Não, Os Indivíduos Não São Máquinas de Cálculo Racional Egoísta

[Ao contrário das representações que as teorias econômicas dominantes fazem do comportamento individual humano e de sua maneira de tomar decisões, os indivíduos são seres altamente imperfeitos — com racionalidade limitada, motivos complexos e conflituosos, credulidade, condicionamento social e até mesmo contradições internas – e isso na verdade faz com que os indivíduos contem mais, e não menos.]

por Ha-Joon Chang

Kollage Kid | Flickr


Os indivíduos como heróis e heroínas [do drama econômico] [1]

A visão individualista da economia 

A visão neoclássica predominante é de que a economia é a “ciência da escolha”. Segundo essa posição, as escolhas são feitas pelos indivíduos, que se supõe serem egoístas, interessados apenas em maximizar o seu próprio bem-estar — ou, no máximo, o de seus familiares. Considera-se que, ao agir assim, todos os indivíduos fazem escolhas racionais, ou seja, escolhem a forma com melhor custo-benefício para alcançar determinado objetivo. 

Como consumidor, cada indivíduo gera seu próprio sistema de preferências, que especifica do que ele gosta. Usando o sistema de preferências e examinando os preços de mercado de diferentes coisas, a pessoa escolhe uma combinação de bens e serviços que maximiza sua utilidade. Quando agregadas através do mecanismo de mercado, as escolhas feitas por consumidores individuais indicam aos produtores quais são as demandas para os seus produtos a diferentes preços (a curva de demanda). A quantidade que os produtores estão dispostos a fornecer a cada preço (a curva do fornecimento/oferta) é determinada pelas escolhas racionais dos produtores com vistas a maximizar seus lucros. Ao fazer essas escolhas, os produtores consideram os custos da produção, dados por tecnologias que especificam diferentes combinações possíveis de insumos e os preços desses insumos. O equilíbrio de mercado é atingido onde a curva da demanda e a curva da oferta se encontram. 

Essa é uma história da economia que tem os indivíduos como heróis e heroínas. Às vezes, os consumidores podem ser chamados de “domicílios” ou “lares” e os produtores de “firmas”, mas são, em essência, extensões dos indivíduos. Considera-se que fazem escolhas como unidades individuais, coerentes. Alguns economistas neoclássicos, após o trabalho pioneiro de Gary Becker, falam em “barganha intrafamiliar”, mas isso é conceitualizado como um processo entre indivíduos racionais que procuram, em última análise, maximizar sua utilidade pessoal, e não como pessoas da vida real, membros de uma família, com amor, ódio, empatia, crueldade e comprometimento. 

O apelo da visão individualista da economia e seus limites 

Embora essa visão individualista não seja a única maneira de teorizar a nossa economia, ela tornou-se predominante desde os anos 1980. Uma das razões é que ela tem um poderoso apelo político e moral

Trata-se, acima de tudo, de uma parábola da liberdade individual. O indivíduo pode conseguir o que quer, desde que esteja disposto a pagar o preço certo, seja por produtos “éticos” (como alimentos orgânicos ou café do comércio justo) ou brinquedos que as crianças vão esquecer antes do Natal seguinte (lembro-me da febre das bonecas “Cabbage Patch” de 1983 e a mania do “Furby” de 1998). O indivíduo pode produzir o que quer que gere dinheiro para si usando qualquer método de produção que maximize o lucro, sejam bolas de futebol feitas por crianças operárias ou microchips fabricados com máquinas de alta tecnologia. Não há nenhuma autoridade superior — seja rei, papa ou o ministro do Planejamento — que possa dizer o que as pessoas devem desejar e produzir. Nessa base, muitos economistas do livre mercado já argumentaram que existe um vínculo inseparável entre a liberdade de escolha do consumidor individual e sua liberdade política mais ampla. A crítica seminal de Friedrich von Hayek ao socialismo, O caminho da servidão, e a defesa ardente de Milton Friedman do sistema de livre mercado, Livre para escolher, são exemplos conhecidos. 

