O Marxismo é Uma Ideologia Assassina, Que Só Pode Gerar Miséria?

“O Marxismo é uma ideologia sanguinária e assassina, que só pode gerar miséria compartilhada? Socialismo significa falta de liberdade e uma economia falida?”

por Terry Eagleton

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O que eles dizem:

“O marxismo pode ser ótimo na teoria. Sempre que foi posto em prática, porém, resultou em terror, tirania e assassinato em massa numa escala inconcebível. O marxismo poderia parecer uma boa ideia para os acadêmicos ocidentais abastados, que são capazes de contar com a certeza da liberdade e da democracia. Para milhões de homens e mulheres comuns, ele tem sido sinônimo de fome, dificuldades, tortura, trabalhos forçados, uma economia falida e um Estado monstruosamente opressivo. Aqueles que continuam a defender a teoria apesar de tudo isso ou são obtusos, iludidos, ou moralmente vis. Socialismo significa falta de liberdade; significa, também, falta de bens materiais, já que está fadado a ser o resultado da abolição dos mercados.”

Ideologias Violentas

Muitos homens e muitas mulheres no Ocidente são defensores ardorosos de cenários sangrentos. Os cristãos, por exemplo. Também não é raro ver pessoas decentes, generosas, defendendo civilizações inteiras encharcadas de sangue, como fazem os liberais e os conservadores, entre outros. As nações capitalistas modernas são o fruto de uma história de escravidão, genocídio, violência e exploração tão abominável quanto a da China de Mao Zedong ou a União Soviética de Josef Stálin. O capitalismo também foi forjado com sangue e lágrimas. A diferença é que ele sobreviveu tempo bastante para esquecer boa parte desse horror, o que não foi o caso do stalinismo e do maoismo. Se Marx foi poupado dessa amnésia, em parte isso se deveu ao fato de ele ter vivido enquanto o sistema ainda se encontrava em fabricação.

Em ‘Os últimos holocaustos vitorianos’, Mike Davis escreve sobre as dezenas de milhões de indianos, africanos, chineses, brasileiros, coreanos, russos e outros que morreram em consequência de surtos de fome, de seca e de doenças inteiramente previsíveis no fim do século XIX. Muitas dessas catástrofes resultaram do dogma do livre mercado [1], como (por exemplo) no caso dos preços exorbitantes dos grãos que tiraram a comida do alcance do cidadão comum. Todas essas monstruosidades também não são tão velhas quanto as vitorianas. Durante as duas últimas décadas do século XX, o total de pessoas que vivem com menos de dois dólares por dia aumentou em quase cem milhões.[2] Uma em três crianças na Grã-Bretanha hoje vive abaixo da linha da miséria, enquanto os banqueiros fazem cara feia se o bônus anual que recebem cair para um reles milhão de Libras.

Juntamente com essas abominações, é claro que o capitalismo nos legou alguns bens preciosos. Sem as classes médias que Marx tão profundamente admirava, não teríamos um legado de liberdade, democracia, direitos civis, feminismo, republicanismo, progresso científico e um bocado mais, bem como uma história de fracassos, sweatshops, fascismo, guerras imperialistas e Mel Gibson. Mas o chamado sistema socialista também obteve suas conquistas. A China e a União Soviética arrancaram seus cidadãos do atraso econômico para um mundo industrial moderno, por mais que o custo humano tenha sido pavoroso, em parte, tão alto em virtude da hostilidade do Ocidente capitalista. Essa hostilidade também forçou a União Soviética a embarcar numa corrida armamentista que aleijou ainda mais sua economia debilitada e por fim a pressionou até o colapso.

