Educação, Empreendedorismo, e Produtividade Individuais de Um Povo Realmente Explicam o Desenvolvimento de Um País?

por Ha-Joon Chang

educacao

colagem de Ruben Martinho

[Nota do Minhocário: Os artigos abaixo lidam com 3 dos mitos que mais ouvimos (principalmente nas últimas décadas) para justificar a situação de subdesenvolvimento dos países mais pobres e dependentes, e para justificar a razão pela qual os países mais ricos teriam alcançado o seu nível de desenvolvimento: o nível da educação, a cultura empreendedora e a produtividade individual dos cidadãos desses países.]


A Educação é a Solução Para Tornar Um País Mais Rico?

O que eles dizem

“Uma força de trabalho instruída é absolutamente necessária para o desenvolvimento econômico. A melhor prova disso é o contraste entre o sucesso econômico dos países do Leste Asiático, com o seu famoso desempenho na área da instrução superior, e a estagnação econômica dos países da África subsaariana, que têm um dos registros educacionais mais baixos do mundo. Além disso, com o aumento da chamada “economia do conhecimento”, na qual o conhecimento se tornou a principal fonte de riqueza, a instrução, especialmente a instrução superior, tornou-se a chave para a prosperidade.”

O que eles não dizem

Existem pouquíssimas evidências que demonstrem que um povo mais instruído acarrete uma maior prosperidade nacional. Grande parte do conhecimento adquirido na escola na realidade não é relevante para o aumento da produtividade, embora isso possibilite que as pessoas tenham uma vida mais gratificante e independente. Além disso, a concepção de que o surgimento da economia do conhecimento tenha aumentado decisivamente a importância da instrução é enganosa. Para começar, a ideia da economia do conhecimento em si é problemática, já que o conhecimento sempre foi a principal fonte de riqueza. Além disso, com a crescente desindustrialização e mecanização, as exigências de conhecimento talvez tenham até mesmo diminuído na maioria das ocupações nos países ricos. Mesmo quando se trata da instrução superior, que se presume seja mais importante na economia do conhecimento, não existe um relacionamento simples entre ela e o crescimento econômico. O que realmente importa na determinação da prosperidade nacional não é o nível de instrução das pessoas e sim a capacidade da nação de organizar pessoas em empreendimentos com uma elevada produtividade.

Educação, educação, educação

“Educação, educação, educação” — foi como o ex-Primeiro-Ministro britânico Tony Blair resumiu quais seriam as suas três principais políticas de governo durante a campanha das eleições de 1997, a qual levou o seu “Novo” Partido Trabalhista ao poder depois de quase duas décadas afastado.

O subsequente sucesso ou não da política educacional do Novo Partido Trabalhista pode ser questionado, mas o que é indiscutível é que o comentário captou com perfeição a excepcional capacidade do Sr. Blair de dizer a coisa certa no momento certo (ou seja, antes de ele perder a cabeça por causa do Iraque). Muitos políticos antes do Sr. Blair tinham falado a respeito da escolaridade e a defendido com insistência, mas ele estava falando em uma ocasião na qual, depois de presenciar o surgimento da economia do conhecimento a partir da década de 1980, o mundo inteiro estava ficando convencido de que a instrução era a chave para a prosperidade econômica. Se a instrução fora importante para o sucesso econômico nos dias das indústrias das chaminés, um número cada vez maior de pessoas estava ficando convencido de que ela seria tudo na era da informação, quando a principal fonte de riqueza são os cérebros, não os músculos.

O argumento parece óbvio. A maioria das pessoas instruídas parecem mais produtivas, como é evidenciado pelos salários mais elevados que recebem. Portanto, é uma questão de lógica matemática que uma economia com um maior número de pessoas instruídas será mais produtiva. O fato de os países mais pobres terem um menor suprimento de pessoas instruídas — ou “capital humano” no jargão de alguns economistas — também prova o argumento. A duração típica da vida escolar gira em torno de nove anos nos países da OCDE, ao passo que não chega a três nos países da África subsaariana. Também bastante conhecido é o desempenho escolar excepcionalmente elevado das economias “milagrosas” do Leste Asiático, como o Japão, a Coreia do Sul, Taiwan, Hong Kong e Cingapura. O desempenho escolar desses países se manifesta não de um modo quantitativo, mas também nas elevadas taxas de alfabetização ou de matrícula em vários níveis de instrução. A qualidade da instrução também é muito alta. Esses países estão classificados nos primeiros lugares nos testes estandardizados como o Trends in International Mathematics and Science Study (TIMSS) ou Tendências no Estudo Internacional de Matemática e Ciências, para alunos da quarta e da oitava séries, e o Program for International Student Assessment (PISA) ou Programa Internacional de Avaliação de Estudantes, que avalia a capacidade de jovens com 15 anos de idade de aplicar o conhecimento de matemática a problemas do mundo real. É preciso dizer mais?

Não precisamos de instrução

Por mais que a importância da instrução no aumento da produtividade de uma economia possa parecer dispensar explicações, existem na verdade muitos indícios que questionam essa sabedoria convencional.

Vamos examinar primeiro o caso das economias milagrosas do Leste Asiático, em cujo desenvolvimento a instrução supostamente desempenhou um papel fundamental. Na década de 1960, Taiwan tinha uma taxa de alfabetização de apenas 54%, enquanto a das Filipinas era de 72%. Apesar do seu nível educacional inferior, Taiwan a partir de então alcançou um dos melhores desempenhos econômicos da história humana, enquanto o desempenho das Filipinas tem sido bastante precário. Em 1960, a renda per capita anual das Filipinas era quase o dobro da de Taiwan (200 dólares versus 122 dólares), mas hoje a renda per capita de Taiwan está em torno de dez vezes a das Filipinas (18 mil dólares versus 1.800 dólares). Nesse mesmo ano, a Coreia tinha uma taxa de alfabetização de 71% — comparável com a das Filipinas mas ainda assim abaixo dos 91% da Argentina. Apesar da taxa de alfabetização significativamente inferior, a Coreia cresceu a partir de então muito mais rápido do que a Argentina. A renda per capita anual da Coreia era pouco mais de um quinto da da Argentina em 1960 (82 dólares versus 378
dólares). Hoje, ela é três vezes mais elevada (cerca de 21 mil dólares versus aproximadamente 7 mil dólares).

Obviamente, existem muito mais coisas além da instrução que determinam o desempenho de crescimento econômico de um país. No entanto, esses exemplos debilitam o mito habitual de que a instrução foi a chave para o milagre do Leste Asiático. As economias do Leste Asiático não tinham um desempenho escolar excepcionalmente elevado no início dos seus milagres econômicos, ao passo que países como as Filipinas e a Argentina se saíram mediocremente apesar de ter uma população significativamente mais instruída.

Na outra extremidade do espectro, a experiência da África subsaariana também mostra que investir mais em instrução não garante um melhor desempenho econômico. Entre 1980 e 2004, as taxas de alfabetização dos países africanos subsaarianos aumentaram substancialmente, de 40 para 61%. [2] Apesar desses aumentos, a renda per capita da região na realidade apresentou uma redução de 0,3% ao ano nesse período. Se a instrução é tão importante para o desenvolvimento econômico, como acredita a maioria, uma coisa assim não deveria acontecer.

A aparente ausência de efeitos positivos da instrução sobre o crescimento não é encontrada apenas nos casos extremos que escolhi, com o Leste Asiático de um lado e a África subsaariana do outro. Trata-se de um fenômeno mais geral. Em um artigo de 2004 amplamente citado: “Where has all the education gone?”, [3] Lant Pritchett, um economista de Harvard que trabalhou para o Banco Mundial durante um longo tempo, analisou as informações de dezenas de países ricos e em desenvolvimento ao longo do período entre 1960 e 1987 e realizou uma extensa análise de estudos semelhantes, a fim de definir se a instrução influencia positivamente o crescimento. [4] A sua conclusão é que existem muito poucas evidências de que mais instrução conduza a um maior crescimento econômico.

Não sei muito a respeito de história, não conheço muito biologia

Por que existem tão poucas evidências que respaldem o que parece ser uma proposição tão óbvia, ou seja, que um povo mais instruído deve tornar o país mais rico? Simplificando, é porque a instrução não é um elemento tão importante no aumento da produtividade de uma economia.

Para começar, nem toda instrução ao menos se propõe aumentar a produtividade. Muitas disciplinas não causam nenhum impacto, nem mesmo indiretamente, na produtividade da maioria dos trabalhadores: literatura, história, filosofia e música, por exemplo. A partir de um ponto de vista rigorosamente econômico, o ensino dessas matérias é uma perda de tempo. Nós as ensinamos aos nossos filhos por acreditar que com o tempo elas enriquecerão a vida deles e também os tornarão bons cidadãos. Embora essa justificativa para o dispêndio educacional esteja cada vez mais sendo atacada em uma época na qual se espera que tudo justifique a sua existência a partir da perspectiva da sua contribuição para o crescimento da produtividade, ela continua a ser uma razão muito importante — na minha opinião, a mais importante — para investir na instrução.

Além disso, nem mesmo disciplinas como a matemática ou ciências, que são supostamente importantes para o aumento da produtividade, são relevantes para a maioria dos trabalhadores — os banqueiros de investimento não precisam de biologia e nem os figurinistas de matemática para ser competentes no que fazem. Até mesmo para as ocupações nas quais essas matérias são relevantes, grande parte do que aprendemos na escola ou até mesmo na universidade com frequência não é diretamente relevante para o trabalho prático. Por exemplo, o elo entre a física que um operário da linha de produção de uma fábrica de automóveis aprendeu na escola e a sua produtividade é bastante tênue. A importância do aprendizado e do treinamento no trabalho em muitas profissões é uma prova da relevância limitada da educação escolar para a produtividade dos trabalhadores. Desse modo, até mesmo as partes da instrução supostamente voltadas para a produtividade não são tão relevantes para o aumento da produtividade quanto imaginamos.

Análises estatísticas realizadas em vários países não conseguiram encontrar nenhuma relação entre a pontuação em matemática dos alunos do país com o desempenho econômico dele. [5] Mas vou apresentar exemplos mais concretos. No segmento de matemática do TIMSS de 2007, estudantes americanos da quarta série ficaram atrás não apenas das crianças dos países do Leste Asiático, famosas pelo seu talento matemático, mas também dos seus equivalentes em países como o Cazaquistão, a Letônia, a Rússia e a Lituânia. [6] As crianças em todas as outras economias europeias ricas incluídas no teste, com exceção da Inglaterra e da Holanda, obtiveram uma pontuação mais baixa do que a das crianças americanas. [7] Os alunos da oitava série da Noruega, o país mais rico do mundo (do ponto de vista da renda per capita calculada à taxa de câmbio do mercado) —, ficaram atrás dos seus equivalentes não apenas em todos os outros países ricos mas também em países muito mais pobres, entre eles a Lituânia, a República Tcheca, a Eslovênia, a Armênia e a Sérvia (é interessante observar que todos são países anteriormente socialistas). [8] Os alunos da oitava série de Israel, país famoso pelo seu zelo educacional e excepcional desempenho na área de pesquisas avançadas, ficou atrás da Noruega e também da Bulgária. Histórias semelhantes foram observadas nos testes de ciências.

