesmente imprimir dinheiro para dar à classe trabalhadora, mas a inflação resultante seria uma forma indireta de redistribuição e, assim, também enfrentaria resistência. Finalmente, existe a opção de financiar o consumo através do endividamento dos consumidores – mas leitores em seus vinte-e-poucos anos presumivelmente não precisam ser lembrados das limitações inerentes à essa solução [24].

Dados todos esse problemas, alguém pode perguntar por que a classe rentista se daria ao trabalho de tentar extrair lucro das pessoas, já que eles poderia replicar qualquer coisa que quisessem. O que impediria que essa sociedade se dissolvesse no cenário comunista da sessão anterior? Poderia ser que ninguém tivesse licensas o suficiente para prover todas as suas necessidades, então todos precisariam de algum rendimento para pagar seus próprios custos de licenciamento. Você pode possuir o padrão de réplica para uma maçã, mas apenas ser capaz de fazer maçãs não é o bastante para sobreviver. Nesta leitura, a classe rentista seria tão somente aqueles que possuem licensas o bastante para cobrir todas as suas taxas de licenciamento.

Ou talvez, como notado no início, a classe dirigente defenderia sua posição de privilégio para garantir poder sobre os outros àqueles no topo da sociedade dividida em classes. Isto sugere outra solução para o problema de desemprego do Rentismo: contratar pessoas para executar serviços pessoais poderia se tornar uma marca de status, mesmo se a automação tornasse isso desnecessário, estritamente falando. A tão proclamada ascensão da economia de serviços evoluiria para uma versão futurista da Inglaterra do século XIX ou partes da India hoje, onde a elite pode se dar o luxo de contratar um grande número de serviçais.

Mas esta sociedade pode persistir apenas enquanto a maioria da população aceitar a legitimidade de sua hierarquia governante. Talvez o poder da ideologia fosse forte o bastante para induzir as pessoas a aceitarem o estado de coisas descrito aqui. Ou talvez o povo começasse a se perguntar por que a riqueza do conhecimento e da cultura estaria sendo mantida cercada por leis restritivas quando, para usar um slogan popular recentemente, “outro mundo é possível” para além do regime de escassez artificial.

Igualitarismo e Escassez: Socialismo

Nós já vimos que a combinação de produção automatizada e recursos abundantes nos daria ou a utopia pura do Comunismo ou a distopia absurda do Rentismo; mas e se a energia e os recursos permanecessem escassos? Neste caso, chegamos em um mundo caracterizado simultaneamente pela abundância e pela escassez, em que a libertação da produção ocorre lado a lado com um planejamento e administração intensificados das entradas para essa produção. A necessidade de controlar o trabalho ainda desaparece, mas a necessidade de gerenciar a escassez continua.

Escassez nas entradas físicas para a produção precisa ser compreendida como englobando bem mais do que mercadorias particulares como petróleo ou minério de ferro – os efeitos malignos do Capitalismo no meio-ambiente ameaçam gerar danos irreversíveis nos climas e ecossistemas dos quais depende grande parte da nossa economia atual. Mudanças climáticas já começaram a causar estragos no sistema global de alimentação, e gerações futuras poderão olhar para a variedade de gêneros alimentícios disponível hoje em dia como uma Era de Ouro insustentável. (Gerações anteriores de escritores de ficção científica às vezes imaginavam que um dia consumiríamos toda a nossa nutrição na forma de pílulas insípidas; talvez ainda venhamos a fazer isso por necessidade.) E sob as projeções mais severas, muitas áreas que hoje são densamente povoadas podem se tornar inabitáveis, impondo custos severos em realocações e reconstruções sobre os nossos decendentes.

Nosso terceiro futuro, então, é um em que ninguém precisa trabalhar, e ainda assim as pessoas não são livres para consumir tanto quanto quiserem. Algum tipo de governo é requerido, e o Comunismo puro está excluído como uma possibilidade; o que temos, ao invés, é uma versão de Socialismo, e alguma forma de planejamento econômico. Contrastando com os planos do século XX, porém, os do futuro de recursos restritos estarão mais preocupados em gerenciar o consumo, ao invés da produção. Que seria, nós ainda assumimos, através do replicador; a tarefa seria administrar as entradas que o alimentariam.

