Um Mundo Socialista Não Significaria Só Uma Crise Ambiental Maior Ainda?

Sob o Socialismo, nós tomaríamos decisões sobre o uso de recursos democraticamente, levando em consideração necessidades e valores humanos, ao invés da maximização dos lucros.

ABCs do Socialismo – Parte 10

por Alyssa Battistoni, na Revista Jacobin, abril de 2016

scene10a

Ilustração: Phil Wrigglesworth | Jacobin

O Capitalismo está espalhando destruição sobre o mundo em que vivemos. A mudança climática ameaça alterar nosso planeta para além do reconhecível, inundando cidades e vilas costeiras, intensificando secas e ondas de calor e fortalecendo climas extremos.

Os efeitos mais nocivos, é claro, estão caindo sobre as pessoas pobres do mundo. A sobrepesca tem empurrado pescadores para o ponto de colapso; suprimentos de água doce são escassos em regiões que abrigam metade da população mundial; fazendas de cultivo industrial com uso intensivo de fertilizantes tem exaurido de nutrientes as terras agrícolas; florestas tem sido demolidas em níveis atordoantes para abrir caminho para agricultura comercial e ranchos de gado; as taxas de extinção se comparam com aquelas de apocalipses pré-históricos induzidos por meteoros.

Estes não são problemas que podem ser resolvidos como se trocássemos uma lâmpada. A atividade humana tem transformado [1] o planeta inteiro de formas que estão agora ameaçando o jeito em que o habitamos – alguns de nós muito muito mais do que outros. Mas se você apontar que não é a “Humanidade” em abstrato, mas o Capitalismo que deveríamos responsabilizar, ouvirá uma réplica familiar: “O Socialismo é mau para o meio-ambiente também!” A produção na União Soviética também se baseava em combustíveis fósseis, degradou terras agrícolas, poluiu rios e desflorestou vastas extensões.

É verdade que o histórico ambiental das URSSs não inspira muita confiança. Mas isso não significa que o Capitalismo pode resolver nossos problemas ambientais, como declaram empreendedores verde-claro, ou que a sociedade industrial moderna precisa ser abandonada por completo, como alguns ambientalistas verde-escuro iriam sugerir. O Capitalismo pode certamente sobreviver a condições ambientais se agravando, pelo menos por um tempo – mas ele vai sobreviver sob condições de um “eco-apartheid” cada vez maior, com segurança e conforto para os ricos e uma escassez crescente para o Resto.

Assim, o sonho socialista do Século XX de maximizar a produção na busca de abundância e igualdade parece cada vez mais insustentável. Marxistas afirmavam que o Comunismo surgiria em meio a condições pós-Capitalistas de superabundância: uma vez que os motores do Capitalismo estivessem rugindo, eles poderiam ser tomados e colocados para beneficiar a todos. Mas esses motores não podem mais funcionar às custas de combustíveis fósseis, e o Capitalismo consumista contemporâneo não é a abundância que tinhamos em mente. Nós precisamos não apenas tomar os meios de produção, mas transformá-los.

Nós também precisamos de uma visão  de futuro diferente da que tem sido levada adiante pela Esquerda mais recentemente.

O Esquerdismo ambiental ultimamente tem tendido a uma posição um tanto anarquista que desconfia da produção de larga escala e do poder concentrado, sejam eles privados ou públicos. Isso não deveria surpreender – como os problemas ambientais são tão específicos em diferentes localidades, eles frequentemente despertam soluções locais de pequena-escala. Mas a mudança climática e outras crises ambientais surgindo de sistemas globais de produção e consumo são questões sistêmicas de Economia Política; lidar com elas vai requerer mais do que bolsas de práticas alternativas. E problemas ambientais não respeitam fronteiras políticas: a interdependência ecológica é outra lembrança de que a Sustentabilidade só virá através de uma Solidariedade Global.

A qual futuro o Socialismo do Século XXI deve aspirar? Como podemos atingir uma sociedade justa sem dependermos de combustíveis fósseis ou exacerbarmos outras formas de destruição ambiental?

Ao buscar uma resposta, os socialistas deveriam olhar para as tradições socialistas-feministas preocupadas com o trabalho que faz a vida “vivível”. Socialistas-feministas têm há muito chamado atenção para o serviço de reprodução social – as atividades necessárias para reabastecer trabalhadores assalariados tanto individualmente como através de gerações, tais como educação, cuidados à infância, trabalho doméstico e preparação de comida. Lutas sobre a reprodução social tem se focado em demandas e possibilidades da vida fora da fábrica, e elas tem muito para nos ensinar sobre organizar novas formas de viver. Nós também precisamos valorizar o trabalho de reprodução ecológica – reconhecer que a atividade dos Ecossistemas mantêm a Terra viável para a vida humana, e cuidar delas de acordo.