E a economia do conhecimento?

Mesmo que o impacto da instrução no crescimento tenha sido pequeno até agora, você talvez esteja se perguntando se o recente surgimento da economia do conhecimento talvez não tenha mudado tudo isso. Pode ser argumentado que, com as ideias se tornando a principal fonte de riqueza, a instrução a partir de agora se tornará muito mais importante na determinação da prosperidade de um país.

Contrariando essa hipótese, devo, em primeiro lugar, salientar que a economia do conhecimento não é nenhuma novidade. Sempre vivemos em uma economia assim, no sentido de que sempre foi o domínio do país sobre o conhecimento (ou a falta dele) que o tornou rico (ou pobre). A China foi o país mais rico do mundo durante o primeiro milênio porque ela possuía um conhecimento técnico que os outros não tinham, com o papel, os tipos móveis, a pólvora e a bússola sendo os exemplos mais famosos, mas de modo algum os únicos. A Grã-Bretanha tornou-se o poder hegemônico do mundo no século XIX somente porque passou a liderar o mundo na área das inovações tecnológicas. Quando a Alemanha ficou tão pobre quanto o Peru e o México logo depois da Segunda Guerra Mundial, não passou pela cabeça de ninguém sugerir que ela fosse reclassificada como um país em desenvolvimento, porque as pessoas sabiam que ela ainda tinha o domínio do conhecimento tecnológico, organizacional e institucional que a tornara uma das maiores potências industriais antes da guerra. Nesse sentido, a importância (ou não) da instrução não mudou no período mais recente.

É claro que o acervo de conhecimento que a humanidade controla hoje coletivamente é muito maior do que no passado, mas isso não quer dizer que todo mundo, ou mesmo a maioria das pessoas, tenha que ser mais instruída do que no passado. Na verdade, a quantidade de conhecimento relacionado com a produção que um trabalhador típico precisa ter diminuiu no caso de muitas ocupações, especialmente nos países ricos. Isso pode soar absurdo, mas vou explicar.

Para começar, tendo em vista o contínuo aumento da produtividade da fabricação, uma maioria da força de trabalho nos países ricos agora trabalha em ocupações do setor de serviços com baixas qualificações, repondo mercadorias nas prateleiras dos supermercados, fritando hambúrgueres em restaurantes fast-food e fazendo faxina em escritórios. À medida que a proporção de pessoas nessas profissões for aumentando, poderemos lidar com uma força de trabalho cada vez menos instruída, se só estivermos interessados nos efeitos da instrução sobre a produtividade.

Além disso, com o desenvolvimento econômico, uma proporção maior do conhecimento é incorporada às máquinas. Isso significa que a produtividade na economia como um todo aumenta apesar de os trabalhadores entenderem individualmente menos o que estão fazendo do que os seus equivalentes no passado. O exemplo mais impressionante é o fato de que a maioria dos balconistas nos países ricos nem mesmo precisa saber somar — habilidade de que outrora os seus equivalentes decididamente precisavam — já que as máquinas de leitura do código de barras fazem isso para eles hoje em dia. Outro exemplo é que os ferreiros nos países pobres provavelmente sabem mais a respeito da natureza dos metais no que diz respeito à fabricação de ferramentas do que a maioria dos funcionários da Bosch ou da Black & Decker. Um terceiro exemplo é o fato de que as pessoas que trabalham nas pequenas lojas de eletrônica espalhadas pelas ruas dos países pobres conseguem consertar muito mais coisas do que os funcionários individuais da Samsung ou da Sony.

Grande parte disso se deve ao simples fato que a mecanização é a maneira mais importante de aumentar a produtividade. No entanto, uma influente escola de pensamento marxista argumenta que os capitalistas deliberadamente “reduzem a qualificação” dos seus funcionários usando as tecnologias de produção mais mecanizadas possíveis, mesmo que não sejam as mais econômicas, a fim de tornar os trabalhadores mais facilmente substituíveis e, portanto, mais fáceis de controlar. [9] Independentemente da causa exata do processo de mecanização, a consequência é que as economias mais desenvolvidas tecnologicamente podem na realidade precisar de um número menor de pessoas instruídas.

O paradoxo suíço

No entanto, é possível argumentar que, embora o desenvolvimento econômico possa não exigir que o trabalhador típico seja mais instruído, ele precisa de pessoas com um grau de instrução mais elevado nos cargos mais elevados. Afinal de contas, como ressaltei anteriormente, a capacidade de gerar um conhecimento mais produtivo do que outros é o que torna um país mais rico do que os outros. Portanto, alguém pode argumentar, é a qualidade das universidades, e não a das escolas primárias, que determina a prosperidade de uma nação.

No entanto, mesmo nesta era supostamente voltada para o conhecimento, o relacionamento entre a instrução superior e a prosperidade não é direto. Tomemos o exemplo impressionante da Suíça. Ela está entre os poucos países mais ricos e mais industrializados do mundo, mas tem, surpreendentemente, a menor taxa — na realidade, a menor taxa por uma grande diferença — de matrículas universitárias dos países ricos; ainda no final de 1996, a taxa de matrícula universitária na Suíça continuava a ser menos da metade da média da OCDE (16% versus 34%). [20] A partir de então, a Suíça aumentou consideravelmente essa taxa, elevando-a para 47% em 2007, segundo dados da UNESCO. Entretanto, a taxa suíça ainda permanece a mais baixa entre os países ricos do mundo e está muito abaixo da que encontramos na maioria dos países intensamente voltados para o ensino universitário, como a Finlândia (94%), os Estados Unidos (82%) e a Dinamarca (80%). Curiosamente, a taxa suíça também é muito inferior à de muitas economias consideravelmente mais pobres, como a Coreia (96%), a Grécia
(91%), a Lituânia (76%) e a Argentina (68%).

Como é possível que a Suíça tenha permanecido no topo da produtividade internacional apesar de proporcionar aos seus cidadãos uma instrução de nível superior muito menor não apenas do que a dos seus principais concorrentes como também do que a de muitas economias consideravelmente mais pobres?

Uma possível explicação é que a qualidade do ensino universitário é diferente em cada país. Portanto, se as universidades coreanas ou lituanas não são tão boas quanto as universidades suíças, pode ser possível que a Suíça seja mais rica que a Coreia ou a Lituânia, mesmo que uma proporção muito menor de suíços do que coreanos ou lituanos tenha instrução universitária. No entanto, esse argumento perde grande parte da sua força quando comparamos a Suíça com a Finlândia ou os Estados Unidos. Não podemos, em sã consciência, sugerir que as universidades suíças sejam tão melhores do que as finlandesas ou as americanas a ponto de a Suíça poder se sair bem com uma taxa de matrícula universitária 50% menor.

A principal explicação para o “paradoxo suíço” deve ser encontrada, uma vez mais, no baixo componente da produtividade na instrução. Entretanto, no caso da instrução superior, o componente da não produtividade não consiste tanto em ensinar às pessoas disciplinas que irão ajudá-las com coisas como a realização pessoal, a boa cidadania e a identidade nacional, como no caso da instrução primária e secundária. Ele consiste no que os economistas chamam de função de “classificação”.

É claro que a instrução superior transmite um certo conhecimento relacionado com a produtividade aos alunos, mas outra função importante dela é definir a posição de cada pessoa na hierarquia da empregabilidade. [11] Em muitas atividades profissionais, o que conta é a inteligência genérica, a autodisciplina e a capacidade de a pessoa se organizar, e não o conhecimento especializado, grande parte do qual ela pode, e na realidade precisa, assimilar no emprego. Desse modo, mesmo que o que você aprende na universidade ao se especializar em história ou química possa não ser relevante para o seu trabalho como um possível gerente de uma companhia de seguros ou como um funcionário público do Departamento de Transportes, o fato de você ter um diploma universitário informa aos seus possíveis empregadores que você provavelmente é mais inteligente, tem mais autodisciplina e é mais organizado do que aqueles que não têm esse diploma. Ao contratar você como uma pessoa com grau universitário, o seu empregador o estará contratando por causa dessas qualidades genéricas, e não pelo seu conhecimento especializado, o qual não raro é irrelevante para o trabalho que você irá executar.

No entanto, com a crescente ênfase na instrução superior que vem tendo lugar ultimamente, uma dinâmica nada saudável se estabeleceu com relação a ela em muitos países de renda elevada e média-alta que podem se dar ao luxo de expandir as universidades (a Suíça não ficou imune a isso, como o demonstraram os percentuais que apresentei anteriormente). Uma vez que a proporção de pessoas que frequentam a universidade ultrapassa um limite crítico, elas passam a ter que frequentar a universidade para conseguir um emprego digno. Quando, digamos, 50% da população tem nível universitário, se você não for para a universidade estará implicitamente declarando que se encontra na metade inferior da distribuição de habilidades, o que não é a melhor maneira de começar a procurar um emprego. Portanto, as pessoas vão para a universidade sabendo perfeitamente que vão “perder tempo” estudando coisas que nunca precisarão no trabalho. Com todo mundo querendo ir para a universidade, aumenta a demanda pela instrução superior, o que conduz então à oferta de mais vagas universitárias, o que aumenta ainda mais a incidência de matrículas universitárias, o que por sua vez eleva ainda mais a pressão para o ingresso nas universidades. Com o tempo, isso conduz a um processo de inflação de graus. Agora que “todo mundo” tem grau universitário, você precisa fazer um mestrado, ou até mesmo um doutorado, para poder se destacar, mesmo que o conteúdo de produtividade desses cursos mais avançados possa ser mínimo para o seu futuro emprego.

Considerando-se que a Suíça foi capaz de manter, até meados da década de 1990, uma das taxas de produtividade nacional mais elevadas do mundo com uma taxa de matrícula universitária entre 10 e 15%, poderíamos afirmar que percentuais de matrícula muito mais altos do que isso são na realidade desnecessários. Mesmo que aceitemos que as exigências de qualificação aumentaram de tal maneira com o surgimento da economia do conhecimento que o percentual de matrícula de pelo menos 40% que a Suíça tem hoje seja o mínimo necessário (o que eu seriamente duvido), isso ainda significa que pelo menos metade da instrução universitária em países como os Estados Unidos, a Coreia e a Finlândia é “desperdiçada” no jogo da classificação essencialmente de soma zero. O sistema da instrução superior nesses países tornou-se semelhante a um teatro no qual algumas pessoas decidiram ficar em pé para ver melhor, levando as outras que estavam atrás a fazer o mesmo. Quando um número suficiente de pessoas fica em pé, todo mundo precisa ficar em pé, o que significa que ninguém está enxergando melhor, ao passo que todo mundo ficou submetido a um desconforto maior.

Instrução versus empreendimento

Se não apenas a instrução básica como também a superior não é muito importante na determinação da prosperidade de uma nação, precisamos seriamente repensar o papel da escola na nossa economia.