Nesse ínterim, porém, a União Soviética conseguiu, juntamente com seus satélites, prover moradia, combustível, transporte e cultura baratos, emprego pleno e serviços sociais impressionantes para metade dos cidadãos da Europa, bem como um grau incomparavelmente maior de igualdade e (no fim) bem-estar material do que aquelas nações haviam gozado. A Alemanha Oriental comunista podia se gabar de ter um dos melhores sistemas de creche do mundo. A União Soviética teve um papel heroico no combate ao mal do fascismo, bem como na ajuda prestada para derrubar poderes colonialistas. Além disso, fomentou o tipo de solidariedade entre seus cidadãos que as nações ocidentais parecem capazes de fazer brotar apenas quando estão matando os nativos de outras terras. Naturalmente, nada disso substitui a liberdade, a democracia e os legumes e as verduras na mercearia, mas esses feitos também não devem ser ignorados. Quando a “liberdade” e a “democracia” [3] finalmente chegaram para salvar o bloco soviético, fizeram-no na forma de terapia de choque econômico, uma forma de roubo à luz do dia educadamente conhecida como privatização, desemprego para dezenas de milhões, aumento colossal da pobreza e da desigualdade, fechamento de creches gratuitas, perda dos direitos das mulheres e quase ruína das redes de bem-estar social que haviam servido tão bem a esses países.

Ainda assim, os ganhos do comunismo dificilmente superam as perdas. Pode ser que algum tipo de governo ditatorial fosse praticamente inevitável nas condições atrozes da União Soviética inicial, mas isso não justificaria o stalinismo nem nada similar. Tomados como um todo, o maoismo e o stalinismo foram experiências mal-acabadas, sangrentas, que fizeram com que a mera ideia de socialismo fedesse nas narinas de muitos daqueles que, em outras partes do mundo, mais tinham a ganhar com ele. E quanto ao capitalismo? Enquanto escrevo, o desemprego no Ocidente já está na casa dos milhões e cresce com constância, e as economias capitalistas foram poupadas da implosão apenas por meio da apropriação de trilhões de dólares de seus cidadãos sacrificados. Os banqueiros e financistas que levaram o sistema financeiro mundial à beira do abismo estão, sem dúvida, fazendo fila em frente às clínicas de cirurgia plástica para não ser reconhecidos e ter seus membros arrancados um por um por cidadãos enraivecidos.

É verdade que o capitalismo funciona parte do tempo, no sentido de que levou uma prosperidade indizível a alguns setores do mundo. Mas fez isso, como Stálin e Mao, a um custo humano avassalador. Não se trata apenas de genocídio, fome, imperialismo e comércio de escravos. O sistema também se revelou incapaz de criar abastança sem criar enormes faixas de privação ao mesmo tempo. É verdade que isso talvez não conte muito a longo prazo, já que o estilo de vida capitalista agora ameaça destruir por completo o planeta. Um eminente economista ocidental descreveu a mudança climática como “a maior falha de mercado na história”. [4]

Aquele Velho Negócio Sujo

O próprio Marx jamais imaginou que o socialismo pudesse ser alcançado em condições empobrecidas. Um projeto assim exigiria um salto quase tão bizarro quanto a invenção da internet na Idade Média. Igualmente, nenhum pensador marxista até Stálin imaginou que isso fosse possível, inclusive Lênin, Trótski e o restante dos líderes bolchevistas. Não é possível reorganizar a riqueza para beneficiar a todos se existe pouquíssima riqueza para ser reorganizada. Não se podem abolir as classes sociais em condições de escassez, já que os conflitos por um excedente material escasso demais para satisfazer as necessidades de todos acabariam por revivê-las. De acordo com Marx em ‘A ideologia alemã’, o resultado de uma revolução em condições assim é que “aquele velho negócio sujo” (ou, numa tradução de menos bom gosto, “aquela merda de sempre”) simplesmente reaparecerá. Tudo que se há de conseguir é uma escassez socializada. Se for preciso acumular capital partindo mais ou menos do nada, então a melhor maneira de fazê-lo, embora brutal, é por meio da busca de lucros. O ávido interesse próprio é provavelmente capaz de acumular riqueza com uma notável velocidade, embora talvez também seja capaz de acumular, ao mesmo tempo, uma pobreza espetacular.