Além disso, a visão individualista fornece uma justificativa moral paradoxal mas muito poderosa para o mecanismo de mercado. Nós, como indivíduos, fazemos escolhas apenas para nós mesmos, mas o resultado é a maximização do bem-estar social. Não precisamos que os indivíduos sejam “bons” para fazer funcionar uma economia eficiente que beneficia a todos os participantes. Ou melhor, é exatamente porque os indivíduos não são “bons” e se comportam como maximizadores implacáveis da utilidade e do lucro que a nossa economia é eficiente, beneficiando a todos. A famosa passagem de Adam Smith é a declaração clássica dessa posição: “Não é da benevolência do açougueiro, do cervejeiro ou do padeiro que esperamos o nosso jantar, mas da sua consideração aos seus próprios interesses”. 

Por mais atraentes que pareçam, essas justificativas têm problemas graves. Quanto ao problema político, não há relação clara entre a liberdade econômica de um país e sua liberdade política. Muitas ditaduras tiveram políticas claras de livre mercado, enquanto democracias, como os países escandinavos, têm baixa liberdade econômica devido aos impostos elevados e a uma abundância de regulamentações. Na verdade, muitos que creem na visão individualista prefeririam sacrificar a liberdade política para defender a liberdade econômica (por essa razão Hayek elogiou a ditadura de Pinochet no Chile). No caso da justificação moral, já discuti [2] muitas teorias, inclusive a abordagem do fracasso do mercado com base na visão individualista neoclássica, mostrando que a busca desenfreada dos interesses próprios através dos mercados muitas vezes não produz resultados econômicos socialmente desejáveis. 

Dado que essas limitações eram bem conhecidas mesmo antes de assumirem a ascendência, o atual domínio da visão individualista tem que ser explicado, ao menos em parte, pela política das ideias. A visão individualista recebe muito mais apoio e aprovação em relação às visões alternativas (especialmente as baseadas em classes, como a marxista ou a keynesiana) dos que têm poder e dinheiro e, portanto, mais influência. Ela recebe esse apoio porque considera a estrutura social subjacente, como a propriedade privada ou os direitos dos trabalhadores, como dados, sem questionar o status quo. [3]

[Nota do Minhocário: na versão original do texto, neste trecho havia sessões discutindo como as instituições são os verdadeiros principais tomadores de decisões econômicas. Como nosso foco aqui é o comportamento individual humano, saltamos para a discussão sobre os elementos nele que mostram como o indivíduo passa longe de ser a máquina de cálculo racional egoísta adotada como premissa nas teorias econômicas dominantes. O trecho que discute as instituições como tomadoras de decisões econômicas será publicado mais a frente no blog em uma postagem própria sobre o tema.] 

Nem mesmo os indivíduos são o que se espera que sejam

As teorias econômicas individualistas deturpam a realidade da tomada de decisões econômicas minimizando, ou até mesmo ignorando, o papel das organizações. [4] Pior, elas nem mesmo são muito boas em compreender os indivíduos. 

O indivíduo dividido: os indivíduos têm “múltiplos eus” 

Os economistas individualistas enfatizam que o indivíduo é a menor unidade social irredutível. Isso obviamente acontece no sentido físico. Mas os filósofos, psicólogos e até mesmo alguns economistas há muito discutem se o indivíduo pode ser visto como uma entidade que não pode ser subdividida. 

Os indivíduos não precisam sofrer de transtorno multipolar para ter preferências conflitantes dentro de si. O problema dos múltiplos eus é generalizado. Embora o termo possa não ser familiar, é algo que a maioria de nós já experimentou. 

Muitas vezes vemos a mesma pessoa se comportando de forma completamente diferente em circunstâncias diferentes. Um homem pode ser muito egoísta na hora de compartilhar o trabalho doméstico com sua esposa, mas numa guerra pode estar disposto a sacrificar a vida pelos seus camaradas. Isso acontece porque as pessoas têm múltiplas funções na vida — como marido e soldado, no exemplo acima. Espera-se que eles ajam de formas diferentes em papéis distintos, e é o que ocorre. 