Isso pode parecer menos que promissor. Consumo, afinal, foi precisamente a área em que o planejamento no estilo soviético se revelou mais deficiente. Uma sociedade que pode se armar para a guerra com os nazistas, mas é então objeto de carências sem fim e filas para o pão, é um padrão dificilmente inspirador. Mas a verdadeira lição da URSS e de seus imitadores é que o tempo da planificação ainda não havia chegado – e quando ele finalmente começou a chegar, a esclerose burocrática e as deficiências políticas do sistema Comunista se provaram incapazes de acomodá-lo. Nos anos 50 e 60, economistas soviéticos tentaram heroicamente reconstruir sua economia em uma forma mais funcional – uma das principais figuras neste esforço foi o vencedor do prêmio Nobel Leonid Kantorovich [25], cuja história está contada de forma ficcional no recente livro de Francis Spufford, “Red Plenty” [26]. O esforço encalhou não por que o planejamento fosse impossível em princípio, mas por que era tecnicamente e politicamente impossível na URSS de seu tempo. Tecnicamente, por que suficiente poder computacional não estava ainda disponível, e politicamente por que a elite burocrática soviética não intencionava apartar-se dos poderes e privilégios que lhes eram garantidos sob o sistema existente.

Mas os esforços de Kantorovich, e de teóricos contemporâneos do planejamento como Paul Cockshott e Allin Cottrell [27], sugerem que alguma forma de planejamento eficiente e democrático é possível. E será necessário em um mundo de recursos escassos: enquanto a produção privada capitalista tem sido muito bem sucedida em incentivar inovação tecnológica de economia de trabalho, ela tem se provado terrível na conservação do meio-ambiente ou na racionalização de recursos escassos. Mesmo em um mundo pós-capitalista, pós-trabalho, algum tipo de coordenação seria necessária para garantir que os indivíduos não tratem a Terra de uma maneira que seja, no somatório, insustentável. Seria preciso, como disse Michael Löwy [28], de algum tipo de “planejamento democrático global” baseado no debate democrático e pluralista ao invés de dirigido por burocratas.

Um distinção precisa ser feita, porém, entre planejamento democrático e uma economia completamente sem-mercado. Uma economia socialista poderia empregar planejamento racional enquanto ainda comportando trocas de algum tipo no mercado, juntamente com dinheiro e preços. Esse, de fato, foi um dos “insights” de Kantorovich; ao invés de se livrar dos sinais do preço, ele queria tornar os preços em mecanismos para transformar metas de produção planejada em realidades econômicas. Tentativas atuais de colocar um preço em emissões de carbono através de esquemas “cap-and-trade” [29] apontam nessa direção: enquanto elas usam o mercado como um mecanismo coordenado, elas são também uma forma de planejamento, já que o passo chave é a decisão, fora do mercado, sobre qual nível de emissões de carbono é aceitável. Essa abordagem poderia parecer bem diferente do que hoje, se generalizada e implementada sem relações capitalistas de propriedade e desigualdades de riqueza.

Suponha que todos recebessem um salário, não como um retorno pelo trabalho, mas como um Direito Humano. Este salário não compraria o produto do trabalho de outros, mas ao invés disso, o direito de usar uma certa quantidade de energia e recursos quando alguém fosse usar os replicadores. Mercados poderiam se desenvolver na medida em que pessoas escolhessem trocar um tipo de autorização de consumo por outro, mas isso seria o que o sociológo Erik Olin Wright chama de “capitalismo consentido entre adultos” [30], ao invés da participação involuntária no trabalho assalariado motivada pela ameaça da fome.

Dada a necessidade de determinar e acompanhar os níveis estáveis de consumo – e deste modo, determinar preços – o Estado não poderia desaparacer, como poderia sob o cenário comunista. E onde há escassez, haverá com certeza conflitos políticos, mesmo se já não fossem conflitos de classe. Conflitos entre localidades, entre gerações, entre aqueles que estão mais preocupados com a saúde do meio-ambiente à longo-prazo e aqueles que preferem maior consumo material no curto prazo – nenhum destes seriam fáceis de se resolver. Mas teríamos pelo menos chegado ao outro lado do Capitalismo como uma sociedade democrática, e mais ou menos em unidade.

