Por Que os Socialistas Falam Tanto Sobre Trabalhadores?

Os trabalhadores estão no coração do sistema capitalista. E é por isso que eles estão no centro da política socialista. 

ABCs do Socialismo – Parte 12

por Vivek Chibber, na Revista Jacobin, abril de 2016

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Ilustração: Phil Wrigglesworth | Jacobin

A maioria das pessoas sabe que os Socialistas colocam a classe trabalhadora no centro de sua visão política. Mas por quê, exatamente? Quando faço essa pergunta a estudantes ou mesmo para ativistas, recebo toda uma variedade de respostas, mas a mais comum é sobre moral – Socialistas acreditam que os trabalhadores sofrem demais sob o Capitalismo, fazendo seus apuros a questão mais importante para se focar.

Agora é verdade, claro, que os trabalhadores encaram todo tipo de indignidades e privação material, e qualquer movimento por justiça social tem de tomar isso como uma questão central. Mas se isso é tudo, se esta é a única razão para que devamos nos focar em classes, o argumento desmorona muito facilmente. Afinal, há muitos grupos que sofrem indignidades e injustiças – minorias raciais, mulheres e pessoas com deficiência. Por que falar separadamente de trabalhadores? Por que não dizer apenas que todos os grupos marginais e oprimidos tem de estar no coração da estratégia socialista?

Ainda existe mais sobre por que se focar nas classes do que apenas o argumento moral. A razão para que os Socialistas acreditem que a organização de classe tem de estar no centro de uma estratégia política viável [1] tem também a ver com dois fatores práticos: um diagnóstico de quais são as fontes de injustiças na Sociedade moderna, e um prognóstico de quais são as melhores alavancas para mudança numa direção mais progressista.

O Capitalism não vai dar conta

Existem muitas coisas de que as pessoas precisam para terem vidas decentes. Mas dois itens são absolutamente essenciais. O primeiro é alguma garantia de segurança material – coisas como ter uma renda, moradia, e cuidados de saúde básicos . O segundo é ser livre de dominação social – se você está sob o controle de outra pessoa, se eles fazem muitas das decisões principais por você, então você está constantemente vulnerável ao abuso. Assim, em uma sociedade em que a maioria das pessoas não tem segurança no emprego, ou tem empregos mas não conseguem pagar suas contas, em que elas tem de se submeter ao controle de outras pessoas, em que elas não tem uma voz em como as leis e regulações são feitas – é impossível atingir justiça social.

O Capitalismo é um sistema econômico que depende da privação da vasta maioria das pessoas dessas precondições essenciais para uma vida decente. Os trabalhadores aparecem para trabalhar todos os dias sabendo que eles tem pouca segurança no emprego; que eles são pagos o que os empregadores sentem que é consistente com a sua prioridade principal, que é conseguir lucros, não o bem-estar de seus empregados; eles trabalham em um ritmo e duração que é definido pelos seus chefes; e eles se submetem a estas condições, não por que eles queiram, mas por que para a maioria deles a alternativa a aceitá-las seria simplesmente não ter emprego algum. Este não é um aspecto casual ou marginal do Capitalismo. É a característica definidora do sistema.

O poder econômico e político está nas mãos dos Capitalistas, cujo único objetivo é maximizar os lucros, o que significa que a condição dos trabalhadores é, na melhor das hipóteses, uma preocupação secundária para eles. E isso significa que o sistema é, em seu próprio núcleo, injusto.

Segurando a alavanca

Segue que o primeiro passo para tornar a nossa sociedade mais humana e justa é reduzir a insegurança e a privação material nas vidas de tantas pessoas, e aumentar o escopo para a auto-determinação. Mas nós imediatamente damos de cara com um problema – a resistência política das elites.

O poder não é distribuído igualmente no Capitalismo. Capitalistas decidem quem é contratado e despedido, e quem trabalha e por quanto tempo, não trabalhadores. Capitalistas também possuem o maior poder político, por que eles podem fazer coisas como lobby, financiar campanhas políticas, e dar suporte financeiro para partidos políticos. E como eles são os que se beneficiam do sistema, por que eles encorajariam mudanças nele, mudanças que inevitavelmente significam uma diminuição em seu poder e seu balanço financeiro? A resposta é que eles não encaram desafios gentilmente, e eles fazem o seu melhor para manter o status quo.

Movimentos por reformas progressistas têm descoberto, vez após outra, que sempre que eles tentam pressionar por mudanças na direção de justiça, acabam indo de encontro ao poder do Capital. Quaisquer reformas que requeiram uma redistribuição de renda, ou que venham do governo como uma medida social – seja em cuidados de saúde, regulações ambientais, salários mínimos ou programas de emprego – são rotineiramente opostos pelos ricos, por que quaisquer medidas dessas inevitavelmente significam uma redução em sua renda (na forma de impostos) ou em seus lucros. O que isso significa é que esforços por reformas progressistas precisam encontrar uma fonte de alavancagem, uma fonte de poder que possibilitará a eles superar a resistência da classe capitalista e seus serviçais políticos.