Por vezes o motivo é a vontade debilitada — nós decidimos fazer algo no futuro, mas não conseguimos fazer quando chega a hora. Isso incomodou a tal ponto os antigos filósofos gregos que eles até inventaram uma palavra — akrasia. Decidimos, por exemplo, levar um estilo de vida mais saudável, mas logo vemos a nossa força de vontade desmoronar diante de uma sobremesa tentadora. Antecipando isso, podemos elaborar truques para evitar que o nosso “outro eu” se afirme mais tarde, como Ulisses ao pedir para ser amarrado ao mastro do navio para não ser seduzido pelas sereias. Você declara já no início do jantar que está de dieta e que não vai comer a sobremesa, para que não peça depois por medo de demonstrar fraqueza (e você pode sempre compensar comendo uns biscoitinhos de chocolate quando voltar para casa). 

O indivíduo incorporado ao todo: os indivíduos são formados pelas suas sociedades 

O problema dos múltiplos eus mostra que os indivíduos não são átomos, pois podem ser subdivididos. E também não são átomos porque não é possível separá-los claramente dos outros indivíduos. 

Os economistas que trabalham na tradição individualista não perguntam de onde vêm as preferências individuais. Eles as tratam como dados finais, gerados a partir de dentro de indivíduos “soberanos”. A ideia é bem resumida na máxima “De gustibus non est disputandum” [Gosto não se discute]. 

No entanto, nossas preferências são fortemente formadas pelo ambiente social — família, bairro, escolaridade, classe social e assim por diante. Pessoas vindas de origens distintas não apenas consomem coisas diferentes; elas desejam coisas diferentes. Esse processo de socialização significa que não podemos de fato tratar os indivíduos como átomos separáveis uns dos outros. 

Os indivíduos são — para usar um termo meio extravagante — “embutidos” ou “acoplados” à sua sociedade. E se os indivíduos são produtos da sociedade, Margaret Thatcher cometeu um grave erro ao dizer, numa frase famosa (ou infame): “Não existe essa coisa de sociedade. Existem homens e mulheres individuais, e existem famílias”. Não pode existir essa coisa de indivíduo sem sociedade. 

Numa cena da comédia cult de ficção científica da BBC Red Dwarf [Anão vermelho], de 1980, Dave Lister, o protagonista, um operário rude de Liverpool, confessa que certa vez foi a um bar de vinhos como se tivesse cometido um crime (mas alguns de seus amigos o teriam chamado de “traidor da classe” por causa disso). Alguns jovens das classes mais pobres na Grã-Bretanha, mesmo depois de décadas de política governamental de incentivo à educação universitária, continuam acreditando que as “unis” simplesmente não são para eles. Na maioria das sociedades, as mulheres foram condicionadas a acreditar que as profissões “duras”, ou “objetivas”, como a ciência, a engenharia, o direito e a economia, não são para elas. 

É tema permanente na literatura e no cinema — My Fair Lady (a versão cinematográfica da peça Pigmalião, de George Bernard Shaw), O despertar de Rita, de Willy Russell (peça e filme) e La Gloire de mon père [A glória de meu pai], de Marcel Pagnol (livro e filme) — o modo como a educação e a consequente exposição a diferentes estilos de vida te afastarão do seu grupo de origem. Você irá querer coisas diferentes das deles — e daquilo que você mesmo antes queria. 

É claro que as pessoas têm livre-arbítrio e podem fazer escolhas — e de fato o fazem — que vão contra o que elas deveriam desejar e escolher, tendo em vista sua origem, como fez Rita ao optar por um diploma universitário em O despertar de Rita. Mas o nosso meio influencia fortemente quem somos, o que queremos e o que decidimos fazer. Os indivíduos são produto da sua sociedade

O indivíduo impressionável: os indivíduos são deliberadamente manipulados pelos outros 

Nossas preferências não são apenas moldadas pelo nosso entorno, mas muitas vezes são manipuladas de maneira deliberada por outros que desejam nos ver pensando e agindo da maneira que eles querem. Todos os aspectos da vida humana — a propaganda política, a educação, os ensinamentos religiosos, os meios de comunicação de massa — envolvem essa manipulação de uma forma ou de outra. 