Hierarquia e Escassez: Exterminismo

Mas se não chegarmos como iguais, e limites ambientais continuarem pressionando contra nós, chegaremos ao quarto e mais perturbador dos nossos quatro possíveis futuros. De certo modo, ele lembra o Comunismo que nós começamos discutindo – mas é um Comunismo para poucos.

A verdade paradoxal sobre aquela elite global que aprendemos a chamar de “O Um Porcento” é que, enquanto eles são definidos pelo seu controle de uma enorme extensão da riqueza monetária mundial, eles são ao mesmo tempo o fragmento da humanidade cujas vidas diárias são menos dominadas pelo dinheiro. Como Charles Stross escreveu [31], os muito ricos habitam uma existência em que a maioria dos bens materiais são, na prática, gratuitos. Ou seja, sua riqueza é tão grande em relação ao preço da comida, habitação, viagens, e outras amenidades, que eles raramente precisam considerar o preço de qualquer coisa. O que eles quiserem, eles podem ter.

O que significa que para os muito ricos, o mundo já é algo como o Comunismo descrito anteriormente. A diferença, é claro, é que sua condições pós-escassez é possibilitada não apenas por máquinas mas pelo trabalho da classe trabalhadora global. Mas uma visão otimista dos desenvolvimentos futuros – o futuro que descrevi como Comunismo – é que em algum momento nós chegaríamos em um estado em que nós todos seríamos, em algum sentido, o Um Porcento. Como na citação famosa de William Gibson [32], “o futuro já está aqui, só que distribuido de forma desigual.”

Mas e se os recursos e a energia forem simplesmente escassos demais para permitir que todos gozem do padrão de vida material dos ricos atuais? E se chegarmos a um futuro que não precisa mais do trabalho das massas proletárias na produção, mas é incapaz de prover a todos com um padrão arbitrariamente alto de consumo? Se chegarmos em tal mundo como uma sociedade igualitária, então a resposta é o regime socialista de conservação compartilhada descrito na sessão anterior. Mas se, ao invés, nós permanecermos uma sociedade polarizada entre uma elite privilegiada e uma massa oprimida, então a trajetória mais plausível leva a algo muito mais obscuro; eu o chamarei pelo termo que E. P. Thompson usou para descrever uma distopia diferente [33], durante o pico da Guerra Fria: Exterminismo.

O grande perigo imposto pela automação da produção, no contexto de um mundo de hierarquia e recursos escassos, é que ela faz a grande massa do povo supérflua do ponto de vista das elites dirigentes. Isso está em contraste com o Capitalismo, onde on antagonismo entre Capital e Trabalho é caracterizado por uma luta de interesses e por uma relação de dependência mútua: os trabalhadores dependem dos capitalistas já que eles mesmos não controlam os meios de produção, enquanto os capitalistas precisam de trabalhadores para operar suas fábricas e lojas. Como na letra de “Solidarity Forever” (“Solidariedade para Sempre”): “Eles tomaram incontados milhões que não labutaram para receber/Mas sem nossos cérebros e músculos, nem uma simples engrenagem pode virar.” [34] Com a ascensão dos robôs, a segunda linha deixa de ser verdade.

A existência de uma ralé empobrecida e economicamente supérflua impõem um grande perigo para a classe dirigente, que naturalmente temerá expropriação iminente; confrontada com esta ameaça, alguns cursos de ação se apresentarão diante dela. As massas podem ser compradas com algum grau de redistribuição de recursos, enquanto os ricos compartilharem sua riqueza na forma de programas de bem-estar social, pelo menos se as restrições de recursos não forem muito apertadas. Mas em adição a potencialmente reintroduzir escassez na vida dos ricos, esta solução é passível de conduzir para uma onda sempre crescente de demandas por parte das massas, assim assomando o espectro de expropriação novamente. Isso foi essencialmente o que aconteceu no topo da onda do Estado de Bem-Estar Social, quando os chefes começaram a temer que tanto os lucros quanto o controle sobre o ambiente de trabalho estivessem escorrendo de suas mãos.