Os marxistas também jamais imaginaram que fosse possível alcançar o socialismo em um único país. Ou o movimento seria internacional, ou não seria coisa alguma. Essa era uma reivindicação materialista obstinada, e não altruisticamente idealista. Se uma nação socialista não conseguisse apoio internacional em um mundo onde a produção fosse especializada e dividida entre diferentes nações, ela seria incapaz de utilizar os recursos globais necessários para abolir a escassez. A abastança produtiva de um único país provavelmente não seria suficiente. A noção exótica de socialismo em um único país foi inventada por Stálin na década de 1920, em parte como uma  racionalização cínica do fato de que outras nações haviam sido incapazes de sair em socorro da União Soviética. Essa noção não encontra respaldo em Marx. As revoluções socialistas, é claro, precisam começar em algum lugar, mas não podem ser concluídas dentro das fronteiras nacionais. Julgar o socialismo por seus resultados em um país desesperadamente isolado seria como tirar conclusões sobre a raça humana a partir de um estudo sobre os psicopatas em Kalamazoo.

Construir uma economia a partir de níveis muito baixos é uma tarefa exaustiva e desanimadora. É improvável que homens e mulheres se submetam livremente às dificuldades que isso envolve. Assim, a menos que tal projeto seja executado de forma gradual, sob controle democrático e de acordo com valores socialistas [5], um Estado autoritário pode intervir e forçar seus cidadãos a fazer o que eles relutam em assumir voluntariamente. A militarização do trabalho na Rússia bolchevista é um caso típico. O resultado, numa ironia medonha, será a sabotagem da superestrutura política do socialismo (democracia popular, autogoverno genuíno) na tentativa de construir sua base econômica. Seria semelhante a ser convidado para uma festa e descobrir que é preciso não só bater os bolos e produzir a cerveja, mas também escavar as fundações e assentar o assoalho do local. Não sobraria muito tempo para a diversão.

Idealmente, o socialismo exige um povo habilidoso, instruído e politicamente sofisticado, instituições cívicas desenvolvidas, uma tecnologia bem-evoluída, tradições liberais esclarecidas e o hábito da democracia. É provável que nada disso estará à mão se não for possível sequer consertar as pouquíssimas autoestradas existentes ou dispor de uma política de seguro contra doenças ou contra a fome, além de um porco no quintal. Nações com histórico de regime colonial são especialmente vulneráveis a estar privadas dos benefícios que acabei de listar, já que os poderes coloniais não se destacam pelo zelo na implantação de liberdades civis ou de instituições democráticas entre seus vassalos.

Como insiste Marx, o socialismo também exige um encurtamento da jornada de trabalho [6] — em parte para permitir aos homens e às mulheres lazer para a realização pessoal, em parte para gerar tempo para a atividade do autogoverno político e econômico. Isso não é possível se as pessoas não têm sapatos, e distribuir sapatos por milhões de cidadãos provavelmente exigirá um Estado burocrata centralizado. Se uma nação está sofrendo a invasão de um leque de poderes capitalistas hostis, como aconteceu com a Rússia na esteira da revolução bolchevista, um Estado autocrata parecerá ainda mais inevitável. A Grã-Bretanha durante a Segunda Guerra Mundial estava longe de ser uma autocracia, mas não era, de forma alguma, um país livre, e não seria de esperar que fosse.

Para se tornar socialista, é preciso estar razoavelmente bem de vida, tanto no sentido literal quanto no sentido metafórico do termo. Nenhum marxista, de Marx e Engels a Lênin e Trótski, jamais sonhou com outra coisa. Ou, se não se está individualmente bem de vida, ao menos um vizinho solidário, um tanto pujante em termos de recursos materiais, precisa estar disposto a correr em seu socorro. No caso dos bolchevistas, isso teria implicado que tais vizinhos (em especial a Alemanha) também fizessem suas próprias revoluções. Se as classes operárias desses países pudessem derrubar seus senhores capitalistas e pôr a mão em seus poderes produtivos, seriam capazes de utilizar tais recursos para evitar que o primeiro Estado operário na história afundasse sem deixar vestígios. Não se tratava de uma proposta tão improvável quanto pode parecer. A Europa na época estava incendiada pela esperança revolucionária, conforme os conselhos (ou sovietes) de deputados operários e soldados trabalhadores surgiam em cidades como Berlim, Varsóvia, Viena, Munique e Riga. Uma vez derrotadas essas insurreições, Lênin e Trótski perceberam que sua própria revolução estava em maus lençóis.