No caso dos países ricos, a sua obsessão pela instrução superior precisa ser restringida. Essa obsessão conduziu a uma perniciosa inflação de grau e ao consequente investimento excessivo em grande escala na área da instrução superior em muitos países. Não sou contra o fato de que os países tenham uma incidência de matrícula universitária muito elevada — ou até mesmo de 100% — por outras razões, mas eles não devem se iludir achando que isso terá um efeito significativo na produtividade.

No caso dos países em desenvolvimento, uma mudança de perspectiva ainda mais radical se faz necessária. Embora eles devam expandir a escolaridade para preparar os seus jovens para uma vida mais significativa, quando se trata da questão do aumento da produtividade, esses países precisam olhar além da instrução das pessoas e se dedicar mais a construir as instituições e organizações certas para o aumento da produtividade.

O que realmente distingue os países ricos dos mais pobres é bem menos o quanto os seus cidadãos são individualmente instruídos e bem mais a maneira como os seus cidadãos estão bem organizados em entidades coletivas com uma elevada produtividade — sejam as empresas gigantes como a Boeing ou a Volkswagen, ou as empresas menores de nível internacional da Suíça e da Itália. O desenvolvimento dessas empresas precisa ser amparado por uma gama de instituições que estimulem o investimento e os riscos — um regime de comércio que proteja as empresas nas “indústrias que estão na infância”, um sistema financeiro que forneça um “capital paciente” necessário para investimentos a longo prazo que aumentem a produtividade, instituições que deem uma segunda chance tanto para os capitalistas (uma boa lei de falência) e para os trabalhadores (um bom estado do bem-estar social), subsídios públicos e uma regulamentação relacionada com a P&D e o treinamento, e assim por diante.

A instrução é valiosa, mas o seu principal valor não reside em aumentar a produtividade e sim na sua capacidade de nos ajudar a desenvolver o nosso potencial e viver uma vida mais gratificante e independente. Se expandirmos a instrução por acreditar que isso tornará a nossa economia mais rica, ficaremos seriamente desapontados, porque o vínculo entre a instrução e a produtividade nacional é bastante tênue e complicado. O nosso excessivo entusiasmo pela instrução deve ser restringido e, especialmente nos países em desenvolvimento, uma atenção muito maior precisa ser prestada à questão de estabelecer e aprimorar os empreendimentos produtivos e as instituições que os amparam.


Existe uma Maior Cultura de Empreendedorismo nos Países Ricos do Que nos Pobres? É Isso Que Gera Seu Maior Desenvolvimento?

O que eles dizem

“O empreendedorismo encontra-se na essência do dinamismo econômico. A não ser que haja pessoas empreendedoras que busquem novas oportunidades lucrativas gerando novos produtos e atendendo a uma demanda não satisfeita, a economia não poderá se desenvolver. Na realidade, uma das razões por trás da ausência de dinamismo econômico em vários países, da França a todos os estados no mundo em desenvolvimento, é a falta de empreendedorismo. A não ser que todas as pessoas que ficam sem fazer nada nos países pobres mudem de atitude e busquem ativamente oportunidades lucrativas, o país delas não vai se desenvolver.”

O que eles não dizem

As pessoas que vivem nos países pobres precisam ser empreendedoras mesmo que apenas para sobreviver. Para cada pessoa ociosa em um país em desenvolvimento, você tem duas ou três crianças engraxando sapatos e quatro ou cinco pessoas vendendo mercadorias na rua. O que torna pobres os países pobres não é a ausência de uma energia empreendedora no nível pessoal, e sim a ausência de tecnologias produtivas e organizações sociais desenvolvidas, especialmente empresas modernas. Os problemas cada vez mais evidentes do microcrédito — empréstimos bem pequenos feitos às pessoas pobres nos países em desenvolvimento com o objetivo declarado de ajudá-las a montar um negócio — mostram as limitações do empreendedorismo individual. Especialmente no último século, o empreendedorismo se tornou uma atividade coletiva, de modo que a pobreza da organização coletiva se tornou um obstáculo ainda maior ao desenvolvimento econômico, e não a mentalidade empreendedora deficiente das pessoas.

O problema dos franceses…

George W. Bush, o ex-presidente dos Estados Unidos, supostamente teria se queixado de que o problema dos franceses é o fato de eles não terem uma palavra para empreendedorismo no idioma deles. O francês dele talvez não fosse satisfatório, mas o Sr. Bush estava expressando um preconceito relativamente comum dos angloamericanos contra os franceses, que consideram a França como um país pouco dinâmico e retrógrado repleto de trabalhadores preguiçosos, pretensiosos intelectuais de esquerda, burocratas intrometidos e, finalmente e igualmente importante, garçons empolados.

Quer ou não a concepção do Sr. Bush a respeito da França esteja certa (falarei mais sobre isso mais à frente, e, a perspectiva por trás dessa declaração é amplamente aceita) precisamos de pessoas empreendedoras para ter uma economia bem-sucedida. De acordo com esse ponto de vista, a pobreza dos países em desenvolvimento também é atribuída à falta de empreendedorismo existente nesses países. Olhe só para todos esses homens sentados, sem fazer nada, tomando a sua décima primeira xícara de chá de hortelã do dia, comentam as pessoas dos países ricos ao observar os países pobres; esses países realmente precisam de pessoas mais ativas e dinâmicas a fim de sair da situação de pobreza.

No entanto, qualquer pessoa que tenha vindo de um país pobre, ou tenha vivido em um deles durante algum tempo, sabe que eles fervilham de pessoas empreendedoras. Nas ruas dos países pobres, você encontra homens, mulheres e crianças de todas as idades vendendo tudo o que é possível imaginar, além de coisas que você nem mesmo sabia que poderiam ser compradas. Em muitos países pobres, você pode comprar um lugar na fila para a seção de vistos da embaixada americana (que é vendido para você por profissionais que administram o serviço das filas), o serviço para que “tomem conta do seu carro” (o que quer dizer “impedir que o seu carro seja danificado”) nos locais de estacionamento, o direito de montar uma barraca de comida em uma esquina específica (talvez vendido pelo corrupto chefe de polícia da localidade) ou até mesmo um ponto onde você possa mendigar (vendido pelos gangsteres do local). Tudo isso é produto da engenhosidade e do empreendedorismo humanos.

Em contrapartida, a maioria dos cidadãos dos países ricos não chegou nem perto de se tornar empreendedores. Quase todos trabalham para uma empresa, algumas das quais com dezenas de milhares de funcionários, em funções altamente especializadas e executando tarefas extremamente específicas. Embora alguns deles sonhem em montar um negócio e se “tornar o meu próprio chefe”, ou pelo menos falem distraidamente sobre isso, poucos colocam a ideia em prática por ela ser uma coisa difícil e arriscada. Em decorrência disso, quase todas as pessoas nos países ricos passam a vida profissional implementando a visão empreendedora de outra pessoa, e não a delas.

A conclusão é que as pessoas são muito mais empreendedoras nos países em desenvolvimento do que nos países desenvolvidos. De acordo com um estudo da OCDE, na maioria dos países em desenvolvimento de 30 a 50% da força de trabalho não agrícola trabalha por conta própria (o percentual tende a ser ainda maior na agricultura). Em alguns dos países mais pobres, a proporção de pessoas que trabalham como empresários individuais pode ser bem mais elevada: 66,9% em Gana, 75,4% em Bangladesh e espantosos 88,7% em Benin. [12] Em contrapartida, apenas 12,8% da força de trabalho não agrícola nos países desenvolvidos trabalha por conta própria. Em alguns países, a relação não atinge nem mesmo um em dez: 6,7% na Noruega, 7,5% nos Estados Unidos e 8,6% na França (ao que se revelou, a queixa do Sr. Bush sobre os franceses foi um caso clássico da pessoa que “tem teto de vidro e atira pedra no teto do vizinho”). Desse modo, mesmo excluindo os agricultores (o que tornaria a proporção ainda mais elevada), a chance de uma pessoa típica em um país em desenvolvimento ser um empresário é mais do que duas vezes maior do que a daquela que vive em um país desenvolvido (30% versus 12,8%). A diferença é de 10 vezes, se compararmos Bangladesh com os Estados Unidos (7,5% versus 75,4%). E no caso mais extremo, a chance de alguém em Benin ser um empresário é treze vezes maior do que a chance equivalente de um norueguês fazer o mesmo (88,7% versus 6,7%), o que é uma diferença colossal.

Além disso, mesmo as pessoas que têm um negócio próprio nos países ricos não precisam ser tão empreendedoras quanto os seus equivalentes nos países pobres. No caso dos empresários dos países pobres, as coisas dão errado o tempo todo. Cortes de energia atrapalham a agenda da produção. A alfândega não libera as peças sobressalentes necessárias para que uma máquina seja consertada, o que já tinha sofrido um atraso devido à autorização para comprar dólares americanos. Os insumos não são entregues na hora certa, e o caminhão de entrega enguiçou de novo — uma vez mais — por causa de buracos na estrada. E os insignificantes funcionários públicos locais modificam, e até mesmo inventam, regras o tempo todo a fim de obter propinas. Lidar com esses obstáculos exige um pensamento rápido e a capacidade de improvisar. Um empresário americano típico não sobreviveria uma semana na presença desses problemas, se tivesse que administrar uma pequena empresa em Maputo ou Phnom Penh.

Portanto, estamos diante de um aparente enigma. Em comparação com os países ricos, temos um número bem maior de pessoas nos países em desenvolvimento (do ponto de vista proporcional) envolvidas em atividades empreendedoras. Além disso, as suas habilidades empreendedoras são postas à prova com muito mais frequência e rigor do que as dos seus equivalentes nos países ricos. Como é possível então que esses países mais empreendedores sejam os mais pobres?

Grandes expectativas — as microfinanças entram em cena

É claro que a energia empreendedora aparentemente ilimitada das pessoas pobres nos países pobres não passou despercebida. Existe uma visão cada vez mais influente de que a máquina do desenvolvimento para os países pobres deveria ser o chamado “setor informal”, formado por pequenos negócios que não estão registrados no governo.

O argumento é que as pessoas empreendedoras no setor informal têm dificuldade não porque careçam da visão e das habilidades necessárias, mas porque não conseguem obter o dinheiro para concretizar as suas visões. Os bancos regulares as discriminam, ao passo que os agiotas locais cobram taxas de juros proibitivas. Se elas receberem um pequeno crédito (conhecido como “microcrédito”) a uma taxa de juros razoável para que possam montar uma barraca de comida, comprar um telefone celular para alugar para terceiros, comprar algumas galinhas para vender os ovos, elas conseguirão deixar de ser pobres. Com esses pequenos empreendimentos formando o grosso da economia do país em desenvolvimento, o sucesso deles se traduziria em um desenvolvimento econômico generalizado.