O exemplo mais conhecido é a publicidade. Alguns economistas, seguindo as obras de George Stigler, importante economista de livre mercado dos anos 1960 e 1970, já argumentaram que a publicidade consiste, basicamente, no fornecimento de informações sobre a existência, os preços e os atributos de vários produtos, e não na manipulação das preferências. No entanto, a maioria dos economistas concorda com a obra seminal de John Kenneth Galbraith de 1958, de que boa parte da publicidade consiste em fazer os potenciais consumidores desejarem o produto mais avidamente do que desejariam de outra maneira — ou mesmo desejar coisas que eles próprios não sabiam que precisavam. 

Os anúncios podem associar um produto a uma celebridade, uma equipe esportiva (quais marcas estão no uniforme do seu time favorito?), ou com um estilo de vida chique. Podem usar estímulos de memória, que trabalham no nosso subconsciente. Podem ser exibidos nos momentos em que o espectador é mais suscetível (é por isso que há anúncios de TV para lanches entre nove e dez horas da noite). E não vamos esquecer da inserção de produtos no cinema, prática que sofreu uma sátira feroz no filme O show de Truman. Ainda me lembro do chocolate Mococoa, feito com “grãos de cacau naturais da encosta superior do monte Nicarágua”. 

As preferências individuais também são manipuladas em um nível mais fundamental através da propagação de ideologias de livre mercado por aqueles que desejam que as restrições à busca de lucro sejam minimizadas (e assim voltamos à política das ideias). Empresas e indivíduos ricos financiam generosamente centros de estudo que geram ideias pró- mercado, tais como a Heritage Foundation nos Estados Unidos e o Institute of Economic Affairs no Reino Unido. Eles doam fundos para as campanhas eleitorais de partidos e políticos pró-mercado. Algumas grandes empresas empregam sua verba de publicidade em firmas de mídia favoráveis aos negócios. 

Uma vez que os pobres estejam convencidos de que a pobreza é culpa deles, que quem ganha muito dinheiro deve merecer, e que eles também poderiam enriquecer se tentassem o bastante, a vida fica mais fácil para os ricos. Os pobres, muitas vezes agindo contra seus próprios interesses, começam a exigir menos impostos redistributivos, menos gastos sociais, menos regulamentação sobre as empresas e menos direitos para os trabalhadores. 

As preferências individuais — e não apenas dos consumidores, mas também dos contribuintes, operários e eleitores — podem ser manipuladas deliberadamente, e muitas vezes o são. Os indivíduos não são entidades “soberanas”, tal como retratados nas teorias econômicas individualistas. 

O indivíduo complicado: os indivíduos não são apenas egoístas 

As teorias econômicas individualistas supõem que os indivíduos são egoístas. Quando isso se combina com o pressuposto da racionalidade, a conclusão é que devemos deixar que façam o que quiserem; eles sabem o que é melhor para si e como atingir seus objetivos. 

Há séculos economistas, filósofos, psicólogos e outros cientistas sociais questionam o pressuposto do indivíduo egoísta. A literatura a respeito é extensa, e muitos pontos são obscuros, embora sejam teoricamente importantes. Vamos nos deter nos pontos principais. 

Buscar o proveito próprio é em si uma definição muito simplista, com a suposição implícita de que os indivíduos são incapazes de reconhecer as consequências sistêmicas e a longo prazo de suas ações. Alguns capitalistas europeus do século XIX defendiam a proibição do trabalho infantil, apesar de essa regulamentação reduzir seus lucros. Eles compreenderam que a exploração contínua de crianças sem escolaridade acabaria por diminuir a qualidade da mão de obra, prejudicando todos os capitalistas, incluindo a si próprios, ao longo dos anos. Em outras palavras, as pessoas podem buscar o interesse próprio de maneira esclarecida, e o fazem. 