Enquanto alguns Socialistas aspiram a uma superabundância de tudo para todos, ambientalistas tendem a apontar o sobre-consumo como um culpado primário da degradação ambiental. Mas nem todo consumo é equivalente. O Capitalismo depende de insumos baratos na forma de trabalho e recursos naturais para fazer os seus produtos baratos. Como resultado, o sistema consistentemente força para baixo tanto os custos quanto os padrões ambientais e trabalhistas. Produtos baratos não são necessariamente ruins, mas eles não deveriam vir às custas das pessoas trabalhadoras e dos Ecossistemas. O objetivo de uma sociedade socialista não é reprimir o consumo popular, mas criar uma sociedade que enfatize a qualidade de vida sobre a quantidade de coisas.

Nós precisamos encontrar caminhos para viver luxuriosamente mas também levemente [2], esteticamente ao invés de asceticamente. Ao invés de um ciclo sem fim de trabalho e compras, a vida em um futuro socialista de baixo-carbono seria orientada em torno de atividades que tornam a vida bela e completa mas requerem um consumo de recursos menos intensivo: ler livros, ensinar, aprender, fazer música, ver espetáculos, dançar, praticar esportes, ir ao parque, fazer caminhadas, gastar tempo com os outros.

Uma robusta provisão de bens públicos torna possível aproveitar luxúrias comunais enquanto formas de consumo privado de desperdício decrescente. Isso significa moradia pública acessível para todos; sistemas de transporte extensivos e gratuitos tanto dentro como entre cidades para que as pessoas possam andar por aí sem possuir um carro; parques e jardins espaçosos que ofereçam uma pausa da vida diária; suporte para artes e cultura de uma variedade de formas; e espaços abundantes para educação pública e de uso recreativo, como bibliotecas, quadras de basquete e teatros. As cidades são muitas vezes vendidas como uma parte chave de futuros verdes por conta de sua densidade eficiente em energia. Mas cidades verdes requerem mais do que apenas planejamento urbano e altos edifícios. O Socialismo precisa reclamar a cidade como um espaço para de luta e solidariedade na busca de necessidades e desejos – providenciar recursos públicos como uma maneira de emancipar e ajudar a florescer, e insistir em espaços públicos como lugares de beleza e prazer.

Os Capitalistas prometem que a tecnologia vai nos salvar dos problemas ambientais. Soluções tecnológicas não são uma panaceia, mas também também não podemos renunciar à tecnologia e deixá-la apenas para Capitalistas de risco: projetos socialistas utópicos têm há muito tempo imaginado um mundo melhor construído da combinação de habilidades de humanos, natureza e tecnologia. E uma variedade de tecnologias atuais, desde fontes de energia limpa até biotecnologia, prometem ser parte de um futuro mais sustentável. Mas enquanto elas forem controladas de forma privada, produzidas apenas quando lucráveis, e acessíveis apenas para aqueles que podem pagar, seu potencial será explorado apenas como servir aos capitalistas. Uma sociedade socialista daria suporte a pesquisas sobre problemas cujas soluções não são lucráveis e garantir que as tecnologias resultantes fossem usadas para benefício público.

Energia [3], em particular, é de central importância – o uso de energia responde por metade de todas as emissões de carbono e subjaz a vida moderna em cada ponto. Tecnologias de energia renovável, e energia solar em particular, prometem fontes abundantes de energia limpa. Mas enquanto a energia solar é frequentemente vendida como inerentemente de pequena-escala e democrática, companhias privadas estão também montando usinas solares gigantes, se posicionando como o conduíte para um futuro de energia limpa. Enquanto isso, a desregulação e privatização de empresas de energia elétrica na era Neoliberal tem aleijado a habilidade pública de construir a nova infraestrutura interconectada que tornaria possível uma transição maior para uma energia-limpa. Uma sociedade socialista poderia escolher quais fontes de energia usar e quão rápido uma transição deveria ocorrer a partir do conhecimento sobre os benefícios ambientais, de saúde e as necessidades sociais, ao invés de margens de lucro. Nós poderíamos produzir energia limpa em larga escala e construir a infraestrutura necessária para torná-la disponível e acessível a todos.