A invenção do microcrédito é comumente atribuída a Muhammad Yunus, o professor de economia que tem sido a face pública da indústria do microcrédito desde que ele fundou o pioneiro Grameen Bank em Bangladesh, o seu país natal, em 1983, embora tivessem havido anteriormente tentativas semelhantes. Apesar de conceder empréstimos a pessoas pobres, especialmente a mulheres pobres, que eram tradicionalmente consideradas casos de alto risco, o Grameen Bank ostentou um elevado coeficiente de liquidação de dívidas (95% ou mais), demonstrando que os pobres são altamente lucrativos. Já no início da década de 1990, foi constatado o sucesso do Grameen Bank, e de alguns outros bancos semelhantes em países como a Bolívia, e a ideia do microcrédito — ou, de uma maneira mais ampla, das microfinanças, o que inclui a poupança e o seguro, e não apenas o crédito — se espalhou rapidamente.

A receita parece perfeita. O microcrédito possibilita que os pobres saiam da situação de pobreza por meio do seu próprio esforço, proporcionando-lhes os meios financeiros para que realizem o seu potencial empreendedor. Durante esse processo, eles adquirem independência e autorrespeito, já que não se apoiam mais nos donativos do governo e dos organismos internacionais de ajuda externa. As mulheres pobres são particularmente fortalecidas pelo microcrédito, já que ele confere a elas a capacidade de ter uma renda própria e portanto melhorar a sua posição de barganha vis-à-vis com os seus parceiros do sexo masculino. Sem precisar financiar os pobres, o governo sofre menos pressão no seu orçamento. Naturalmente, a riqueza criada nesse processo torna mais rica a economia como um todo, e não apenas os empresários do setor informal. Considerando-se tudo isso, é compreensível que o Professor Yunus acredite que, com a ajuda das microfinanças, possamos criar “um mundo livre da pobreza [no qual o] único lugar em que veremos a pobreza será no museu”.

Em meados da década de 2000, a popularidade das microfinanças alcançou um nível de exaltação febril. As Nações Unidas chamaram o ano de 2005 de Ano Internacional do Microcrédito, que recebeu a aprovação da realeza, como a da Rainha Rania da Jordânia, e também de celebridades, como as atrizes Natalie Portman e Aishwarya Rai. A ascendência das microfinanças atingiu o auge em 2006, quando o Prêmio Nobel da Paz foi concedido em conjunto ao Professor Yunus e ao seu Grameen Bank.

A grande ilusão

Lamentavelmente, a “badalação” em torno das microfinanças é, bem, apenas isso — badalação. As críticas às microfinanças estão aumentando, até mesmo da parte dos seus primeiros “sacerdotes”. Por exemplo, em um recente trabalho em colaboração com David Roodman, Jonathan Morduch, antigo defensor das microfinanças, confessa que “surpreendentemente, trinta anos depois da criação do movimento das microfinanças, temos poucas evidências concretas de que ela melhore a vida dos clientes de uma maneira mensurável”. [13] Os problemas são numerosos demais para ser relacionados aqui; quem estiver interessado pode ler o fascinante livro de Milford Bateman publicado recentemente, Why Doesn’t Microfinance Work? [14] No entanto, os mais relevantes para a nossa análise são os que se seguem.

A indústria das microfinanças sempre alardeou que as suas operações permanecem lucrativas sem subsídios do governo ou contribuições de doadores internacionais, exceto talvez na fase inicial de desenvolvimento. Alguns usaram isso como uma evidência de que os pobres são tão capazes quanto qualquer outra pessoa de atuar no mercado, desde que tenham essa possibilidade. No entanto, acontece que, sem subsídios dos governos ou de doadores internacionais, as instituições de microfinanças precisam cobrar, e vêm cobrando, taxas quase iguais às dos agiotas. Foi revelado que o Grameen Bank pôde cobrar inicialmente taxas de juros razoáveis apenas por causa dos subsídios que estava recebendo do governo de Bangladesh e de doadores internacionais (fato que foi abafado). Se não forem subsidiadas, as instituições de microfinanças precisam cobrar taxas de juros de, tipicamente, 40 a 50% ao ano pelos seus empréstimos, com as taxas atingindo patamares de 80 a 100% em países como o México. Quando, no final da década de 1990, o Grameen Bank sofreu uma grande pressão para abrir mão dos subsídios, ele teve que se relançar (em 2001) e começar a cobrar taxas de juros de 40 a 50%.

Com taxas de juros que chegam a 100%, poucos negócios podem lucrar o bastante para pagar os empréstimos, de modo que quase todos os empréstimos feitos pelas instituições de microfinanças (em alguns casos quase 90% deles) foram usados com a finalidade de consumption smoothing — pessoas tomando empréstimos para pagar o casamento da filha ou compensar uma queda temporária da renda devido à doença de um membro da família que trabalha. Em outras palavras, a maior parte do microcrédito não é usada para alimentar o empreendedorismo dos pobres, a suposta meta da prática, e sim para financiar o consumo.

O mais importante é que nem mesmo a pequena parte do microcrédito que é direcionada para atividades comerciais não está tirando as pessoas da pobreza. A princípio, isso parece inexplicável. Os pobres que aceitam o microcrédito sabem o que estão fazendo. Ao contrário dos seus equivalentes nos países ricos, a maioria deles já administrou algum tipo de negócio. As suas habilidades comerciais foram extremamente aprimoradas pelo desespero de sobreviver e pelo desejo de deixar de ser pobres. Eles precisam gerar lucros muito elevados porque têm que pagar a taxa de juros do mercado. O que então está saindo errado? Por que todas essas pessoas — altamente motivadas, possuidoras de relevantes habilidades e fortemente pressionadas pelo mercado — estão fazendo um esforço tão grande nos seus empreendimentos comerciais e produzindo resultados tão escassos?

Quando uma instituição de microfinanças começa a operar em uma localidade, o primeiro grupo de clientes poderá presenciar um aumento na sua renda, às vezes substancial. Por exemplo, em 1997, quando o Grameen Bank se associou à Telenor, a companhia telefônica norueguesa, e concedeu microempréstimos às mulheres para que comprassem um telefone celular e o alugassem para as pessoas da sua aldeia, essas “damas do telefone” obtiveram lucros consideráveis — de 750 a 1.200 dólares por ano em um país cuja renda per capita média estava em torno de 300 dólares. No entanto, com o tempo, os negócios financiados pelo microcrédito ficaram apinhados e os lucros começaram a cair. Voltando ao caso do telefone do Grameen; em 2005, as damas do telefone eram tão numerosas que estimava-se que a renda delas fosse de apenas 70 dólares por ano, embora a renda média anual tivesse subido para mais de 450 dólares. Esse problema é conhecido como a “falácia da composição” — o fato de algumas pessoas conseguirem ter sucesso com um negócio particular não quer dizer que todo mundo consiga ser bem-sucedido.

É claro que esse problema não existiria se novas linhas de negócios pudessem ser constantemente desenvolvidas — se uma linha de atividade se torna não lucrativa, por exemplo, simplesmente abrimos outra. Se, por exemplo, alugar telefones se torna menos lucrativo, você poderia manter o seu nível de renda fabricando telefones celulares ou programando o software de jogos para telefones celulares. Obviamente você deve ter percebido o absurdo dessas sugestões; as damas do telefone de Bangladesh simplesmente não têm os recursos para entrar no ramo de fabricação de telefones ou do design de software. O problema é que existe apenas um leque limitado de atividades (simples) às quais os pobres dos países em desenvolvimento podem se dedicar, devido às suas habilidades limitadas, à pequena variedade de tecnologias disponíveis e à reduzida quantidade de financiamento que eles podem mobilizar por meio das microfinanças. Portanto, você, um pecuarista croata, que comprou mais uma vaca leiteira por intermédio do microcrédito, continua apenas a vender leite enquanto observa o preço do leite despencar no mercado de leite local por causa dos trezentos outros pecuaristas como você que também estão vendendo uma maior quantidade de leite, porque se tornar um exportador de manteiga para a Alemanha ou de queijo para a Grã-Bretanha simplesmente não é possível com a tecnologia, a capacidade organizacional e o capital que você tem.

Não existem mais heróis

A nossa discussão até aqui mostra que o que torna pobres os países pobres não é a falta de uma energia empreendedora individual, o que eles têm na verdade em abundância. A questão é que o que realmente torna ricos os países ricos é a capacidade deles de canalizar a energia empreendedora individual para o empreendedorismo coletivo.

Extremamente influenciada pelo folclore capitalista, com personagens como Thomas Edison e Bill Gates, bem como pelo trabalho pioneiro de Joseph Schumpeter, o professor austríaco de economia de Harvard, a nossa visão do empreendedorismo é excessivamente afetada pela perspectiva individualista; o empreendedorismo é o que fazem essas pessoas heroicas com uma visão e determinação excepcionais. Por extensão, acreditamos que qualquer pessoa, desde que se esforce bastante, pode ter êxito nos negócios. No entanto, mesmo que um dia possa ter sido verdadeira, essa visão individualista do empreendedorismo está se tornando cada vez mais obsoleta. No decurso do desenvolvimento capitalista, o empreendedorismo tornou-se um empreendimento cada vez mais coletivo.

Para começar, até mesmo indivíduos excepcionais como Edison e Gates só alcançaram êxito porque estavam respaldados por várias instituições coletivas: toda a infraestrutura científica que possibilitou que eles adquirissem o seu conhecimento e que também fizessem experiências com ele; as leis empresariais e outras leis comerciais que tornaram possível que eles subsequentemente criassem empresas com grandes e complexas organizações; o sistema educacional que forneceu cientistas, engenheiros, administradores e trabalhadores altamente treinados que compunham a mão de obra dessas companhias; o sistema financeiro que possibilitou que eles levantassem um grande capital quando desejaram se expandir; as leis de patente e de direitos autorais que protegeram as suas invenções; o mercado facilmente acessível para os seus produtos e assim por diante.

Além disso, nos países ricos, os empreendimentos cooperam muito mais entre si do que o fazem os seus equivalentes nos países pobres, mesmo quando atuam em indústrias semelhantes. Por exemplo, os setores de laticínios em países como a Dinamarca, a Holanda e a Alemanha se tornaram o que são hoje apenas porque os seus pecuaristas se organizaram em cooperativas, com a ajuda do Estado, e investiram em conjunto em recursos de processamento (p. ex., máquinas de fazer creme) e no mercado internacional. Em contrapartida, os setores de laticínios dos países dos Bálcãs não conseguiram se desenvolver apesar de uma grande quantidade de microcrédito ter sido canalizada para eles, porque todos os seus pecuaristas leiteiros tentaram fazer tudo sozinhos. Em outro exemplo, muitas pequenas firmas na Itália e na Alemanha investiram conjuntamente em P&D, e também no marketing de exportação, coisas que estão além dos seus recursos individuais, por meio de associações industriais (auxiliadas por subsídios do governo), ao passo que as típicas firmas dos países em desenvolvimento não investem nessas áreas porque elas não possuem esse mecanismo coletivo.