Às vezes somos apenas generosos. As pessoas se preocupam com outras e agem contra seus próprios interesses para ajudar os outros. Muita gente doa dinheiro para instituições de caridade, se voluntaria para ações e ajuda estranhos em apuros. Um bombeiro entra numa casa em chamas para salvar uma velhinha presa lá dentro e um transeunte pula no mar agitado para salvar crianças do afogamento, mesmo sabendo que eles mesmos podem morrer nesse processo. As provas são intermináveis. Só os que estão cegos pela crença no modelo do indivíduo egoísta tentariam ignorá-las. [5] 

Os seres humanos são complicados. Sim, a maioria das pessoas busca seu próprio benefício a maior parte do tempo; mas também é movida pelo patriotismo, pela solidariedade de classe, pelo altruísmo, pelo senso de equidade (ou justiça), pela honestidade, pelo compromisso com uma ideologia, pelo senso de dever, pela vicariedade, pela amizade, pelo amor, pela busca da beleza, pela simples curiosidade, e por muitos outros fatores. O próprio fato de que existem tantas palavras diferentes para descrever os motivos humanos comprova que somos criaturas complicadas. 

O indivíduo desastrado: os indivíduos não são muito racionais 

As teorias econômicas individualistas assumem que os indivíduos são racionais — isto é, eles conhecem todos os possíveis estados do mundo no futuro, fazem cálculos complicados sobre a probabilidade de cada um desses estados se realizar, e sabem exatamente quais são as suas preferências quanto a eles, escolhendo assim o melhor curso possível de ação em cada tomada de decisão. Mais uma vez, a implicação é que devemos deixar as pessoas fazerem o que quiserem, porque “elas sabem o que estão fazendo”. 

O modelo econômico individualista assume um tipo de racionalidade que ninguém possui — Herbert Simon o chamou de “racionalidade olímpica” ou “hiper-racionalidade”. A defesa comum do modelo é que não importa se as suposições subjacentes a uma teoria são realistas ou não, desde que o modelo preveja os eventos com precisão. Esse tipo de defesa não é convincente nos dias de hoje, quando uma teoria econômica que assume a hiper-racionalidade, conhecida como Hipótese dos Mercados Eficientes (HME), desempenhou um papel fundamental no surgimento da crise financeira mundial de 2008, ao fazer os políticos responsáveis acreditarem que os mercados financeiros não necessitam de regulamentação. 

O problema é, colocado em termos simples, que os seres humanos não são muito racionais — ou possuem apenas uma racionalidade limitada. [6] A lista de comportamentos não racionais é interminável. Somos seduzidos muito facilmente pelos instintos e emoções nas nossas decisões — “pensamento positivo”, pânico, instinto de rebanho e por aí vai. Nossas decisões são muito afetadas pelo “enquadramento” ou “contexto” da questão, quando não deveriam ser no sentido de que podemos tomar decisões diferentes sobre um problema essencialmente igual, dependendo da forma como ele é apresentado. E tendemos a ter reações exageradas às novas informações e reações muito brandas quanto às informações já existentes; isso se observa com frequência no mercado financeiro. Normalmente, funcionamos com um sistema de pensamento intuitivo, heurístico (baseado em atalhos), o que resulta num raciocínio lógico fraco. E acima de tudo, temos confiança excessiva na nossa própria racionalidade. 

Considerações finais: apenas indivíduos imperfeitos podem fazer escolhas reais 

Um resultado paradoxal de se conceituar os indivíduos como seres altamente imperfeitos — com racionalidade limitada, motivos complexos e conflituosos, credulidade, condicionamento social e até mesmo contradições internas — é que esse conceito na verdade faz com que os indivíduos contem mais, e não menos. 

É exatamente por admitir que os indivíduos são produto da sociedade que podemos apreciar mais o livre-arbítrio dos que escolhem opções que vão contra as convenções sociais, a ideologia predominante ou sua origem de classe. Quando aceitamos que a racionalidade humana é limitada, passamos a apreciar mais as iniciativas exercidas pelos empresários quando embarcam numa aventura “irracional” que todo mundo pensa que vai fracassar (a qual, quando bem-sucedida, é chamada de inovação). Em outras palavras, é apenas quando admitimos a natureza imperfeita dos seres humanos que podemos falar sobre escolhas “reais” — e não as escolhas vazias que as pessoas estão destinadas a fazer num mundo de indivíduos perfeitos, em que sempre sabem qual é o melhor curso de ação. 