Se comprar a multidão enfurecida não é uma estratégia sustentável, outra opção é simplesmente fugir e se esconder dela. Essa é a trajetória do que o sociólogo Bryan Turner chama de “sociedade de enclave” [35], uma ordem em que “governos e outras agências buscam regular espaços e, onde for necessário, imobilizar fluxos de pessoas, bens e serviços” por meio de “muros, barreiras burocráticas, exclusões legais e registros.” Comunidades muradas, ilhas privadas, getos, prisões, paranoia terrorista, quarentenas biológicas; juntos, estes se somam em um gulag global invertido, onde os ricos viveriam em pequenas ilhas de riqueza espalhadas por um oceano de miséria. Em “Tropic of Chaos” (“Trópico do Caos”) [36], Christian Parenti defende a tese de que já estamos construindo essa nova ordem, já que a mudança climática acarreta o que ele chama de “convergência catastrófica” de destruição ecológica, desigualdade econômica, e falência do Estado [37]. O legado do Colonialismo e do Neoliberalismo é que os países ricos, junto das elites dos países pobres, tem facilitado uma desintegração em violência anárquica, com várias tribos ou facções políticas se enfrentando sobre as recompensas decrescentes de ecossistemas danificados. Encarando esta realidade sombria, muitos dos ricos – que, em termos globais, inclui muitos trabalhadores em países ricos também – se resignam a se embarricar em suas fortalezas, protegidos por drones e empreiteiros militares privados. Trabalho de guarda, que encontramos na sociedade rentista, reaparece em uma forma ainda mais malévola, com alguns poucos sortudos empregados como executores e protetores para os ricos.

Mas este também é um equilíbrio insustentável, pela mesma razão básica que comprar as massas também o é. Enquanto existirem as hordas mantidas na miséria, existe o risco de que possa um dia se tornar impossível mantê-las distantes. Uma vez que o trabalho em massa tenha sido transformado em supérfluo, uma solução final espreita: uma guerra genocida dos ricos contra os pobres. Muitos tem chamado o recente filme com Justin Timberlake, “In Time” [38], de “filme marxista”, mas ele é mais precisamente uma parábola do caminho para o Exterminismo. No filme, uma pequena classe dirigente literalmente vive para sempre em seus enclaves murados através de tecnologia genética, enquanto todos os outros são programados para morrer aos 25 anos, a menos que possam implorar, emprestar ou roubar mais tempo. A única coisa poupando os trabalhadores é que os ricos ainda precisam de seu trabalho em algum nível; quando essa necessidade expirar, presumivelmente também expirará a classe trabalhadora em si.

Daí “Exterminismo”, como uma descrição deste tipo de sociedade. Tal destino genocida [39] pode parecer um Barbarismo remoto, digno de vilões de histórias em quadrinhos; talvez seja irracional pensar que um mundo cicatrizado pelos holocaustos do século XX poderia novamente afundar em tamanha depravação. Então de novo, os Estados Unidos já são um país onde um candidato sério para a Presidência se deleita na execução de inocentes, enquanto o atual Comandante em Chefe casualmente ordena o assassinato de cidadãos estadunidenses sem nem mesmo a pretensão do devido processo, para amplo aplauso liberal.


Estas quatro visões são tipos abstratos ideais, essências platônicas de sociedades. Elas deixam de fora muitos dos detalhes complexos, e ignoram a realidade onde escassez-abundância e igualdade-hierarquia não são simples dicotomias mas escalas com muitas possibilidades entre os extremos. Mas minha inspiração, ao desenhar estes retratos simplificados, foi o modelo de uma sociedade puramente capitalista que Marx perseguiu em O Capital [40]: um ideal que nunca pode ser perfeitamente refletido nas montagens complexas da História Econômica real, mas que ilumina elementos únicos e fundacionais de uma ordem social particular. Os Socialismos e Barbarismos descritos aqui deveriam ser pensados como caminhos pelos quais a humanidade pode seguir, mesmo se forem destinos que nunca atingiremos. Com algum conhecimento do que nos espera no final de cada estrada, talvez sejamos mais capazes de evitar tomar a direção errada.””