Mesmo no nível da empresa, o empreendedorismo se tornou altamente coletivo nos países ricos. Hoje, poucas companhias são dirigidas por visionários carismáticos como Edison ou Gates, e sim por gestores profissionais. Ao escrever em meados do século XX, Schumpeter já estava consciente dessa tendência, embora não estivesse nem um pouco satisfeito com relação a ela. Ele observou que a crescente escala das modernas tecnologias estava tornando cada vez mais impossível que uma grande empresa fosse fundada e administrada por um empresário visionário individual. Schumpeter previu que a substituição dos empresários heroicos por aqueles que ele chamava de “tipos executivos” sugaria o dinamismo do capitalismo, provocando, com o tempo, o seu fim.

Schumpeter se revelou errado nesse aspecto. Ao longo do último século, o empresário heroico se tornou cada vez mais uma raridade e o processo da inovação de produtos, processos e marketing — os elementos-chave do empreendedorismo de Schumpeter — assumiu uma natureza cada vez mais “coletivista”. No entanto, apesar disso, a economia mundial cresceu muito mais rápido a partir da Segunda Guerra Mundial, em comparação com o período que antecedeu a ela. No caso do Japão, as empresas até mesmo desenvolveram mecanismos institucionais para tirar partido da criatividade de até mesmo dos mais humildes trabalhadores da linha de produção. Muitos atribuem o sucesso das empresas japonesas, pelo menos em parte, a essa característica.

Se o empreendedorismo eficaz um dia foi uma coisa puramente individual, ele já deixou de sê-lo pelo menos durante o último século. A capacidade coletiva de construir e administrar organizações e instituições eficazes é hoje muito mais importante do que os impulsos ou até mesmo dos talentos dos membros individuais de uma nação na determinação da sua prosperidade. A não ser que rejeitemos o mito dos empresários heroicos individuais e os ajudemos a construir instituições e organizações de empreendedorismo coletivo, nunca veremos os países pobres sair da pobreza de uma forma sustentável.


Os Salários das Pessoas nos Países Ricos é Determinado Pela Sua Maior Produtividade Individual?

O que eles dizem

Em uma economia de mercado, as pessoas são remuneradas de acordo com a sua produtividade. As pessoas de coração mole podem ter dificuldade em aceitar que um sueco ganha cinquenta vezes mais do que um indiano para fazer o mesmo serviço, mas isso é um reflexo da produtividade relativa de cada um. As tentativas de reduzir artificialmente essas diferenças — por exemplo, por meio da introdução de uma lei do salário mínimo na Índia — resultou na remuneração ineficiente do talento e do esforço individuais. Somente um mercado onde a mão de obra é livre pode remunerar as pessoas de uma maneira eficiente e justa.

O que eles não dizem

A defasagem salarial entre os países ricos e pobres não existe principalmente por causa de diferenças na produtividade individual e sim devido ao controle da imigração. Se a imigração fosse livre, a maioria dos trabalhadores nos países ricos poderia ser, e efetivamente seria, substituída por trabalhadores dos países pobres. Em outras palavras, os salários são determinados politicamente. O outro lado da moeda é que os países pobres não são pobres por causa das pessoas pobres, muitas das quais são capazes de superar competitivamente os seus equivalentes nos países ricos, mas sim por causa das pessoas ricas, cuja maioria não pode fazer o mesmo. No entanto, isso não significa que os ricos nos países ricos possam parabenizar a si mesmos pela sua genialidade individual. Essa elevada produtividade só é possível por causa das instituições historicamente herdadas nas quais eles se apoiam. Para que possamos construir uma sociedade verdadeiramente justa, precisamos rejeitar o mito de que todos somos pagos de acordo com o nosso valor individual.

Dirigir sempre em linha reta… ou desviar-se da vaca (e do riquixá também)

Um motorista de ônibus em Nova Délhi recebe 18 rupias por hora. O seu equivalente em Estocolmo recebe cerca de 130 coroas, o que, no verão de 2009, equivalia mais ou menos a 870 rupias. Em outras palavras, o motorista sueco tem uma remuneração quase cinquenta vezes superior à do seu equivalente indiano.

A economia do livre mercado nos diz que se uma coisa é mais dispendiosa do que outro produto semelhante, a primeira deve ser melhor. Em outras palavras, nos livres mercados, os produtos (entre eles os serviços de mão de obra) recebem o que merecem. Portanto, se um motorista sueco — vamos chamá-lo de Sven — recebe um salário cinquenta vezes maior do que um motorista indiano — vamos chamá-lo de Ram —  deve ser porque Sven é um motorista de ônibus cinquenta vezes mais produtivo do que Ram.

A curto prazo, admitirão alguns (embora não todos) economistas que defendem o livre mercado, as pessoas podem pagar um preço excessivamente elevado por um produto devido a uma moda ou mania passageira. Por exemplo, as pessoas pagaram preços absurdos pelos “ativos tóxicos” no recente boom financeiro (que se transformou na maior recessão desde a Grande Depressão) porque foram apanhados em um delírio especulativo. No entanto, argumentariam esses economistas, esse tipo de coisa não pode durar muito, já que, mais cedo ou mais tarde, as pessoas acabam descobrindo o verdadeiro valor das coisas. Do mesmo modo, mesmo que um trabalhador insuficientemente qualificado consiga um emprego bem remunerado por meio do logro (p. ex., falsificando um diploma) ou blefando em uma entrevista, ele será rapidamente demitido e substituído, porque logo ficará óbvio que a sua produtividade não justifica o seu salário. Portanto, prossegue o raciocínio, se Sven está recebendo uma remuneração cinquenta vezes mais elevada do que a de Ram, ele precisa estar produzindo cinquenta vezes mais do que Ram.

Mas é isso que realmente está acontecendo? Para começar, é possível que uma pessoa dirija cinquenta vezes melhor do que outra? Mesmo que, de algum modo, conseguirmos descobrir uma maneira de medir quantitativamente a qualidade da direção, esse tipo de discrepância na produtividade da direção é possível? Talvez seja, se compararmos pilotos de corrida profissionais como Michael Schumacher ou Lewis Hamilton com um determinado rapaz de 18 anos que tenha acabado de passar no exame de motorista. Entretanto, simplesmente não consigo imaginar como um motorista de ônibus comum possa dirigir cinquenta vezes melhor do que outro.

Além disso, na verdade, Ram provavelmente seria um motorista muito mais habilidoso do que Sven. É claro que este último pode ser um bom motorista de acordo com os padrões suecos, mas por acaso ele já precisou se desviar de uma vaca alguma vez na vida, algo que Ram tem que fazer regularmente? Na maior parte do tempo, a única coisa que é requerida de Sven é a capacidade de dirigir em linha reta (tudo bem, excetuando-se algumas manobras evasivas para escapar dos motoristas embriagados nas noites de sábado), enquanto Ram precisa transpor com dificuldade praticamente cada minuto do percurso, passando por carros de boi, riquixás e bicicletas cobertas por pilhas de engradados de três metros de altura. Assim, de acordo com a lógica do livre mercado, Ram deveria ganhar mais do que Sven, e não ao contrário.

Como resposta, um economista que defenda o livre mercado poderia argumentar que Sven é mais bem remunerado porque tem mais “capital humano”, ou seja, habilidades e conhecimento acumulados por meio da instrução e do treinamento. Na realidade, é praticamente certo que Sven concluiu o ensino médio, tendo doze anos de escolaridade no seu currículo, enquanto Ram provavelmente mal sabe ler e escrever, tendo completado apenas cinco anos de estudos na sua aldeia no Rajastão.

No entanto, apenas uma pequena parte do capital humano adicional que Sven adquiriu nos seus sete anos suplementares de escolaridade seria relevante para dirigir um ônibus. Ele não precisa de nenhum conhecimento sobre cromossomos humanos ou sobre a guerra que a Suécia travou com a Rússia em 1809 para dirigir bem o seu ônibus. Por conseguinte, o capital humano adicional de Sven não é capaz de explicar o motivo pelo qual ele recebe um salário cinquenta vezes superior ao de Ram.

Falando sem rodeios, a principal razão pela qual Sven ganha cinquenta vezes mais do que Ram é o protecionismo; os trabalhadores suecos são protegidos da concorrência dos trabalhadores da Índia e de outros países pobres por meio do controle da imigração. Pensando bem, não existe nenhum motivo pelo qual todos os motoristas de ônibus suecos ou, por sinal, a maior parte da força de trabalho sueca (e a de qualquer outro país rico), não poderiam ser substituídos por alguns indianos, chineses ou ganenses. A maioria desses estrangeiros ficaria feliz se ganhasse uma fração dos salários pagos aos trabalhadores suecos, enquanto todos seriam capazes de executar o trabalho da mesma maneira, ou até mesmo com mais competência. E não estamos falando apenas de trabalhadores não especializados como faxineiros e garis. Um número enorme de engenheiros, bancários e programadores de computador está esperando em Xangai, Nairóbi e Quito, todos capazes de facilmente substituir os seus equivalentes em Estocolmo, Linköping e Malmö. No entanto, esses trabalhadores não podem entrar no mercado de trabalho sueco porque não podem migrar livremente para a Suécia devido ao controle da imigração. Como resultado, os trabalhadores suecos podem receber cinquenta vezes a remuneração dos trabalhadores indianos, apesar do fato de que muitos não apresentam uma taxa de produtividade mais elevada do que a dos trabalhadores indianos.

O elefante na sala

A nossa história sobre os motoristas de ônibus revela a existência do proverbial elefante na sala. Ela demonstra que o padrão de vida da grande maioria das pessoas nos países ricos depende decisivamente da existência de um controle extremamente rigoroso dos mercados de trabalho — o controle da imigração. Apesar disso, este último é invisível para muitos e deliberadamente desconsiderado por outros, quando falam sobre as virtudes do livre mercado.

Já argumentei que o livre mercado na realidade não existe [15], mas o exemplo do controle da imigração revela a extensão da regulamentação do mercado que temos em economias supostamente de livre mercado que deixamos de perceber.

Enquanto se queixam da legislação do salário mínimo, da regulamentação das horas de trabalho e de várias barreiras “artificiais” ao ingresso no mercado de trabalho impostas pelos sindicatos, poucos economistas chegam a mencionar o controle da imigração como uma das desagradáveis regulamentações que obstruem o funcionamento do mercado da mão de obra livre. Praticamente nenhum deles defende a extinção do controle da imigração. No entanto, para serem coerentes, eles deveriam também defender a livre imigração. O fato de que poucos deles fazem isso uma vez mais demonstra o meu ponto de vista que expus anteriormente, [ver nota 15] ou seja, que o limite do mercado é politicamente determinado e que os economistas que defendem o livre mercado são tão “políticos” quanto aqueles que desejam regulamentar os mercados.

É claro que ao criticar a contradição dos economistas que defendem o livre mercado com relação ao controle da imigração, não estou defendendo que o controle da imigração deveria ser extinto; não preciso fazer isso porque (como você já deve ter percebido a esta altura) não sou um economista que defende o livre mercado.

