Não Há Alternativa?

“Para muita gente, a presente situação parece fundamentalmente inalterável. Esta impressão parece ser reforçada por um dos slogans políticos mais frequentemente repetidos pelos que tomam as decisões por nós: ‘não há outra alternativa.’ Contudo, a dedicação de nossos líderes políticos ao avanço dos imperativos do sistema do capital não elimina suas deficiências estruturais e seus antagonismos potencialmente explosivos. Descobrir uma saída do labirinto das contradições do sistema do capital global por meio de uma transição sustentável para uma ordem social muito diferente é, portanto, mais imperativo hoje do que jamais o foi, diante da instabilidade cada vez mais ameaçadora.”

por István Mészáros

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Exemplares do “não há alternativa” no Brasil: Henrique Meirelles, Michel Temer e seus apoiadores na mídia bombardearam os brasileiros com esse discurso para impor as “reformas” desejadas pelo Mercado Financeiro no país – congelamento do orçamento, desmonte da previdência, dos direitos trabalhistas, dos serviços públicos, etc.

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Por Que Socialismo?

Albert Einstein explica, de maneira clara e objetiva, os problemas fundamentais que enxerga na sociedade capitalista e porque uma sociedade socialista poderia ser o caminho para superá-los.

por Albert Einstein, revista Monthly Review, 1949

tradução de Cynara Menezes, no blog Socialista Morena

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Einstein em 1933 | recorte de composição de Moholy-Nagy

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Bill Gates e os 4 Bilhões na Pobreza

A pobreza global está caindo ou crescendo? Sabe-se que a desigualdade global vem aumentando rapidamente nas últimas décadas, mas muitos defensores do capitalismo se apressam para nos afirmar que, apesar disso, nunca estivemos melhor. Será mesmo?

por Michael Roberts, em seu blog The Next Recession, Abril de 2017

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Crianças aguardam para receber comida em Mogadishu, Somalia, em 2011. (Farah Abdi Warsameh | Associated Press)

A pobreza global está caindo ou crescendo? Estimativas realistas calculam que há mais de 4 bilhões de pessoas na pobreza neste mundo, ou dois terços da população. No entanto, em sua “carta pública” mais recente, escrita no mês passado, Bill e Melinda Gates, a família mais rica do mundo, estavam entusiasmados para nos dizer que a batalha contra a pobreza global estava sendo vencida, pois desde 1990 caiu pela metade o número de pessoas que vivem com menos de US $ 1,25 por dia. Como conciliar essas duas estimativas? Continuar lendo

Uma Definição de Capitalismo

“Podemos definir ‘capitalismo’ como um modo particular de produção, caracterizado por quatro conjuntos de arranjos institucionais e comportamentais: produção de mercadorias, orientada para o mercado; propriedade privada dos meios de produção; um grande segmento da população que não pode existir, a não ser que venda sua força de trabalho no mercado; e comportamento individualista, aquisitivo, maximizador, da maioria dos indivíduos dentro do sistema econômico.”

Por E. K. Hunt e Mark Lautzenheiser

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foto de Michael Wolf

A afirmação de que as tentativas de compreender o capitalismo começaram com Adam Smith é, naturalmente, muito simplista. O capitalismo como sistema econômico, político e social dominante surgiu muito lentamente, em um período de vários séculos, primeiro na Europa Ocidental e, depois, em grande parte do mundo. À medida que surgia, as pessoas buscavam compreendê-lo.

Para resumir as tentativas de compreender o capitalismo, é necessário, primeiro, defini-lo e, então, rever resumidamente as principais características históricas de seu aparecimento. Deve-se afirmar desde já que não há consenso geral entre economistas e historiadores econômicos quanto ao que sejam as características essenciais do capitalismo. De fato, alguns economistas sequer acreditam que seja útil definir sistemas econômicos diferentes; eles acreditam em uma continuidade histórica, na qual os mesmos princípios gerais são suficientes para compreender todos os ordenamentos econômicos. [1] Entretanto, a maioria dos economistas concordaria que o capitalismo é um sistema econômico que funciona de modo bem diverso dos sistemas econômicos anteriores e dos sistemas econômicos não capitalistas. Este livro [2] é baseado numa abordagem metodológica que define um sistema econômico segundo o modo de produção no qual se baseia. O modo de produção, por sua vez, é definido pelas forças produtivas e pelas relações sociais de produção. Continuar lendo

O Comunismo Não Passa de Um Sonho de Utopia? Só Funcionaria Com Pessoas Perfeitas?