Não que a construção do socialismo não possa começar em situações de privação, mas, sem recursos materiais, a tendência será a de que ele seja deturpado e vire a caricatura monstruosa de socialismo conhecida como stalinismo. A revolução bolchevista logo se descobriu sitiada pelos exércitos imperiais do Ocidente, bem como ameaçada pela contrarrevolução, pela fome urbana e por uma guerra civil sangrenta. Estava à deriva em um oceano de camponeses em boa parte hostis, relutantes em entregar, sob a mira de uma arma, às cidades famintas seu excedente obtido com esforço. Com uma estreita base capitalista, níveis desastrosamente baixos de produção material, parcos vestígios de instituições civis, uma classe operária dizimada e exaurida, revoltas camponesas e uma burocracia inchada que se rivalizava com a do czar, a revolução viu-se em apuros desde o início. No fim, os bolchevistas haveriam de levar seu povo faminto, desanimado e cansado de guerras à modernidade sob a mira de uma arma. Muitos dos operários politicamente mais militantes haviam perecido na guerra civil bancada pelo Ocidente, deixando o partido bolchevista com uma base social frágil. Não demorou para que o partido usurpasse o soviete dos operários e banisse uma imprensa independente, bem como o sistema judicial. Ele sufocou a dissensão política e os partidos opositores, manipulou as eleições e militarizou o trabalho. Esse programa cruelmente antissocialista surgiu em um cenário de guerra civil, fome disseminada e invasão estrangeira. A economia da Rússia jazia em ruínas, e seu tecido social se desintegrara. Numa ironia trágica, que viria a marcar o século XX como um todo, o socialismo revelou-se menos possível onde era mais necessário.

O historiador Isaac Deutscher retrata a situação com sua habitual eloquência incomparável. A situação na Rússia à época

“significava que a primeira e até então única tentativa de construir o socialismo teria de ser feita nas piores condições possíveis, sem as vantagens de uma divisão internacional intensiva de trabalho, sem a influência fertilizante das tradições culturais antigas e complexas, em um ambiente de pobreza, primitivismo e crueza materiais e culturais tamanho que a tendência seria macular a própria luta pelo Socialismo.” [7]

É preciso ser um crítico extraordinariamente atrevido do marxismo para afirmar que nada disso é relevante, já que o marxismo é, de todo jeito, um credo autoritarista. Se ele conquistasse amanhã o interior britânico, como argumentam, haveria campos de trabalho em Dorking antes do fim da semana.

Como veremos, o próprio Marx era um crítico do dogma rígido, do terrorismo militar, da supressão política e do poder estatal arbitrário. Ele acreditava que os representantes políticos deveriam prestar contas a seus eleitores e reprovava a socialdemocracia alemã da época por sua política estatizante. Insistia na livre expressão e nas liberdades civis, horrorizava-se ante a criação forçada de um proletariado urbano (no caso dele, na Inglaterra, em vez de na Rússia) e defendia a tese de que a propriedade coletiva no campo deveria ser um processo voluntário, e não coercivo. No entanto, como alguém que reconhecia que o socialismo não pode florescer em condições de extrema pobreza, ele teria entendido perfeitamente por que a Revolução Russa acabou perdida.