Os países têm o direito de decidir o número de imigrantes que aceitam e em que partes do mercado de trabalho eles poderão atuar. [16] Todas as sociedades têm uma capacidade limitada de absorver imigrantes, os quais, com frequência, possuem uma herança cultural diferente, e seria errado exigir que um país ultrapassasse esse limite. Uma entrada excessivamente rápida de imigrantes não apenas provocaria um aumento repentino na concorrência pelos empregos como também dilataria as infraestruturas físicas e sociais, como a moradia e o sistema de saúde, criando uma tensão com a população residente. Igualmente importante, se bem que não tão facilmente identificável, é a questão na identidade nacional. Existe o mito — um mito necessário, mas mesmo assim um mito — de que as nações possuem uma identidade nacional imutável que não pode, e não deve, ser modificada. Não obstante, se um número excessivo de imigrantes entrar no país ao mesmo tempo, a sociedade receptora terá problemas para criar uma nova identidade nacional, sem a qual ela poderá ter dificuldade para manter a coesão social. Isso significa que a velocidade e a proporção da imigração precisam ser controladas.

Isso não quer dizer que as atuais políticas de imigração dos países ricos não possam ser melhoradas. Embora a capacidade de qualquer sociedade de absorver imigrantes seja limitada, não é como se a população total fosse fixa. As sociedades podem decidir ser mais, ou menos, abertas a imigrantes adotando atitudes e políticas sociais diferentes com relação à imigração. Além disso, no que diz respeito à composição dos imigrantes, quase todos os países ricos estão aceitando um número excessivo de pessoas “erradas” do ponto de vista dos países em desenvolvimento. Alguns países praticamente vendem os seus passaportes por meio de esquemas nos quais aqueles que levam consigo mais do que uma certa quantidade de “investimentos” são aceitos mais ou menos de imediato. Esse esquema só faz contribuir para a escassez de capital de que se ressentem a maioria dos países em desenvolvimento. Os países ricos também contribuem para a evasão de intelectualidade dos países em desenvolvimento ao aceitar com mais boa vontade as pessoas mais qualificadas. Estas são exatamente as pessoas que poderiam ter contribuído mais para o desenvolvimento dos seus países de origem do que os imigrantes não especializados, se tivessem permanecido no seu país natal.

Os países pobres são pobres por causa dos seus pobres?

A nossa história sobre os motoristas de ônibus não apenas desmascara o mito de que todo mundo recebe uma remuneração justa, de acordo com o seu valor em um livre mercado, como também nos oferece um vislumbre importante com relação à causa da pobreza nos países em desenvolvimento.

Muitas pessoas acham que os países pobres são pobres por causa dos seus pobres. Na realidade, as pessoas ricas nos países pobres tipicamente atribuem a pobreza do seu país à ignorância, à preguiça e à passividade dos pobres. Se ao menos os seus compatriotas trabalhassem como os japoneses, acompanhassem o ritmo dos alemães e fossem inventivos como os americanos — muitas dessas pessoas lhe diriam, se você estivesse disposto a ouvi-las — o seu país seria rico.

Do ponto de vista aritmético, é verdade que são os pobres que puxam para baixo a receita global média do país. No entanto, os ricos dos países pobres praticamente não se dão conta de que o seu país é pobre não por causa dos pobres, mas por causa deles próprios. Voltando ao exemplo do motorista de ônibus, a principal razão pela qual Sven ganha cinquenta vezes mais do que Ram é o fato de que ele compartilha o seu mercado de trabalho com outras pessoas que são cinquenta vezes mais produtivas do que os seus equivalentes indianos.

Mesmo que o salário médio na Suécia seja cerca de cinquenta vezes mais elevado do que o salário médio na Índia, os suecos de um modo geral certamente não são cinquenta vezes mais produtivos do que os seus equivalentes indianos. Muitos deles, inclusive Sven, são provavelmente menos qualificados, mas existem alguns suecos — os executivos de alto nível, cientistas e engenheiros de empresas líderes no mundo como a Ericsson, a Saab e a SKF — que são centenas de vezes mais produtivos do que os seus equivalentes indianos, de modo que a produtividade nacional média acaba se situando em torno de cinquenta vezes a da Índia.

Em outras palavras, os pobres dos países pobres em geral conseguem ficar à altura dos seus equivalentes nos países ricos. São os ricos dos países pobres que não conseguem fazer isso. É a sua baixa produtividade relativa que faz com que os seus países sejam pobres, de modo que o seu diatribe costumeiro de que os seus países são pobres por causa dos pobres é totalmente inapropriado. Em vez de culpar os seus pobres por arrastar o país para baixo, os ricos dos países pobres deveriam perguntar a si mesmos por que eles não conseguem puxar para cima o resto do seu país como fazem os ricos dos países ricos.

Finalmente, uma palavra de advertência para os ricos dos países ricos, para que não fiquem presunçosos ao escutar que é a sua produtividade elevada, aliada ao controle da imigração, que faz com que os pobres dos seus países sejam bem pagos.

Até mesmo em setores nos quais as pessoas dos países ricos são genuinamente mais produtivas do que os seus equivalentes nos países pobres, essa produtividade se deve, em grande parte, ao sistema, e não aos indivíduos em si. Não é simplesmente, e nem mesmo principalmente, pelo fato de serem mais inteligentes e mais instruídas que algumas pessoas nos países ricos são centenas de vezes mais produtivas do que os seus equivalentes nos países pobres. Elas conseguem isso porque vivem em economias que têm melhores tecnologias, empresas mais organizadas, melhores instituições e uma infraestrutura de melhor qualidade — coisas que são, em grande parte, produto de ações coletivas praticadas ao longo de gerações. Warren Buffet, o famoso financista, expressou belamente este argumento, ao declarar o seguinte em uma entrevista na televisão em 1995: “Creio pessoalmente que a sociedade seja responsável por um percentual significativo do que eu ganhei. Se me colocarem no meio de Bangladesh, do Peru ou de outro lugar semelhante, vocês descobrirão quanto este talento irá produzir no tipo errado de solo. Daqui a trinta anos ainda estarei tendo dificuldades. Atuo em um sistema de mercado que recompensa muito bem o que eu faço, na verdade desproporcionalmente bem.”

Portanto, estamos na verdade de volta onde começamos. A remuneração de uma pessoa não é completamente um reflexo do seu valor. A maioria das pessoas, tanto nos países pobres quanto nos ricos, só ganha o que ganha devido ao controle da imigração. Até mesmo os cidadãos dos países ricos que não podem ser facilmente substituídos por imigrantes, podendo-se dizer, portanto, que eles realmente recebem o que valem (embora possam não receber [17]), são tão altamente produtivos apenas por causa do sistema socioeconômico no qual atuam. Não é somente devido à sua genialidade individual que eles são extremamente produtivos.

A afirmação amplamente aceita de que somente se não interferirmos nos mercados as pessoas serão remuneradas corretamente e, portanto, de uma maneira justa, é um mito. Somente quando nos desfizermos desse mito e compreendermos tanto a natureza política do mercado quanto a natureza coletiva da produtividade individual seremos capazes de construir uma sociedade mais justa na qual legados históricos e ações coletivas, e não apenas o talento e o esforço individual, sejam adequadamente levados em conta na decisão de como remunerar as pessoas.

“23 Coisas que nãos nos contaram sobre o Capitalismo”

Ha-Joon Chang, 2010 – tradução de Claudia Gerpe Duarte – Editora Pensamento-Cultrix


Notas

[1] Os artigos acima foram publicados originalmente com os títulos “Mais instrução por si só não tornará um país mais rico”, “As pessoas nos países pobres são mais empreendedoras do que as pessoas nos países ricos” e “O salário da maioria das pessoas nos países ricos é maior do que deveria ser”.  A afirmação do último título pode parecer especialmente controversa, mas a ideia não é de que os salários deveriam ser menores como uma recomendação ou pelo julgamento do autor, mas sim no caso de considerarmos a produtividade como uma característica individual, não social e que o mercado deve regular “livremente” essa relação. [N.M.]

[2]  J. Samoff, “Education for all in Africa: Still a distant dream” [“Educação Para Todos na África: Ainda Um Sonho Distante”] in R. Arnove e C. Torres (orgs.), “Comparative Education – The Dialectic of the Global and the Local” [“Educação Comparativa – A Dialética do Global e do Local”] (Rowman e Littlefield Publishers Inc., Lanham, Maryland, 2007), p. 361, tabela 16.3.

[3] Tradução literal: “Para onde foi toda a instrução?” (N. da trad.)

[4] L. Pritchett, “Where has all the education gone?”, The World Bank Economic Review, 2001, vol. 13, no 3.

[5] A. Wolf, “Does Education Matter?” [“A Educação Importa?”] (Penguin Books, Londres, 2002), p. 42.

[6] Na oitava série, os Estados Unidos ultrapassou a Lituânia, mas continuou atrás da Rússia e da Hungria; a pontuação para alunos da quarta série na Hungria e para alunos da oitava série na Letônia e no Cazaquistão não está disponível.

[7] Os outros países europeus foram, na ordem de classificação no teste, Alemanha, Dinamarca, Itália, Áustria, Suécia, Escócia e Noruega. Ver o website do National Center for Educational Statistics do US Department of Education Institute of Education Sciences, http://nces.ed.gov/timss/table07_1.asp.

[8] Os outros países ricos foram, na ordem de classificação no teste, Japão, Inglaterra, Estados Unidos, Austrália, Suécia, Escócia e Itália. Ver o website da nota anterior.

[9] Os trabalhos mais influentes dessa escola de pensamento foram Labor and Monopoly Capital: The Degradation of Work in the Twentieth Century [“Trabalho e Capital Monopolista: A Degradação do Trabalho no Século XX”] de Harry Braverman (Monthly Review Press, Nova York, 1974) e “What do bosses do?’ [“O Que Fazem os Chefes?”] de Stephen Marglin, publicado em duas partes em The Review of Radical Political Economy em 1974 e 1975.

[10] Wolf, op. cit., p. 264.

[11] Mais detalhes sobre a questão da classificação e muitos outros comentários reveladores sobre o papel da instrução no desenvolvimento econômico são encontrados em Wolf, op. cit.

[12] OCDE, “Is informal normal? — Towards more and better jobs in developing countries” [“O Informal é Normal? – Rumo a Mais e Melhores Empregos nos Países em Desenvolvimento”], 2009.

[13] D. Roodman e J. Morduch, “The impact of microcredit on the poor in Bangladesh: Revisiting the evidence” [“O Impacto do Microcrédito Sobre os Pobres em Bangladesh: Revisitando as Evidências”], 2009, documento de trabalho, no 174, Center for Global Development, Washington, DC.

[14] M. Bateman, “Why Doesn’t Microfinance Work?” [“Por Que as Microfinanças Não Funcionam?”] (Zed Books, Londres, 2010).

[15] Ver Existe Mesmo Algo Como Um “Livre-Mercado”?. Para mais textos sobre diferentes aspectos da defesa de um “livre mercado”, ver a coletânea Sobre Mercados, Liberalismo Econômico e Neoliberalismo [Leituras Temáticas #2] [N.M.]