O Comunismo é apenas um sonho de ingenuidade, utopia e perfeição? Ele ign0ra a maldade e o egoísmo que estariam na essência da natureza humana? Um tal sistema precisaria que todos pensassem e agissem de uma única maneira, só poderia funcionar com pessoas perfeitas e harmoniosas como peças de relógio, nunca com os seres humanos diversos e falhos que realmente existem?

por Terry Eagleton

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Como Vai Acabar o Capitalismo?

O epílogo de um sistema em desmantêlo crônico: A legitimidade da ‘democracia’ capitalista se baseava na premissa de que os Estados eram capazes de intervir nos mercados e corrigir seus resultados, em favor dos cidadãos; hoje, as dúvidas sobre a compatibilidade entre uma economia capitalista e um sistema democrático voltaram com força total.

por Wolfgang Streeck, na Revista New Left Review, maio/junho de 2014 [acesso em dezembro de 2016]

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Casas abandonadas em bairro residencial em Detroit durante a crise de 2008

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As Perspectivas da Liberdade

“A idéia de liberdade degenera assim em mera defesa do livre empreendimento, que significa a plenitude da liberdade para aqueles que não precisam de melhoria em sua renda, seu tempo livre e sua segurança, e um mero verniz de liberdade para o povo, que pode tentar em vão usar seus direitos democráticos para proteger-se do poder dos que detêm a propriedade”

por David Harvey, em “Neoliberalismo, História e Implicações”, 2005

Tradução: Adail Sobral e Maria Stela Gonçalves | Edições Loyola

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Foto: Vadim Ghirda | Flickr

[Nota do Minhocário: Karl Polanyi escreveu seu livro “A Grande Transformação” entre os anos 30 e 40 para analisar como o mundo sucumbia ao Fascismo. Para ele, o Liberalismo Econômico dominante até os anos 20, que ruiu com a crise de 29, havia pavimentado o caminho para a ascensão desses movimentos de Extrema-Direita. Infelizmente, como o mundo voltou a ser dominado por um tipo de pensamento econômico “liberal” à partir do final dos anos 70, me parece que essa crítica dele continua extremamente atual, inclusive no sentido de como esse próprio liberalismo tende a desaguar numa sociedade cada vez mais autoritária (que, me parece muito claro, é exatamente o fenômeno que estamos assistindo nos EUA e Europa, após a crise de 2008, e no Brasil, mais recentemente). ]

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Sua Majestade, a Teoria Econômica

“Aqui temos a crise econômica e financeira mais espetacular em décadas e o grupo que passa a maior parte de suas horas ativas analisando a economia basicamente não a enxergou.”

por David Harvey, em ‘O Enigma do Capital’, 2010, págs 190-194

Tradução: João Alexandre Peschanski | Editora Boitempo

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Alan Greenspan, ex-presidente do Federal Reserve nos EUA, teve de admitir que a teoria econômica neoclássica, que defendeu e aplicou por décadas, lhe deixou desarmado para antecipar, compreender ou enfrentar a crise de 2008.

Quando Sua Majestade a rainha fez uma visita à London School of Economics, em novembro de 2008, perguntou como era possível que nenhum dos economistas tivesse visto a crise financeira que se aproximava. Seis meses depois, os economistas da Academia Britânica enviaram-lhe uma carta um tanto apologética. Continuar lendo

O Mercado é Mesmo Bom?

Há um elemento comum, nas manifestações recentes da direita: o discurso de que o Estado deve recuar e o mercado deve regular uma porção maior das interações humanas. Se a lógica do mercado opera, dizem eles, no final das contas todos ganham. Será que é mesmo assim?

por Luis Felipe Miguel, no blog da Boitempo, junho de 2015

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Há um elemento comum, nas manifestações recentes da direita brasileira – e não só brasileira: o discurso de que o Estado deve recuar e o mercado deve regular uma porção maior das interações humanas. Enquanto o Estado premiaria os “preguiçosos” por meio de suas políticas sociais, o mercado daria a cada um a recompensa justa pelo seu esforço. É o que diziam as faixas, nas manifestações de março e abril, que reivindicavam o direito daqueles que “trabalharam muito” a se dessolidarizar dos pobres e marginalizados. Por vezes, como quando denuncia as cotas nas universidades, este discurso ainda é tingido por um racismo indisfarçável.