Os Confortos da Distopia

por Peter Frase em seu blog, 21/03/2014

http://www.peterfrase.com/2014/03/the-comforts-of-dystopia/

No momento estou trabalhando em um tratado mais longo sobre os Quatro Futuros, minha especulação ficcional de Ciências Sociais sobre os possíveis sucessores do Capitalismo, em um mundo caracterizado pela automação pervasiva e pela crise ecológica. Esse livro fará parte da série da Jacobin [41]; mais sobre isso mais tarde.

“Quatro Futuros” era, ele mesmo, uma extensão de “Anti-Star Trek” [42], um post que ainda recebe algum amor através da Internet de tempos em tempos [43]. A intuição principal de ambas as peças de escrita era que enquanto vivemos em um mundo que abunda em potencial utópico, a realização desse potencial depende do resultado de luta política. Uma elite rica que deseja preservar seus privilégios fara tudo o que for possível para garantir que não alcancemos um mundo de ócio e abundância, mesmo se tal mundo for materialmente possível.

Mas uma das coisas com as quais tenho lutado, como escritor, é a tendência da minha escrita mais especulativa de despertar uma linha de quietude apocalíptica na Esquerda Radical. Para mim, a história que estou contando é toda sobre esperança e ação: o futuro está aqui, só que mal distribuído [44], e apenas através de luta poderemos tê-lo distribuído de maneira adequada. Suponho que não seja surpresa, entretanto, depois de décadas em recuo, que algumas pessoas prefiram contar para si mesmas fábulas de um destino inevitável ao invés de enfrentar o problema maior de descobrir como podemos, coletivamente, seguir o caminho para o paraíso [45].

Assim, dos quatro futuros que descrevi, aquele que acredito que seja o mais esperançoso e o mais interessante – o que chamo de “Comunismo” – é o menos discutido. Ao invés dele é o Exterminismo, a mistura de restrições ecológicas, automação e elites assassinas que parece grudar nos cérebros das pessoas, com a distopia anti-Star Trek dos rentistas de propriedade intelectual chegando próxima em segundo lugar.

Mas despida do arcabouço marxista e utópico, tudo o que você tem é uma rejeição sombria da possibilidade de políticas igualitárias. Você tem algo como isto [46], de Noah Smith, que ecoa minhas considerações sobre o Exterminismo, mas o atualiza para os nossos tempos obsessivos sobre drones. Para muitos tipos de escritores intelectuais isolados, pode ser perversamente tranquilizador pensar que atingir um mundo melhor não é apenas difícil, mas na verdade impossível. De que outra forma explicar o apelo de Chris Hedges [47]?

Outro fragmento de notícias que recentemente despertou essa sensibilidade foi este post do Guardian [48] sobre um alegado “estudo da NASA” predizendo o “colapso irreversível” da civilização industrial. Aqui, através de Doug Henwood [49], está uma crítica [50] do estudo em si e da mídia preguiçosa que o propagou. E outro usuário do Twitter deixou um link para este post [51], que é ainda mais condenatório. Resumindo, o estudo – que o autor original não se deu ao trabalho de nem mesmo referenciar – tinha pouco a ver com a NASA, e era um modelo teórico crú baseado em algumas equações. Francamente, até onde alcança a Futurologia, acredito que “Quatro Futuros” foi baseado em uma fundação científica bem mais razoável.

O que me deprime nem é tanto as perambulações de algum irresponsável com um blog no Guardian, tais pessoas provavelmente estarão conosco para sempre. Mas muitas pessoas que conheço e de quem gosto estavam ansiosas para compartilhar este pedaço de disparate de fontes duvidosas no Facebook e no Twitter, sugerindo que ele encontrou um desejo por cenários apocalípticos entre esquerdistas ostensivamente pragmáticos.

Esse fatalismo é o complemento perfeito para a igualmente vazia positividade que permeia o discurso burguês, venha ela na forma de auto-ajuda, como dissecado por Barbara Ehrenreich [52], ou como o utopismo sem-vergonha dos plutocratas do Vale do Silício [53]. A classe dirigente nos diz que o futuro é inevitavelmente brilhante, enquanto ranzinzas de esquerda reafirmam para si mesmos a convicção de que ele é inevitavelmente tenebroso. Nós não venceremos jogando este jogo, ficando com nossas escassas recompensas emocionais enquanto nossos oponentes recebem seu pagamento em uma forma muito mais tangível.