[16] Essa não é a posição d’O Minhocário, entretanto. Claro, enquanto existirem as fronteiras e divisões nacionais, a argumentação de Ha-Joon Chang nesse parágrafo tem fundamento, mas para nós o objetivo deve ser a superação dessas divisões e a criação de condições para que possa sim existir uma livre circulação das pessoas ao redor do globo, sem que isso resulte em problemas e piora de qualidade de vida para ninguém. Claro que esse é um projeto de longo prazo, que no limite envolve a própria superação do Capitalismo, mas esse também não deixa de ser um dos objetivos do blog.  [N.M.]

[17] — ver pp. 206-217 do livro.


Leituras Relacionadas

  • Sobre Mercados, Liberalismo Econômico e Neoliberalismo [Leituras Temáticas #2]
  • Sobre Capitalismo  – O que é? Quais são suas características, problemas e limites? [Leituras Temáticas #1]
  • O Livre-Mercado Faz Países Pobres Ficarem Ricos? [Ha-Joon Chang] –  “Os supostos lares do livre comércio e do livre mercado ficaram ricos por meio da combinação do protecionismo, subsídios e outras políticas que hoje eles aconselham os países em desenvolvimento a não adotar. As políticas de livre mercado tornaram poucos países ricos até agora e poucos ficarão ricos por causa dela no futuro.”
  • Existe Mesmo Algo Como um Livre-Mercado? [Ha-Joon Chang] – Todo mercado tem algumas regras e limites que restringem a liberdade de escolha. O mercado só parece livre porque estamos tão condicionados a aceitar as suas restrições subjacentes que deixamos de percebê-las.
  • O Mercado é Mesmo Bom? [Luis Felipe Miguel] – Há um elemento comum, nas manifestações recentes da direita: o discurso de que o Estado deve recuar e o mercado deve regular uma porção maior das interações humanas. Se a lógica do mercado opera, dizem eles, no final das contas todos ganham. Será que é mesmo assim?
  • Bebês de Fraldas Vermelhas – [Megan Erickson] Nos EUA a escola é a preparação para a “vida real”. Nos primórdios da União Soviética a escola estava cheia de vida.
  • O Capitalismo Está Arruinando a Ciência [Meagan Day e Cold Dark Stars] – Os incentivos de mercado aplicados ao ambiente universitário, com exigências cada vez mais rigorosas em publicações, financiamento, patentes, etc, juntamente do crescimento da fragmentação do conhecimento em campos cada vez mais isolados entre si e com exigências crescentes de complexidade informacional e distância cada vez maior em relação à realidade concreta criam uma situação que ameaça sua imagem como espaço para a busca de respostas para nossos problemas como sociedade, a construção de conhecimento coletivo, a própria integridade do empreendimento científico. 
  • Uma Filosofia Para o Proprietariado [Rob Hunter] – O “Libertarianismo” não oferece solução alguma para a política plutocrática de hoje em dia – não passa de uma rejeição reacionária à luta política.
  • Neoliberalismo, A Ideologia na Raiz de Nossos Problemas [George Monbiot] – “Crise financeira, desastre ambiental e mesmo a ascensão de Donald Trump – o Neoliberalismo,  a ideologia dominante no ‘Ocidente’ desde os anos 80, desempenhou seu papel em todos eles. Como surgiu e foi adotado pelas elites a ponto de tornar-se invisível e difuso? Por que a Esquerda fracassou até agora em enfrentá-lo?”
  • Desabamento Contínuo: Neoliberalismo Como Estágio da Crise Capitalista, Rendição Social-Democrata, Revolta Popular Recente e as Aberturas à Esquerda [Robert Brenner] – Na fase atual do neoliberalismo, o capitalismo não é mais capaz de garantir crescimento e desenvolvimento semelhantes aos estágios anteriores. Nem mesmo se mostra capaz de garantir condições de vida aos trabalhadores e, assim, assegurar seu apoio ao sistema – passando a depender cada vez mais do medo imposto sobre os mesmos sobre a perda de seus empregos, sobre o futuro, e sobre repressão – e despertando revolta de massa à Esquerda e à Direita. O que se segue é uma tentativa inicial e muito parcial de apresentar como entendemos o panorama político de hoje; uma série de suas características notáveis; as aberturas que se apresentam aos movimentos e à Esquerda; e os problemas que a Esquerda enfrenta.
  • Como Vai Acabar o Capitalismo? [Wolfgang Streeck] – “O epílogo de um sistema em desmantêlo crônico: A legitimidade da ‘democracia’ capitalista se baseava na premissa de que os Estados eram capazes de intervir nos mercados e corrigir seus resultados, em favor dos cidadãos; hoje, as dúvidas sobre a compatibilidade entre uma economia capitalista e um sistema democrático voltaram com força total.”
  • Como Matar Um Zumbi: Elaborando Estratégias Para o Fim do Neoliberalismo [Mark Fisher] – “Uma ideologia que prometia nos libertar da burocracia estatal socialista tem, ao invés, imposto uma burocracia própria sua. Isso só parece um paradoxo se tomarmos o neoliberalismo em suas próprias palavras.
  • Não Há Alternativa? [István Mészáros] – “Para muita gente, a presente situação parece fundamentalmente inalterável. Esta impressão parece ser reforçada por um dos slogans políticos mais frequentemente repetidos pelos que tomam as decisões por nós: ‘não há outra alternativa.’ Contudo, a dedicação de nossos líderes políticos ao avanço dos imperativos do sistema do capital não elimina suas deficiências estruturais e seus antagonismos potencialmente explosivos. Descobrir uma saída do labirinto das contradições do sistema do capital global por meio de uma transição sustentável para uma ordem social muito diferente é, portanto, mais imperativo hoje do que jamais o foi, diante da instabilidade cada vez mais ameaçadora.”
  • O Ano em Que o Capitalismo Real Mostrou a Que Veio [Jerome Roos] – “Tudo que nós um dia deveríamos temer sobre o socialismo — desde repressão estatal e vigilância em massa até padrões de vida em queda — aconteceu diante de nossos olhos
  • Realismo Capitalista e a Exclusão do Futuro [Mark Fisher] – “O fracasso do futuro assombra o capitalismo: depois de 1989, a vitória do capitalismo não consistiu na sua reivindicação confiante do futuro, mas em negar que o futuro é possível. Tudo o que podemos esperar, temos sido levados a acreditar, é mais do mesmo – mas em telas de resolução mais alta com conexões mais rápidas. A assombralogia, penso, expressa insatisfação com esta exclusão do futuro. […]  Parte da batalha agora será para garantir que o neoliberalismo seja percebido como morto. Acho que isso já está acontecendo. Há uma mudança nas atmosferas culturais, pequena no momento, mas vai crescer.”
  • Neoliberalismo, Ordem Contestada [Perry Anderson] – “O sistema sofre pressão inédita – pela Esquerda e pela Direita – mas resiste, apoiando-se no medo. Por que o populismo retrógrado ainda é mais forte? Como mudar o jogo?”
  • Sua Majestade, a Teoria Econômica [David Harvey] – “Aqui temos a crise econômica e financeira mais espetacular em décadas e o grupo que passa a maior parte de suas horas ativas analisando a economia basicamente não a enxergou.”
  • O Que Acontece Quando Você Acredita em Ayn Rand e na Teoria Econômica Moderna [Denise D. Cummins] – “E se as pessoas se comportassem de acordo com a filosofia do “objetivismo” de Rand? E se nós de fato nos permitíssemos ser cegos a tudo, menos nosso próprio interesse?”
  • Bill Gates e os 4 Bilhões na Pobreza [Michael Roberts] – “A pobreza global está caindo ou crescendo? Sabe-se que a desigualdade global vem aumentando rapidamente nas últimas décadas, mas muitos defensores do capitalismo se apressam para nos afirmar que, apesar disso, nunca estivemos melhor. Será mesmo?
  • Uma Criança Que Morre de Fome Hoje é Assassinada [Jean Ziegler, entrevistado por Leonardo Cazes] – “Relator da ONU para o direito à alimentação entre 2000 e 2008, Jean Ziegler procura explicar por que ainda existe fome se a produção agrícola mundial é suficiente para alimentar toda a população e faz contundentes críticas à especulação nas bolsas de commodities e às multinacionais”
  • Contando Com os Bilionários [Japhy Wilson] – Filantropo-capitalistas como George Soros querem que acreditemos que eles podem remediar a miséria econômica que eles mesmos criam.
  • Uma Economia Para os 99% – relatório da Oxfam apresentando dados sobre a situação atual das desigualdades sociais; os mecanismos que as vêm reproduzindo e aprofundando mundo à fora; sobre como isso destrói qualquer possibilidade de democracia; e sobre possíveis medidas para superar esta situação;
  • Pikettyismos [Ladislau Dowbor] – “O livro de Thomas Piketty [documentando toda a trajetória da desigualdade no mundo desenvolvido desde o século XIX e provando que ela vem crescendo rapidamente nas últimas décadas, desde a virada para o Neoliberalismo] está nos fazendo refletir, não só na esquerda, mas em todo o espectro político. Cada um, naturalmente, digere os argumentos, e em particular a arquitetura teórica do volume, à sua maneira.”
  • A Economia Tradicional Está Errada – [Joseph Stiglitz] Sobre como as teorias econômicas dominantes não só não conseguem explicar as desigualdades atuais e suas consequências como, na verdade, elas foram elementos chave para incentivá-las.
  • A Mente Univariada do Bitolado de Direita [Cold and Dark Stars] – “A ‘mente univariada’ é a tendência para abstrair a dinâmica de fenômenos extremamente complexos, como economias inteiras, a desigualdade salarial de gênero, rituais de sedução, sub-representação de certas minorias sexuais e raciais na indústria, pobreza, etc. em modelos que usam uma ou pouquíssimas variáveis.”
  • A Gente Trabalha Demais, Mas Não Precisa Ser Assim [Peter Frase] – “Entre os séculos XIX e XX os trabalhadores conquistaram o dia de trabalho de 10 horas e então o de 8 horas, mas depois da Grande Depressão a tendência parou. Do que precisaríamos para recuperar nosso tempo livre?”
  • Imaginários do Pós-Trabalho: Automação Completa, Renda Básica, Jornada de Trabalho e Ética do Emprego [Nick Srnicek e Alex Williams] – “objetivo do futuro é o pleno desemprego, para que possamos aproveitar. É por isso que temos de destruir o atual sistema político-econômico
  • Rumo a Uma Sociedade Pós-Trabalho [David Frayne] – A ‘Política do Tempo’ oferece uma resposta à atual crise do trabalho, nos convidando a falar sobre as condições para a liberdade e o tipo de sociedade em que queremos viver. É uma oportunidade para finalmente cumprir a promessa original do desenvolvimento produtivo do capitalismo: nos permitir desfrutar coletivamente de mais tempo livre, para explorar essas aptidões e aspectos de nós mesmos que muitas vezes ficam marginalizados em um mundo centrado no trabalho. “Precisamos tomar de volta o futuro das mãos do capitalismo e construir, nós mesmos, o mundo do século XXI que queremos.”