Com efeito, existe um sentido paradoxal em que o stalinismo, em vez de desqualificar a obra de Marx, testemunha sua validade. Se alguém quiser um relato convincente de como o stalinismo surgiu, terá de recorrer ao marxismo. As meras denúncias morais quanto à besta não bastam. É preciso saber em que condições materiais ela surge, como funciona e como pode fracassar, e esse conhecimento tem sido mais bem-obtido por meio de certas correntes dominantes do marxismo. Esses marxistas, muitos deles seguidores de Leon Trótski ou de um ou outro tipo de socialismo “libertário”, diferem dos liberais ocidentais em um aspecto vital: suas críticas das chamadas sociedades comunistas têm sido bem mais arraigadas. Eles não se satisfazem com apelos esperançosos por mais democracia ou direitos civis. Ao contrário, têm exigido a derrubada de todo o sistema repressivo, agindo assim precisamente como socialistas. Ademais, tais exigências vêm sendo feitas praticamente desde o dia em que Stálin assumiu o poder. Ao mesmo tempo, eles alertaram para o fato de que, caso o sistema comunista ruísse, seria possível muito bem cair nos braços de um capitalismo predatório que estaria aguardando, faminto, para catar os pedaços entre as ruínas. Leon Trótski previu de forma precisa tal fim para a União Soviética, e há cerca de vinte anos ficou provado que ele estava certo.

Imaginemos uma forma um pouco enlouquecida de capitalismo que tentasse transformar uma tribo pré-moderna em um conjunto de empreendedores agressivamente aquisitivos, tecnologicamente sofisticados e que falasse o jargão dos profissionais de relações públicas ou da economia de livre mercado, tudo isso em um período curtíssimo de tempo. Será que o fato de a experiência muito provavelmente vir a se revelar menos bem-sucedida constituiria uma condenação justa do capitalismo? Claro que não. Pensar assim seria tão absurdo quanto afirmar que a organização das bandeirantes deveria ser dissolvida por não ser capaz de solucionar problemas complexos de física quântica. Os marxistas não acreditam que a linhagem liberal arrogante de Thomas Jefferson a John Stuart Mill seja anulada pela existência de prisões secretas administradas pela CIA para torturar muçulmanos, ainda que tais prisões façam parte da política das sociedades liberais de hoje. No entanto, os críticos do marxismo quase nunca se dispõem a admitir que julgamentos circenses e terrorismo de massa não o refutam.

Administrando Uma Economia Moderna

Existe, porém, outro sentido que faz o socialismo ser considerado inviável por alguns. Mesmo se alguém pretendesse implantá-lo sob condições de abastança, como seria possível administrar uma complexa economia moderna sem mercados? A resposta para um número crescente de marxistas é que isso não é necessário. Os mercados, na visão destes, continuariam a ser parte de uma economia socialista. O chamado socialismo de mercado vislumbra um futuro em que os meios de produção pertenceriam à sociedade, mas no qual cooperativas autogeridas competiriam entre si. [8] Dessa maneira, algumas das virtudes do mercado seriam conservadas, enquanto alguns de seus vícios seriam descartados. No nível dos empreendimentos individuais, a cooperação garantiria mais eficiência, já que os indícios sugerem que ela quase sempre é tão eficiente quanto os empreendimentos capitalistas e, com frequência, muito mais eficiente. No nível da economia, a competição garante que os problemas de informação, de alocação e incentivo associados ao modelo stalinista tradicional de planejamento central não ocorram.

Alguns marxistas afirmam que o próprio Marx era um socialista de mercado, ao menos no sentido de que acreditava que o mercado se manteria durante o período de transição seguinte a uma revolução socialista. Marx também considerava que os mercados haviam sido emancipadores tanto quanto exploradores, ajudando a libertar homens e mulheres da dependência anterior de senhores e patrões. Os mercados tiram a aura de mistério das relações sociais, desnudando sua realidade árida. Marx era tão perspicaz quanto a essa questão que a filósofa Hannah Arendt certa vez descreveu as páginas de abertura do Manifesto comunista como “o maior elogio já visto ao capitalismo”.[9] Os socialistas de mercado também observam que os mercados de forma alguma são uma característica específica do capitalismo. Possivelmente surpreendendo alguns de seus discípulos, até Trótski apoiava o mercado, embora apenas no período de transição para o socialismo e em combinação com o planejamento econômico. Trótski considerava o mercado necessário ao controle da adequação e da racionalidade do planejamento, já que “a existência de contabilidade econômica é impensável sem relações de mercado”.[10] Como a Oposição de Esquerda, ele era um crítico ferrenho da chamada economia planificada.