Ressaltar a importância das escolhas “reais” não significa sugerir que podemos escolher qualquer opção que desejarmos. Os livros de autoajuda dizem que você pode ser ou fazer qualquer coisa que quiser. Mas as opções entre as quais as pessoas podem escolher (ou o conjunto de opções) em geral são severamente limitadas. Isso pode provir da exiguidade de recursos que eles controlam; como Karl Marx colocou em palavras dramáticas, os trabalhadores do capitalismo primitivo só tinham a escolha entre trabalhar oitenta horas por semana em condições terríveis ou morrer de fome, já que não tinham meios independentes para se sustentar. O conjunto limitado de opções também pode ser devido, como já argumentei acima, ao fato de que fomos ensinados a limitar o alcance daquilo que queremos e do que achamos que pode ser possível, através do processo de socialização e da manipulação deliberada das nossas preferências. Como todos os grandes romances e filmes, o mundo econômico real é povoado por personagens complexos e falhos, tanto indivíduos quanto organizações. Teorizar sobre eles (ou sobre qualquer coisa) deve envolver, naturalmente, certa generalização e simplificação, mas as teorias econômicas dominantes vão longe demais ao simplificar as coisas. 

É apenas quando levamos em conta a natureza multifacetada e limitada dos indivíduos, embora reconhecendo a importância das grandes organizações com estrutura complexa e mecanismos complexos de decisão interna, que seremos capazes de construir teorias que nos permitam compreender a complexidade das opções nas economias do mundo real.

Economia: Modo de Usar – Um Guia Básico dos Principais Conceitos Econômicos

Tradução: Isa Mara Lando e Rogério Galindo


Notas

[1] Como o texto é o trecho de um capítulo do livro, ele faz algumas referências a outros capítulos. Algumas eu omiti, por não achar que acrescentaria aqui. [N.M.]

[2] Como indicado na nota anterior, uma referência a outros capítulos do livro de onde este texto foi retirado. [N.M.]

[3] Ao dizer isso, estou simplificando a relação entre a posição econômica e as ideias que as pessoas defendem; Warren Buffet, George Soros e muitos outros privilegiados já apoiaram políticas que os prejudicariam pessoalmente. E, de certo, estou exagerando o grau que o dinheiro e o poder podem influenciar as ideias. Ainda assim, é importante reconhecer que a visão individualista da economia não se tornou predominante apenas pelos seus méritos intelectuais.

[4] Como indicado anteriormente, as sessões que tratam das organizações como principais tomadoras de decisões econômicas foram removidos desta postagem e serão publicados em uma postagem específica sobre o tema. [N.M.]

[5] Há vários experimentos que mostram que estudantes de economia são mais egoístas do que outros. Parte disso pode ser resultado da “autosseleção” — ao ouvir dizer que a educação na área de economia enfatiza hoje o predomínio do autointeresse, pessoas egoístas têm maior probabilidade de ver esse como seu tipo de tema. Mas também pode ser que isso seja resultado da própria educação — aprendendo o tempo todo que as pessoas tentam promover a si próprias, estudantes de economia podem passar a ver o mundo cada vez mais dessa forma.

[6] Há uma enorme quantidade de provas bem apresentadas e de forma acessível em livros como Loucura do livre mercado, de Peter Ubel; Animal Spirits, de George Akerlof e Robert Shiller; e Rápido e devagar: Duas formas de pensar, do psicólogo Daniel Kahnemann, vencedor do prêmio Nobel de economia de 2002.