A classe trabalhadora tem esse poder, por uma razão simples – os Capitalistas só podem obter lucro se os trabalhadores aparecerem para trabalhar todos os dias, e se eles se recusam a colaborar, os lucros secam da noite para o dia. E se tem uma coisa que capta a atenção dos empregadores, é quando o dinheiro deixa de fluir.

Ações como greves não tem apenas o potencial de colocar capitalistas específicos de joelhos, elas podem ter um impacto muito além, em camada após camada de outras instituições que diretamente ou indiretamente dependem deles – incluindo o governo. Esta habilidade de quebrar o sistema inteiro, apenas por se recusar a trabalhar, dá aos trabalhadores um tipo de alavanca que nenhum outro grupo na sociedade possui, exceto os próprios Capitalistas. É por isso que, se mudanças sociais progressistas requerem superar a oposição capitalista – e nós já aprendemos por três séculos que elas requerem – então é de importância central organizar os trabalhadores para que eles possam usar esse poder.

Os trabalhadores [2] são, portanto, não apenas um grupo social que é sistematicamente oprimido e explorado na sociedade moderna, eles são também o grupo que está melhor posicionado para gerar mudanças reais e extrair concessões do maior centro de poder – os banqueiros e industriais que controlam o sistema. Eles são o grupo que entra em contato com os Capitalistas todos os dias e que estão presos em um conflito eterno com eles como parte de sua própria existência. Eles são o único grupo que precisa enfrentar o Capital se quiserem melhorar de vida. Não há uma força mais lógica para se organizar um movimento em torno.

E isso não é apenas uma teoria. Se olharmos de volta para as condições em que reformas de longo alcance tem sido passadas nos últimos cem anos, reformas que melhoraram as condições materiais dos pobres, ou que deram a eles mais direitos contra o mercado – elas foram invariavelmente baseadas na mobilização da classe trabalhadora. Isso é verdade não apenas sobre as medidas independentes de cor [3] do Estado de Bem-Estar Social, mas mesmo sobre fenômenos como os direitos civis e a luta pelo voto.

Qualquer movimento que estende benefícios para os pobres, sejam eles negros ou brancos, homens ou mulheres, teve que se basear em uma mobilização das pessoas trabalhadoras. Isso foi tão verdade na Europa e no Sul Global quanto nos Estados Unidos.

É este poder para extrair concessões reais do Capital que faz da Classe Trabalhadora tão importante para a estratégia política. É claro, o fato de que os trabalhadores também formam a maioria da população em cada sociedade capitalista e que eles são sistematicamente explorados apenas torna os seus apuros muito mais urgentes. Esta combinação de urgência moral e força estratégica  é o por quê da política socialista se basear na classe trabalhadora. 

Tradução: Everton Lourenço

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Ilustração: Phil Wrigglesworth | Jacobin

Os trabalhadores estão no coração do sistema capitalista. E é por isso que eles estão no centro da política socialista.


Notas

[Nota de Tradução: me parece fácil que o argumento nesse texto sobre a centralidade da luta do movimento trabalhista para a estratégia política seja interpretado como uma forma de tentar minimizar a importância de outras lutas contra estrutras de poder, controle e opressão como as lutas dos movimentos feministas, negros, lgbts, etc. Não é essa a minha intenção publicando este texto no blog, e, no meu entendimento, também não era a intenção do autor. Me parece que o ponto do argumento era a questão da “alavanca” de pressão nas mãos dos trabalhadores dentro da ordem capitalista, na possibilidade de parar a produção – e como para conquistar concessões reais do sistema de poder do Capital, mesmo para outras lutas, essa alavanca seria sempre central. Inclusive, o mesmo especial da revista Jacobin que apresentou este texto trazia dois artigos sobre as relações entre os movimentos socialista e feminista, e socialista e anti-racista que não me parecem sugerir um desejo de minimizar essas outras lutas, muito pelo contrário.]

[1] “Labor Law Won’t Save Us”, Joe Burns – Jacobin –  https://www.jacobinmag.com/2015/01/unions-civil-right-strike-joe-burns/ – O movimento trabalhista não é apenas outro movimento social. Ele tem um papel especial: desafiar a fonte principal de poder na sociedade – a acumulação do Capital a partir do trabalho  dos empregados.”

[2] “Why Class Matters”, Erik Olin Wright – Jacobin – https://www.jacobinmag.com/2015/12/socialism-marxism-democracy-inequality-erik-olin-wright/

[3] no original “color-blind”, “cego para cores” ou “daltônico”.

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