O socialismo de mercado extingue a propriedade privada, as classes sociais e a exploração, e põe o poder econômico nas mãos dos verdadeiros produtores. Por tudo isso, é um avanço bem-vindo em relação a uma economia capitalista. Para alguns marxistas, contudo, ele conserva demasiados aspectos dessa economia para ser palatável. Sob o socialismo de mercado continuaria a haver produção de mercadorias, desigualdade, desemprego e oscilação das forças de mercado fora do controle humano. Como garantir que os trabalhadores não fossem simplesmente transformados em capitalistas coletivos, maximizando seus lucros, cortando a qualidade, ignorando as necessidades sociais e descambando para o consumismo na ânsia de acumulação constante? Como evitar o crônico imediatismo dos mercados, seu hábito de ignorar o quadro social geral e os efeitos antissociais de longo prazo de suas decisões fragmentadas? A educação e a monitoração estatal talvez reduzissem tais perigos, mas alguns marxistas se voltam, ao contrário, para uma economia que não contemple o planejamento centralizado nem o regulado pelo Mercado. [11] Nesse modelo, os recursos seriam alocados mediante negociações entre produtores, consumidores, ambientalistas e outros agentes relevantes, em redes nos locais de trabalho, na comunidade e em conselhos de consumidores. Os parâmetros amplos da economia, incluídos aí as decisões sobre a alocação dos recursos, as taxas de crescimento e investimento, a energia, o transporte e as políticas ecológicas, seriam fixados por assembleias representativas em níveis local, regional e nacional. Essas decisões gerais sobre, digamos, alocação tornariam a voltar aos níveis regional e local, nos quais um planejamento mais detalhado seria aos poucos desenvolvido. Em cada estágio, o debate público acerca de políticas e planos econômicos alternativos poderia ser determinado pela necessidade social em lugar de sê-lo pelo lucro privado. No capitalismo, somos privados do poder de decidir se desejamos produzir mais hospitais ou cereais para o café da manhã. No socialismo, tal liberdade seria constantemente exercida.

O poder em tais assembleias seria atribuído por eleição democrática de baixo para cima, e não de cima para baixo. Conselhos democraticamente eleitos para representar cada área do comércio ou da produção negociariam com uma comissão econômica nacional para chegar a um conjunto de decisões de investimento. Os preços não seriam determinados de maneira centralizada, mas por unidades de produção com base no estímulo de consumidores, usuários, grupos interessados e daí por diante. Alguns defensores de uma economia participativa nesses moldes aceitam um tipo de economia socialista mista: bens que sejam de interesse vital para a comunidade (alimentos, saúde, produtos farmacêuticos, educação, transporte, energia, produtos relativos à subsistência, instituições financeiras, a mídia e congêneres) precisam ficar sujeitos ao controle público democrático, já que aqueles que os regulam tenderão a agir antissocialmente se farejarem a chance de obter mais lucros. Bens socialmente menos indispensáveis (itens de consumo, artigos de luxo), porém, poderiam ser entregues às operações do mercado. Alguns socialistas de mercado acham todo esse esquema complexo demais para ser viável. Como observou certa vez Oscar Wilde, o problema do socialismo é gastar noites demais. No entanto, é preciso ao menos levar em conta o papel da moderna tecnologia da informação no azeitamento da engrenagem de tal sistema. Mesmo o ex-vice-presidente da Procter & Gamble (P&G) já reconheceu a capacidade desse sistema de tornar o autogerenciamento dos operários uma possibilidade real. [12] Além disso, Pat Devine nos faz lembrar do volume de tempo consumido hoje pela administração e organização capitalistas. [13] Não existe nenhum motivo óbvio para inferir que o volume de tempo gasto por uma alternativa socialista seria maior.