Leituras Relacionadas

  • Por Que Socialismo? [Albert Einstein] – Albert Einstein explica, de maneira clara e objetiva, os problemas fundamentais que enxerga na sociedade capitalista e porque uma sociedade socialista poderia ser o caminho para superá-los. 
  • Um Mundo Insano: Capitalismo e a Epidemia de Doenças Mentais [Rod Tweedy e Mark Fisher] – “E se não for a gente quem está doente, mas um sistema em desacordo com quem somos como seres sociais?”
  • Estranho, com Orgulho [George Monbiot] – “Você se sente perdido? Talvez isso seja por que você se recusa a sucumbir à competição, inveja e medo que o neoliberalismo desperta.
  • Mas a Natureza Humana Não o Torna o Socialismo Impossível de Se Realizar? [Adaner Usmani & Bhaskar Sunkara] – Nossa natureza compartilhada na verdade nos ajuda a construir e definir os valores de uma sociedade mais justa.
  • As Perspectivas da Liberdade [David Harvey] – “A idéia de liberdade degenera assim em mera defesa do livre empreendimento, que significa a plenitude da liberdade para aqueles que não precisam de melhoria em sua renda, seu tempo livre e sua segurança, e um mero verniz de liberdade para o povo, que pode tentar em vão usar seus direitos democráticos para proteger-se do poder dos que detêm a propriedade.”
  • Lukács e a ontologia: uma introdução [Sergio Lessa] – Se, até Hegel, o problema era descobrir qual o limite das possibilidades de evolução da sociedade a partir da determinação de uma essência a-histórica, com Marx o problema se converte em como transformar a história humana, suas relações sociais predominantes, de modo a transformar a essência humana no sentido de possibilitar o seu pleno desenvolvimento a partir de uma nova relação, em última análise, com o desenvolvimento das forças produtivas
  • 15 Maneiras Com Que o Capitalismo Impede ou Limita Você de Ser Feliz [Robson Fernando de Souza] – “Você deseja muito ser feliz? Então talvez seja melhor começar a pensar seriamente sobre o atual sistema hegemônico, o principal causador de infelicidade geral.”
  • Os Transtornos Mentais Provocados Pelas Mudanças Neoliberais [Franco Berardi, entrevistado por Juan Íñigo Ibáñez] – “Neoliberalismo, assexualidade e desejo de morte. Filósofo italiano aponta: obsessão pelo sucesso individual e troca dos contatos corpóreos pelos digitais podem realizar distopia da humanidade insensível, para a qual já alertava Pasolini”
  • Por Que o Capitalismo Cria Postos de Trabalho Sem Sentido? [David Graeber] – “É como se alguém lá fora estivesse criando empregos sem sentido apenas com o objetivo de nos manter a todos trabalhando.”
  • Socialismo, Transformando “Miséria Histérica” em uma “Tristeza Qualquer” [Corey Robin] – “A Esquerda quer dar às pessoas a chance de fazer algo mais com suas vidas, lhes dando tempo e espaço longe do mercado.”
  • O Socialismo Vai Ser Chato? [Danny Katch] – “O Socialismo não é sobre induzir uma branda mediocridade. É sobre libertar o potencial criativo de todos.
  • O Fetichismo das Mercadorias [Fredy Perlman] – “Perlman faz um brilhante resumo dos temas principais do livro “A Teoria Marxista do Valor”, de Isaak Rubin, como sobre a continuidade e a transformação da teoria da alienação do jovem Marx na teoria da reificação e do fetichismo das mercadorias.”
  • A Reprodução da Vida Cotidiana [Fredy Perlman] – “A atividade prática diária dos homens da comunidade tribal reproduz ou perpetua a tribo; a atividade cotidiana dos escravos reproduz a escravidão; a prática cotidiana dos trabalhadores assalariados reproduz o trabalho assalariado e o capital.”
  • Sua Majestade, a Teoria Econômica [David Harvey] – “Aqui temos a crise econômica e financeira mais espetacular em décadas e o grupo que passa a maior parte de suas horas ativas analisando a economia basicamente não a enxergou.”
  • Quando a Economia vira religião e economistas sacerdotes [Rodrigo Souza] – Eichmann na Economia — o uso da técnica para pregar ideologia: O discurso dos economistas mainstream, apesar de se vender como racional, é uma forte ideologia que legitima e defende uma concepção aristocrática do mundo.
  • Graeber narra o declínio da Ciência Econômica [David Graeber] – Ela mantém-se aferrada aos dogmas — enquanto os problemas centrais ligados à produção e distribuição de riquezas mudaram. Contudo, tornou-se mais influente, ao se converter em ideologia a favor do 1%. Que fazer: salvá-la ou destruí-la?

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