Tradução: Everton Lourenço


Leituras Relacionadas

  • Tecnologia e Ecologia Como Apocalipse e Utopia“Muito se tem falado sobre os impactos da Crise Climática e de novas tecnologias de Automação de postos de trabalho para o nosso futuro em comum. Como as relações de propriedade e produção capitalistas e a Política, especificamente a Luta de Classes, se encaixam neste quadro? Será que a possibilidade de automação quase generalizada seria o bastante para garantir que ela ocorrerá? Qual seria o impacto dela sobre as condições de vida das pessoas? Com base nesses elementos, que tipo de cenários podemos esperar à partir do fim do Capitalismo?”
  • Comunismo Como Futuro Automatizado de Igualdade e Abundância“Um mundo em que a tecnologia tenha superado ou reduzido a um mínimo (e de forma sustentável) a necessidade de trabalho humano; em que esse potencial seja compartilhado com todos, eliminando a exploração e a alienação das relações de trabalho assalariado; onde as hierarquias derivadas do Capital tenham sido suplantadas por um modelo mais igualitário, agora capaz não só de sanar as necessidades de todos, mas de permitir o livre desenvolvimento de cada um, parece para muitos como um sonho de utopia inalcançável e ingênuo, onde não existiriam quaisquer conflitos ou hierarquias. Será mesmo?”
  • Precisamos Dominá-la – “Nosso desafio é ver na tecnologia tanto os atuais instrumentos de controle dos empregadores quanto as precondições para uma sociedade pós-escassez.
  • Tecnologia e Estratégia Socialista – Com poderosos movimentos de classe em sua retaguarda, a tecnologia pode prometer a emancipação do trabalho, ao invés de mais miséria.
  • Lingirie Egípcia e o Futuro Robô – O pânico sobre automação erra o alvo – o verdadeiro problema é que os próprios trabalhadores são tratados feito máquinas.”
  • Robôs e Inteligência Artificial: Utopia ou Distopia?“Diz muito sobre o momento atual que enquanto encaramos um futuro que pode se assemelhar ou com uma distopia hiper-capitalista ou com um paraíso socialista, a segunda opção não seja nem mencionada.”
  • Robôs, Crescimento e Desigualdade Mesmo uma instituição como o FMI vem notando as tendências que a automação de empregos devem gerar nas próximas décadas, incluindo um crescimento vertiginoso da desigualdade social, e a necessidade de compartilhar a abundância prometida por essas inovações.
  • Inovação Vermelha – “Longe de sufocar a inovação, uma sociedade Socialista colocaria o progresso tecnológico a serviço das pessoas comuns.
  • Todo poder aos “Espaços de Fazedores” – “A impressão 3-D em sua forma atual pode ser um retorno às obrigações enfadonhas do movimento “pequeno é belo”, mas tem o potencial para fazer muito mais.
  • A gente trabalha demais, mas não precisa ser assim – “Entre os séculos XIX e XX os trabalhadores conquistaram o dia de trabalho de 10 horas e então o de 8 horas, mas depois da Grande Depressão a tendência parou. Do que precisaríamos para recuperar nosso tempo livre?”
  • Políticas para se ‘Arranjar Uma Vida’ – “O trabalho em uma sociedade capitalista é um fenômeno conflituoso e contraditório. Uma política para a classe trabalhadora tem de ser contra o trabalho, apelando para o prazer e o desejo, ao invés de sacrifício e auto-negação.
  • O Socialismo Vai Ser Chato? – “O Socialismo não é sobre induzir uma branda mediocridade. É sobre libertar o potencial criativo de todos.
  • Um mundo Socialista não significaria só uma crise ambiental maior ainda? – “Sob o Socialismo, nós tomaríamos decisões sobre o uso de recursos democraticamente, levando em consideração necessidades e valores humanos, ao invés da maximização dos lucros.
  • O Mito do Antropoceno – Culpar toda a Humanidade pela mudança climática deixa o Capitalismo sair ileso.
  • Vivo Sob o Sol“Não há caminho rumo a um futuro sustentável sem lidar com as velhas pedras no caminho do ambientalismo: consumo e empregos. E a maneira de fazer isso é através de uma Renda Básica Universal. “
  • Rumo a um Socialismo Ciborgue “A Esquerda precisa de mais vozes e de críticas mais afiadas que coloquem nossa análise do poder e de justiça no centro das discussões ambientais, onde elas devem estar.”
  • Socialismo, Mercado, Planejamento e Democracia“O socialismo promete a emancipação humana, com o alargamento da democracia e da racionalidade para a produção e distribuição de bens e serviços e o uso da tecnologia acumulada pela humanidade para a redução a um mínimo do trabalho necessário por cada pessoa, liberando seu tempo para o seu livre desenvolvimento. Como organizar uma economia socialista para realizar essas promessas?”
  • Votando Sob o SocialismoVai ser mais significativo – mas esperamos que não envolva assembleias sem-fim.
  • Automação e o ‘Fim do Trabalho’ na Mídia Internacional Dominante 