É um entendimento que está presente mesmo em agentes que, à primeira vista, parecem mais motivados por uma pauta retrógrada no âmbito dos direitos individuais. Basta lembrar de Eduardo Cunha. Chegou à presidência da Câmara anunciando que barraria qualquer medida em favor do direito ao aborto, mas tratou de logo encaminhar, a todo vapor, a sacralização do financiamento privado de campanhas, seu principal interesse na “reforma política”, e o desmonte dos direitos trabalhistas, aprovando o PL 4330/2004. [1] Jornalistas e advogados conservadores não tardaram a anunciar as vantagens da “terceirização”, que consistiriam exatamente em reduzir a regulação estatal das relações de trabalho, permitindo que a lógica do mercado opere mais livremente. Se a lógica do mercado opera, dizem eles, no final das contas todos ganham. Menos direitos trabalhistas gerariam mais lucro, logo mais riqueza, mais trabalho e maiores salários. Continuar lendo

O Livre-Mercado Faz Países Pobres Ficarem Ricos?

 “Os supostos lares do livre comércio e do livre mercado ficaram ricos por meio da combinação do protecionismo, subsídios e outras políticas que hoje eles aconselham os países em desenvolvimento a não adotar. As políticas de livre mercado tornaram poucos países ricos até agora e poucos ficarão ricos por causa dela no futuro.”

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Estátua de Alexander Hamilton no Prédio do Tesouro, Washington. | Foto: Karen Kutini

O que eles dizem

“Depois de se tornarem independentes do domínio colonial, os países em desenvolvimento tentaram desenvolver a sua economia por meio da intervenção estatal, às vezes até mesmo adotando explicitamente o socialismo. Eles tentaram desenvolver artificialmente indústrias como a do aço e a do automóvel, que estavam além da sua capacidade, usando medidas como o protecionismo comercial, a proibição do investimento estrangeiro direto, subsídios industriais e até mesmo a propriedade estatal de bancos e empreendimentos industriais. Em um nível emocional, isso era compreensível, tendo em vista que os seus antigos senhores coloniais eram países capitalistas que adotavam políticas de livre mercado. No entanto, essa estratégia produziu, nos casos mais favoráveis, a estagnação, e, nos menos favoráveis, o desastre. O crescimento era anêmico (ou até mesmo negativo) e as indústrias protegidas deixaram de “crescer”. Felizmente, quase todos esses países recobraram o juízo a partir da década de 1980 e passaram a adotar uma política de livre mercado. Pensando bem, essa era a coisa certa a ser feita desde o início. Todos os países ricos da atualidade, com exceção do Japão (e possivelmente a Coreia, embora este seja um ponto controvertido), ficaram ricos por meio de políticas de livre mercado, especialmente do livre comércio com o resto do mundo. E os países em desenvolvimento que adotaram mais plenamente essas políticas se saíram melhor no período mais recente.”

O que eles não dizem

Ao contrário do que comumente se acredita, o desempenho dos países em desenvolvimento no período em que o estado dominou o desenvolvimento foi superior ao que eles alcançaram durante o período subsequente de reforma voltada para o mercado. Houve alguns fracassos grandiosos da intervenção estatal, mas quase todos esses países cresceram muito mais rápido, com uma distribuição de renda mais equitativa e com um número bem menor de crises financeiras, durante os “maus dias do passado” do que o fizeram no período das reformas voltadas para o mercado. Além disso, também não é verdade que quase todos os países ricos tenham ficado ricos por meio de políticas de livre mercado. A verdade é mais ou menos o oposto. Com apenas algumas exceções, todos os países ricos de hoje, entre eles a Grã-Bretanha e os Estados Unidos — os supostos lares do livre comércio e do livre mercado — ficaram ricos por meio da combinação do protecionismo, subsídios e outras políticas que hoje eles aconselham os países em desenvolvimento a não adotar. As políticas de livre mercado tornaram poucos países ricos até agora e poucos ficarão ricos por causa dela no futuro. Continuar lendo