  • Quatro Futuros: Vida Após o Capitalismo – [Peter Frase] “Crise climática”, “mudanças ambientais”, “robôs inteligentes”, “robôs tomando empregos”: os impactos da Crise Climática e de novas tecnologias de Automação de postos de trabalho para o nosso futuro comum vêm sendo cada vez mais discutidos. Se os avanços tecnológicos da “Quarta Revolução Industrial” (em especial em campos como Inteligência Artificial, Robótica avançada, fabricação aditiva, etc) forem o suficiente para automatizarmos a maior parte das atividades que hoje são empregos, reduzindo a um mínimo a necessidade de trabalho humano, a produção de mercadorias através de trabalho assalariado estará superada – e, portanto, estaremos falando do fim do Capitalismo; a questão então é o que virá depois. Será que a possibilidade de toda essa automação é o bastante para garantir que ela vai ocorrer? Qual seria o impacto disso sobre as vidas das pessoas? Como as questões ambientais/climáticas entram nesse quadro? E as relações de propriedade e produção capitalistas e a Política, especificamente a Luta de Classes? Que tipo de cenários podemos esperar à partir do fim do Capitalismo?
    • Tecnologia e Ecologia Como Apocalipse e Utopia [Quatro Futuros – Introdução] – [Peter Frase] “Muito se tem falado sobre os impactos da Crise Climática e de novas tecnologias de Automação de postos de trabalho para o nosso futuro em comum. Como as relações de propriedade e produção capitalistas e a Política, especificamente a Luta de Classes, se encaixam neste quadro? Será que a possibilidade de automação quase generalizada seria o bastante para garantir que ela ocorrerá? Qual seria o impacto dela sobre as condições de vida das pessoas? Com base nesses elementos, que tipo de cenários podemos esperar à partir do fim do Capitalismo?”
    • Comunismo Como Futuro Automatizado de Igualdade e Abundância[Quatro Futuros – Cap. 1 – Comunismo: Igualdade e Abundância] – [Peter Frase] “Um mundo em que a tecnologia tenha superado ou reduzido a um mínimo (e de forma sustentável) a necessidade de trabalho humano; em que esse potencial seja compartilhado com todos, eliminando a exploração e a alienação das relações de trabalho assalariado; onde as hierarquias derivadas do Capital tenham sido suplantadas por um modelo mais igualitário, agora capaz não só de sanar as necessidades de todos, mas de permitir o livre desenvolvimento de cada um, parece para muitos como um sonho de utopia inalcançável e ingênuo, onde não existiriam quaisquer conflitos ou hierarquias. Será mesmo?
    • Rentismo: Um Futuro Automatizado de Abundância Bloqueada Pela Desigualdade [Quatro Futuros – Cap. 2 – Rentismo: Hierarquia e Abundância] – [Peter Frase] Na penúltima parte da série sobre possíveis futuros após o fim do Capitalismo, – com o fim do uso de trabalho humano assalariado na produção de mercadorias, extrapolando as tendências atuais de aplicação de tecnologias como Inteligência Artificial, Robótica, Fabricação Aditiva, Nanotecnologia, etc – encaramos uma distopia em que as elites do sistema capitalista atual têm sucesso em manter seus privilégios e poderes, usando patentes e direitos autorais para bloquear e restringir para si o que poderia ser o livre-acesso universal à abundância possibilitada pelas conquistas do conhecimento humano num cenário em que a própria escassez poderia ser deixada para trás.
    • Socialismo Como Futuro Automatizado e Igualitário em Resposta à Crise Ambiental [Quatro Futuros – Cap. 3 – Socialismo: Igualdade e Escassez]– [Peter Frase] Se os avanços tecnológicos da Quarta Revolução Industrial (em campos como Inteligência Artificial, Robótica avançada, fabricação aditiva, etc) forem o suficiente para automatizarmos a maior parte dos empregos, reduzindo a um mínimo a necessidade de trabalho humano, a produção de mercadorias através de trabalho assalariado estará superada – e, portanto, também o capitalismo. Se isso for alcançado em uma sociedade mais igualitária, democrática, sustentável e racional, ainda assim é possível que teremos de nos organizar para lidar com o estrago deixado no planeta pelo sistema capitalista, planejando, executando e administrando  projetos gigantescos de reconstrução, geo-engenharia e racionamento de recursos limitados. Em outras palavras, provavelmente ainda precisaremos de algum tipo de Estado.
    • Exterminismo: ‘Solução Final’ Num Futuro Automatizado de Desigualdade e Escassez [Quatro Futuros – Cap. 4 – Exterminismo: Hierarquia e Escassez] – [Peter Frase] A cada semana somos bombardeados por notícias sobre avanços tecnológicos assombrosos, que prometem diminuir, e muito, a necessidade de trabalho humano nas mais diversas atividades. De fato, podemos imaginar que em algum momento no futuro teremos a necessidade de muito pouco trabalho humano na produção de mercadorias. Mas e se chegarmos nesse ponto ainda divididos entre podres de ricos e “a ralé”? E se os recursos naturais de energia e de matérias-primas não forem o bastante para garantir uma vida luxuriante para todos? E se, do ponto de vista dos abastados, os ex-trabalhadores passarem a representar apenas um “peso inútil”, ou até mesmo, um risco “desnecessário”? No último capítulo sobre possíveis futuros automatizados com o fim do Capitalismo, somos confrontados por uma distopia de desigualdade e crueldade cujas raízes já podemos notar em muitas tendências atuais.
    • Quatro Futuros [artigo original de 2011] – [Peter Frase] Uma coisa de que podemos ter certeza é que o Capitalismo vai acabar; a questão, então, é o que virá depois.
  • Comunismo Verde Totalmente Automatizado – [Aaron Bastani] [O desafio das mudanças climáticas precisa de uma resposta à altura, que reconheça a sua dimensão, amplitude e a necessidade de mudanças profundas em nossas tecnologias, relações de produção, relações com a natureza, em nosso dia-a-dia e em nossas visões de mundo. Felizmente, depois de décadas de dominação quase absoluta do “realismo capitalista” e de suas propostas vazias de respostas à crise climática via mercado, vai se abrindo o espaço para uma proposta “populista” pela construção de uma alternativa radical que abrace a expansão e a democratização das tecnologias de energias renováveis, robótica fina, inteligência artificial, e produção aditiva como um projeto político a ser disputado, para a construção de uma sociedade focada na sustentabilidade e na socialização da abundância, do lazer, do bem-estar e da maior disponibilidade de tempo para as mais diversas atividades.]
  • Lingirie Egípcia e o Futuro Robô [Peter Frase] – O pânico sobre automação erra o alvo – o verdadeiro problema é que os próprios trabalhadores são tratados feito máquinas.”
  • Inovação Vermelha [Tony Smith] – “Longe de sufocar a inovação, uma sociedade Socialista colocaria o progresso tecnológico a serviço das pessoas comuns.”
  • Todo Poder aos “Espaços de Fazedores” [Guy Rundle] – “A impressão 3-D em sua forma atual pode ser um retorno às obrigações enfadonhas do movimento “pequeno é belo”, mas tem o potencial para fazer muito mais.
  • A Revolução Cybersyn [Eden Medina] – Cinco lições de um projeto de computação socialista no Chile de Salvador Allende.
  • Planejando o Bom Antropoceno – [Leigh Phillips e Michal Rozworski] O mercado está nos levando cegamente a uma calamidade climática – o planejamento democrático é uma saída.
  • Socialismo, Mercado, Planejamento e Democracia [Seth Ackerman, John Quiggin, Tyler Zimmer, Jeff Moniker, Matthijs Krul, HumanaEsfera] – “O socialismo promete a emancipação humana, com o alargamento da democracia e da racionalidade para a produção e distribuição de bens e serviços e o uso da tecnologia acumulada pela humanidade para a redução a um mínimo do trabalho necessário por cada pessoa, liberando seu tempo para o seu livre desenvolvimento. Como organizar uma economia socialista para realizar essas promessas?”
  • Elon Musk Não é O Futuro [Paris Marx] – “Os dirigentes das grandes empresas de tecnologia estão nessa apenas por eles mesmos, não pelo bem público.
  • Bill Gates Não Vai Nos Salvar [E Nem Elon Musk] – [Ben Tarnoff] Quando se trata de tecnologia verde, apenas o Estado pode fazer o que o Vale do Silício não pode.
  • O Lamentável Declínio das Utopias Espaciais [Brianna Rennix] – “Narrativas ficcionais são um fator enorme moldando nossas expectativas do que é possível. Infelizmente, utopias estão atualmente fora de moda, como a tediosa proliferação de ficção distópica e filmes de desastre parece indicar. Por que só “libertarianos” fantasiam sobre o espaço hoje em dia?”
  • Obsolescência Planejada: Armadilha Silenciosa na Sociedade de Consumo[Valquíria Padilha e Renata Cristina A. Bonifácio] – O crescimento pelo crescimento é irracional. Precisamos descolonizar nossos pensamentos construídos com base nessa irracionalidade para abrirmos a mente e sairmos do torpor que nos impede de agir
  • O Mito do Antropoceno [Andreas Malm] – Culpar toda a Humanidade pela mudança climática deixa o Capitalismo sair ileso.
  • Precisamos Dominá-la [Peter Frase] – “Nosso desafio é ver na tecnologia tanto os atuais instrumentos de controle dos empregadores quanto as precondições para uma sociedade pós-escassez.
  • Tecnologia e Estratégia Socialista [Paul Heidmann] – “Com poderosos movimentos de classe em sua retaguarda, a tecnologia pode prometer a emancipação do trabalho, ao invés de mais miséria.
  • O Socialismo Vai Ser Chato? – “O Socialismo não é sobre induzir uma branda mediocridade. É sobre libertar o potencial criativo de todos.
  • Os Robôs Vão Tomar Seu Emprego? [Nick Srnicek e Alex Williams] – “Com a automação causando ou não uma devastação nos empregos, o futuro do trabalho sob o capitalismo parece cada vez mais sombrio. Precisamos agora olhar para horizontes pós-trabalho.”
  • Robôs e Inteligência Artificial: Utopia ou Distopia? [Michael Roberts] – “Diz muito sobre o momento atual que enquanto encaramos um futuro que pode se assemelhar ou com uma distopia hiper-capitalista ou com um paraíso socialista, a segunda opção não seja nem mencionada.”
  • Robôs, Crescimento e Desigualdade – Mesmo uma instituição como o FMIvem notando as tendências que a automação de empregos devem gerar nas próximas décadas, incluindo um crescimento vertiginoso da desigualdade social, e a necessidade de compartilhar a abundância prometida por essas inovações.
  • Automação e o ‘Fim do Trabalho’ na Mídia Internacional Dominante 
  • Votando Sob o Socialismo – [Peter Frase] Vai ser mais significativo – mas esperamos que não envolva assembleias sem-fim.
  • Democratizar Isso [Michal Rozworski] – “Os planos do Partido Trabalhista inglês para buscar modelos democráticos de propriedade são o aspecto mais radical do programa de Corbyn, e um dos mais radicais que temos visto na política dominante em muito tempo.”

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s