Notas:

[1] http://blogdaboitempo.com.br/2011/10/11/a-tinta-vermelha-discurso-de-slavoj-zizek-aos-manifestantes-do-movimento-occupy-wall-street/

[2] http://libertas.ufjf.emnuvens.com.br/libertas/article/download/1868/1317 ou na versão original em inglês: http://newleftreview.org/II/21/fredric-jameson-future-city

[3] Dezembro de 2011

[4] https://www.marxists.org/portugues/luxemburgo/1915/junius/cap01.htm

[5] http://www.slate.com/articles/technology/robot_invasion.html

[6] http://raceagainstthemachine.com/ e http://epocanegocios.globo.com/Revista/Common/0,,ERT292850-16642,00.html – o título do trabalho é um trocadilho com o nome da banda Rage Against The Machine (“Fúria Contra a Máquina”).

[7] http://www.marxists.org/archive/marx/works/1894-c3/ch48.htm

[8] http://www.marxists.org/archive/marx/works/1875/gotha/ch01.htm

[9] http://blogs.scientificamerican.com/guest-blog/2011/03/16/smaller-cheaper-faster-does-moores-law-apply-to-solar-cells/

[10] http://www.geocities.ws/luso_america/KeynesPO.pdf ou na versão original em inglês:http://www.econ.yale.edu/smith/econ116a/keynes1.pdf

[11] http://zinelibrary.info/files/Adorno_Horkheimer_NM-read.pdf

[12] http://craphound.com/down/Cory_Doctorow_-_Down_and_Out_in_the_Magic_Kingdom_Brazilian_Portuguese.htm ou na versão original em inglês: https://robertosena.wordpress.com/2009/12/09/cory-doctorow-e-seu-livro-%E2%80%9Cdown-and-out-in-the-magic-kingdom%E2%80%9D/

[13] http://ordemlivre.org/posts/propriedade-intelectual-e-mesmo-propriedade ou na versão original em inglês: http://www.dklevine.com/general/intellectual/coffee.htm

[14] na versão brasileira, “Gadget: Você não é um aplicativo!”, Editora Saraiva – http://hotsites.editorasaraiva.com.br/gadget/

[15] http://www.antipope.org/charlie/blog-static/fiction/accelerando/accelerando-intro.html

[16] http://en.wikipedia.org/wiki/Halting_State

[17] “Fabbers” – algo como um diminutivo ou uma gíria para “fabricantes”.

[18] Como gerar consumidores com poder de compra o bastante para consumir os produtos industrializados e gerar a demanda necessária para as fábricas continuarem produzindo.

[19] http://scholarworks.umass.edu/cgi/viewcontent.cgi?article=1068&context=econ_workingpaper

[20] no original, “Gamification”.

[21] na versão brasileira, “O Jogo do Exterminador”, Editora Devir. O livro foi adaptado para o cinema em 2013: http://www.imdb.com/title/tt1731141/?ref_=fn_al_tt_1

[22] “Misérias do Presente, Riqueza do Possível”, Editora Annablume, 2004.

[23] No original, “meaningless make-work”.