Ao mesmo tempo, novas tecnologias não se constituem em progresso por si mesmas, apesar das falas auto-congratulatórias das companhias de tecnologia. Novos equipamentos eletrônicos médicos, por exemplo, nem sempre se traduzem em melhores cuidados; iPads não se traduzem em melhor educação – de fato, o oposto é muito frequentemente o caso. Uma sociedade socialista tomaria decisões sobre produção e implementação de novas tecnologias baseada em objetivos escolhidos democraticamente, ao invés de produzir e consumir de maneira desperdiçadora para garantir a lucratividade de várias indústrias. Nós poderíamos garantir que todos tivessem acesso a eletricidade limpa e barata, por exemplo, antes de devotar recursos para fazer brinquedos eletrônicos para os ricos.

Ainda haveriam atividades extrativistas, usinas de energia de larga-escala e fábricas industriais em um socialismo sustentável. Algumas dessas serão desagradáveis de se ver; algumas vão gerar distúrbios em ecossistemas locais. Mas ao invés de despejar os danos da produção moderna sobre as pessoas com menos poder para resistir a eles – tais como trabalhadores, comunidades negras e indígenas – nós faremos decisões conscientes sobre quais danos nós vamos aceitar e onde e como eles vão se materializar, priorizando as perspectivas e necessidades daqueles que tem sofrido a tempo demais por eles. Nós poderíamos tratar paisagens de trabalho como mais do que áreas destruídas e reconhecer que a presença de maquinaria e indústria não precisam significar devastação. Poderíamos pagar os custos de minimizar o dano ambiental ao invés de pegar atalhos para derrotar os competidores.

O Capitalismo começou através do fechamento de recursos públicos e comunais para benefício privado e despossuindo seus antigos usuários. A propriedade coletiva dos meios de produção deveria incluir a propriedade coletiva da terra, dos oceanos e da atmosfera. Isso significaria não apenas compartilhar os recursos que esses espaços geram, mas decidir juntos como eles deveriam ser usados. Uma sociedade socialista poderia usar o conhecimento científico sobre a capacidade ecológica para administrar e regular o uso daqueles espaços ao invés de ceder aos caprichos da indústria: nós escutaríamos os 98% de cientistas que dizem que a mudança climática antropogênica está acontecendo, por exemplo, ao invés das mentiras de lobistas das companhias de combustíveis fósseis.

Sob o Socialismo, nós tomaríamos decisões sobre o uso de recursos democraticamente, em relação a necessidades e valores humanos ao invés de maximizar o lucro. Um socialismo ecologicamente sustentável [4] não é sobre preservar um conceito idealizado de uma natureza printina e intocada. É sobre escolher o mundo que fazemos e em que vivemos, e sobre reconhecer que compartilhamos esse mundo com outras espécies além dos humanos. Um mundo em que se possa viver é um mundo em que todo mundo possa ter uma boa vida, ao invés de apenas se virar para se sustentar.

Esse mundo vai precisar de florestas tanto quanto de fábricas, refúgios selvagens tanto quando de cidades. Nós buscaremos prover as pessoas de bons trabalhos, mas também trabalharemos menos; nós pensaremos sobre quais trabalhos realmente precisam serem feitos ao invés de criar trabalhos apenas para manter pessoas empregadas. Nós escolheremos manter alguns espaços livres de uso humano óbvio, e proteger espaços para a vida selvagem  enquanto também tornando possível para as pessoas escapar da vida na cidade para gastar algum tempo em Ecossistemas restaurados. Nós teremos como alvo produzir o bastante para que todo mundo tenha vidas ricas e completas, ao invés de esperar pela remota possibilidade de acumular riquezas privadas. Com nossas necessidades satisfeitas, poderemos realizar nosso potencial humano no contexto de relações sociais sem pressa com outros humanos e outras espécies, com o bastante para todos e tempo para o que quisermos.  ■

Tradução: Everton Lourenço

scene10b

Ilustração: Phil Wrigglesworth | Jacobin

 

Sob o Socialismo, nós tomaríamos decisões sobre o uso de recursos democraticamente, levando em consideração necessidades e valores humanos, ao invés da maximização dos lucros.


Notas:

[1] https://ominhocario.wordpress.com/2015/07/23/o-mito-do-antropoceno/

[2] https://www.jacobinmag.com/2014/10/seize-the-hamptons/

[3] https://www.jacobinmag.com/2015/10/fossil-fuels-renewables-capitalism/

[4] https://www.jacobinmag.com/2014/01/alive-in-the-sunshine/

 

 

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s