Alguns defensores do modelo participativo argumentam que todos deveriam ser igualmente remunerados pelo mesmo volume de trabalho, a despeito da diferença de talento, treinamento e ocupação. Como diz Michael Albert:

“O médico que trabalha em um ambiente luxuoso em condições confortáveis e gratificantes ganha mais do que o operário de linha de montagem que trabalha em meio a uma barulheira horrível, arriscando a vida e a saúde e suportando o tédio e a depreciação, independentemente do tempo e da energia que cada um despenda no Trabalho.” [14]

Há um argumento forte em defesa de remunerar melhor os que executam trabalho tedioso, pesado, sujo ou perigoso do que os médicos e acadêmicos, por exemplo, cuja atividade é consideravelmente mais gratificante. Boa parte desse trabalho sujo e perigoso talvez pudesse ser executada por ex-membros da família real. Precisamos rever nossas prioridades.

Já que acabo de comentar que a mídia está madura para ser de propriedade pública, tomemos este como um caso exemplar. Há mais de meio século, em um excelente livrinho intitulado Communications, [15] Raymond Williams esboçou um plano socialista para as artes e a mídia que rejeitava o controle estatal de seu conteúdo, por um lado, e a soberania do lucro como motivação, por outro. Em vez disso, os contribuintes ativos nessa área teriam controle sobre seus meios de expressão e comunicação. A verdadeira “fábrica” das artes e da mídia — emissoras de rádio, salas de concerto, redes de televisão, cinemas, redações de jornais e daí por diante — passaria a ser de propriedade estatal (que existe sob uma variedade de formas), e sua administração seria assumida por conselhos democraticamente eleitos, que incluiriam, ao mesmo tempo, membros do público e representantes da mídia ou de conselhos artísticos.

Tais comitês, que seriam estritamente independentes do Estado, ficariam responsáveis pela concessão de recursos públicos e pelo leasing das instalações pertencentes à sociedade, tanto a pessoas físicas quanto a grupos de atores, jornalistas, músicos etc. independentes e democraticamente autogeridos. Esses homens e mulheres poderiam então produzir seu trabalho sem se sujeitar às regras estatais ou às pressões distorcidas do mercado. Entre outras vantagens, seria possível evitar a situação em que um punhado de valentões avaros e enlouquecidos pelo poder ditasse por meio de seus canais de mídia de propriedade privada aquilo em que o público deve acreditar — ou seja, suas opiniões comprometidas e o sistema por eles apoiado. Saberemos que o socialismo se estabeleceu quando formos capazes de olhar para trás com absoluta incredulidade para a ideia de que um punhado de capangas comerciais recebeu carta branca para corromper a mente da opinião pública com ideias políticas neandertais convenientes a seus próprios extratos bancários e a pouco mais do que isso.

No capitalismo, boa parte da mídia evita o trabalho difícil, controverso ou inovador porque isso é ruim para os lucros. Ao contrário, opta, por comodismo, pela banalidade, pelo sensacionalismo e pelo preconceito profundo. Já a mídia socialista não baniria tudo que não fosse Schoenberg, Racine e incontáveis versões de ‘O capital’ de Marx [16]. Haveria, de sobra, teatro, TV e jornais populares. “Popular” não significa, necessariamente, “inferior”. Nelson Mandela é popular, mas não é inferior. Um monte de gente comum lê jornais altamente especializados com jargões ininteligíveis para quem está de fora. Só que esses jornais costumam tratar de pesca, equipamentos agrícolas ou criação de cães em lugar de abordar estética ou endocrinologia. O popular se transforma em lixo e kitsch quando a mídia sente a necessidade de sequestrar uma grande fatia do mercado da forma mais rápida e indolor possível. E essa necessidade, quase sempre, tem motivação comercial.