[24] o texto, publicado em uma revista estadunidense, faz referência ao fato de que a maioria dos estudantes universitários nesse país adquirem financiamentos para o pagamento de sua Universidade que demoram anos, muitas vezes décadas, até conseguirem quitar.

[25] autobiografia para o Prêmio Nobel em 1975, em inglês: http://www.nobelprize.org/nobel_prizes/economic-sciences/laureates/1975/kantorovich-autobio.html

[26] http://redplenty.com/Red_Plenty/Front_page.html

[27] http://ricardo.ecn.wfu.edu/~cottrell/socialism_book/

[28] http://www.ifch.unicamp.br/criticamarxista/arquivos_biblioteca/artigo164Artigo3.pdf

[29] “A expressão cap-and-trade, que na tradução livre seria algo como “limite e negociação”, é usada para denominar um mecanismo de mercado que cria limites para as emissões de gases de um determinado setor ou grupo. Com base nos limites estabelecidos, são lançadas permissões de emissão e cada participante do esquema determina como cumprirá estes limites. As cotas (ou permissões) de emissão podem ser comercializadas, ou seja, aqueles países (ou firmas) que conseguem emitir menos do que foi estabelecido a eles podem vender o excedente àqueles que não conseguiram (ou não quiseram) limitar suas emissões ao número de cotas que tinham.” – http://www.brasil-economia-governo.org.br/2012/08/13/o-que-e-o-mercado-de-carbono-e-como-ele-opera-no-brasil/

[30] http://www.gangothri.org/sites/userfiles1/edocs/icdd/005.pdf

[31] http://www.antipope.org/charlie/blog-static/2011/10/a-cultural-experiment.html

[32] http://www.npr.org/templates/story/story.php?storyId=1067220

[33] http://newleftreview.org/I/121/edward-thompson-notes-on-exterminism-the-last-stage-of-civilization ou em “Notas sobre o exterminismo, o estágio final da civilização”, incluído no livro “Exterminismo e guerra fria”, Editora Brasiliense, 1985.

[34] No original, “They have taken untold millions that they never toiled to earn/But without our brain and muscle not a single wheel can turn.”

[35] http://est.sagepub.com/content/10/2/287.abstract

[36] http://www.christianparenti.com/tropic-of-chaos/

[37] Essa tese é próxima da defendida por Slavoj Zizek em “Vivendo no Fim dos Tempos” (Boitempo, 2012 –http://www.boitempoeditorial.com.br/v3/Titulos/visualizar/vivendo-no-fim-dos-tempos ).

[38] No Brasil, “O Preço do Amanhã” – www.imdb.com/title/tt1637688/?ref_=nv_sr_1

[39] No original “genocidal telos”.

[40] https://www.marxists.org/portugues/marx/1867/ocapital-v1/ ou Boitempo, 2013 –http://www.boitempoeditorial.com.br/v3/titles/view/o-capital

[41] http://www.versobooks.com/series_collections/112-jacobin

[42] http://www.peterfrase.com/2010/12/anti-star-trek-a-theory-of-posterity/

[43] http://www.bloombergview.com/articles/2014-03-12/levine-on-wall-street-pigs-get-fed-fake-hogs-get-slaughtered

[44] http://quoteinvestigator.com/2012/01/24/future-has-arrived/

[45] http://www.amazon.com/Paths-Paradise-On-Liberation-Work/dp/0861047621

[46] http://qz.com/185945/drones-are-about-to-upheave-society-in-a-way-we-havent-seen-in-700-years/#/

[47] https://www.youtube.com/watch?v=s6BOvprpI6c

[48] http://www.theguardian.com/environment/earth-insight/2014/mar/14/nasa-civilisation-irreversible-collapse-study-scientists

[49] https://twitter.com/DougHenwood/status/447042624269336576

[50] http://blogs.discovermagazine.com/collideascape/2014/03/21/popular-guardian-story-collapse-industrial-civilization/

[51] http://carboncounter.wordpress.com/2014/03/16/truly-inane-apocalyptic-journalism-at-the-guardian/

[52] http://www.alternet.org/story/143187/barbara_ehrenreich%3A_the_relentless_promotion_of_positive_thinking_has_undermined_america

[53] https://www.jacobinmag.com/2013/10/delusions-of-the-tech-bro-intelligentsia/

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