Os socialistas sem dúvida continuarão a discutir os detalhes de uma economia pós-capitalista. Por ora, não há modelo perfeito em oferta. Pode-se contrastar essa imperfeição com a economia capitalista, cujo funcionamento é impecável e que jamais foi responsável pelo mais ínfimo toque de pobreza, desperdício ou colapso. Foi, sim, reconhecidamente responsável por alguns níveis extravagantes de desemprego, mas a principal nação capitalista do mundo descobriu uma solução engenhosa para tal falha. Hoje, nos Estados Unidos, cerca de um milhão a mais de pessoas estariam buscando emprego caso não estivessem na cadeia.

Marx Estava Certo (“Why Marx Was Right”) – Capítulo II

Terry Eagleton, 2012 – Tradução de Regina Lyra – Ed. Nova Fronteira


Leituras Relacionadas

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Notas:

[1] https://ominhocario.wordpress.com/2016/10/07/existe-mesmo-algo-como-um-livre-mercado/ [N.M.]

[2] Vide STIGLITZ, Joseph. Globalisation and Its Discontents (A globalização e seus malefícios). Londres: Penguin, 2002, p. 5.

[3] https://ominhocario.wordpress.com/2016/07/12/pelo-menos-o-capitalismo-e-livre-e-democratico-ne/ [N.M.]

[4] Citado em ŽIŽEK, Slavoj. First as Tragedy, Then as Farce (Primeiro como tragédia, depois como farsa). Londres: Verso Books, 2009, p. 91.

[5] https://ominhocario.wordpress.com/2016/07/04/mas-o-pais-ja-nao-e-meio-socialista/ [N.M.]

[6] https://ominhocario.wordpress.com/2016/09/27/a-gente-trabalha-demais-mas-nao-precisa-ser-assim/ e https://ominhocario.wordpress.com/2016/10/01/politicas-para-se-arranjar-uma-vida/ [N.M.]

[7] DEUTSCHER, Isaac. The Prophet Armed: Trótski 1879-1921 (Trótski: o profeta armado 1879-1921). Londres: Verso Books, 2003, p. 373.

[8] Vide, por exemplo, NOVE, Alec. The Economics of Feasible Socialism (A economia do socialismo possível). Londres: G. Allen & Unwin, 1983; SCHWEICKART, David. Against Capitalism. Cambridge: Cambridge University Press, 1993; e OLLMAN, Bertell (org.). Market Socialism: The Debate Among Socialists. Nova York e Londres: Routledge, 1998. Uma defesa mais filosófica do socialismo de mercado pode ser encontrada em MILLER, David. Market, State and Community: The Theoretical Foundations of Market Socialism. Oxford: Clarendon Press, 1989.

[9] HILL, Melvin (org.). Hannah Arendt: The Recovery of the Public World. Nova York: St. Martin’s Press, 1979, p. 334-5.

[10] Citado por BLACKBURN, Robin, op. cit, p. 29.

[11] Vide, por exemplo, DEVINE, Pat. Democracy and Economic Planning. Cambridge: Polity Press, 1988; McNALLY, David. Against the Market. Londres: Verso Books, 1993; e ALBERT, Michael. Parecon: Life After Capitalism. Londres: Verso Books, 2003. Um resumo útil desse caso pode ser encontrado em CALLINICOS, Alex. An Anti-Capitalist Manifesto. Cambridge: Polity Press, 2003, cap. 3.

[12] Vide MANDEL, Ernest. “The Mith of Market Socialism”, New Left Review, nº 169 (maio/jun. de 1988), p. 109 ss.

[13] DEVINE, Pat, op. cit., p. 253, 265-6.

[14] ALBERT, Michael, op. cit., p. 59.

[15] WILLIAMS, Raymond. Communications. Harmondsworth: Penguin, 1962.

[16] https://ominhocario.wordpress.com/2015/07/14/o-socialismo-vai-ser-chato/ [N.M.]

 

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